Além da inevitável provocação à paranoia privatizante e antiintelectual que acompanha a escalada da extrema direita ao topo do poder no mundo, a biblioteca pública online que o Radiohead abriu no começo do ano também é uma ótima oportunidade autobiográfica para o grupo, que pode usá-la como uma forma de tornar todo seu acervo disponível gratuitamente para todos na internet. Nesta sexta-feira, o grupo incluiu pra três itens em sua coleção, versões de músicas já conhecidas lançadas em épocas diferentes e que ainda não estavam em suas plataformas de streaming. O primeiro deles, uma versão estendida para a glacial “Treefingers”, peça central do inóspito Kid A, o disco mais ousado do grupo, lançado no ano 2000:
Outra versão que apareceu nesta sexta foi porta de entrada para muitos que não conheciam o grupo ainda nos anos 90, quando o remix feito por Nellee Hooper para “Talk Show Host” apareceu na trilha sonora do clássico teen Romeu + Julieta, que lançou a carreira do cineasta australiano Baz Luhrmann em 1996:
Fechando a trinca de novas aquisições, vem o remix de “The Gloaming” feito pelo produtor da banda Nigel Godrich no ano de lançamento do disco Hail to the Thief, em 2003, e o batizou de (The 33.33333 Remix) devido à duração do remix:
Nada mal.
Das quatro vezes que Andy Gill veio ao Brasil, apenas uma delas não fez show com o Gang of Four e sim com… o Legião Urbana! Num show tributo ao grupo criado pro Renato Russo, seus integrantes remanescentes Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá resolveram homenagear suas origens e seu fanatismo adolescente trazendo um dos ícones que moldaram o pensamento estético da banda em seus primeiros dias, justamente o recém-falecido guitarrista do Gang of Four. Gill foi um dos convidados do show MTV Ao Vivo – Tributo à Legião Urbana, que aconteceu em 2012, com o ator Wagner Moura fazendo as vezes do vocalista original.
Andy subiu para tocar duas músicas com o grupo, que durante estes números contou com o paralama Bi Ribeiro no baixo. A primeira delas, uma versão para “Damaged Goods” do Gang of Four com o próprio Dado nos vocais tinha um clima mais de karaokê com amigos para realizar um sonho juvenil, mesmo com o guitarrista inglês mostrando serviço. Na segunda música, resolveram embarcar na música do Legião que o grupo escolheu para mostrar a influência do grupo inglês na banda brasiliense, a balada gótica “Ainda é Cedo”. O vídeo abaixo tem uma qualidade melhor que o de cima – e traz o show na íntegra (e dá pra entender a treta de Dado com alguém na plateia).
Mas podiam ter tocado “A Dança” também, né?
Publiquei outro dia o áudio com a íntegra do primeiro show que Chico Science e a Nação Zumbi fizeram no festival de jazz suíço em Montreux, em 1995, e esbarrei com todo o primeiro show que Gilberto Gil havia feito no festival, em 1978, um dos meus registros ao vivo favoritos de todos os tempos. O show foi a primeira noite brasileira do festival e ainda teve participações de nomes como Ave Sangria, A Cor do Som e Airto Moreira. Mas o que me deixou de queixo caído foi que não era só o áudio do show – que inclusive foi lançado oficialmente por Gil, naquele mesmo ano, mas sua versão em vídeo. Que noite! Gil talvez no auge de sua carreira escudado por uma banda formada por conterrâneos de primeríssima linha: Pepeu Gomes na guitarra, Jorge Gomes na bateria, Rubens Silva no baixo, Maurício Carvalho (o Mu, do A Cor do Som) e o percussionista Djalma Correa. Que delírio!
“Chuck Berry Fields Forevers”
“Chororô”
“São João, Xangô Menino”
“Respeita Januário”
“Ela”
“Bat Macumba”/”Exaltação à Mangueira”
“Procissão”/”Atrás do Trio Elétrico”/”Mamãe Eu Quero”
O único problema é que o vídeo não registra a jam session do final do show, quando o A Cor do Som subiu ao palco ao lado de Ivinho, guitarrista do Ave Sangria, e Patrick Moraz, tecladista do Yes, para conduzir a elétrica “Triolê” ao lado da bandaça de Gil. Pelo menos esse momento tá no disco!
O produtor australiano e maníaco por sintetizadores Mike Katz, mais conhecido por Harvey Sutherland, dá início aos trabalhos em 2020 com a deliciosa “Superego”, um convite instrumental a uma discoteca minimalista. Aumenta o som!
Um vídeo do Film Theory explica como Marty McFly foi salvo várias vezes da morte nas duas sequências de De Volta para o Futuro graças à interferência arbitrária de Doc Brown na linha do tempo.
Transcendental sem tirar os pés da terra – assim Kiko Dinucci elevou o público a outra dimensão emocional no show que fez neste sábado, no Sesc Pompeia, quando África, rua e roda de samba surgiram como vultos vivos à espreita, esperando só o toque de seu violão e o canto de sua voz ao lançar efetivamente seu Rastilho ao vivo.
Seja sozinho no palco ou com a ilustre presença de verdadeiras entidades musicais – Juçara Marçal intocável, o mago Rodrigo Ogi e o deslumbrante coro formado por Dulce Monteiro, Maraísa, Gracinha Menezes e a própria Juçara -, ele chama para si uma ancestralidade que sobrevive nas esquinas, bares e terreiros e coloca-a onde ela deveria estar, no centro.
E do mesmo jeito que transforma seu instrumento num tambor de terreiro, ele erige um monumento à música popular, buscando seu DNA a partir de seu pulso. O batuque, as palmas, o pé na terra e o canto livre transformaram o teatro concebido por Lina Bo Bardi em uma catedral de uma música brasileira moderna, que abole resquícios barrocos em busca de uma brasilidade real e sobrevivente, aquela que se esgueira pelas frestas para contar sua história de boca a boca.
Kiko canta manso, sua voz erguida pela alavanca do toque ríspido em seu instrumento e abraçada no ar por um coro angelical. Um samba secular, sacro e mundano, forte e delicado, melancólico e sorridente, um antídoto para o tétrico 2020 que este país atravessa – que nos mostra o único horizonte possível.
Porque Rastilho é, como tudo que Kiko faz, um manifesto político. Mas também é um gesto poético, um grito de guerra e uma oração, um chamado às armas e um acalanto.
O antigo sexteto e atual duo australiano Avalanches não vai levar mais de uma década para mostrar seu terceiro álbum. Nesta quarta-feira, o grupo bipou o título do novo single em código-morse a partir da antena do prédio da gravadora Capitol, em Los Angeles, nos EUA, tornando pública sua terceira vinda. Autores de um dos discos mais importantes do século, o excelente Since I’ve Left You, o grupo levou 16 anos para vir com seu sucessor, o bem recebido Wildflower, embora tenha se desfacelado neste processo. Reduzido à dupla de produtores Robbie Chater e Tony Di Blasi, os Avalanches misturaram “I’ll Take You Anywhere That You Come” do grupo Smokey Robinson & the Miracles com “Hammond Song” do trio Roches e os vocais de Dev Hynes, nosso amigo Blood Orange, e criaram “We Will Always Love You”, um belo lamento gospel que funciona apenas como aperitivo de um novo disco, que ainda não tem nome, nem data de lançamento, mas já anunciaram que terão colaborações de nomes como from Dhani Harrison, Cornelius, JPEGMAFIA, Naeem Juwan (sem usar seu nome de guerra Spank Rock), Jennifer Herrema do grupo Royal Trux, entre outros.
A ver.
Será que os Strokes vão fazer as pazes com o passado? “Bad Decisions”, segundo single do grupo este ano, faz o que eles deviam ter feito há mais de uma década: seguir trilhando a sonoridade que clonaram do pós-punk no início do século para ao menor reter a atenção dos fãs.
Pelas minhas contas, na década passada, o grupo só conseguiu manter-se à tona graças às incursões solo de Julian Casablancas (a new wave “11th Dimension” e ao participar do disco do Daft Punk) e com um hit menor, “Welcome to Japan“, tornando-se cada vez menos relevante. A volta do grupo esse ano começou animada com o apoio ao pré-candidato à presidência dos EUA Bernie Sanders, mas logo veio a xoxa “At the Door” mostrar que o grupo continuava sem sal. É bem pouco provável que o disco que o grupo promete para abril (The New Abnormal, produzido por Rick Rubin, capa de Jean-Michel Basquiat e nome das músicas logo abaixo) siga o rumo do single mais recente – e este funcione mais como uma irônica saudação ao passado do que uma volta aos velhos tempos. Infelizmente.
“The Adults Are Talking”
“Selfless”
“Brooklyn Bridge To Chorus”
“Bad Decisions”
“Eternal Summer”
“At The Door”
“Why Are Sundays So Depressing”
“Not The Same Anymore”
“Ode To The Mets”
O DJ norte-americano RJD2 anuncia disco novo para 2020: The Fun Ones é focado em instrumentais de funk, mas ele preferiu começar os trabalhos com uma das poucas faixas com vocais no disco. “Pull Up On Love” é uma groovezeira pesada e traz os MCs STS e Khari Mateen como convidados.
Pesado! A capa do disco e o nome das músicas vem a seguir – e o disco, que sai em abril, já está em pré-venda.
“No Helmet Up Indianola”
“Indoor S’mores”
“20 Grand Palace”
“One of a Kind”
“High Street Will Never Die”
“Pull Up On Love”
“All I’m After”
“Flocking To The Nearest Machine”
“And It Sold For 45k”
“The Freshmen Lettered”
“A Genuine Gentleman”
“Itch Ditch Mission”
“My Very Own Burglar Neighbor”
“A Salute To Blood Bowl Legends”
Toda carreira do recém-falecido Andrew Weatherall pode ser resumida num único momento, sua grande contribuição para a história da música: quando transformou o arremedo stoneano que o Primal Scream lançou como single após seu segundo disco como um épico gospel funk psicodélico que resumia as transformações que a acid house britânica estava introduzindo na música do planeta. Ao remixar “I’m Losing More Than I’ll Ever Have” e transformá-la em “Loaded”, o DJ deu um salto quântico na música pop mundial ao permitir que o remix pudesse ser entendido como um momento criativo, mais que um acessório de marketing.
Bobby Gillespie, vocalista e fundador do Primal Scream, já conhecia o DJ da noite inglesa, que vivia uma era de ouro no final dos anos 80, mas resolveu aproximar-se de Weatherall deppos que o DJ havia resenhado o segundo disco da banda, batizado apenas com seu nome, no fanzine que fazia. Bobby ofereceu a Andrew a possibilidade de remixar um single da banda – e foi bem preciso quando ele disse o que queria: “Just fucking destroy it”.
Andrew não se intimidou. Originalmente, a música era assim:
Aí ele pegou um diálogo de um filme com Peter Fonda…
…um trompete de um disco de John Hawkins…
…vocais de um hit das Emotions…
…em cima de um loop da base uma versão pirata de uma música de Edie Brickell…
…além de pedaços da música original – assim nasceu “Loaded”:
O remix resumia também as referências musicais daquela nova cena de dance music: discos obscuros de jazz, hits menores da disco music, músicas de outros gêneros que podiam fazer dançar e samples de todo o tipo de obra usados em um novo contexto. Mais do que simplesmente filtrar estas referências, sublinhava a importância de transgredir estilos musicais numa época de separações estéticas tão rígida como os anos 80, usando a dança como elemento químico básico e a psicodelia como seu mais forte tempero. Não por acaso este período também foi conhecido como o segundo verão do amor.
Mas antes de “Loaded”, essa cena, mesmo movendo multidões, era tratada como um underground inatingível, algo entre a clandestinidade e um segredo bem guardado. Aquele remix mostrou para o mundo pop que aquelas referências poderiam ser absorvidas pelas massas ao redor do mundo, abrindo caminho para toda a cena de dance music inglesa do início dos anos 90 (que ganhou o mundo com os Chemical Brothers, Prodigy e a trilha sonora do filme Trainspotting) e para a reinvenção do hip hop norte-americano no final daquela década, além de implodir as barreiras entre o indie rock inglês e a pista de dança e transformar o Primal Scream numa banda relevante até hoje (servindo como a semente que floresceu no estarrecedor Screamadelica). Num único gesto, Andrew Weatherall pariu parte considerável dos anos 90 e determinou uma realidade em que vivemos até hoje.
Abaixo, um pequeno clipe sobre a criação deste remix definitivo:
E de quebra, uma longa entrevista com o DJ na Red Bull Music Academy, em 2017:











