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Eis a íntegra do bate-papo que tive com a Joyce do canal Cinemascope no mês passado na segunda sessão do Cine Doppelgänger, quando revisitamos De Olhos Bem Fechados do Kubrick e Rede de Intrigas do Lumet em um sábado de graça na Casa Guilherme de Almeida.

Lembrando que neste sábado, a partir das 11h, acontece a terceira sessão, reunindo os filmes O Bebê de Rosemary e Corra! As inscrições podem ser feitas no site da Casa Guilherme.

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Lana Del Rey dá o primeiro sinal de vida após chamar Jack Antonoff para ajudar-lhe na produção de um novo disco: “Mariners Apartment Complex” é folk, existencial e psicodélica na mesma medida, abrindo uma dimensão anos 60 que não existia no imaginário da cantora e compositora. Será que vem aí uma fase hippie de Lana Del Rey?

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“Há tempos não estava vendo muito sentido em prosseguir no rolê da música”, desabafa Rodrigo Lemos, um dos fundadores da Banda Mais Bonita da Cidade que passou a lançar seus trabalhos com o nome solo Lemonskine e o grupo Naked Girls and Aeroplanes. “Rolou depressão mesmo após o meu último lançamento. Ainda sem saber como proceder, fui cavoucar o que tinha acontecido comigo ao longo dos anos, tipo terapia mesmo! Passei por um monte de coisa desde o meio da década passada e as coisas vão mudando. O panorama atual não é meu lugar de fala.”

Foi pensando nisso que optou por o que ele chama de “regressão” ao seu primeiro contato com o rock, o trio Nirvana. “Eu devia ter em torno de 12 anos; já havia mudado do Rio de Janeiro para Curitiba e lembro de ter comprado meu primeiro disco com dinheiro economizado de “mesadas” nessa época, o acústico da MTV americana, que aqui no Brasil chegou quase junto com a notícia da morte do Kurt”, lembra. “Foi um período em que eu vivi isso muito intensamente. Como adolescente, não conseguia exatamente compreender o sentido daquilo tudo, mas encontrava ecos internos já apontando pro interesse em música, em formar uma banda… Aí, me aprofundando no Nirvana, naturalmente cheguei ao In Utero e não larguei mais. Foi, com absoluta certeza, o disco que mais ouvi durante a juventude.”

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Ao se deparar com o início de sua educação musical e o momento de sair de cena para dar voz a outras vozes (“por hora, prefiro participar do momento como produtor musical, e me coloco numa posição de empatia e apoio às novas vozes que realmente importarem, ainda mais no contexto do Brasil”, completa), Lemos capitaneou uma versão cheia de soul justamente para o disco-epitáfio de Kurt Cobain – lançado meses antes do suicídio de seu autor, Kurt Cobain. “A princípio, não houve um grande planejamento em torno do In Utero especificamente, mas sempre tive curiosidade com essas versões que buscam outro sentido na obra original”, continua Lemos. “Aí fui arranjando as versões em casa e em estúdio, dando os pontos de partida e convocando pessoas que eu admiro e que, já sabia, teriam alguma identificação com essa obra.”

“Inevitavelmente, tenho como referência projetos como Easy-Star All Stars, por exemplo – que já lançou releituras dub e reggae para Michael Jackson, Radiohead, Pink Floyd… Recentemente, tocando em casa, achei que estivesse compondo uma progressão de acordes bem funkeada, quando comecei a cantar uma melodia que, minutos depois percebi, era igual à de ‘Heart-Shaped Box’. Foi quando veio o clique”, lembra da origem soul do projeto.

O resultado é um disco bonito, com momentos inspirados e contrapontos interessantes, que às vezes desliza para o clichê, mas sempre mantém uma linha de raciocínio que nunca desanda, no máximo se repete. Heart-Shaped Tracks – A soulful tribute to Nirvana’s In Utero, primeiro lançamento do selo de Lemos Mezcla Viva Records reúne nomes como Blubell, Francisco El Hombre, Tuyo, Michele Mara, Letrux e os projetos autorais do idealizador num tributo essencialmente coeso e bem executado.

“A vida colocou um monte de fãs de Nirvana em volta de mim”, brinca. “Eu não pedi, mas quando vi já sabia quem poderia me ajudar a tornar isso realidade. Acho que o fato de ser um remake cantado majoritariamente por vozes femininas foi a maior surpresa. E ir encontrando a universalidade das letras do álbum, sobretudo. Pisei em ovos, por exemplo, pra convidar a Michele Mara para interpretar a versão de ‘Rape Me’. Por outro lado, fiquei muito à vontade com ela enquanto gravávamos!”

“Cada encontro foi muito especial à sua maneira, até os encontros à distância, como foi o caso da Leticia Novaes, do Letrux, que tem toda uma relação pessoal com Nirvana também, e encontrou tempo em meio à sua correria para transbordar em ‘All Apologies'”, continua.Um destaque que observo com carinho, foi o debut da Isabela Cafefortesemaçúcar. Ela participa em ‘Tourette’s’, que é uma música bem menos popular no álbum original mas, aqui, foi uma surpresa entre a equipe que a conhecia pessoalmente sem nunca ter ouvido sua voz cantante.”

É o primeiro projeto do selo, que Rodrigo imagina como ponto de partida para o envolvimento de seu trabalho com algumas das pessoas que participaram do projeto, mas por enquanto seu foco é mostrar o disco fora do Brasil. “Esse foi um projeto piloto pra sacar qual a substância disso em vendas digitais – que é só o que estou licenciado para fazer. Sacar se as pessoas estão interessadas nesse tipo de lançamento. Mas a idéia é que o selo possa lançar um remake por semestre, então o próximo já vai entrar no forno”, diz, sem contar quais nomes tem especulado.

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Raissa Fayet + Bananeira Brass Band – “Serve the Servants”
Yuri Lemos + Igor Amatuzzi – “Scentless Apprentice”
Lemoskine – “Heart-Shaped Box”
Michele Mara – “Rape Me”
Francisco El Hombre + Bananeira Brass Band – “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”
Jan & Machete Bomb – “Dumb”
The Shorts – “Very Ape”
Blubell + Dopler Beatz – “Milk It”
Tuyo + Bananeira Brass Band – “Pennyroyal Tea”
Naked Girls and Aeroplanes + Bananeira Brass Band – “Radio Friendly Unit Shifter”
Isa Caféfortesemaçúcar – “Tourette’s”
Letrux + Bananeira Brass Band – “All Apologies”

Foto: Roberta Martinelli

Foto: Roberta Martinelli

Mais um dia de Professor Duprat no Sesc Pompéia – depois de uma estreia empolgante, vamos ao segundo dia. E, abaixo, a matéria que o programa Metrópolis, da TV Cultura, fez em um dos ensaios do espetáculo.

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“É o começo de algo sólido. Nosso primeiro disco de fato. A idéia de Fundação vem desse conceito de erguer algo a partir de uma estrutura firme”, explica a banda paulistana E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante sobre o título de seu novo disco, Fundação, em entrevista por email. Formado por Lucas Theodoro (guitarra, synth e programações), Luccas Villela (baixo e guitarra), Luden Viana (guitarra e synth), e Rafael Jonke (bateria e MPD), o EATNMPTD está prestes a lançar seu novo álbum, no próximo dia 14, e antecipa tanto a capa (acima) quanto um curta sobre as gravações do disco (abaixo) em primeira mão para o Trabalho Sujo.

“Não seguimos um conceito, as ideias foram propostas e construídas de forma natural durante nossos ensaios. São músicas em que todos exploramos mais os ritmos e novas sonoridades, até trocando de instrumentos, saindo de uma zona de conforto do que se espera de um quarteto de baixo, guitarras e bateria”, explicam coletivamente, sem dizer quem responde qual pergunta. O grupo existe há cinco anos e já lançou alguns EPs, mas desde o início de 2016 não lançou mais nada, adiando o lançamento de seu primeiro álbum por mais de dois anos. “Na maior parte desse tempo entre um lançamento e outro nós tivemos um grande período em que mais fizemos shows, rodamos por festivais e novas cidades no Brasil. E quando achamos que havia chegado a hora, nos concentramos em produzir novas músicas, experimentar e fazer algo novo. Ao mesmo tempo que o disco tem uma sonoridade diferente, é uma mudança natural considerando todo esse processo e tempo que tivemos acumulando e absorvendo novas inspirações.”

Lucas Theodoro, Luden Viana,  Rafael Jonke e  Luccas Villela (foto: Larissa Zaidan)

Lucas Theodoro, Luden Viana, Rafael Jonke e Luccas Villela (foto: Larissa Zaidan)

A espera valeu à pena. Fugindo do guarda-chuva genérico chamado pós-rock, a banda vai para além da sonoridade épica, esparsas e barulhenta que a fez ganhar fama no circuito independente brasileiro. “Só tivemos vontade de entregar uma nova proposta sonora. O pós-rock de uma certa forma ainda está la, é perceptível, mas quisemos sair da fórmula mais notória do estilo, formar algo que fale por nós, pela nossa vivência musical, e consequentemente isso veio naturalmente nas composições”, explicam. O resultado pode ser conferido nas duas músicas que o grupo já lançou, “Daiane” e “Como Aquilo Que Não Se Repete”.

“Fundação se deu por conta de um processo muito específico e novo para nós. Pela primeira vez tivemos a oportunidade de ensaiar mais regularmente em um espaço nosso. Ter todos nossos equipamentos sempre montados em uma mesma sala e não ter restrição de horário foi um privilégio muito grande e afetou diretamente esse processo. Foram seis meses criando em um ambiente que nos deixou mais livres para experimentar estruturas de música, testar novas formas de compor e incorporar momentos espontâneos que acabaram por virar músicas inteiras. No final das contas, esse processo todo influenciou o resultado final muito mais do que referências musicais pontuais”, continuam. O disco foi gravado em duas fases, a primeira num estúdio em Araraquara e o restante na casa do guitarrista Lucas Theodoro. A produção ficou a cargo de Gabriel Arbex. “A escolha desses lugares foi para preservar uma relação mais íntima com o processo. O Sunrise (em Araraquara) tem uma estrutura de casa mesmo. Nós dormimos lá todos os dias, cozinhamos, fizemos churrasco… É um processo bem imersivo estar em outra cidade. Em São Paulo no tempo em que ficamos no Theodoro também teve um clima diferente de poder parar pra fazer um café, sentar no quintal pra conversar, etc. Enfim, o processo foi todo um pouco mais leve e pessoal/humano nesse sentido.”

Além de novas sonoridades, os quatro testaram novos instrumentos. “Quase todos gravamos synth e o disco tem baterias eletrônicas, sequencer, congas, músicas com várias guitarras…”, prosseguem. “A participação mesmo foi a de Vini Rodrigues, de apenas 20 anos, que gravou saxofone em uma das faixas. O Arbex não chegou a tocar nenhum instrumento no disco, mas adicionou muitas camadas na hora da mixagem que abriram bastante o ambiente sonoro do disco.”

Há inclusive uma faixa com vocais (“Se a resposta gera dúvida, então não é a solução”, que também contém vocais do produtor e de Fernando Dotta, capo da gravadora do grupo, a Balaclava), mas seguem firmes como uma banda instrumental, o que está longe de ser uma questão para a banda. “Desde o começo sempre nos adaptamos muito bem nos ambientes pelos quais passamos, inclusive, sempre estivemos muito mais em meio a bandas não-instrumentais, o que foi positivo para o nosso desenvolvimento por não estarmos completamente atrelados a apenas um nicho. Hoje, cinco anos após o início da banda, seguimos com a mesma mentalidade, que é a que não segrega, e sim ajuda a somar na cena em que estamos inseridos. Além de tudo, é importante ter noção que temos muito privilégio por sermos uma banda que está localizada em São Paulo.”

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Suspiria, de 1977, é um clássico do horror mundial especialmente por ter consolidado a estética saturada e macabra do italiano Dario Argento no subgênero que ficou conhecido como “giallo” (amarelo, em italiano) e que começou a ser explorado em seu filme anterior, Profondo Rosso. Mas sua trilha sonora, composta pelo grupo de rock progressivo italiano Goblin, também é um marco não apenas no cinema de horror bem como na discografia da música pop de seu tempo – a obra mais concisa e autoconsciente de uma grande banda semidesconhecida e uma das melhores trilhas sonoras compostas por uma banda de rock. Por isso que Thom Yorke medrou ao ser convidado para fazer a trilha para o remake do clássico.

“Foi um processo estranho desde o início. Quando os produtores vieram me procurar, eu pensei que eles tinham enlouquecido, porque eu nunca tinha feito uma trilha sonora antes. E Suspiria é destas trilhas sonoras lendárias. Levei alguns meses para contemplar a ideia”, contou na sessão de estreia mundial do filme, no festival de Veneza, em entrevista à revista Hollywood Reporter.

“Era um destes momentos em sua vida que você quer fugir, mas que sabe que se você se arrependerá se fizer isso. Eu assisti ao filme original algumas vezes e eu o amei porque era daquela época, uma trilha sonora incrivelmente intensa”, continuou. “Obviamente Goblin e Dario trabalharam muito próximos quando o fizeram juntos. Mas era uma coisa daquela época e eu não poderia fazer referência a isso. Não havia sentido, a não ser que eu achei interessante a repetição de temas, o tempo todo. Parte da sua mente diz: ‘por favor, não quero ouvir mais isso’. E isso era muito bom. Há uma forma de repetição na música que pode hipnotizar. Eu ficava repetindo para mim mesmo que era uma forma de fazer feitiços.”

Yorke também contou que teve a participação do diretor italiano responsável pelo remake, Luca Guadagnino (o mesmo de Me Chame Pelo Seu Nome) e que foi influenciado pela música da época, inclusive o rock alemão. “Foi uma forma realmente cool de imersão em uma área que eu normalmente não iria sem permissões”. O filme será lançado mundialmente no início de novembro e Yorke já liberou uma primeira canção, a doce e tensa “Suspirium”.

Abaixo, o trailer da nova versão e a aterradora trilha sonora original:

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Com dois de seus integrantes morando em São Paulo, dois no Recife e um no sul da Bahia, o grupo Mombojó inevitavelmente entrou num estágio de hibernação. Foi o período em que lançaram a colaboração com a vocalista do Stereolab Laetitia Sadier e que o vocalista Felipe S. lançou seu primeiro disco solo, mas também foi o tempo para arquitetarem uma volta que os tornasse viáveis como integrantes de uma banda mesmo com as distâncias geográficas no meio. Pioneiro no uso da internet para publicar seu trabalho, o grupo agora vem usando a rede para encurtar estas conexões e anuncia o sexto disco da banda, MMBJ12, que será lançado uma canção por vez até completar doze faixas no ano que vem. O primeiro single é a faixa “Ontem Quis”, que antecipa uma pequena turnê que o grupo faz entre setembro e outubro, passando pelo Rio de Janeiro (dia 11), Belo Horizonte (dia 12), São Paulo (dia 20) e Recife (dia 5).

Bati um papo com o Felipe sobre esta nova fase do grupo, que aproveitou para fazer um balanço destes anos no Mombojó.

Como aconteceu esta volta do Mombojó? Há quanto tempo vocês estavam parados?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mombojo-2018-como-aconteceu-esta-volta-do-mombojo-ha-quanto-tempo-voces-estavam-parados

Como vocês farão nesta nova fase, ainda mais morando em estados diferentes?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mombojo-2018-como-voces-fazer-nesta-nova-fase-ainda-mais-morando-em-estados-diferentes

O ciclo com Laetitia Sadier foi concluído?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mombojo-2018-o-ciclo-com-laetitia-sadier-foi-concluido

O quanto o sucesso do Del Rey atrapalhou a boa fase do Mombojó?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mombojo-2018-o-quanto-o-sucesso-do-del-rey-atrapalhou-a-boa-fase-do-mombojo

Vocês são digitais desde que surgiram. Ainda faz sentido prensar um disco?
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Você continua fazendo seu trabalho solo?
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Como você vê as mudanças no mercado independente desde que vocês começaram?
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E os shows?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mombojo-2018-ha-previsao-de-shows

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“Morar numa cidade como João Pessoa traz muitas reflexões em frente ao mar e a cidade de uma certa maneira é minha maior inspiração”, me explica o paraibano Lucas Moura, voz e guitarra do Glue Trip, quando o pergunto sobre inspirações sobre o novo disco, Sea at Night. “Quando eu estava à procura de um nome para o disco saí com meus amigos para uma festa e terminamos a noite tomando um banho de mar, assistindo a lua. Foi uma noite incrível e eu comecei a perceber um padrão: as melhores noites terminavam no mar. Depois disso decidi chamar o disco de Sea at Night, acredito que essas experiências me levaram para perto do disco e do que eu queria levar para a minha música”, conclui, antes de falar que estava ouvindo muito Daft Punk, Solange, Gilberto Gil, Bill Withers, Unknown Mortal Orchestra e o disco Lá Vem a Morte do Boogarins.

Todos encontram eco nesta nova sonoridade noturna do antigo duo que agora é um quinteto, que deixou o violão solar em segundo plano para dar espaço para teclados de sonoridade oitentista, como pode ser percebido nas duas músicas que o grupo já liberou: “Time Lapses” e “Between Jupiter and Mars” – esta última lançada em primeira mão no Trabalho Sujo.

“O disco possui músicas que foram criadas no violão e tem músicas que eu trabalhei na frente do computador, brincando com beats e linhas de sintetizador”, continua Lucas. “Pra mim a composição com o violão é mais natural e eu queria me desafiar como produtor, tentar criar músicas eletrônicas que não carregassem os clichês que vemos hoje em dia no eletrônico. Nesse sentido o disco é dividido ao meio, metade das composições são voltadas para essa estética anos 80 e não foram criadas no violão, e a outra metade carrega o DNA do primeiro disco, com algumas mudanças, mas ainda assim com a essência da Glue Trip. Muitas músicas que ficaram de fora do disco foram criadas no violão, mas eu não possuo uma metodologia para criar. Gosto de estar a vontade e deixar as coisas fluírem.”

“Eu encarei esse disco como uma continuação. Enquanto o primeiro disco vai ao encontro com violão, beira-mar e dias de sol, o novo disco chega junto da noite, sintetizadores e experimentalismo. A ideia inicial era fazer a trilha sonora para uma noite, criar algo que se aproximasse de um público que está afim de sair e se divertir, a continuação desse belo dia de sol na praia. Essa estética anos 80 foi o que mais se aproximou para mim. As músicas também foram surgindo num período muito conturbado, onde me questionei bastante sobre a sonoridade que eu queria que a Glue Trip seguisse e nesse sentido comecei a usar mais sintetizadores e menos o violão”, ele prossegue. Esta sonoridade também é percebida na capa do disco, que a banda também antecipa primeiro no Trabalho Sujo.

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“A capa é fantástica. Foi criada por Bruno Borges, que é um artista natural de Campo de Goycatazes, que mora em Nova York e também é o autor da capa do nosso primeiro álbum. Eu queria dar essa ideia de continuidade ao segundo disco, por isso decidi convidar Bruno novamente para fazer a capa. Eu passei as músicas para ele escutar, algumas referências e conversamos bastante sobre a ideia da noite presente no disco. Um belo dia eu abro meu e-mail e BAM tomo a capa na cara. Ele acertou em cheio. Eu gostei muito. Ela representa essa ideia e tem tudo a ver com as noitadas que terminaram com banhos de mar noturnos pelas praias do Bessa.”

Lucas continua falando sobre as transformações da banda desde o início, que a levaram ao novo álbum. “Muita coisa mudou desde o lançamento do primeiro disco da Glue Trip em 2015. A banda foi se moldando, deixou de ser um duo, para ter cinco músicos no palco, além de eu estar na produção e composição das músicas. O show também foi se transformando, antes nós tínhamos um pensamento de não focar tanto no ao vivo e pensar mais na produção das músicas, o que nos distanciava um pouco do público, mas de 2016 pra cá fomos mudando essa mentalidade, tocando mais e tentando fazer um show mais enérgico. Isso estabeleceu uma conexão massa com o público e uma resposta direta a nossa música em todos os lugares que fomos. Com as novas composições sentimos na necessidade de trazer um tecladista para a banda. Hoje somos cinco músicos no palco: Gabriel Araújo, no baixo e voz, CH Malves na bateria, Felipe Lins, na guitarra, Rodolfo Salgueiro no sintetizador e voz, e eu, na guitarra e voz. Para a turnê do novo disco começamos a montar um novo show que vai representar essa caminhada presente nos 2 discos: do dia para a noite.”

Pergunto sobre a demora para lançar um novo disco, já que o primeiro é de 2015. “A ideia de fazer um disco novo esteve na minha mente desde 2016, quando comecei a produção do Sea at Night. As músicas do disco novo foram surgindo em lapsos de tempo, comecei a compor num período de transição bem louco na minha vida. Larguei meu trabalho para me dedicar 100% a banda e ao disco e durante esse tempo voltamos aos palcos e lançamos um EP ao vivo. Isso interferiu um pouco no processo de produção do disco, mas esse tempo de amadurecimento foi necessário para mim e para as músicas. Eu precisava viver essa transição toda de emprego, relacionamento, luas etc, para chegar no resultado que eu queria para o disco novo. O fato de fazer tudo de maneira independente: produção, mixagem, composição; também atrasou um pouco a ideia de lançar material novo se tornando um desafio.”

Ele aproveita para comentar as transformações na cena independente: “O público ficou mais próximo do artista e isso mudou a forma como as bandas se comunicam e se organizam. Antes não tínhamos noção de quem era o nosso público e por onde ele estava. Com a ascensão de algumas plataformas, como o Spotify, conseguimos conversar com produtores e organizar uma turnê só com os dados de ouvintes que a plataforma nos entrega. O fã também virou protagonista nessa história, ele quer fazer parte do projeto, seja comprando uma camiseta ou até mesmo subindo no palco para cantar uma música junto da banda. Acredito que deveria existir uma união maior por parte de financiadores com a cena independente.”

A banda também prepara-se para mostrar o disco no exterior, onde sempre tiveram boa repercussão. “Surgiram alguns contatos para lança-lo através de selos internacionais, mas ainda não podemos falar em nada concreto fora do Brasil”, continua Lucas. “Como passamos muito tempo sem lançar nada, minha maior necessidade é tirar esse disco de mim e lança-lo ao mundo de maneira independente. Nós temos um grande público fora do Brasil, sempre que postamos algo nas nossas redes surgem comentários pedindo para tocar em diversos locais do mundo, do México ao Japão. Temos muita vontade de levar o nosso som para fora do Brasil e ver como as pessoas reagem ao show. Mas o comentário mais comum é: ‘como assim Glue Trip é brasileira? Ainda mais de João Pessoa’.”

Aproveito para perguntar sobre a eterna questão sobre cantar em inglês. “O inglês veio naturalmente nas primeiras composições do projeto, mas hoje em dia eu me vejo muito nesse dilema”, explica o guitarrista e vocalista. “Sempre que me perguntam isso eu fico com uma pulga atrás de orelha, porque eu amo música brasileira e gosto de compor em português também. Não tenho esse apego ao inglês, mas å estética do projeto eu tenho. Quando eu estava produzindo esse disco novo surgiram algumas músicas em português que decidi guardar para o futuro. Não existe essa regra de que precisamos cantar em inglês, acredito que um dia ainda vão sair músicas da Glue Trip em português, mas isso é papo para o futuro.”

Mangue 8-bit

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“O Moogbeat começou como um desafio musical, de recriar em um único sintetizador monofônico de toda aquela mágica sonora da Nação”, me explica Carlos Trilha, por email, sobre o recém-lançado Moogbeat – Nação Zumbi para Minimoog, em que o ex-colaborador da Legião Urbana, Carlos Trilha, reinventa clássicos da banda pernambucano no formato analógico retrô que parece voltar no tempo dos primeiros videogames. “Foi um estudo, uma forma de entender a sonoridade e de se apropriar de alguma maneira daquela força, um presente pra eles, queria impressioná-los”, continua o músico, conhecido pela parceria nos dois únicos discos solo de Renato Russo.

“No começo não tinha a intenção de fazer um álbum, pois não sabia como soaria, mas quando a primeira música ficou pronta e mostrei pro Pupillo, que me chamou de louco por conta da quantidade de detalhes que sintetizei no Moog, que e sugeriu que eu fizesse um álbum inteiro, é que percebi a riqueza sonora e artística do que estava nascendo”, continua Trilha, referindo-se à versão que fez para “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada”. Depois partiu para “Prato de Flores” e aos poucos foi mostrando para o grupo. “A banda curtiu de cara a ideia do álbum e cada música nova que eu fazia era um festival de comentários e mensagens que foram me dando muita satisfação durante o processo. Quando eles sabiam que eu havia começado alguma música nova, ficavam cheios de curiosidade e me cobravam que terminasse logo para eles ouvirem.”

O projeto começou como uma brincadeira mas já começa a render frutos além do disco – e Trilha já está fazendo shows deste novo formato. “Muitas ideias surgiram, não sabia se montaria uma orquestra de Moogs ou se simplesmente colocaria tudo em uma MPC e deixaria algumas linhas para tocar ao vivo”, lembra. “Até que cheguei na forma do Concerto para Sintetizadores, onde toco clássicos da Synthesizer Music, composições próprias e músicas do Moogbeat. Nestes, os sons gerados originalmente no Moog foram substituídos por outros doze sintetizadores clássicos que ficam no meu ‘cockpit’ de máquinas sonoras.” Trilha não descarta fazer projetos do tipo com outros artistas, mas por enquanto quer focar neste novo formato ao vivo, o Concerto para Sintetizadores, que terá parte de seu repertório extraído do Moogbeat.

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“You don’t have to pretend you’re not scared, everyone else is just as terrified as you” – dona de um dos melhores discos de 2018, Courtney Barnett solta mais um vídeo de seu ótimo Tell Me How You Really Feel e “Charity” mais uma vez mistura uma melodia grudenta com uma letra depressiva, como é de praxe.