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“Ainda há tempo de fazer algo mudar!”

Nesta quinta-feira o Inferninho Trabalho Sujo atingiu um novo patamar. Em nossa terceira edição no Cineclube Cortina, batemos nosso recorde de público ao mesmo tempo em que apresentamos um artista que foge do padrão de um artista iniciante – apesar de sê-lo. Em vez de mais de um show por noite, uma única apresentação, inspirada num único disco, mostrando que mesmo que as pessoas no palco ainda estejam na casa dos vinte anos isso não se traduz apenas em urgência, intensidade ou carisma, elementos intrínsecos do início de qualquer carreira artística. Claro que o coletivo Maria Esmeralda tinha tudo isso, mas ao apresentar pela terceira vez a história de seu disco no palco, reforçam os elementos daquilo que chamam “nova ternura” no disco, algo que é sensível e responsável ao mesmo tempo, equilibrando diferentes metades para que possamos driblar esse futuro espartano que teima em se avizinhar. E ao espalharem-se mais uma vez pela sala de estar que montam em seu palco, o inacreditável Thalin, VCR Slim, Pirlo, Cravinhos (de novo esmerilhando na guitarra e no violão) e Langelo reuniram mais uma vez parte das participações do disco, celebrando-o ao lado dos grandes Doncesão, Servo, Quiriku, Rubi, Matheus Coringa e Marília Medalha (mais uma vez em uma gravação), que ajudaram a temperar ainda mais a noite épica, mostrando que um dos melhores discos de 2024 também é um dos melhores espetáculos do ano. Baita orgulho de dar esse palco pra eles, afinal é essa nova geração que vai tomar conta daqui a pouco – ou como eles mesmos dizem: “Ainda há tempo de fazer algo mudar!”

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Sem embaraço

Desembaraçou! Sempre é bom ver um artista desabrochar e nesta terça-feira tivemos mais uma oportunidade no Centro da Terra de ver outra carreira musical tomando corpo naquele palco pela primeira vez. Quando Leon Gurfein me falou que queria soltar seu canto profissionalmente no palco, minha intuição disse que seu senso estético espalharia-se facilmente para a música. Há uma década convivendo com artistas de diferentes portes pelos bastidores (Leon faz cabelo, maquiagem e produção visual para nomes como Ava Rocha, Liniker, Tulipa Ruiz e Johnny Hooker, entre outros), ele mostrou sua familiaridade com o palco a partir de sua paixão pela música, que começou pela coleção de discos do pai nas proximidades daquele mesmo teatro, como fez questão de contar nos vários momentos em que conversou com o público e transformava o palco em seu salão e num divã ao mesmo tempo. A apresentação começou com uma cama ambient proposta por sua banda, que Leon batizou de Las Gatas Embarazadas, e Helena Cruz (guitarra, baixo e synthbass), Lauiz (teclas e MPC) e M7i9 (sintetizador, flauta, guitarra e saxofone) emudeceram a plateia por longos minutos, deixando a expectativa palpável para que a estrela da noite entrasse e cantasse suas próprias músicas – parte delas em espanhol – e versões, duas delas divididas com Manu Julian, que subiu ao palco para cantar duetos com Leon em versões em castelhano para “Little Trouble Girl” do Sonic Youth e em português para a clássica “Sea of Love”. Leon encerrou a noite misturando músicas de Ava Rocha, d’O Terno, Portishead e Luiza Lian a “Lágrimas Negras” e “Jorge da Capadócia”, como se invocasse proteção de seus orixãs pessoais da música para aquele momento, antes de cantar mais uma canção própria para fechar a noite. Ele nem esperou sair do palco para anunciar o bis, quando voltou à primeira música da noite acompanhado de um coral estelar formado por Manu, Lorena Pipa, Thiago Pethit, Laura Lavieri, Luiza Lian e Ana Frango Elétrico, espalhando a catarse que claramente sentia para o resto do teatro. Agora já está no mundo!

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Acariciando traumas

“Músicas são como tatuagens”, Jair Naves comentou no meio do seu segundo show da temporada que está fazendo às segundas-feiras no Centro da Terra, ao subir no palco do teatro ao lado de seu velho comparsa Renato Ribeiro para burilar velhas canções como quem acaricia uma cicatriz para lembrar da dor original ou mergulha no próprio inconsciente para encarar um trauma adormecido. “Quando a gente foi passando por esse repertório eu me lembro exatamente quem eu era quando fiz essas músicas, o que eu tava vivendo, o que tava me afligindo, por quem eu estava apaixonado e obviamente se você tem muitas tatuagens, você gosta mais de umas do que de outras, mas hoje escolhi minhas melhores”, comentou enquanto tocava mais violão que na primeira noite, quando preferiu cantar sem tocar nenhum instrumento, e acompanhado apenas pela guitarra delicada de Renato, passeando por canções de seu repertório ou que nunca tinha tocado ao vivo ou que há muito não encarava nos palcos. Nisso, pinçou pérolas como “Silenciosa” (de seu disco de estreia, Araguari, de 2010), a faixa-título de seu disco de 2011, Um Passo por Vez, várias de seu E Você Se Sente numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas de 2012 (“Poucas Palavras Bastam”, “Vida Com V Maiúsculo, Vida Com V Minúsculo”, “Guilhotinesco”, “No Fim da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas” e “Eu Sonho Acordado”, que conectou com o filme Ainda Estou Aqui para falar sobre a ditadura militar brasileira), uma de Trovões a Me Atingir de 2015 (“Um Trem Descarrilhado”), duas do Rente de 2019 (“Veementemente” e “Gira” esta tocada com Renato ao metalofone) e uma de Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo de 2022 (“A Luz Que Só Você Irradia”), além de cantar só no gogó a novíssima “Névoas”, de onde tirou o verso que batiza a temporada (“O Significado se Desfaz no Som”) e em que fez um comentário sobre um comentário que leu na internet sobre a música. Apesar da delicadeza da apresentação ter sido ainda mais intensa que a da primeira, ele conseguiu convencer o público a cantar junto e deixou emoções desaguar enquanto cutucava as próprias feridas. Uma noite especial.

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Festival consolidado

Quando o Dinosaur Jr deixou o palco do Tokio Marine Hall neste domingo deixando quase todos surdos num dos shows mais altos que ouvi em tempos, também coroava um ano de ouro para a Balaclava. O selo, que vi começando quase como um projeto paralelo de dois integrantes da banda indie Single Parents, conseguiu feitos consideráveis neste 2024 que chega ao fim: desde lotar um lugar enorme e desconhecido no raio que o parta para assistir a uma banda literalmente desconhecida de quem não frequenta a cena indie (num show histórico do King Krule no Terra SP) a fazer a principal banda do selo, o Terno Rei, atingir alturas que uma banda indie brasileira raramente atingiu a trazer os Smashing Pumpkins para um Espaço das Américas lotado, atingindo um patamar inédito de público em sua história. O já tradicional festival que aconteceu neste domingo foi só a cereja do ano que termina, para o selo.

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Pé na Porta

Mais um Inferninho Trabalho Sujo neste sábado, num lugar em que já tínhamos realizado uma apresentação – mas agora no novo endereço. A nova Porta, que saiu da Vila Madalena rumo à divisa do antigo bairro com o bairro de Pinheiros, em frente ao cemitério, está num espaço mais amplo, com direito inclusive a um mezanino, o que torna o ambiente, que antes era aconchegante, em um salão espaçoso e ao mesmo tempo acolhedor. E quem começou os trabalhos neste sábado foi a Schlop da cantora e compositora Isabella Pontes, que agora fechou uma nova formação, com sua líder na guitarra e vocais sendo acompanhada de Lucia Esteves na guitarra, Alexandre Lopes no baixo e Antônio Valoto na bateria. E assim passaram pelas composições dos dois discos já lançados (Canções de Amor para o Fim do Mundo, do ano passado, e Senhoras e Senhores, Cachorros e Madames, deste ano), além de tocar o recém-lançado single “Julia Butterfly” e uma versão para “Gold Soundz”, do Pavement, esta tocada como gorros de Papai Noel (como no clipe da banda) e com a participação da entourage da banda Miragem, com Camilla Loreiro na guitarra e Mariana Nogueira e Thais Neres nos vocais, com Bella apresentando-as como as minas que fizeram um moshpit durante “Grounded”, do show que a banda norte-americana fez no Brasil esse ano. Orgulho indie!

Depois foi a vez da banda Miragem subir ao palco da Porta e encarar um desafio: tocar seu disco de estréia Muitos Caminhos Prum Lindo Delírio, lançado no mês passado, na íntegra e com as músicas na mesma ordem de apresentação do álbum, incluindo músicas que nunca tocaram ao vivo. O quarteto é liderado pela multitarefa Camilla Loureira – que reveza-se entre o teclado e a guitarra, além de fazer os vocais, assinar as composições, as artes e a animação do clipe da banda -, ainda conta com a segunda guitarra de Gustavo Esparça, o baixo de Rafael Biondo e a bateria de Lucas Soares e está quase incluindo a videomaker Mariana Nogueira como tecladista efetiva e tem esse som indefinível por misturar música pop com rock progressivo e guitarras pós-punk, como se cada integrante puxasse a sonoridade para um lado diferente, causando um impacto ao mesmo tempo estranho e familiar. Depois da Miragem segui discotecando até o fim da festa, que foi ótima – tanto que já estamos cogitando outra… pra essa semana?! Aguarde e confie.

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De dentro pra fora, como um pesadelo

“Existir como a silhueta de uma faca roubada passada de mão em mão sempre entre os dedos certos”, repetia Natasha Felix durante a apresentação que fez no Centro da Terra ao lado do DJ Glau Tavares, evocando diferentes autores para tornar o corpo redivivo por seu poema O Primeiro Segredo Dito a Lázaro ainda mais incomodado com o fato de não ter morrido – “não levanta da tumba, morto, recalcula a rota!”. E enfileirando Sylvia Plath, um poema sobre um poema de Nicanor Parra, o único par de versos de Emily Dickinson que leu, a viagem de volta à África feita por Saidiya Hartman e como Stella do Patrocínio via a fuga (“o negro não se esquiva, escapa, desaparece”), ela foi criando um clima tenso e hipnótico ao enumerar sensações diferentes com seu mesmo timbre doce, monotônico e implacável enquanto loopava a própria voz eletronicamente pela primeira vez num palco. Enquanto Natasha experimentava a musicalidade de seus versos envolvendo-se com os versos alheios, a outra metade criadora do espetáculo Lamber as Feridas, o DJ Glau Tavares, criava um clima de opressivo que ecoava música eletrônica dos anos 80, uma versão industrial de um hip hop instrumental com toques de funk, house music e EBM – e o encontro daquelas duas narrativas ainda era temperada pela luz da dupla Retrato (Ana Zumpano e Beeau Gomez estão desenvolvendo uma senhora carreira paralela como iluminadores de show – e desta vez Ana interferiu inclusive na cenografia), que tratava claros e escuros com a distinção do ritmo dos beats e da tensão das palavras, crescendo forte, como ela mesma disse, “sempre de dentro pra fora, como um pesadelo”. Bravo!

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Uma outra intensidade

“Na minha vida eu tive muitas ideias questionáveis, mas Ludovic acústico é top 3, com certeza”, brincou Jair Naves logo do início da primeira apresentação de sua temporada no Centro da Terra, batizada de O Significado se Desfaz no Som. E o título se materializou quando trouxe dois integrantes do grupo que lançou sua carreira artística para visitar suas canções num formato completamente inusitado – que funcionou. Para quem estava acostumado à catarse noise e emotiva que caracteriza as apresentações do grupo, que voltou apresentar-se ao vivo este ano por conta do aniversário de vinte anos do primeiro álbum, Servil, encontrou um momento íntimo e delicado em que as canções ganharam outro sentido, quando a voz de Jair não berra e as melodias encontravam-se entre a guitarra de Eduardo Praça e o violão de Zeke Underwood, por vezes acompanhados do próprio Jair ao violão, mostrando uma outra intensidade, mais sentimental, das canções do grupo. Foi a oportunidade também de mostrar ao vivo duas músicas que nunca haviam sido tocadas ao vivo, as acústicas “Sob o Tapete Vermelho” e “Unha e Carne”, do disco Idioma Morto, de 2006, e Naves levou-se pela emoção ao reencontrar-se com versos e frases expostos de forma tão aberta e nua, para além do escudo de ruído criado pelo barulho da banda, culminando com uma versão belíssima para “Qorpo-Santo de Saias”. E se a primeira noite já teve esse misto de frescor e sensibilidade, imagine as próximas…

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Quando Billy Corgan está bem humorado…

A única expectativa que tinha pro show dos Smashing Pumpkins que aconteceu em São Paulo neste domingo no Espaço Unimed era que confirmasse a boa fase de seu líder Billy Corgan e que isso pudesse proporcionar um show em que as canções clássicas do grupo não se misturassem à cacofonia metal industrial que tomou conta de seu imaginário musical desde o início do século. O disco lançado este ano, Aghori Mhori Mei, já dava uma boa pista que Billy conseguira exorcizar a paranoia que tinha que sua banda soasse nostálgica e abraçou a psicodelia noise que forjou no início dos anos 90, trazendo inclusive de volta para o grupo dois integrantes fundadores, James Iha e Jimmy Chamberlin. O começo do show não ajudou nessa impressão, com uma introdução brega, músicas menores e o som embolado característico daquela casa de shows, que praticamente descaracterizou o que poderia ter sido uma ótima versão para “Zoo Station” dO clássico eletrônico do U2 Achtung Baby. Mas à medida em que o show foi passando, o som foi se acertando e estava nítido o bom humor de Billy Corgan, que inclusive improvisou e saiu do script, ao incluir duas versões acústicas que tocou sozinho no violão: “Landslide”, do grupo Fleetwood Mac e “Shine On, Harvest Moon” da esquecida cantora Ruth Etting, que já foi um dos grandes nomes do showbusiness dos Estados Unidos. O clima ia melhorando à medida em que o show passava e, salvo alguns porcos momentos em que a banda parecia um subgrupo de new metal ou uma paródia da pior fase do Iron Maiden, a precisão aparentemente solta dos hits dos clássicos Gish e Siamese Dream e a grandiosidade opulenta das canções de Mellon Collie & The Infinite Sadness vieram com força e gosto, para deleite dos fãs, em sua maioria contemporâneos da banda. E entre “Today”, “Tonight, Tonight”, “Mayonaise”, “Bullet with Butterfly Wings” e “1979”, encerraram o show com chave de ouro e astral tão alto (nunca vi Corgan sorrir tanto!) que às vezes parecia contradizer a melancolia das canções originais, o grupo terminou a noite celebrando clássicos do rock, ´primeiro citando Black Sabbath, AC/DC e Led Zeppelin na hora que a banda foi apresentada, depois misturando o riff de “Are You Gonna Go My Way” do Lenny Kravitz com o de “Zero”, logo depois de uma versão excelente de “Cherub Rock”. A banda ainda pegou todo mundo de surpresa ao voltar com um inesperado bis, em que tocaram nada menos que “Ziggy Stardust” de David Bowie, com Iha nos vocais. Um final épico para um show que, apesar de começar mal, acertou exatamente na expectativa que tinha.

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Estreia de tirar o fôlego

Soberba a apresentação de estreia que Nina Maia fez de seu recém-lançado disco Inteira no Sesc Avenida Paulista, quando trouxe uma versão de gala do formato que vem mostrando desde o início do ano: além de seu teclado teve um piano de cauda, além da viola de Thales Hashiguti, contou com a voz e o violoncelo da amiga e parceira Francisca Barreto e aproveitou ter a cozinha do grupo Os Fonsecas – Valentim Frateschi no baixo e Thalin na bateria – para trazer uma das canções deste último para o palco. Ela foi mostrando o disco lentamente, primeiro sozinha em primeiro plano acompanhada apenas de efeitos sonoros, depois tocando o teclado no centro do palco enquanto os outros músicos faziam suas entradas, deixando suas canções, que soam clássicas e modernas ao mesmo tempo, com um peso físico que no disco é filtrado por timbres eletrônicos. Com vídeos em P&B em alto contraste no telão pilotado por Danilo Sansão e com as luzes finas tocadas pela dupla Retrato (Ana Zumpano e Beeau Gomez), o show teve seu ponto alto quando Nina emendou sua épica “Salto de Fé” com “Todo Tempo do Mundo” do disco Maria Esmeralda, quando o baterusta autor da canção original soltou sua voz na frente do palco para cantar uma versão inacreditável do hit. Uma estreia de tirar o fôlego.

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Outro solo

Luiza Villa começou uma nova fase com estilo, força e delicadeza ao apresemtar=se neste sábado dentro da programação Ágora Zumbido, realizada pelo músico Valentim Frateschi no pequeno teatro Ágora no Bixiga. Ao encher a casa para mostrar suas canções pela primeira vez sem estar sozinha no palco, a cantora e compositora convidou as instrumentistas Marcella Vasconcellos e Yasmin Monique para acompanhá-la em quase uma hora de canções que batizou de Cartas e Segredos, título de uma de suas próprias composições que escolheu para abrir a noite, que ainda teve uma mistura de “Água” do Djavan com “Ten Years Gone” do Led Zeppelin, uma canção da baixista e tecladista Marcella (que foi para o violão e deixou Luiza assumir o baixo) e uma versão deslumbrante para “Ponta de Areia”, do Milton Nascimento, quando recebeu a violoncelista Francisca Barreto para acompanhá-la no final do show, que trouxe outra composição de Luiza, esta em inglês (chamada “These Old Chords”), na hora em que o público pediu bis. A apresentação, que dirigi ao lado da própria Villa, terminou com um coro de “Parabéns a Você” cantado para Marcella, que aniversariava naquele mesmo sábado. Uma noite feliz.

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