“Good times are comin’,/ I hear it everywhere I go”
Falando em mashup de Radiohead com outro ícone da década, deixo aqui meu comentário sobre a onda Crepúsculo no cinema, que, mesmo sem ter um filho para usar como desculpa, fui assistir para tentar entender. O primeiro filme, Crepúsculo, é bem feitinho: tem um bom filtro que azula a luz como o que esverdeia Matrix e Amelie Poulain, a química – ainda que imóvel – do casal protagonista funciona e os momentos sentimentalóides não são tão ridículos quanto poderia se supor (a cena do namoro de Anakin Skywalker e a princesa Amigdala no Episódio 2 do Guerra nas Estrelas é muito mais vergonha alheia). O segundo, Lua Nova, sofre da crise de sucesso financeiro e o que era discreto e esperto em Crepúsculo fica meio exagerado e desnecessário. O próprio casal Bella/Edward padece disso (eles parecem ter acabado de sair do salão de beleza, ao contrário da naturalidade do primeiro filme), mas isso ecoa de formas diferentes na produção.
É claro que são filmes para adolescentes, mas estão mais próximos da nova geração Sessão da Tarde (pense em Superbad, Juno e Pequena Miss Sunshine como um novo gênero) do que da safra de cinema fantástico de Harry Potter e Senhor dos Anéis. Não vão mudar a sua vida e talvez não valham o ingresso do cinema. Mas diz muito sobre a época em que vivemos.
A própria metáfora do vampiro já foi esvaziada antes de Crepúsculo. Se antes o mito misturava o conflito romântico do século 19 com a consciência do tempo pós-revolução industrial, a importância arquetípica do personagem aos poucos vai se “humanizando” enquanto o vampiro passa ser visto menos como monstro e mais como um ser fantástico, parente dos super-heróis, só que carregando o fardo da vida eterna. Essa “humanização” sentimental está em quase todas as adaptações da lenda para a cultura atual – nos vampiros andróginos de Anne Rice, no Drácula do Coppola com o Gary Oldman, nos vilões de Buffy, na série de cinema Underworld e nos vampiros pervertidos de True Blood. Ela também é aliada da mudança de atitude entre o vampiro e a presa, em que o vampiro aos poucos se torna mais sensível e delicado enquanto sua presa passa a ser mais decidida em relação ao seu papel. Não é exclusividade dos vampiros – é só um reflexo das transformações de gênero a que os papéis do homem e da mulher foram submetidos na segunda metade do século passado. O casal protagonista de Crepúsculo é um ótimo exemplo destas mudanças.
O vampiro Edward vivido por Robert Pattinson faz a ponte entre o “novo homem” detectado por Jack Kerouac nos anos 50 (o caubói que não tem vergonha de chorar, o homem que dança, o início do macho sensível) e que jogava Elvis, James Dean e Marlon Brando como novo parâmetro de masculinidade, com a geração emo, sem apelar para a androginia. Kristen Stewart, por sua vez, com sua beleza crua e discreta, faz uma musa arredia, que não quer ser social e prefere ler livros a fazer as compras. É como se fosse uma versão indie da Mina Harker, protagonista do livro Drácula original, reinventada por Alan Moore na Liga Extraordinária, que passa a ser uma espécie de ícone protofeminista. A personagem Bella é quase pós-feminista, tão decidida a tomar a dianteira que passa toda a saga querendo ser mordida, abocanhada, possuída – sem sucesso. Assim, Crepúsculo é menos onda adolescente do que termômetro social – e detecta esse baile de emos e indies que se tornou a velha guerra dos sexos.
Mas a cena com “Hearing Damage”, do Thom Yorke, é boa.
Kristen Stewart me lembrou de falar mais sobre o Adventureland, que eu já tinha comentado, mas não custa reforçar as qualidades do filme, que também tem a ver com a geração Sessão da Tarde século 21 que eu tava falando (embora não tenha surgido, ainda, o Curtindo a Vida Adoidado dessa safra). Dirigido pelo mesmo Greg Mottola do Superbad, o filme funciona sob diversas leituras – é uma comédia romântica, mas também é um filme sobre rito de passagem masculino, sobre a pressão na mulher moderna e não é necessariamente adolescente (o filme se passa nos anos 80, por isso ele tem um inevitável aspecto retrô). Adventureland também é uma ode à beleza natural de Kristen, além de ter a trilha sonora assinada pelo Yo La Tengo.
Charlotte Gainsbourg + Beck – “Heaven Can Wait”
Autoramas – “Eu Vou Vivendo”
Simian Mobile Disco + Beth Ditto – “Cruel Intentions”
Vampire Weekend – “Cousins”
Wiley + Chew Fu – “Take That”
Caí de paraquedas no show da banda portuguesa Clã no sábado passado e tive uma boa surpresa. Lançando a coletânea Catalogue Raissoneé pelo selo Allegro Discos no Brasil, o quinteto fez dois shows no Sesc Pompéia que contaram com participações especiais: o de sexta contou com as presenças de Arnaldo Antunes e Zeca Baleiro e no que eu fui o casal John e Fernanda, do Pato Fu, eram os convidados. Se fosse brasileiro, o Clã provavelmente seria uma banda indie que, além de tocar no Studio SP, no Inferno e em alguns festivais independentes do Brasil, também conseguiria datas no Sesc para lançar seu disco. Talvez não contasse com as presenças da primeira noite, devido ao abismo que existe entre a música pop brasileira e a MPB (as coisas estão mudando aos poucos, vide a presença de Arnaldo no disco do Cidadão Instigado). O Pato Fu está mais próximo da realidade indie do que daquela da MPB, por isso as bandas conversaram bem – a ponto do próprio Clã ter gravado “Depois” da banda mineira (que eles tocaram no show). Mas se existe uma lacuna enorme entre a música pop feita no Brasil e em Portugal, ela aumenta ainda mais pela distância entre dois “gêneros” que insistem em separar adultos de adolescentes, como se faixa etária determinasse gosto musical. Felizmente, como eu disse, as coisas estão mudando.
Depois do show do Clã e de discotecar na Livraria Cultura, sábado ainda dei um pulo no Smirnoff Experience, mas só consegui assistir ao set do James Murphy. O lugar não era dos melhores, o público era essencialmente o mesmo da Pachá, mais interessado em ser visto do que no evento em si, e, pra piorar as coisas, choveu. Vazei depois do Mr. Murphy e perdi o show do Yatch e o set do Joe Goddard, do Hot Chip. Paciência.

Na semana passada, o grupo disponibilizou um EP para download com quatro faixas do clássico Doolittle tocadas no show do dia 16 de outubro desse ano, no Le Zenyth, em Paris – “Dancing the Manta Ray”, “Monkey Gone To Heaven”, “Crackity Jones” e “Gouge Away”. Para baixar, siga as instruções:
Cortesia do Jimmy Fallon.
Não precisa falar mais nada:
Um veio antes:
O outro, depois:
Tati que alertou.
E esse promo da TV espanhola para a sexta temporada de Lost? Pelo visto, não tem o dedo da matriz americana, mas funciona bem, mesmo sendo clichê: