Quando Sharon Van Etten juntou-se a Josh Homme para regravar uma versão lindíssima para “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love and Understanding?”, do Elvis Costello, este lado do planeta ainda não estava cogitando entrar em quarentena e o isolamento social não era nem um futuro próximo. Mas como tudo mudou em poucos meses, os dois viram-se forçados a lançar a colaboração com um clipe gravado à distância, filmado com celulares, flagrando cada um em sua casa, ao redor dos filhos, dando uma conotação completamente diferente à canção original.
A colaboração também foi uma forma que Sharon achou para divulgar a live que fará nesta sexta-feira, tocando seu primeiro álbum, Because I Was in Love, só com seu violão. A transmissão será paga e realizada pelo site Seated e a arrecadação do evento irá para a banda e a equipe técnica da cantora, além de ajudar à National Independent Venue Association (como o nome diz, uma associação norte-americana de casas de shows independentes). Boa, Sharon!
O EP Ecstasy foi só um aperitivo. O duo inglês Disclosure começou a ameaçar músicas novas no começo do ano e logo revelou um EP que tinham na manga, o que lhe deixou com o campo das expectativas livre para anunciar seu terceiro álbum como uma surpresa. E assim os irmãos Howard e Guy Lawrence anunciam Energy, com o single homônimo, construído a partir de um discurso do pastor Eric Thomas, que eles já tinham sampleado na pedrada “When a Fire Starts to Burn”, em 2013. A percussão malemolente do início mostra como eles estão cada vez mais imersos na música negra, como o EP de fevereiro já mostrava, desta vez bebendo direto do samba brasileiro, que funciona como tempero para a base house quatro por quatro que carrega o groove da música. O hilário clipe faz clara referência a um dos quadros mais memoráveis do clássico de Tudo O Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar, de Woody Allen.
Energy, que já está em pré-venda, será lançado no fim de agosto e contará com a participação de vários MCs, como Common, Slowthai, Syd, Kelis, entre outros. Eis a capa e o nome das músicas, abaixo:
“Watch Your Step (feat. Kelis)”
“Lavender (feat. Channel Tres)”
“My High (feat. Aminé and slowthai)”
“Who Knew? (feat. Mick Jenkins)”
“Douha (Mali Mali) (feat. Fatoumata Diawara)”
“Fractal (Interlude)”
“Ce N’est Pas (feat. Blik Bassy)”
“Energy”
“Thinking ’Bout You (Interlude)”
“Birthday (feat. Kehlani and Syd)”
“Reverie (feat. Common)”
Gravado durante sua estada em Portugal, no ano passado, o primeiro clipe de Tika, “Nós”, que estreia em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, aconteceu quase de improviso a partir do primeiro show que ela fez em Lisboa, quando tocou na rua e reconheceu, no público, o editor e diretor Fernando Coster e a performer Josefa Pereira. Sabendo que o amigo cineasta Luan Cardoso estava chegando em pouco tempo, pensou em juntar os três neste primeiro clipe e escolheram a faixa que batiza o EP que lançou no ano passado, “Nós”. Coster dirigiu, Luan fez a direção de fotografia e Josefa atuou ao lado de Tika, num clipe gravado na Balsa, casa em que a cantora se apresentou em sua temporada lusitana.
Ela também está prestes a lançar um compacto de seu projeto Passarim, em que recria o clássico disco de Tom Jobim de 1987 ao lado de Kika, João Leão e Igor Caracas, com produção de Victor Rice. E deve fazer algumas apresentações ao vivo na internet no formato guitarra e voz, além de manter colaborações com outros artistas e começar um projeto mais caseiro de músicas gravadas durante a quarentena, e começar a trabalhar em seu segundo álbum.
Malu Maria começa a mostrar seu segundo disco, Ela Terra, a partir da faixa-título, que apresenta o conceito do álbum, a conexão feminina com a natureza, com um clipe gravado antes da quarentena. Ela abandona a musicalidade urbana e noturna de seu primeiro disco, Diamantes na Pista, sem deixar a linguagem eletrônica, presente nos arpeggios dos sintetizadores do Cidadão Instigado Dustan Gallas.
“Não esqueça de dizer aos seus amigos, quando vê-los de novo: ‘Eu te amo'”, cantam em uníssono, os integrantes do Wilco em “Tell Your Friends”, balada que lançaram no programa Late Show, do humorista Stephen Colbert, nesta quarta, em uma vídeo que os reuniu à distância, cada um com sua família:
A faixa cita clássicos do rock para lembrar e celebrar da importância do amor, da amizade e da presença em tempos de isolamento social e está para download no Bandcamp da banda, revertendo o arrecadamento da venda do novo single para a ONG World Central Kitchen, que está colaborando com alimentos para comunidades mais pobres nos EUA.
No mesmo programa, o vocalista Jeff Tweedy mostrou uma versão solitária para um dos clássicos da banda, “Jesus Etc.”
Em mais um show colocado na íntegra no seu canal do YouTube devido ao período de quarentena, o grupo inglês Radiohead mostra uma versão de seu penúltimo disco, The King of Limbs, de 2011, gravada ao vivo em dezembro daquele ano. Gravada no estúdio Maida Vale em Londres com o produtor Nigel Godrich, a apresentação traz um segundo baterista com o grupo, além de um naipe de metais. E o repertório ainda inclui músicas que só vieram à tona após o disco ter sido lançado, como “The Daily Mail”, “Staircase”, e “Supercollider”. O vocalista Thom Yorke twittou sobre a apresentação, após lançá-la pela primeira vez online: “Transformar The King of Limbs em uma apresentação ao vivo e filmada era estranho e selvagem, não tínhamos certeza se daria certo. Graças à dedicação e comprometimento de todos, acabou sendo, para mim, uma das minhas experiências musicais favoritas.” É uma apresentação deslumbrante.
“Bloom”
“The Daily Mail”
“Feral”
“Little by Little”
“Codex”
“Separator”
“Lotus Flower”
“Staircase”
“Morning Mr Magpie”
“Give Up the Ghost”
“Supercollider”
O mestre David Lynch, ativo nestes dias de quarentena mantendo seu próprio programa de meteorologia diário em seu canal no YouTube (falei disso lá no #CliMatias, não tá acompanhando não?) Nosso cineasta favorito publica online seu curta de animação de 2015, o esquisito e envolvente Fire (Pozar).
Escrito, desenhado e dirigido por nosso cineasta favorito, o filme cutuca uma série de elementos caros à sua filmografia, desde o título. Mas além do fogo, há o arco do topo do palco que ilustra seu canal e com o qual ele anunciou o curta num tweet, e que funciona como metáfora para o cinema como linguagem, unindo referências do lado sobrenatural de Twin Peaks ao Club Silencio de seu Cidade dos Sonhos. Neste palco, vemos a criação do fogo e sua influência em nosso imaginário, em que Lynch faz uma conexão abstrata e surrealista entre tecnologia e arte, como se reforçasse que a linguagem audiovisual – eis que surge apenas um olho e um ouvido – fosse o centro do legado humano, unindo estas duas pontas distintas.
É claro que isso é uma interpretação minha – como sempre na obra de Lynch, tudo está em aberto em Fire (Pozar) e é sua natureza experimental e abstrata que o torna tão específico. Com trilha composta pelo polonês Marek Zebrowski e animação feita pelo japonês Noriko Miyakawa, é uma versão artesanal e branda de sua mensagem, estranha e envolvente como sempre.
O trio de irmãs Haim lança mais um single (sexto!) single antes do lançamento de seu próximo disco, Women In Music Pt. III. “Do’t Wanna” é uma das pop e ensolaradas até agora, retomando o alto astral da primeira que mostraram desta nova leva, a ótima “Summer Girl“.
O disco inteiro sai no final de junho e está em pré-venda faz tempo.
O casal Julia Debasse e Rian Batista resolveu assumir a dupla musical que já vinham incubando desde que morava no Rio de Janeiro. Mas a mudança para Fortaleza, em 2016, acabou acelerando este processo e o baixista do grupo Cidadão Instigado finalmente lança seu primeiro trabalho autoral depois de ano tocando com alguns dos principais nomes da atual música brasileira. Assumindo o nome de Mangalarga (“A Julia ama cavalos e me chama assim”, ri Rian), os dois lançam o primeiro single, “A Merda Que Você Fez”, em primeira mão no Trabalho Sujo e contam, numa troca de emails, a história deste processo criativo.
“O grupo nasceu no Rio de Janeiro, mas só atingiu sua configuração atual aqui em Fortaleza”, começa a recapitular Júlia. “Eu e Rian começamos a compor de forma bem descompromissada em 2011 ou 12, pouco depois de nos casarmos. Nós juntamos essas canções novas com composições mais antigas e começamos a brincar de arranjá-las no computador, usando sintetizadores do Garage Band.” Morando no Rio, Rian fez alguns trabalhos para a Globo, enquanto seguia com o Cidadão Instigado e depois de anos tocando com a banda do trio Instituto, liderada pelo maestro Ganjaman. “Vi nascer artistas que estão hoje aí com carreiras consolidas: Céu, Criolo, Karina Buhr, Emicida, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata”, além de passar treze anos tocando com Otto e do Mockers. Júlia, por sua vez, já havia dividido um disco com outro Cidadão Instigado, o guitarrista Regis Damasceno, em seu projeto indie folk Mr. Spaceman, Work For Idle Hands To Do, mas trabalha em artes visuais.
“Foi só quando nos mudamos para Fortaleza, em 2016, finalmente admitimos que precisávamos de ajuda para transformar aquelas ideias embrionárias em algo mais concreto”, continua a vocalista. “Falamos com o Daniel Groove que super comprou a bronca e juntamos a banda que ja vinha acompanhado o Daniel em algumas produções e da qual o Rian fazia parte: o compositor e guitarrista Bruno Rafael na guitarra, Beto Gibbs na bateria/SP-10, Rian no baixo. A ideia é que a banda tenha dois vocalistas mesmo, então tem músicas que eu canto, enquanto em outras o Rian canta. Eu também toco guitarra e violão.”
“Em Fortaleza reencontrei o Daniel Groove, que me chamou para coproduzir alguns artistas da nova cena cearense, como Ilya e Nayra Costa”, segue Rian. “A Julia é compositora desde adolescente, fez algumas gravações muito nova, tocou no Rio, mas nunca chegou a lançar nada, mas jamais deixou de compor. Tanto que nós usamos músicas dela que ela fez antes mesmo de me conhecer.”
“A Merda Que Você Fez”, mesmo sendo uma das músicas mais antigas da dupla, foi escolhida por conversar com a época que estamos vivendo. “É uma canção que funciona em dois níveis, como canção de amor e como canção de protesto, ou pelo menos essa era a intenção da compositora”, ri Júlia. “Eu acho que também mostra bem ao que viemos no sentido de que é uma canção inegavelmente pop, dançante, mas que tem algumas esquisitices, algumas quinas, arestas – seja na letra, seja nas guitarras do Catatau.”
Sem planos em relação a um álbum, eles planejam mais um single para daqui uns meses, uma canção romântica escrita por Rian, embora já tenham material para um disco. Sem poder fazer shows por conta da quarentena, vão se dedicar a divulgar o trabalho online. “Vamos fazer lives, que é o que se faz agora. Temos dois pequenos contratempos, um de quase 3 anos e outro de 9, mas vai dar certo. Eles são bonitinhos!”, brincam.
O primeiro disco solo do vocalista do grupo norte-americano The National, Matt Berninger, foi anunciado há quase seis meses, mas só agora ele começou a mostrá-lo. E quem abre os trabalhos é justamente a faixa-título, Serpentine Prison, que deixa clara a interferência do inusitado produtor que o compositor chamou para conduzir este disco: ninguém menos que o mestre Booker T. Jones, tecladista que liderada o clássico grupo Booker T. & The MGs, a alma dos discos da gravadora Stax, um dos berços da soul music. Os arranjos de metais e os imortais teclados esparramados dão uma bossa e um groove, ainda que lento, que distancia este seu novo trabalho, embora o DNA inevitavelmente seja o mesmo das canções de seu grupo. Uma bela introdução.
O disco, cuja capa (abaixo) também foi mostrada junto com o single, será lançado em outubro, pelo selo Concord Records, fundado por Matt e Booker T. Nada mal.











