A rapper brasiliense Flora Matos chega de mansinho e mostra a deliciosa balada “I Love You”, que ela compôs na guitarra sobre beats com sabor baiana, que parece dar o tom do sucessor do ótimo Eletrocardiograma.
Que belezinha…
Grata surpresa o primeiro disco que Zé Lanfranchi está lançando com seu nome solo, Leveze. Aclimação12-20 nada nas águas do chillwave, a eletrônica sossegada que fundou uma nova geração de compositores há pouco mais que uma década ressoa com o clima melancólico e solitário de 2020, depois que ele passou pelas bandas Cabana Café e Parati. “O nome do álbum é exatamente a relação reconectar o presente com esse período em que o disco foi composto, aclimatar 2012-2020”, me explica por email, “a palavra Aclimação também tem a imagem de ponte pra mim, de conectar estados, sentimentos, e esse álbum tem isso, é um mergulho interior em um outro estado. Além disso, Aclimação, também é especial pra mim porque é o bairro que morei durante parte desse período.”
Além do chillwave Zé reforça a importância da bossa nova para o disco. “”As composições nasceram no violão e guitarra, o que dá uma raiz organica, com harmonias mais MPB, mas a finalização tem estética totalmente indie, uma mistura de João Gilberto, com Tycho, Com Truise, Sigur Rós e DJ Shadow, que foram sons que me influenciaram nessa época.” Ele também fez uma playlist no Spotify com estas referências musicais.
“Leveze são minhas produções solo, sempre compus em casa e algumas músicas ganham uma roupagem por aqui mesmo, com linguagem mais eletrônica, que é um artifício importante para essa forma de produção, sem necessidade de banda para arranjo ou coisa do tipo”, ele continua. As canções nunca ganharam roupagem de banda e mesmo ao vivo, Zé só se apresentou com esse nome discotecando, nunca mostrando suas próprias músicas. Mas por mais que seja um trabalho solo e solitário, o primeiro disco traz algumas participações, todas nos vocais: o rapper francês Romain Desouche, o líder do grupo Single Parents e da gravadora Balaclava Fernando Dotta, o guitarrista dos Soundscapes Rodrigo Carvalho e Rita Oliva, a Papisa, com quem Zé dividiu as duas bandas que teve anteriormente. “O álbum nasceu instrumental e já nas primeiras audições algumas canções se mostraram com espaço para voz”, prossegue. “Então chamei vozes que refletissem essa energia que buscava no disco e pudessem somar nessa história com letra e canto.”
“Aclimação12-20 é um reencontro com parte de minha essência musical, uma ponte entre 2012 e hoje 2020. 2012 foi quando nasceram as primeiras composições. Algumas outras compostas nessa época, eu e a Rita Oliva mexemos um poucos e a transformamos em duas músicas do Parati, ‘Suor’ e ‘Kristal’. ‘Voraz’, “Secrets Over Cigarettes’ e ‘Valse a Vide’ vieram na sequência mas a produção final, em especial os vocais, só tomaram forma em 2015/16 junto com ‘Zenite’. O empurrão que faltava era o nome do projeto e Leveze apareceu pra mim justamente agora em 2020, numa prática de relaxamento na pandemia.”
Sem previsão de shows, Zé cogita a possibilidade de mostrar o disco ao vivo com outros músicos. “Imagino fazer mais live sets com esse projeto e um formato com músicos pra esse disco é uma ideia que sempre tive e até já rolaram ensaios no passado. Então, quando isso for possível, seria legal uma tour com banda para Aclimação12-20”, conclui.
O produtor Dev Hynes, a identidade secreta do jedi do R&B Blood Orange, usa o remix como desculpa para recriar “Borderline” do Tame Impala do zero, dispensando a instrumentação original e injetando doses de soul, jazz e folk na mesma medida, reduzindo ainda mais o tempo da música, transformando-o numa viagem groovedélica de sete minutos.
Que sonzeira…
Tudo bem que Robin Pecknold já tinha comentado há alguns anos que lançaria o quarto disco de sua banda em breve, mas em se tratando dos Fleet Foxes, ver um disco ficando pronto três anos após o lançamento do disco anterior, o belo, triste e introspectivo Crack-Up, de 2017, provoca um susto considerável – ainda mais se levarmos em conta que ele levou apenas um ano para ser gravado e foi lançado sem anúncios anteriores no mesmo mês em que encerraram os trabalhos. E Shore é de tirar o fôlego: um panteão de canções maravilhosas e solares, ao contrário do clima pastoril e campestre dos álbuns anteriores.
Gravado entre os EUA e a França desde setembro de 2018, o disco foi finalizado em Nova York, para onde Pecknold se refugiou logo que soube do avanço da pandemia, cogitando que a cidade poderia passar pelo pico de infecção mais rápido que o resto do país por ter sido o primeiro grande foco da pandemia nos EUA. E atravessar esse período na metrópole vazia mexeu com a cabeça do cantor e compositor a ponto de ele talhar versos, melodias e refrães que busquem a luz, expansivos e esperançosos. O arranjo e produção, delicados e detalhistas sem nunca cair em barroquismos ocos ou desnecessário. Ele publicou um longo texto sobre o disco, destaco um trecho:
“Eu não queria fazer outra longa pausa na música; realmente queria trabalhar e me sentir útil, mas precisava encontrar uma maneira nova e brilhante de fazer músicas se quisesse ir direto para algo grande e ambicioso de novo. Eu me peguei ouvindo mais Arthur Russell, Curtis Mayfield, Nina Simone, Michael Nau, Van Morrison, Sam Cooke, TheRoches, João Gilberto, Piero Piccioni, Tim Bernardes, Tim Maia, Jai Paul e Emahoy Tsegué-MaryamGuèbrou – música que ao mesmo tempo é complexa e elementar, “sofisticada” e humana, propulsionada ritmicamente, mas melodicamente suave.
Eu fazia playlists de centenas de músicas calorosas para mergulhar e fazia disso um rito o máximo que pudesse todos os dias, mantendo apenas as melhores peças que surgissem de onde quer que venham as melodias e as idéias musicais. Depois de todos esses anos, ainda não sei direito, e é isso que o mantém tão interessante.
Queria fazer um álbum que celebrasse a vida diante da morte, homenageando nossos heróis musicais perdidos explicitamente nas letras e levando-os comigo musicalmente, comprometendo-se a viver plena e de forma vibrante de uma forma que não podem mais, de uma forma que talvez não pudessem mesmo quando estavam conosco, apesar da alegria que trouxeram a tantos.
Queria fazer um álbum que fosse um alívio, como os dedos dos pés finalmente tocando a areia depois de serem pegos por uma correnteza. Queria que o álbum existisse em um espaço liminar fora do tempo, habitando tanto o futuro quanto o passado, acessando algo espiritual ou pessoal que é intocável por qualquer que seja o estado do mundo em um determinado momento, qualquer que seja nossa estação. Eu vejo Shore como um lugar seguro à beira de algo incerto, olhando para as ondas de Whitman recitando “morte”, tentado pela aventura do desconhecido ao mesmo tempo em que você está saboreando o conforto do solo estável abaixo de você. Essa foi a mentalidade que encontrei, o combustível que encontrei, para fazer este álbum.”
Lançado na virada da estação, Shore é um raio de luz em um ano trevoso, o alívio musical que nem sabíamos que poderíamos ter, misturando passarinhos com sons de chuva, rio e avião passando à distância. E quando o Tim Bernardes canta em português em “Going-to-the-Sun Road”, tornando-se o único outro vocalista da história da banda, isso ganha uma outra profundidade, ainda mais pelo que ele canta (ganhando um elogiaço de Robin: “Obrigado por cantar em português de forma tão bonita na canção ‘Going-to-the-Sun Road’. Sou seu grande admirador e espero que possamos vir a colaborar mais no futuro. É uma honra!”). Faz mais sentido ouvir a participação no contexto inteiro do disco, mas pra quem quiser ir direto ao ponto…
Que disco!
Há poucas semanas, ouvimos Phoebe Bridgers cantando “Fake Plastic Trees” do Radiohead no Live Lounge da BBC 1 acompanhada ao piano de uma artista inglesa novata chamada Arlo Parks. Agora é a vez de Parks mostrar que, além de tocar piano, tem uma voz de arrepiar – e ao escolher a novíssima “My Future” da Billie Eilish e dar um tratamento soul acompanhada apenas de uma guitarra, ela traz a música para o chão, trazendo um calor ímpar, que a canção original parecia se esquivar. Olha que delícia…
Dos grandes nomes do jornalismo cultural deste século, o pernambucano GG Albuquerque sempre misturou crítica musical, reportagem e edição, aos poucos afunilando sua produção ao redor da cultura periférica, primeiro de sua cidade-natal, e depois para o resto do Brasil. Dono dos blogs O Volume Morto e do podcast Embrazado, ele está prestes a dar um importante passo em sua carreira, ao liderar um portal de notícias batizado a partir de seu podcast, que, por sua vez já foi uma festa. E na semana em que ele sobe um degrau considerável em sua biografia, o chamo para conversar sobre música, jornalismo, vanguarda e o Brasil em 2020.
O Yo La Tenbo, nosso trio indie favorito, libera mais uma faixa do EP de versões que lançarão no mês que vem. Sleepless Night foi gravado para uma exposição do artista japonês Yoshitomo Nara, fã do grupo nova-iorquino, que escolheu com eles versões de músicas para tocar em sua exposição de retrospectiva no Los Angeles Country Museum of Art este ano. E além de músicas de Dylan, Flying Machine, Delmore Brothers, Ronnie Lane e dos Byrds (a primeira faixa que eles já mostraram do disco, “Wasn’t Born To Follow”), o grupo gravou a inédita “Bleeding”, que eles acabam de tornar pública.
O disco será lançado no mês que vem e já está em pré-venda.
Que maravilha essa versão para “Waving, Smiling” que nossa musa Angel Olsen gravou quando passou pela capital francesa no ano passado para o canal La Blogothèque, música que ela só revelou esse ano quando mostrou as demos de seu ótimo All Mirrors no frágil e poderoso A Whole New Mess que lançou há algumas semanas.
Angel Olsen, Paris e um violão – que mais, né?
A tristeza é inerente aos nossos dias ou ela nos foi imposta como uma grande mensagem subliminar nas últimas décadas? Na nova edição do Altos Massa, eu e Pablo mergulhamos na transformação das metas de nossas vidas, falando sobre como a felicidade deixou de ser um horizonte possível para abrir espaço para sua negação como regra e assim lembramos dos tempos da hiperinflação, falamos da diferença entre gerações, da descoberta da internet, da cultura do cancelamento e outros assuntos de alguma forma correlatos a essa sensação melancólica que atravessa nossos dias.
O papo sobre cinema adolescente do programa passado fez que eu e André Graciotti voltássemos para um novo clássico: Scott Pilgrim contra o Mundo, que Edgar Wright lançou há dez anos. Com um elenco irrepreensível, uma adaptação nada óbvia e uma direção a rédea curta, o filme inspirado no quadrinho do canadense Bryan Lee O’Malley é um filme que melhora a cada nova visita e motivo para nos empolgarmos para celebrar a obra-prima de seu diretor.









