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A já célebre cena do trenzinho dos irmãos Mitchum e de Dougie Jones conta com uma trilha sonora que nada tem a ver com a cena – e parece uma música de videogame antigo. Mas alguém se deu ao trabalho de desacelerar a cena em duas velocidades diferentes para descobrir uma bateria de jazz e um tecladinho

Isso é invenção do próprio David Lynch, que faz a direção de som da série e é autor do remix que marca a personalidade da versão maligna do agente Cooper, uma versão em câmera lenta da deliciosa “American Woman”, das Muddy Magnolias, que nessa nova velocidade ganha um aspecto assustador:

Vamos rever novamente este momento e sua trilha sonora bizarra:

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Escrevi lá no meu blog no UOL como, mesmo antes do final da nova temporada de Twin Peaks, a série de David Lynch e Mark Frost se consagrou como um ícone cultural de 2017.

Mesmo antes de serem exibidas na virada deste domingo para a segunda-feira, as duas últimas partes de Twin Peaks: O Retorno, a terceira temporada do seriado idealizado e produzido por David Lynch e Mark Frost, já fazem deste último episódio um marco histórico. É o fim de uma aventura radical de pop experimental que os dois conseguiram que fosse bancada por uma emissora de TV, desafiando todos os clichês de sua volta (incluindo sua base de fãs mais ferrenha) para contar uma história que não parece fazer sentido e tentando reunir e explicar todas as dúvidas abertas (abrindo outras tantas). Como a vida, parecem sublinhar seus autores.

O fato é que a volta de Twin Peaks mostrou que a dupla forjada há mais de 25 anos pode executar o final de uma história interrompida pela metade com uma maestria ímpar na história da arte e do entretenimento moderno. Enquanto Mark Frost costurava pontas soltas no roteiro nas duas primeiras temporadas e no filme Os Últimos Dias de Laura Palmer e abria outras possibilidades ao criar novos personagens, locações e situações, David Lynch expandia seu subconsciente criando imagens e cenas inacreditáveis, bizarras e antológicas. Entre o normal e o surreal, a dupla repete o feito que há um quarto de século moldou a televisão como a conhecemos hoje atualizando uma série de paradigmas cutucados décadas atrás: a regência de expectativas, a condução do zeitgeist, um retrato atual dos EUA, conceitos como paranoia, conspiração e sobrenatural, a estética para a cultura de seu tempo e as fronteiras entre o cinema, a televisão e outras formas de experimentação audiovisual.

David Lynch e Mark Frost cobraram caro dos fãs que queriam apenas o revival. Todos esperavam o momento em que o agente Cooper voltasse a tomar seu café com suas assertivas improváveis mas sensatas sobre o que deveria ser feito. Em vez disso, assistimos a Kyle MacLachlan desdobrar seu personagem mais clássico em personalidades múltiplas, prendendo-se a dois extremos em atuações magníficas: uma versão maligna e sobrehumana batizada de Mr. C e uma versão infantilizada e tenra chamada de Dougie Jones. O pulso entre essas duas personalidades deu o tom sobre toda a série e fez os fãs de ocasião abandonarem o seriado enquanto os espectadores restantes teimavam em se perguntar, entre maravilhados e surpresos, o que diabos estava acontecendo.

E, como disse o gigante ao agente Cooper na segunda temporada, está acontecendo de novo. Twin Peaks está prestes a encerrar sua viagem de forma épica e gloriosa, correndo o risco de responder à maioria de suas questões e revolucionando mais uma vez a televisão para, quem sabe, dar brecha para uma quarta temporada. A partir daqui o texto contém spoilers para quem não assistiu até o décimo sexto episódio da terceira safra da série, disponível no Netflix brasileiro.

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“Passado ou futuro?”, nos pergunta Mike, a entidade de um braço só que foi instrumental em retirar o agente Cooper de seu exílio sobrenatural nos últimos 25 anos no segundo episódio deste ano. Talvez essa seja a principal chave para toda a terceira temporada – estamos assistindo a cenas que aconteceram em ordem diferente das que elas aparecem na tela. A ordem cronológica dos acontecimentos está embaralhada para quem assiste à série capítulo por capítulo, reforçando a ideia de seus criadores de que estamos assistindo a um filme de dezoito horas – e não a uma novela explicada em uma narrativa linear.

Uma das primeiras cenas da nova temporada, quando Cooper se reencontra com o Gigante que vem servindo de guia para sua intuição desde sua primeira ida a Twin Peaks, dá a entender que estamos frente a uma série de dicas que deveriam ser decifradas nos capítulos seguintes: “Ouça os sons. Algumas coisas não podem ser ditas em voz alta. Lembre-se: Quatro, três, zero. Richard e Linda. Dois pássaros com uma pedra.” Cooper apenas responde que entende. Os fãs passaram horas tentando descobrir quem eram aqueles dois (Richard já apareceu e desapareceu, mas nada da Linda), caçando números entre horas e relação entre outros que apareciam ou eram ditos na tela, prestando atenção em sons que saíam das paredes e de tomadas elétricas e tentando adivinhar quais eram as duas aves mortas com uma só pedrada.

Mas nada garante que essa cena seja a primeira cena da série. E a realização sobre essa possibilidade veio aparecendo à medida em que a cronologia passava a ser montada como um quebra-cabeças a partir de datas em fichas policiais, calendários de eventos fantásticos, mensagens de SMS e interrelação entre cenas distantes. Em vez de recomeçar Twin Peaks na pequena cidadezinha fictícia no estado norte-americano de Washington, Frost e Lynch preferiram espalhar sua história por todos os EUA: um portal interdimensional em uma caixa de vidro sob vigília mantida por um bilionário em Nova York, um cassino em Las Vegas, um assassinato em outra cidadezinha fictícia, Buckhorn, no estado de Dakota do Sul, uma bomba atômica que explodiu no Novo México, em autoestradas e ruas escuras que cruzam o país e até Paris, num sonho.

A própria Twin Peaks foi sendo revisitada esporadicamente, nos apresentando velhos personagens aos poucos, enquanto citava outros novos sem mostrar seus rostos. Enquanto uns reapareciam em novos formatos (o anão Homem do Outro Lado foi substituído por um galho de árvore com um pedaço de carne no topo, o agente Philip Jeffreys vivido por David Bowie reapareceu como uma chaleira gigante), outros levavam horas para aparecer – especificamente a Audrey vivida por Sherilyn Fenn -, uns vieram do além-túmulo (como o Dr. Will Hayward vivido por Warren Frost, a Log Lady vivida por Catherine Coulson, o agente Albert vivido por Miguel Ferrer, que morreram após suas participações na série), outros em flashbacks (como o próprio Bowie, o Bob de Frank Silva e o major Garland Briggs vivido por Don S. Davis) e ainda há os que não apareceram ainda, como o agente Chester Desmond (vivido pelo cantor Chris Isaak) e o xerife Truman (vivido pelo ator Michael Ontkean).

Este quebra-cabeças foi sendo montado à medida em que os agentes do FBI liderados por Gordon Cole (vivido pelo próprio David Lynch, em uma atuação soberba) foram descobrindo que as pistas do assassinato em Buckhorn e a reaparição do agente Cooper em uma prisão federal aos poucos os levava para Twin Peaks. Ao mesmo tempo, assistíamos à lenta – e dolorosa, para alguns fãs – recuperação da personalidade do Cooper original de dentro do corpo de Dougie Jones e sua conexão com os ótimos irmãos Mitchum (dois gângsters vividos por Jim Belushi e Robert Knepper) e à polícia de Twin Peaks descobrindo que fatos surpreendentes aconteceriam nos dias primeiro e dois de outubro.

Além do estranho dia-a-dia na própria Twin Peaks, incluindo aí as aparições no Roadhouse, que, ao que tudo indica, transformou-se em um lugar sobrenatural. A casa de shows, que foi cenário para apresentações de artistas nada fictícios como Au Revoir Simone, Sharon Van Etten, Nine Inch Nails, Moby (como figurante em uma banda), Chromatics, Eddie Vedder e Hudson Mohawke e de conversas sobre personagens que nunca apareceram na tela durante toda a temporada, subitamente virou uma espécie de alucinação da personagem Audrey no último segundo do episódio mais recente.

Há inúmeras questões em aberto: O que é o som que o Gigante pede para Cooper ouvir no gramofone? O que Laura Palmer disse no ouvido do agente Cooper? Onde está a verdadeira Diane? Quem é Tina? Onde está Audrey? Bob saiu do corpo do Agente Cooper? O que fez Hawk na entrada do Black Lodge? Por que Sarah Palmer assiste àqueles programas na TV? E que tantas referências são essas a histórias infantis? Mais alguém é uma tulpa? O que Lucy viu na visão de Andy? Quem é a viciada que mora perto da casa de Dougie? Que barulho é aquele no Grand Nothern? Quem é Billy? O que é aquele símbolo estranho? O que são os Woodsman? Quem é Linda? Quem é o marido de Beverly? Como Gordon viu Laura Palmer? Por que Albert fala cada vez menos? E aquela caixa na Argentina que recebe mensagens? Quem é Judy? O que Gordon ouve no limpador de janelas? E aquela menina zumbi? E aquele sapo com asas de besouro? E aqueles números nos postes? Por que o Gigante chama-se Bombeiro? Gordon Cole está percebendo vibrações de outras dimensões? Qual a diferença de um doppelganger de uma tulpa? Quem vai tomar um soco de Freddie? Como Laura Palmer desapareceu? Quem é Naido? “Quando você chegar lá você já vai ter chegado lá”? E a alma da criança voando? Quem é Charlie? E aquele truque que Red fez com a moeda? Há alguma relação entre a luta de boxe que Sarah assiste com o passado de Bushnell? O que vai acontecer com Chad? O que acontecerá com Janey-E e Sonny Jim? Quem ressuscitou o Bad Cooper? Como o Bad Cooper mexeu no sistema de eletricidade da cadeia? Quem é a Senhorita Dido? Sarah Palmer está possuida pela Mãe? Onde está Jerry? Quem será a última banda a tocar no Roadhouse? Quem é o sonhador?

Enquanto isso, Lynch e Frost aproveitavam para fazer um retrato dos EUA em 2017 como poucos ousaram fazer – ainda mais nesta era Trump. Um bom exemplo é a cena em que o policial Bobby Briggs (Dana Ashbrook) vai à rua após o início de um tiroteio e choca-se ao perceber que era uma criança com uma arma na mão, vestindo roupas camufladas e com a mesma cara de tédio – e não de susto ou de aborrecimento, como deveríamos esperar – do pai. Atrás do carro que causou o incidente, uma senhora buzina e briga agressivamente para o carro da frente, apenas para assistirmos uma criança babando vômito erguer-se lenta como uma morta-viva no banco do carona. É uma cena aparentemente aleatória, mas denuncia uma sociedade doente em vários níveis. Outras cenas do tipo assistem aos irmãos Mitchum reclamando do estresse de uma vizinhança após outro tiroteio (uma homenagem quase literal a Quentin Tarantino, enquanto eles mesmos estão ironicamente com armas na mão), Janey-E (vivida magistralmente por Naomi Watts) passando um sabão em dois matadores de aluguel, Norma (vivida por Peggy Lipton) desistindo de ganhar “muito dinheiro” ao não transformar seu restaurante em uma franquia e aceitar seu grande amor – Twin Peaks vai diagnosticando os problemas norte-americanos como se contasse histórias curiosas sobre a decadência de uma sociedade.

Para quem não assiste à série, a impressão é que tudo é uma bagunça e que nada será respondido – mas o ponto é justamente o oposto. Eram muitas outras perguntas e parte delas foi sendo respondida à medida em que a série caminhava. Mais do que isso: depois de negar todas as referências à Twin Peaks original, seus criadores aos poucos foram entregando o ouro para os fãs mais persistentes, mostrando exatamente o que os fãs queriam assistir em um remake mas de forma menos óbvia e trivial. O episódio 16, exibido na semana passada, foi repleto destes momentos, culminando com o grandioso renascimento do Agente Cooper. Isso sem contar o revolucionário episódio 8, que parecia completamente alheio à história mas que funcionou como um mapa para entender o panorama geral da série.

Tudo indica que é isso que irá acontecer nos dois últimos episódios, que serão exibidos no fim deste domingo nos EUA e que em pouco tempo estará no Netflix brasileiro. Pouquíssimo se sabe sobre estes dois momentos e a principal dica é que cada um destes episódios tem um título (o 17 chama-se “O Passado Dita o Futuro” e o 18 chama-se “Qual Seu Nome?”), o que acaba com a expectativa sobre um longo episódio de duas horas, como se fosse um filme. Meus palpites? Linda é irmã-gêmea de Richard, Judy é o major Briggs, há uma relação entre Diane e Naido, Audrey é a sonhadora e dois grandes acontecimentos devem acontecer no Jack Rabbit’s Palace e na cadeia da delegacia de Twin Peaks, além de algo me dizer que só assim entenderemos a cena de abertura. Mas isso tudo é irrelevante. Mesmo com o fim da temporada, ao descobrirmos quais quais perguntas foram realmente respondidas e quais eram irrelevantes, a importância do seriado não precisa ser provada.

Em menos de dezoito episódios Twin Peaks fugiu de clichês, provocou intelectualmente seus espectadores, dissecou a própria mitologia e nos apresentou novos ícones, arriscou-se sempre que possível e sempre abrindo mão de recursos cosméticos como efeitos especiais, maquiagem ou trilha sonora didática, que funcionam hoje como carro-chefe comercial para a maioria das produções audiovisuais, para manter seu foco no texto, nas cenas, na direção, no roteiro e na atuação. Lynch e Frost deram as costas para o óbvio e puxaram o telespectador para um salto estético e narrativo que já serve como referência para criações futuras. Mesmo sem atingir altos índices de audiência, a terceira temporada de Twin Peaks é um dos produtos de entretenimento mais bem sucedidos deste ano e um desafio artístico incomensurável, além de ser o melhor seriado deste século mesmo sem ter terminado ainda. E será que ele termina? Afinal esta talvez seja a grande questão deste season finale: teremos uma quarta temporada?

Torço que sim, pois o melhor de tudo é a viagem, não o destino. Como disse no início, entender é o de menos.

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Outras duas cenas da nova temporada de Twin Peaks sincronizadas: o discurso do Woodsman do episódio 8 e a bebedeira de Sarah Palmer no episódio 13. Repare que ela bebe toda vez que ele fala em “drink full”…

Não é a primeira vez que duas cenas distintas parecem feitas para espelharem uma à outra nesta temporada: a cena do choque em Cooper, as cenas do Dr. Jacoby e as cenas da caixa de vidro.

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Entrevistei, para meu blog no UOL, o ilustrador brasileiro Cris Vector, que está fazendo um pôster para cada novo episódio de Twin Peaks.

O ilustrador paulistano Cristiano Siqueira, de 37 anos, era pré-adolescente quando a série Twin Peaks passou pela primeira vez no Brasil. “Nessa época eu tinha 11 anos e não podia ficar acordado depois do Fantástico pra ver a série. Lembro das chamadas na programação e sempre tive muita curiosidade de assistir”, lembra o artista, que mesmo chegando atrasado na série, aderiu ao culto da série. Quando a série teve sua terceira temporada anunciada vinte e cinco anos depois da segunda, Cris propôs-se um desafio: ilustrar um pôster para cada novo episódio da série.

“Existia uma grande expectativa entre os fãs de Twin Peaks pela volta da série, algo totalmente inesperado, já que os próprios David Lynch e Mark Frost tinham descartado uma terceira temporada em diversas ocasiões”, lembra o ilustrador. “A ideia inicial era fazer apenas um pôster, mas após assistir o primeiro episódio e conversar com alguns amigos, eu pensei que seria interessante – e desafiador – criar um pôster pra cada episódio. Pensei que seria uma maneira de superar a expectativa de uma semana entre um episódio e outro e também uma maneira de viver esse momento que todos os fãs de Twin Peaks aguardavam tanto.”

O resultado é a série de pôsteres abaixo, que vi originalmente no site Ideafixa. A repercussão tem sido ótima: “Desde quando lancei o primeiro poster, a reação tem sido muito positiva. As pessoas elogiam, agradecem, pedem prints. Usam até como foto de perfil, foto de capa. Toda vez que eu lanço um poster, eu faço postagens nas minhas contas de rede social e em grupos de discussão de Twin Peaks, no Facebook. As pessoas até já se acostumaram com os pôsteres e assim que terminam de assistir a um episódio novo, elas já vem me perguntar sobre o novo pôster”, conta Cristiano.

E ela não apenas nacional. “A conta oficial do Twin Peaks no twitter, gerenciada pela Showtime (@SHO_TwinPeaks) frequentemente curte e retuíta os posteres. Até o próprio Mark Frost retuitou um dos posteres, o do episódio 8, que é um dos mais apreciados. Percebi que alguns dos atores da série também curtiram algumas postagens, a Mädchen Amick e Dana Ashbrook curtiram alguns posteres. Mas o que mais me deixou feliz e orgulhoso foi receber uma foto do Carel Struycken, que interpreta o personagem o Gigante, posando com um dos posteres. Uma vizinha dele viu o poster do Episódio 1 e me pediu o arquivo para fazer uma print e presenteá-lo. No começo não acreditei muito, mas mesmo assim cedi o arquivo. Depois pra minha surpresa, o próprio Carel me escreveu elogiando o trabalho e ainda me enviou uma foto! Só isso já valeu todo o esforço!”

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Abaixo, toda a galeria de pôsteres de Twin Peaks até o episódio 15 feita por Cris (que também pode ser vista em seu perfil no Facebook). Dá para ver seu portfólio de ilustrações em seu site oficial:

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Episódio 1: Meu Tronco Tem Uma Mensagem Para Você

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Episódio 2: As Estrelas Se Voltam e o Tempo Se Apresenta

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Episódio 3: Peça Ajuda

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Episódio 4: …Isso Traz Lembranças

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Episódio 5: Arquivo de Casos

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Episódio 6: Não Morra

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Episódio 7: É um Corpo, Com Certeza

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Episódio 8: Tem Fogo?

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Episódio 9: Esta é a Cadeira

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Episódio 10: Laura é a Escolhida

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Episódio 11: Brincando Com Fogo

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Episódio 12: Só Se for Agora

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Episódio 13: Que História é Essa, Charlie?

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Episódio 14: Somos Como O Sonhador

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Episódio 15: Não é fácil desapegar

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Cada episódio de The Wire, uma das melhores séries de todos os tempos, começava com uma frase escrita na tela, que sempre seria dita por um dos personagens durante aquele capítulo. Um feliz desocupado deu-se ao trabalho de editar todas as frases de abertura quando elas são ditas por seus autores em um único vídeo:

É o mesmo método que uso para dar título para todos os Vidas Fodonas – gravo a abertura e tiro uma frase do texto para batizar o podcast da vez. E, sim, eu sei que eu tô devendo atualizar os VFs…

E se você quiser matar saudade de The Wire, olha esse vídeo cheio de spoilers:

Que série!

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Alguém notou uma certa semelhança entre as duas aparições do Dr. Amp na nova temporada de Twin Peaks e emparelhou as duas cenas – a primeira do quinto episódio, a segunda do décimo segundo – e o resultado é de tirar o fôlego!

Pode ser só coincidência, mas não foi a primeira vez que isso aconteceu – você viu aquela cena da caixa de vidro

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Escrevi para a revista Bravo sobre como o seriado de David Lynch mudou a relação do cinema com a TV – e continua mudando em sua terceira temporada.

Quem matou o cinema?
À parte o exagero da pergunta, foi ‘Twin Peaks’ quem, nos anos 90, levou a estética do cinema para a TV, inaugurando a atual era de ouro das séries. E agora pode estar dando um salto ainda maior

Se hoje chamamos a atual produção televisiva norte-americana de “nova era de ouro da TV”, e se o formato seriado parece abrir níveis de complexidade difíceis de serem atingidos no cinema comercial, não há dúvida que estas duas vertentes foram inauguradas há um quarto de século, quando David Lynch e Mark Frost inseminaram em um formato tido como estéril e emburrecedor a semente para que ele se tornasse uma das principais expressões da cultura contemporânea. Twin Peaks, o seriado que criaram juntos no início dos anos 90, é o big bang da atual safra de seriados. E seu improvável retorno neste ano parece abalar as estruturas do meio da mesma forma que sua primeira vinda há um quarto de século.

Antes de Twin Peaks, seriados norte-americanos eram um formato raso. Produzidos em massa como passatempo para serem consumidos nas horas vagas, contavam histórias triviais em que todos seus contratempos eram resolvidos em um episódio. Você não precisava acompanhar o seriado para saber o que estava acontecendo, e as mudanças – casamentos, divórcios, novos personagens – ocorriam com o passar dos anos. A televisão não se misturava com o cinema – era um subproduto cinematográfico que Hollywood preferia evitar.

Foi quando David Lynch e Mark Frost foram convidados para contar a história de Marilyn Monroe em um filme feito para a televisão. Frost já havia feito história na TV com o seriado Hill Street Blues (1981-1987), que acompanhava o dia-a-dia de uma delegacia que não necessariamente seguia os mesmos personagens todos episódios. Foi a partir deste seriado que a TV começou a mudar sua noção de continuidade narrativa, com personagens que apareciam e desapareciam da série sem dar notícias. A série não era sobre personagens, mas sobre um ambiente em que aqueles personagens viviam.

Lynch, por sua vez, vinha aos poucos conseguindo se equilibrar como um diretor comercial. O estranhíssimo Eraserhead (1977) continuava um alienígena em sua filmografia, que aos poucos ia acomodando sua bizarrice em filmes sobre um homem deformado (O Homem Elefante, 1980) e uma ficção científica (Duna, 1984) até achar no quintal do white trash norte-americano o melhor ninho para suas alucinações surreais, primeiro em Veludo Azul (1986) e depois em Coração Selvagem (1990). Ele sabia que conseguiria desenvolver melhor aquilo se tivesse mais tempo.

Lynch e Frost abortaram o projeto sobre Marilyn quando começaram a pender demais para as teorias de conspiração que indicavam que sua morte estaria ligada ao caso que a atriz teria tido com os dois irmãos Kennedy. Mas a partir dessa premissa começaram a escrever uma história parecida só que em uma escala bem menor – como um assassinato em uma pequena cidade do interior dos EUA poderia esconder uma série de segredos sobre essa mesma cidade.

Assim eles criaram Twin Peaks, uma cidade fictícia no noroeste norte-americano que é abalada pela notícia da morte de uma de suas adolescentes mais populares, a perfeita Laura Palmer, vivida por Sheryl Lee. Quando seu corpo é retirado amarrado em um saco plástico de dentro de um rio, a garota dá origem a uma série de desdobramentos de diferentes naturezas, que se desenvolvem a partir da chegada do agente do FBI Dale Cooper, vivido por Kyle MacLachlan, à cidade.

Até aí, tudo bem, nada indicava que Twin Peaks poderia ser algo mais profundo do que uma série policial em busca do assassino de uma personagem carismática. Mas a estranheza de David Lynch começa a tomar conta quando, aos poucos, outros elementos começam a se misturar com a história principal. Aos poucos descobrimos que os moradores da cidade são bem esquisitos e têm manias improváveis. Ao arranhar a superfície da pequena cidade, Lynch aos poucos vai nos revelando um universo de perversões, maldades e desvios de caráter que misturam a pacata cidadezinha com sexo, drogas, violência, rock’n’roll e sobrenatural.

Cabe a Frost costurar os devaneios de Lynch, mostrando as amarras improváveis entre personagens distintos. E a usar Twin Peaks como uma espécie de paródia das telenovelas norte-americanas, os únicos seriados que tinham uma narrativa contínua e que, talvez justamente por isso, eram ridicularizados como pior que os seriados da época. A dupla mergulha no coração tradicional dos Estados Unidos para mostrar pessoas desvirtuadas, estranhas e malucas fazendo coisas sem o menor sentido, atendo-se a superstições e paranoias, enquanto um universo em outra dimensão – de cortinas vermelhas, chão de ziguezague, anões que falam de trás para frente, gigantes, anéis e creme de milho – parece observar tudo à distância, monitorando e eventualmente intervindo em nosso plano de realidade.

A série teve duas temporadas e foi um fenômeno de audiência, uma febre popular que nunca tinha alcançado aquele formato. Em tempos pré-internet, o boca a boca elevava a dúvida sobre o assassino de Laura Palmer para os estranhos caminhos traçados pelo seriado, que misturava os anos 80 aos 50, criando uma sociedade norte-americana ingênua mas ao mesmo tempo bizarra e suspeita.

Mitologias

O sucesso repentino do programa fez a emissora ABC intervir cada vez mais no seriado, querendo faturar em cima de algo que nem tinha ideia como fazia sucesso, e obrigou David Lynch e Mark Frost a revelar o assassino de Laura Palmer, algo que os dois não queriam fazer por achar que a resposta enfraqueceria o mistério. A revelação, no início da segunda temporada, fez Lynch abandonar a série no meio, retornando apenas para o último episódio, que terminou de um jeito ainda mais estranho e culminou com o cancelamento da série.

A decisão da emissora ABC fez Lynch buscar outro fio condutor para aquela história, criando o filme Fire Walk with Me (1992), em que contava a história dos últimos dias de Laura Palmer ao mesmo tempo em que se afundava ainda mais na estranheza da série. O filme até hoje divide opiniões – foi vaiado ao ser exibido em Cannes e fez muitos fãs torcerem o nariz. Mas aprofundou-se em questões que tornaram o seriado cult – como, por exemplo, ter Chris Isaak e David Bowie como integrantes do elenco.

Esse estranho caleidoscópio narrativo pariu praticamente todo o universo de seriado em que navegamos hoje. Não dá para imaginar séries como Lost, The Killing, Alias, Westworld, Fargo, Mr. Robot, True Detective, Buffy – A Caça-Vampiros, Arquivo X e Desperate Housewives sem a falsa ingenuidade white trash, a construção de mitologias, os personagens excêntricos, as investigações sobrenaturais e o suspense policial criados em Twin Peaks. Mesmo o hiperrealismo, a tensão paranoica, o surrealismo e a violência do seriado abriram brechas para a existência de Walking Dead, Breaking Bad, 24 Horas, The Wire e Sopranos. Fora o fato da série existir em nosso inconsciente de diversas formas.

O que Lynch e Frost fizeram foi levar a estética do cinema de arte para a televisão. Se assistidas hoje as duas primeiras temporadas de Twin Peaks não parecem tão bizarras, é porque elas mudaram completamente a paisagem da televisão no início dos anos 90. Borraram as fronteiras entre gêneros, ultrapassaram expectativas, apelaram para o surrealismo e a psicodelia e abandonaram a racionalização e o sentido, preferindo jogar os espectadores em um mar de imagens e sons que por si só já se bastava.

Foi esse movimento de levar o cinema para a televisão que proporcionou o movimento inverso. Antes de Twin Peaks apenas Michael J. Fox havia conseguido fazer a transição da televisão para o cinema. Depois da série, atores que hoje figuram entre os maiores de Hollywood – como Will Smith e George Clooney – puderam tentar o cinema comercial a partir de suas incursões na TV. Essa tendência aconteceu ao mesmo tempo em que Hollywood passou a apostar cada vez menos no risco e em desafios narrativos, resumindo suas principais produções a remakes, continuações ou adaptações de sucessos de outras mídias (livros, quadrinhos e TV, principalmente) para as grandes telas.

Não por acaso as temporadas das principais séries hoje em dia são vistas como filmes de algumas horas de duração – mesmo obras ousadas e ambiciosas, como Game of Thrones, True Detective e Westworld, até outras menos sérias, como Stranger Things. E não por acaso Lynch resolveu retomar Twin Peaks 25 anos depois com essa mesma premissa: é um filme de 18 horas (por ser uma temporada de dezoito episódios).

E até agora Lynch está superando o esperado. Se começou a terceira temporada de Twin Peaks confundindo todo mundo com cenas fora da cidade e esvaziando seu principal trunfo (o Agente Cooper, que voltou à série completamente fora de si), aos poucos foi juntando os pontos e entregando o ouro, concretizando expectativas que os fãs esperavam há décadas.

Mas com o episódio 8, batizado de Got a Light?, ele subverte mais uma vez os rumos da televisão, e pode ter iniciado uma revolução ainda maior que a que começou há um quarto de século, principalmente porque agora qualquer um com acesso à tecnologia digital consegue produzir seus próprios filmes e séries sem muito custo ou esforço, e pela série estar sendo exibida globalmente através do Netflix.

A revolução já pode estar acontecendo – e só vamos perceber seu impacto daqui uns anos.

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Depois de ter abandonado a carreira fonográfica ao despedir-se com o disco Compton, de 2015, o produtor Dr. Dre, pai do gangsta rap, volta com a música nova “Gunfiyah”, feita para a trilha sonora do documentário seriado The Defiant Ones, que a HBO produziu sobre sua relação com outro produtor, Jimmy Iovine, que ajudou a consolidar seu nome após o fim de sua banda original, o NWA. Mas vamos combinar que Dr. Dre já teve dias melhores…

O trailer do seriado, que estreou no início de junho, vem abaixo:

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David Lynch está tentando nos mostrar alguma coisa no meio de algo aparentemente abstrato e sem sentido neste episódio 8 da nova temporada de Twin Peaks – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

Se você está acompanhando a terceira temporada de Twin Peaks e já chegou ao oitavo episódio, deve estar em algum ponto entre três diferentes reações: ou está maravilhado com o feito de David Lynch e como ele pode reverberar não apenas na história da série, mas na obra do diretor e na história da arte desse século (onde estou) ou está revoltado com o fato da história principal ter sido abandonada para entrar em elocubrações sobre acontecimentos remotos que parecem não ter nenhum vínculo com a história ou está coçando a cabeça até agora perguntando o que diabos aconteceu e como é que a série vai continuar daqui pra frente. Se você não chegou neste episódio, hora de virar os olhos e correr para fechar a aba do navegador, porque lá vem um monte de spoiler sobre a série até agora para refletir sobre o que realmente aconteceu nesse mítico oitavo episódio e quais as próximas fronteiras a serem exploradas por David Lynch.

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A boa notícia é que o episódio passado não foi completamente descolado da estranha realidade envolvendo o assassinato de Laura Palmer e da cidadezinha no noroeste americano onde seu corpo foi encontrado envolto em plástico. Got a Light?, o oitavo episódio da terceira temporada do seriado, funcionou como uma espécie de história de origem de uma tensão que agora parece ser a principal motivação por trás de tudo que assistimos sobre a série até aqui. A introdução do capítulo, com o inesperado assassinato da versão maligna do agente Cooper (vivido, claro, por Kyle MacLachlan), um estranho ritual sobrenatural que parece extrair a essência do espírito Bob de dentro do agente e aparição da atração musical do episódio, o Nine Inch Nails, logo no começo, parecia antecipar mais uma hora de sustos e estranhamentos típicos da nova temporada da série. Mas de repente algo completamente inusitado aconteceu.

Arte. Arte em estado bruto, pura arte. Vendida como um episódio de um seriado.

A série volta no tempo e, em preto e branco, assiste à explosão da primeira bomba atômica da história. Uma lenta e deslumbrante imagem fotografada com uma luz tão gloriosa quanto a primeira vez que Lynch filma Nova York no primeiro episódio da nova temporada. Sob as tensas cordas de “Lamento pelas Vítimas de Hiroshima”, do compositor polonês Krysztof Penderecki, Lynch aproxima-se cada vez mais do centro da explosão em forma de cogumelo até que a câmera perca-se na luz da explosão.

E assistimos a uma vídeo-instalação em que Lynch nos força a mergulhar em uma espécie de descanso de tela de computador com defeito, a luz fragmentada em uma nuvem de pontos que se espalham pela tela, manchas disformes que misturam tons de cores de uma forma nunca vista em uma transmissão televisiva. Um mergulho ao coração de uma explosão que ao mesmo tempo é um big bang, o início de algo completamente novo. Estamos dentro do átomo, vendo-o sendo espatifado por dentro, assistindo às estruturas sendo dissolvidas de dentro para fora. O que Lynch parece insinuar é que a diferença entre a explosão atômica e o começo do universo é só uma questão de escala. Mas esteticamente são momentos idênticos. São artes plásticas em movimento – ou como o próprio Lynch frisa, plásticas não: elétricas. As sucessões de borrões que se intercalam por minutos desafiam a paciência do espectador como qualquer cena de qualquer filme do diretor, só que sem cenários, atores, diálogos. Ele segue testando nosso limite de submissão fazendo algo que nunca foi feito em uma mídia com esse alcance. É inevitável comparações com o 2001 de Kubrick e o Árvore da Vida de Malick, filmes que tentaram traduzir esse momento em luz e som.

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Ainda sem cores, assistimos a uma sequência de caráter completamente onírico, mostrando um ser de feições indefinidas (mas que lembra o ser que entrou pelo portal em Nova York, no primeiro episódio) vomitando uma gosma amorfa cheia de ovos e casulos. Um deles captura o próprio Bob, entidade maligna responsável pelo assassinato de Laura Palmer. A imagem do ator Frank Silva (morto em 1995) no meio daquela gosma parece apontar que aquele é o seu momento de origem. Algo aconteceu no tecido de nossa realidade com a explosão da primeira bomba atômica que libertou toda aquela maldade.

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Bob, no universo de Twin Peaks, não tem uma definição precisa: não sabemos se ele é uma espécie de demônio que instiga o lado ruim dos humanos, escravizando-os em sua dor e sofrimento, ou se ele é a própria maldade inerente a todos nós, desperta por motivos improváveis. Mas o que este novo episódio parece indicar é que Bob é um tipo específico de ruindade que nasceu com a explosão da primeira bomba atômica. Talvez uma metáfora para mostrar como a humanidade se desumanizou ao cogitar a possibilidade de pulverizar cidades inteiras. Como diria o físico J. Robert Oppenheimer, um dos responsáveis pela criação da bomba, ao observar o estrago de sua invenção, citando o Bhagavad Gita indiano: “Agora eu me torno a morte, o destruidor de mundos.”

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Desafiando qualquer resquício de lógica, o episódio continua com imagens de uma loja de conveniência em um posto de gasolina com diferentes tons de luz e sombra, numa imagem em movimento que remete à estética clássica norte-americana mas de um ponto de vista sombrio, obscuro. Ao mesmo tempo em que foca e desfoca o estabelcimento comercial, o vemos sendo cercado e populado por pessoas indistinguíveis, que entram e saem da loja com a mesma velocidade abrupta de cortes e movimentos de edição que a sequência distribui. São vários minutos desta sequência também em preto e branco que parece não ter pé nem cabeça, mas está atrelada umbilicalmente à mitologia da série.

De repente o seriado nos leva para uma fortaleza blindada no meio do oceano roxo que conhecemos no terceiro episódio e num longo travelling a câmera nos leva para uma sala de estar em seu interior onde uma mulher peculiar está sentada escutando música, até que um alarme dispara. Surge então o mesmo gigante que deu as dicas para o Agente Cooper no início da temporada – ele desliga o alarme e assiste à cena da explosão nuclear e da criação de Bob por uma tela.

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Os dois – que ficamos sabendo pelos créditos no final do episódio que se chamam, respectivamente, Señorita Dido e sete pontos de interrogação – isso mesmo, “???????” – trocam olhares e demonstram preocupação com o que acabaram de assistir. É quando o gigante começa a levitar e, no ar, sua cabeça passa a expelir uma luz dourada. Esta luz se concentra em uma bola de energia que, entregue à Señorita Dido, releva o rosto de Laura Palmer. Dido beija a esfera e a lança em um estranho aparelho de tubos dourados – por outra tela, vemos que a esfera está indo em direção ao nosso planeta, especificamente rumo aos Estados Unidos.

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Corta para 1956 e assistimos a um ovo sendo chocado na areia. A cena também é filmada em preto e branco e mostra o nascimento de um ser que parece um anfíbio e um inseto ao mesmo tempo, com patas de sapo e asas de mariposa. O estranho animal desaparece no horizonte quando assistimos a um garoto adolescente conduzir sua colega de escola de volta para a casa. É uma sequência captura a atmosfera estética da cultura norte-americana clássica do pós-guerra. Sua essência está na inocente cena em que o jovem casal dá o primeiro beijo, carregada de uma candura que desapareceu de nosso planeta. A partir dessa cena acompanhamos um estranho sujeito de pele oleosa e pintada de preto que se dirige às pessoas de forma agressiva ao perguntar, com um cigarro apagado na boca, o nome do episódio (“tem fogo?”). Primeiro ele interroga a um casal dentro de um carro, que sai em fuga assustado.

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Depois ele segue em direção a um emissora de rádio, se dirige à recepcionista com a mesma pergunta, antes de espatifar seu crânio apenas com uma das mãos. Entra no estúdio onde está o apresentador da rádio e o imobiiza da mesma forma. Mas antes de matá-lo, tira o disco que está tocando, empunha o microfone e, com o cigarro ainda pendurado na boca, repete:

“Isso é a água
E isso é o poço.
Beba tudo e desça.
Os cavalos são os brancos dos olhos
E a escuridão por dentro.”

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Esse verso é repetido de forma agressiva por repetidas vezes e alcança os ouvintes do rádio, colocando-os um a um para dormir, hipnotizados – inclusive a garota que deu o beijo há poucos minutos. Ela cai na cama deitada de lado e, enquanto ouve aquela estranha oração, recebe a visita da estranha rã-cigarra que vimos sair de seu ovo nos instantes anteriores. De olhos fechados, ela abre a boca apenas para que o bicho bizarro entre inteiro dentro dela. O episódio termina com a cena da menina dormindo, nos deixando pasmos com o que acabamos de assistir.

E não estou falando apenas de um animal mitológico entrando na boca de uma adolescente dormindo.

Todo o oitavo episódio da terceira temporada de Twin Peaks é de ficar boquiaberto. Primeiro por sua beleza estética e aula de cinema – Lynch esmerilha toda sua técnica como o mestre que é, mas sem precisar ater-se a cenas tradicionais, com personagens, diálogos e cenários. Tais cenas evocam diferentes genealogias artísticas que são caras ao cineasta, como o surrealismo, o hiperrealismo, o cinema comercial dos anos 50, pintores como Edward Hopper e Francis Bacon, cineastas como Luís Buñuel, Charles Laughton e Kenneth Anger. Toda a sequência que acontece após a aparição do Nine Inch Nails – quando o episódio passa das cores ao preto e branco – poderia ser um média metragem de horror e ficção científica do pós-guerra, quando os filmes não precisavam explicar o motivo central de suas existências, apenas enfileirando cenas fantásticas e surreais para delírio de uma plateia pasma. E casualmente costura diferentes referências de suas obras – a rodovia vira uma estrada vicinal fazendo referência à Estrada Perdida logo no início do episódio, o teatro onde o gigante assiste à explosão nuclear é o mesmo Club Silencio do Cidade dos Sonhos e todo o episódio é a obra mais próxima que o cineasta já fez de seu primeiro filme, o bizarro Eraserhead.

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Mas por trás daquelas imagens aparentemente dispersas, há o cerne de toda a história de Twin Peaks, que juntas pontas de diferentes histórias da mesma forma que o sétimo episódio havia feito na semana anterior. Se antes havíamos visto a versão má do agente Cooper reencontrar a mítica personagem Diane apenas para depois negociar sua fuga da prisão, vimos o reaparecimento das páginas desaparecidas do diário de Laura Palmer e assistimos ao letárgico Dougie viver seu momento mais próximo da versão boa do agente Cooper, neste episódio mais recente tivemos conexões sendo finalmente ativadas – mas num plano metafísico. E a chave para estes momentos são estes estranhos personagens que haviam aparecido duas vezes na nova temporada causando um desconforto sobrenatural até mesmo para os níveis de Twin Peaks – e que no oitavo episódio finalmente ganham nome (na cena dos créditos finais, cada vez mais funcional para a narrativa da série). Os Woodsmen – os homens da floresta.

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São eles quem aparecem logo que o personagem Ray Monroe (vivido por George Griffith) mata a versão má do agente Cooper de surpresa e começam a causar a lenta náusea audiovisual do início do episódio. São oito personagens cujas imagens se sobrepõem num efeito especial barato, seus corpos translúcidos dançando ao redor do cadáver de Cooper para o horror de seu assassino. Três deles caem sobre o corpo e passam a mexer em suas entranhas, sujando-o ainda mais de sangue, principalmente no rosto. O tempo e o espaço parecem se diluírem naquele momento e nós ficamos tão horrorizados com aquela cena quanto o próprio Ray. Até que os Woodsmen extraem um objeto redondo de dentro do corpo de Cooper – e nele conseguimos ver o rosto de Bob.

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São os Woodsmen que também entram e saem da loja de conveniência na sequência menos narrativa de todo o episódio. Mas o que parece completamente aleatório e arbitrário tem explicação específica no filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Laura Palmer: Fire Walk With Me) que David Lynch dirigiu logo após o cancelamento da série original em 1991. Completamente diferente do tom da série, Fire Walk With Me explora o lado mais sobrenatural e violento de Twin Peaks e foi rechaçado em seu lançamento por fãs e críticos – foi vaiado em Cannes e mais de uma vez referido como o pior filme já feito.

No entanto, é dele que saem as primeiras referências à loja de conveniência e aos Woodsmen na série. Especificamente quando nos encontramos com o agente Philip Jeffreys, vivido por David Bowie. Desaparecido após investigar um crime parecido com o assassinato de Laura Palmer, Jeffreys volta a aparecer nas dependências do FBI exatamente como o agente Cooper havia previsto em um sonho. Ele surge vestindo a mesma roupa com que foi visto pela última vez quando desapareceu dois anos antes na Argentina e fala que esteve no “andar acima da loja de conveniência”. Quando ele descreve esta cena para Cooper, para o agente Albert Rosenfeld (vivido por Miguel Ferrer), para Gordon Cole (o agente do FBI interpretado pelo próprio David Lynch), a cena desfoca para este ambiente estranho em que o Homem do Outro Lugar (também conhecido como o anão que fala de trás pra frente) e o espírito de Bob estão sentados frente a frente em uma mesa.

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As duas cenas – da volta de Jeffreys e da reunião no andar de cima da loja – são mais longa na versão original do filme, que David Lynch publicou depois na série de cenas Missing Pieces, anos depois do original. Primeiro, a da volta do personagem de David Bowie:

Depois, a do andar de cima da loja de conveniência:

Ao seu redor, pessoas que são creditadas como sendo os Woodsmen daquele filme. Eles nada fazem, apenas assistem ao diálogo entre Bob e o anão, que menciona a conexão entre dois mundos, o anel que Laura Palmer usava quando tinha morrido, a cor de uma mesa de fórmica e “garmanbozia” – o nome que estes espíritos dão à dor e ao sofrimento humanos, que eles comem como se fosse um alimento (materializado na forma de creme de milho).

Garmonbozia

O andar acima da loja de conveniência é uma versão menos glamourizada do Black Lodge, o ambiente de cortinas vermelhas e chão em ziguezague que tornou-se uma das assinaturas visuais da série. Nota-se, no entanto, que a loja de conveniência que vimos no oitavo episódio da terceira temporada não tem um andar de cima. É como se a cena do oitavo episódio fosse uma alegoria para a própria criação do Black Lodge.

Do mesmo jeito que outras duas cenas foram alegorias para a criação de dois outros personagens: Bob surge vomitado pelo experimento, entidade maligna que, aparentemente, conseguiu entrar em nosso plano material a partir da explosão da primeira bomba atômica. A reação à sua criação leva à criação de Laura Palmer – ou ao menos de sua força espiritual, que é enviada para a terra como um antídoto à criação de Bob. É como se ela tivesse sido criada para ser sacrificada – uma espécie de isca para atrair o mal e expô-lo, uma versão feminina, vitimizada e sobrenatural de um Jesus Cristo de Twin Peaks.

E, finalmente, temos os Woodsmen no momento em que a estranha criatura consegue sair da casca de seu ovo em 1956. É como se eles tivessem sido acionados para dar força para este ser, de forma que ele conseguisse encontrar seu hospedeiro mais facilmente a partir do mantra recitado pela rádio por um dos Woodsman. Mas que bicho é esse? Que ovo é esse? Ele é a essência de Laura Palmer ou um dos milhares de ovos que foram vomitados junto com o ovo de Bob? E a menina que engole o sapo com asas? Ela tem a idade para ser a mãe de Laura Palmer, Sarah, mas porque a essência de Laura teria a forma de um bicho tão estranho?

Depois de todos acontecimentos épicos deste episódio, uma coisa fica clara: tudo que aconteceu em Twin Peaks no final dos anos 80 é o desdobramento de um embate muito maior, que começou no momento em que o ser humano detonou a primeira bomba atômica. É como se o experimento físico tivesse um desdobramento sobrenatural, provocando um impacto metafísico que pode ter aberto fissuras em nossa realidade, dando espaço para a entrada de um novo tipo de maldade, que não conhecíamos até então. Física enquanto satanismo, ocultimo que se mistura com ciência. O assassinato de Laura Palmer não é uma morte aleatória nem apenas mais uma das mortes provocadas por um espírito do mal – e sim o duelo final entre duas forças ocultas em nosso plano material.

Os Woodsmen parecem ser a chave deste processo, mas não temos a menor ideia de quem são essas pessoas, como elas foram criadas, como elas interagem com os seres humanos e a serviço de quem elas estão. E o Agente Cooper parece ter acordado livre da presença nefasta de Bob.

Mas são poucas pistas do que pode vir a acontecer nos próximos dez episódios. A principal delas é a de que o agente Philip Jeffreys – que sabemos, graças a Fire Walk With Me, que ele pode viajar no tempo e no espaço – pode estar por trás de tudo isso, o que pode provocar outro grande momento da série nos próximos episódios: a aparição de David Bowie depois de sua morte. A presença de Jeffreys vem sendo mais que insinuada desde que a série voltou e Lynch filmou a nova temporada durante o período em que Bowie anunciou seu último disco, alguns meses antes de sua morte. Se lembrarmos que Lynch já pode contar, nesta terceira temporada, com a presença além-túmulo de atores da série original que morreram durante a produção desta nova safra de episódios (como as aparições da Log Lady vivida por Catherine Coulson, que morreu em 2015, e do Will “Doc” Hayward vivido por Warren Frost, que morreu no início deste ano) e que o último disco de David Bowie foi sobre sua própria morte, não é de se estranhar que o popstar inglês tenha conseguido uma brecha na agenda do final de sua vida para retornar a um personagem tão emblemático mesmo após sua morte.

E isso é só um detalhe na história toda. Além das questões que vinham sendo sugeridas até o sétimo episódio, o oitavo muda novamente as regras do jogo de uma forma brusca. Depois deste episódio, David Lynch estabeleceu que quaisquer tentativas de tentar prever o que pode acontecer nos próximos capítulos pode ser frustrada num instante. No nono episódio, que chega ao Netflix brasileiro nesta segunda-feira, podemos voltar à narrativa original de Twin Peaks, ao Black Logde, ao plano sobrenatural do oceano roxo, às tentativas do agente Cooper de sair de Doogie – ou podemos ir para um lado completamente novo e improvável da história, que não nos havia sido revelado até então. De novo.

Mais uma vez, Lynch pede para que deixemos o sentido de lado e que apenas curtamos a viagem. É o que importa.

Psicodelia visual

davidlynch

O episódio mais recente de Twin Peaks levou a série para perto de Júpiter, como nos lembram esses mashups que eu publiquei no meu blog no UOL.

Ainda estamos sentindo os primeiros tremores do espasmo sensorial que foi o oitavo episódio da terceira temporada de Twin Peaks – enquanto alguns tentam decifrar os códigos deixados nas entrelinhas e outros buscam o sentido metafísico em relação ao resto do seriado, muitos deixam-se levar pelo simples aspecto lúdico da exposição ao imaginário sombrio e transcendental de David Lynch e os primeiros filhotes já começam a surgir em forma de paródias, remixes e memes. Um dos melhores até agora é esse incrível mashup entre a deslumbrante cena da primeira bomba atômica ao som de “Echoes”, do Pink Floyd, na versão que o grupo tocou ao vivo em um teatro de arena nas ruínas da cidade de Pompéia, na Itália. Preciso dizer que há spoilers da série para quem não viu o episódio? Tudo bem, está dito:

Não é a primeira vez que “Echoes” se mistura a uma cena imediatamente clássica, deslumbrante e psicodélica. Os fãs do Pink Floyd devem reconhecer essa superposição genial entre a música que ocupa todo o lado B do disco Meddle e o terceiro ato do épico existencial de Stanley Kubrick, 2001 – Uma Odisséia no Espaço.

E é claro que iriam fazer o caminho de volta, recriando a cena do episódio histórico de Twin Peaks com a trilha sonora do clássico da ficção científica de Kubrick, “Réquiem para Soprano, Mezzo-Soprano, Dois Corais Mistos e Orquestra”, do compositor húngaro György Ligeti:

Já foi comentado o grau de parenteso entre as duas cenas e a trilha sonora utilizada por Lynch em sua cena original, a tensa “Threnody to The Victims of Hiroshima” do compositor polonês Krzysztof Penderecki já havia sido usada pelo próprio Kubrick em outro de seus clássicos, o filme de horror psicológico O Iluminado, de 1980. É uma composição de tirar o fôlego:

Ainda estou digerindo o episódio e devo escrever sobre seu significado em relação ao resto da série em breve.