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Abrindo a Boca

Um imprevisto me fez perder o primeiro show do Inferninho Trabalho Sujo desta quinta-feira (désolé Laure), mas cheguei a tempo de ver a forte presença da novíssima banda Boca de Leoa, que conheci no meio do ano. O entrosamento entre as três instrumentistas – Nina na guitarra, Duda no baixo e Bee na bateria – faz a base perfeita para que a outra Duda, a vocalista, dominass o público com seu carisma , que lotou o Picles, para cantar juntos músicas que ainda nem foram gravadas. Uma apresentação forte de uma banda promissora, que deixa de engatinhar para dar seus primeiros passos – e já avisaram que o primeiro disco está vindo. Depois, eu e a Fran seguramos a pista até o final da noite, quente como nunca!

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Não é a primeira vez que o Kevin Shields encontra-se com J Mascis no palco – suas respectivas bandas excursionaram juntas no auge de suas carreiras e o Shields já apresentou-se algumas vezes com a banda de Mascis –, mas a aparição do líder do My Bloody Valentine no terceiro dia da residência que o Dinosaur Jr. está fazendo na casa noturna Garage em Londres tem um quê de histórico. Mesmo porque ao subir no palco com seus velhos amigos, Shields não apenas tocou uma música de sua banda (“Thorn”) e outra da banda norte-americana (“Tarpit”), como se uniram para tocar uma versão de uma banda que talvez seja o vórtice original que enviesou as duas bandas do barulho rumo à doçura, o Cure. E escolheram justo aquela “Just Like Heaven” imortalizada pelo Dino Jr. nos anos 80, uma canção tão barulhenta quanto pop, marcando a primeira vez que os dois guitar heroes tocam juntos essa música, sente só aí embaixo: Continue

Transcendental o Anganga que Cadu Tenório e Juçara Marçal fizeram nesta terça-feira no Centro da Terra. Trazendo cânticos de trabalhadores escravizados que foram recuperados no início do século passado, os dois atualizaram melodias e versos seculares para a cacofonia do século 21, com Cadu disparando bases industriais para Juçara soltar sua voz de forma lírica e abstrata, conversando com a luz detalhista, por vezes quase impressionista e outras quase na penumbra, desenhada por Cristina Souto. Fisgando o público na veia, era possível ouvir um silêncio quase milenar, que parecia pairar sobre aquele ritual.

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Chan Marshall começou a colocar seu tributo a Bob Dylan em movimento. Depois de alguns teasers e muita expectativa, ela finalmente lançou o disco ao vivo Cat Power Sings Dylan. The 1966 Royal Albert Hall Concert na sexta passada, repassando o repertório que o mestre tocou num clássico show que tornou-se um de seus discos piratas mais famosos (mesmo não tendo sido gravado no Royal Albert Hall londrino que o batizava e sim no Free Trade Hall de Manchester). E agora começa a apresentar-se ao vivo, primeiro em programas de TV (com nessa participação que fez no programa de Jimmy Fallon tocando nada mais nada menos que “Like A Rolling Stone”) para depois, em fevereiro do ano que vem começar a rodar com o show nos palcos do mundo. Vou fazer duas apostas: ela vem com esse show para o Brasil e em algum momento de 2024 ela dividirá o palco com o próprio Dylan.

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Potência a três

Mais uma noite com Chicão no comando, desta vez pavimentando o caminho musical para dois velhos camaradas: Alzira E e Yantó, que além cantarem em dupla com o pianista dono das segundas-feiras de novembro no Centro da Terra, ainda entrelaçaram seus timbres e vocalises tão peculiares em alguns dos grandes momentos desta apresentação. Yantó, que foi produzido por Chicão em seus primeiros álbuns, chegou a dividir o piano com o mestre em algumas músicas, inclusive quando trouxe a cantora para um dueto em “Conversa Mole”, além de tocar “Offline” de Marcelo Segreto e “Chuva Acesa”, da própria Alzira, e mostrar-se um hábil e contido virtuose vocal. Ela por sua vez começou a noite com a novíssima “Filha da Mãe”, a maravilhosa “Tristeza Não” e a a imortal “Milágrimas”, além de refazer sua “Finalmente” com Chicão temperando a base com “I Want You (She’s So Heavy)” dos Beatles. Yantó e Alzira ainda dividiram “Itamar É” e “Voos Claros”, composta pelo irmão dela, Geraldo Espíndola, responsável por musicalizar a família. Foi lindo demais.

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E o Air acaba de anunciar que irá tocar seu clássico disco de estreia, Moon Safari, lançado há 25 anos, pela primeira vez ao vivo em uma série de shows pela Europa, passando por Gênova (dia 24 de fevereiro), Milão (25), Viena (27), Berlim (2 de março), Paris (7), Amsterdã (8) e Londres (24). A dupla formada por Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel também está para lançar uma versão remasterizada do disco em Dolby Atmos exclusiva para o serviço de streaming da Apple na próxima sexta-feira. Um dia antes, na quinta 16, começam as vendas de ingressos para os shows a partir do site da banda. A dupla também preparou uma playlist chamada Deck Safari, com músicas que influenciaram a criação de seu primeiro disco – incluindo Velvet Underground, Money Mark, Supergrass, Harry Nisson, Pharcyde, David Bowie, Beck, Minnie Ripperton, Jean-Jacques Perrey, Cure, Beastie Boys e muito mais – que dá pra ser ouvida abaixo: Continue

Que tal uma segunda-feira com um sorriso no rosto? O grupo The Smile, formado pelo baterista Tom Skinner e por dois cérebros mais fritos do Radiohead, Thom Yorke e Jonny Greenwood, acaba de anunciar o lançamento de seu terceiro álbum (se contarmos o segundo disco ao vivo, The Smile Live at Montreux Jazz Festival July 2022) para o início do ano que vem. O anúncio de Wall of Eyes, que chega completo no dia 26 de janeiro (e já em pré-venda), vem acompanhado do clipe da bossanovinha que é a faixa-título do disco, mais uma vez dirigido pelo compadre da banda Paul Thomas Anderson, que além de fazer o filme Anima junto com Yorke também dirigiu o clipe de “Daydreaming”, primeiro single do disco mais recente (último?) da banda inglesa, A Moon Shaped Pool. A faixa traz ecos do Radiohead ao reaproveitar uma estrofe inteira (“Let us raise our glasses to what we don’t deserve or what we’re not worthy of”) do jornalzinho que o grupo distribuiu junto com a versão em vinil de seu disco de 2011, King of Limbs. Assista ao clipe abaixo e veja tanto a capa do disco quanto a ordem das músicas do novo álbum, que inclui o épico single “Bending Hectic”, lançado no ano passado: Continue

Sem poupar alvos

Roger Waters encerrou a perna brasileira de sua primeira turnê de despedida neste domingo, no estádio do Palmeiras, quando celebrou seus 80 anos em ótima forma ao misturar o repertório pós-Dark Side of the Moon do Pink Floyd com algumas músicas solo e ticar em praticamente todos os itens da esquerda no século 21 no espetáculo audiovisual que acompanhou o show. A apresentação já começou com esse tom no talo, em uma mensagem no telão em que o próprio Roger mandava quem acha que sua antiga banda não falava de política para fora do show. E como o assunto não é (apenas) política institucional, o velho inglês fez das suas ao abrir o show com um dos principais números de sua antiga banda, “Comfortably Numb”, retirando cirurgicamente (e politicamente) um dos grandes momentos do hino à dor, o solo de guitarra feito pelo ex-amigo David Gilmour. Isso não chegou a comprometer o show, mas é meio triste ver que Waters prefere se referir à antiga banda apenas no período de 1973 em diante, quando tornou-se o único letrista. E por mais que se refira ao fundador da banda, seu amigo de infância Syd Barrett, de forma tenra, é chato não ouvirmos músicas que o grupo fez antes do disco que completa meio século neste 2023. Em vez disso, tome músicas do The Wall e até uma do último disco do grupo, o fraco The Final Cut. Mas por outro lado, fomos presenteados com uma apoteótica versão de “Sheep”, a íntegra do lado B do Dark Side (mas sem “Time”? Pô) e quase todas do Wish You Were Here, enquanto o telão misturava o imaginário que o grupo criou nos anos 70 com animações e frases de efeito, que Roger Waters disparava sem poupar alvos – até Barack Obama apareceu no telão como “criminoso de guerra” (como todos os presidentes dos EUA desde Reagan), mas não falou nada sobre os líderes de seu país, Benjamin Netanyahu (embora tenha falado sobre o genocídio palestino constantemente) ou talvez uma alfinetada em seu desafeto local. Por outro lado, citou George Floyd e Marielle Franco, fez porco e ovelha infláveis passearem pelo estádio e segurou um showzaço de mais de duas horas – que certamente não será o último que fará por aqui. Toca “Dogs” na próxima, Roger!

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Laura Lavieri e Cacá Machado transformaram a reverência a um álbum clássico da história da música em um ritual religioso ao redor da voz e do violão do maior artista de nossa cultura. João Gilberto foi alçado ao estado de santo numa apresentação de muito rigor e paixão, enfileirando as músicas de seu clássico homônimo lançado há meio século umas nas outras de forma a suspender a tensão (e a respiração) dos presentes neste sábado na Casa de Francisca. Não se ouvia tilintar de copos ou talheres, o que é comum mesmo durante as apresentações mais intimistas no Palacete Tereza Toledo Lara. Ao invocar o espírito de João Gilberto ao unir canções-símbolo de seu repertório (“Águas de Março”, “Avarandado”, “Eu Quero Um Samba”, “É Preciso Perdoar”, “Na Baixa do Sapateiro”e “Eu Vim da Bahia”) a idiossincrasias ímpares deste disco (“Undiú”, “Valsa” e “Izaura”), os dois celebraram o formato que João consagrou e transformou na base de nossa música. O espetáculo Melhor do Que O Silêncio ainda teve o luxo da percussão detalhista e perfeccionista de Igor Caracas, que, mesmo em sua percuteria, centralizava o ritmo no cesto de vime tocado com vassourinhas à sua frente, tocando timbres diferentes de forma quase sempre discreta, roubando a cena apenas quando veio para a frente do palco e tocou folhas secas na faixa que abre o disco, a imortal “Águas de Março”. Não é porque estou envolvido nesse espetáculo que não vou dizer que foi um dos shows mais bonitos que vi em muito tempo.

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“Edu, você é um craque!”, disse o próprio Edu Lobo, citando seu mestre e compadre Tom Jobim ao lembrar de quando gravou sua deslumbrante “Pra Dizer Adeus” ao lado de no início dos anos 80. Edu lembrou do causo logo depois de mais uma versão cortante para um de seus maiores clássicos no show em que comemorou seus 80 anos nessa sexta no teatro B32. O maestro está em ótima forma e conduziu as quase duas horas de autorreverência com uma banda à sua altura: regida pelo pianista Cristóvão Bastos, reunia nada menos que Mauro Senise e Carlos Malta (sopros), Jorge Helder (contrabaixo), Jurim Moreira (bateria), Paulo Aragão (violão), Kiko Horta (acordeon) e Marcelo Costa (percussão). Edu começou a viagem ao seu passado pelas imbatíveis como “Vento Bravo”, “Bancarrota Blues” e “A História de Lily Braun” para depois começar a receber seus convidados cantores. Começou com a novata e maravilhosa Vanessa Moreno, com quem dividiu a “Dança do Corrupião” com a letra que Paulo César Pinheiro anos depois e a emocionante “Choro Bandido” para depois deixá-la sozinha nos vocais de “Tango de Nancy” e “Ave Rara” . Depois veio Ayrton Montarroyos, que dividiu com Vanessa a maravilhosa “Primeira Cantiga” para depois fazer sozinho “Circo Mistico” e “A Moça do Sonho”. Zé Renato entrou em seguida e, sozinho, segurou “Nego Maluco” e uma versão linda de “Salmo”. Edu voltou com “Pra Dizer Adeus” e depois convidou mais uma vez Vanessa, em “Ciranda da Bailarina”. Zé Renato juntou-se aos dois numa rara versão para “Lero-Lero”, que Edu disse, rindo nervoso, ter feito sob ameaça de uma fã. Então Monica Salmaso entrou para fazer, sozinha, “Canto Triste” e “Ode Aos Ratos” e depois dividir “Cantiga de Acordar” com Edu e e Vanessa. Quase no fim do show, lembrou de quatro de suas obras-primas com os quatro convidados: “Upa Neguinho”, “Ponteio”, “Canudos” e “Na Carreira”, que parecia ter encerrado a noite. Mas um dos grandes momentos foi quando a banda voltou no bis e Edu e Monica derramaram-se no hino “Beatriz” para depois chamar todos e finalmente encerrar com “Corrida de Jangada”. Uma noite mágica.

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