Ao escolher lançar a versão suntuosa das canções que vinha trabalhando desde 2017 antes de mostrar seus rascunhos em público, Angel Olsen operou um pequeno milagre. Whole New Mess, o disco que releva quase um ano após apresentar seu deslumbrante All Mirrors, nos coloca em uma posição como se pudéssemos ver o processo de criação de trás pra frente – e como as canções de Olsen são joias de quilate ímpar, esta reversão criativa nos faz acompanhar um desabrochar ao contrário, para dentro, como se, a partir da beleza da flor, do deserto ou da borboleta, descobríssemos o esplendor da semente, do grão de areia, da lagarta. Gravado apenas com sua voz e guitarra, o conjunto de canções de Whole New Mess reescreve All Mirrors como uma confissão – e o que antes carregava Angel Olsen aos píncaros da exuberância emocional agora a arrasta em uma dolorosa sessão de terapia, revertendo completamente o brilho do disco que conhecemos inicialmente. E se a versão inicial começava falando em “esquecer é esconder” (na eterna “Lark”), a nova canta que “não demorará muito até que realmente se mostre” (na faixa-título), invertendo a expectativa a partir de seu próprio ponto de vista, mexendo na ordem e no título das músicas à medida em que retira maquiagem, penteado, figurino, pele, carne e osso, deixando apenas o registro espectral de sua alma, suspensa entre acordes e por seu timbre forte e delicado, que às vezes vem cru, outras embalsamado por reverb ou por algum teclado. Não é um All Mirrors do mundo invertido, mas um mergulho nos paradoxos propostos por quaisquer sentimentos, uma radiografia da alma de cada uma das canções, que se reverte de volta para nós, fazendo inclusive a faixa-título do disco anterior (que agora chama-se “(We Are All Mirrors)”, assim mesmo, entre parênteses) ganhar uma nova leitura: “De pé, de frente, todos os espelhos se apagam / A beleza se perde, pelo menos, por vezes, ela me conheceu”, canta o refrão logo depois de confessar, à abertura que “tenho visto todo meu passado se repetindo, não tem fim”. Que disco maravilhoso.
Estreará na próxima segunda-feira, dia 7, dentro da versão compacta do Festival de Veneza, um dos primeiros festivais de cinema a acontecer fora do formato online, o novo documentário da dupla Renato Terra e Ricardo Calil, que dirigiu o já clássico Uma Noite em 67, sobre o terceiro festival da Record. No documentário Narciso em Férias, produzido por Walter Salles, Caetano Veloso lembra da época em que foi preso pela ditadura militar brasileira em 1968, 14 dias após o AI-5 ter sido baixado no final daquele ano. Eis o trailer que acaba de estrear:
O título foi retirado do romance Este Lado do Paraíso, de F. Scott Fitzgerald, e já tinha sido utilizado no livro Verdade Tropical, que Caetano escreveu em 1997, e se refere aos 54 dias em que, além de preso, ficou sem se ver no espelho.
Estou comentando cada episódio da série Lovecraft Country, produzida por JJ Abrams e Jordan Peele e inspirada no universo de H.P. Lovecraft num programa semanal chamado Lovecraft Country Blues. Saca só:
Partiu de uma conversa sobre dois dos filmes mais comentados de 2019, Uma História de Casamento e Midsommar, que falam sobre relacionamentos caindo aos pedaços e partir daí, eu e André Graciotti puxamos uma discussão sobre as vezes em que o cinema discutiu relacionamentos e abriu questões sobre a vida em casal em filmes emblemáticos. No decorrer desta edição do Cine Ensaio falamos sobre Ingmar Bergman, Woody Allen, Richard Linklater, Blue Valentine, (500) Dias com Ela, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e vários outros filmes.
No início do ano, para aproveitar o lançamento da versão em vinil do disco ao vivo Copenhagen do Galaxie 500, a gravadora norte-americana Persona Non Grata estava organizando uma apresentação no Record Store Day para trazer bandas para a loja nova-iorquina da Rough Trade e fazer um show com bandas tocando músicas do saudoso grupo indie. Mas com a pandemia e a quarentena, o projeto teve de ser reestruturado e tornou-se uma série de apresentações ao vivo gravadas remotamente incluindo nomes contemporâneos e influenciados pela clássica banda. Separei aqui as versões que o Mercury Rev, Thurston Moore, Glenn Mercer (dos Feelies), Surfer Blood, Barbara Manning, Hamilton (do grupo inglês British Sea Power), Mark Lanegan, Stephin Merritt, Calvin Johnson, Real Estate, Versus, Winter, entre outros, tocando canções imortais do grupo ou variações de versões clássicas feitas pelo grupo para músicas do Velvet Underground, do New Order e dos Rutles.
Você confere todas as versões lá no site oficial do projeto. Que banda!
A apresentação de Billie Eilish no Tiny Desk Concert (uma semana depois da participação do Tame Impala) traz só duas músicas – e ao escolher duas novas canções, “My Future” (infelizmente sem a parte mais dançante) e “Everything I Wanted” e concentrar seu show na parceria com o irmão Finneas (cada vez mais em cena), ela deixa aquele gostinho de quero mais…
Que maravilha…
Mudamos mais uma vez o tema do programa em cima da hora porque neste sábado o Spike Lee vai realizar sua block party em homenagem ao Michael Jackson pela primeira vez online. Foi a deixa para que eu e Dodô discutíssemos sobre a importância deste que, mesmo após sua vertiginosa queda de popularidade, escândalos e morte, segue como nosso principal paradigma de rei do pop – e não só da música!
Quando a nostalgia é muita, o santo desconfia… E o anúncio que Dua Lipa lançaria uma versão de seu excelente Future Nostalgia inteirinho remixado com um time de convidados de peso criou uma expectativa de elevar ainda o patamar de um disco perfeito para a pista de dança. O primeiro single, com as participações de Madonna e Missy Elliott, não era nada revolucionário, mas às vezes era só pra botar banca… E quando o time completo de convidados revelou-se conter nomes como Joe Goddard (Hot Chip e LCD Soundsystem), Masters At Work, Dimitri From Paris, Gwen Stefani, Mark Ronson e Jacques Lu Cont, entre outros, parecia que o disco realmente poderia atingir as expectativas, mas foi só Club Future Nostalgia aparecer nesta sexta para perceber que, por mais que diferentes nomes tenham sido chamados, o disco soa como uma coisa só, sem tanta diversidade. E o que poderia ser coesão, no fim é uma camisa de força ao redor de praticamente um único BPM – bem diferente do disco original, diga-se de passagem -, soando como uma versão daqueles remixes de rádio FM nos anos 90 que colocavam qualquer música na mesma batida repetitiva, estéril e constante, sem requebrar nem dar respiro. Talvez tenha a ver com a produção do disco todo vir assinada por Blessed Madonna (o novo nome da antiga Black Madonna), que tirou a alma de um disco perfeito para fazer um comercial genérico de música eletrônica, um desserviço ao próprio conceito de remix. E aí nem Mark Ronson pedindo Neneh Cherry ou Dmitri From Paris citando Jamiroquai salvam a festa…
Uma pena: maculou o nome de um disco nota 10.
Um dos discos mais bonitos da virada do milênio ganha merecido tratamento de luxe em seu aniversário de vinte anos, quando o grupo norte-americano Grandaddy não apenas traz o perfeito The Sophtware Slump em uma versão em quatro LPs, incluindo o disco original remasterizado, EPs que nunca saíram em vinil, demos e sobras de estúdio. Mas o grande atrativo da caixa é uma releitura que o líder da banda, Jason Lytle, gravou em casa agora em 2020 somente ao piano, batizando-o de The Sophtware Slump… On a Wooden Piano e reforçando o clima de solidão e desilusão que o disco carregava. O grupo antecipou uma das versões ao anunciar o box de aniversário, mostrando a bela “Jed’s Other Poem (Beautiful Ground)”.
Gravado pela banda indie de Modesto, na Califórnia, no final dos anos 90, The Sophtware Slump cogitava um futuro em que toda eletrônica torna-se obsoleta após alguma espécie de apocalipse, transformando o fim do mundo em algo pastoril e lento (embora não menos desesperador), como uma espécie de anti-OK-Computer. Escrevi sobre o disco quando ele foi lançado, há vinte anos.
A caixa já está em pré-venda, chega às lojas em novembro e traz tudo isso:
LP1: The Sophtware Slump
“He’s Simple, He’s Dumb, He’s the Pilot”
“Hewlett’s Daughter”
“Jed the Humanoid”
“The Crystal Lake”
“Chartsengrafs”
“Underneath the Weeping Willow”
“Broken Household Appliance National Forest”
“Jed’s Other Poem (Beautiful Ground)”
“E. Knievel Interlude (The Perils of Keeping It Real)”
“Miner at the Dial-a-View”
“So You’ll Aim Toward the Sky”
LP2: The Sophtware Slump ….. on a wooden piano
“He’s Simple, He’s Dumb, He’s the Pilot (Piano Version)”
“Hewlett’s Daughter (Piano Version)”
“Jed the Humanoid (Piano Version)”
“The Crystal Lake (Piano Version)”
“Chartsengrafs (Piano Version)”
“Underneath the Weeping Willow (Piano Version)”
“Broken Household Appliance National Forest (Piano Version)”
“Jed’s Other Poem (Beautiful Ground) (Piano Version)”
“E. Knievel Interlude (The Perils of Keeping It Real) (Piano Version)”
“Miner at the Dial-a-View (Piano Version)”
“So You’ll Aim Toward the Sky (Piano Version)”
LP3: Rarities 2000-2001
“He’s Simple, He’s Dumb, He’s the Pilot (Original Introduction)”
“L.F.O”
“Wonder Why in L.A.”
“I Don’t Want to Record Anymore
“Chartsengrafs (Demo Version)”
“Xd-Data-II”
“Air Conditioners in the Woods”
“Our Dying Brains”
“Moe Bandy Mountaineers”
“Rode My Bike to My Stepsister’s Wedding”
“Beautiful Ground (Original Cassette Tape Demo)”
“Street Bunny”
“N. Blender”
LP4 Rarities 2000-2001:
“First Movement / Message Fade”
“Hewlett’s Daughter (Original Cassette Tape Demo)”
“What Can’t Be Erased (Drinking Beer In The Bank Of America With Two Chicks From Tempe Arizona)”
“Aisle Seat 37-D”
“She Deleter”
“Hand Crank Transmitter”
“Jeddy 3’s Poem”
“MGM Grand”
“Protected from the Rain”
“Wives of Farmers”
“Fare Thee Not Well Mutineer (2000)”
Os Stones segue sua saga de avisar para todos que a caixa do Goat’s Head Soup, o disco da banda de 1973, está para sair e entre as novidades, há “Scarlet”, faixa perdida que o grupo inglês havia gravado com Jimmy Page e que já ganhou clipe com um ator da moda, remix do War on Drugs e agora ganha outro retrabalho a cargo grupo Killers, que chamou o francês Jacques Lu Cont para dar um tapa na faixa.
Não ficou bom nem ruim… Ficou passável.











