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O ritual Badu

Erykah Badu prometeu e cumpriu. Transformou mais uma vinda ao Brasil em uma catarse coletiva, terreiro cósmico em que misturou jazz, soul, funk, rap e boas doses de bossa nova, como ela mesma fez questão de frisar. Num evento em que tudo funcionou direitinho no Memorial da América Latina, ela esquentou o caldo da expectativa – que era palpável desde que o sol havia se posto, quando o público chegou em peso ao local – e o transbordou com exuberância, sensibilidade e técnica. Ela mostrou sem dificuldades o quanto domina tudo ao seu redor – a banda, o público, a tensão da atmosfera -, e transformou o início da noite de domingo num enorme rito transcendental, em que todos cantavam joias como “On & On”, “Appletree” e “Bag Lady” com a mesma intensidade e paixão de sua autora. Badu conduzia o público como a maestra que é, elevando a já alta temperatura deste verão de 2023 com arroubos vocais de tirar o fôlego, toque ancestral em suas percussões digitais e altas doses de simpatia – até se jogou no público duas vezes na última música, posando pra fotos e deixando os fãs cantarem trechos ao microfone. O único vacilo foi terem cortado o som no finzinho do show – ela já tinha ultrapassado o tempo limite do lugar e estava lentamente terminando a apresentação, mas a organização foi severa e deixou o fim do show com um gosto estranho. E bem que podiam ter colocado o show da Larissa Luz com a Anelis Assumpção exatamente antes do show da deusa, não no início da tarde… E quem quiser ver mais do show é só seguir assistir abaixo.  

Don L é cada vez mais o cara

A primeira sexta-feira do ano começou maravilhosamente bem, com o mestre cearense Don L se afirmando cada vez mais como um dos maiores nomes da música brasileira atual. Sempre escudado pelo trio DJ Roger, Terra Preta e Alt Niss (esses dois tão cantando cada vez mais!), o guerrilheiro da voz apresentou-se no Sesc Bom Retiro, quando desfilou seus clássicos mais recentes e ainda anunciou, como quem não quer nada, o volume 2 de seu Caro Vapor, que completa dez anos neste ano que começa. 2023 promete!

Assista abaixo.  

Gal Costa (1945-2022)

Que notícia pesada. Fuçando aqui nos meus arquivos, encontrei o vídeo de um show que Gal fez quando cobri a Flip pela primeira vez, em 2014. Já tinha visto outros shows dela e não tinha gostado do Recanto, seu disco mais recente à época, mas não tinha como não ir lá conferi-la tocando de graça na Praça da Matriz no centro de Parati. Acompanhada por um trio de meninos – Pedro Baby na guitarra, Domenico Lancelotti na bateria e Bruno Di Lullo no baixo -, ela não levou muito tempo para mostrar porque era uma das maiores cantoras do Brasil. Rever essa apresentação de “Vapor Barato” me trouxe a mesma sensação que tive ao vê-la ao vivo: a de estar minúsculo frente a uma gigante. Não consigo nem pensar em quais palavras usar para definir sua falta, por isso reforço sua presença eterna. É como ela diz na música de Jards que tornou sua: “Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer que eu não acredito mais em você…”

Assista aqui.  

Primavera Sound São Paulo – Dia 2

O segundo dia da versão paulistana do Primavera Sound correu ainda mais suave do que o primeiro. Talvez por não ter atrações tão midiáticas quanto Arctic Monkeys ou Björk, o domingo do festival atraiu um público mais afeito ao trabalho dos artistas – ou, melhor dizendo, das artistas. O festival consagrou uma versão feminina do pop contemporâneo que se traduzia tanto no público quanto no astral coletivo, deixando tudo mais receptivo e suave, tolerante e acolhedor. O domingo foi das mulheres e mesmo que Travis Scott tenha atraído uma enorme massa para o palco do patrocinador principal (o pior palco do evento, disparado), corações e mentes foram tragados pela alma fêmea do festival, que no segundo dia foi representada especificamente por Phoebe Bridgers, Jessie Ware (o melhor show de todo o fim de semana!), Lorde e Arca.

Vamos aos shows…  

A épica volta do Mestre Ambrósio

Sesc Vila Mariana @ São Paulo
4 de novembro de 2022

Essa sexta-feira foi especial. Dia 4 de novembro de 2022 não foi apenas a primeira sexta-feira em anos que pudemos suspirar aliviados, mas também a data que o Mestre Ambrósio escolheu para retomar as atividades. Não é exagero dizer que é uma das voltas à atividade mais importantes da música brasileira recente. Mais do que um dos principais faróis do movimento que fez com que Recife voltasse ao mapa do mainstream brasileiro, o grupo pernambucano também é um dos principais responsáveis pela revalorização da cultura popular do país – aquela que não vende discos nem toca nas rádios, nem gera plays ou likes pela internet.

É uma cultura, como o próprio Siba explicou durante o primeiro show da volta, que aconteceu no Sesc Vila Mariana, que mantém-se viva a despeito de ter sobrevivido apenas com as sobras da riqueza que entregou ao país. Uma cultura que mistura linguagens, símbolos e etnias que normalmente são associadas ao oposto do conceito de progresso (esse “progresso” destruidor que normalizou uma figura tão abjeta quanto o futuro-ex-presidente), mas que, em sua essência, são a maior vanguarda cultural já produzida por aqui. Para além do mangue beat, o Mestre Ambrósio fez renascer o orgulho ao redor destas manifestações tão rica e vê-los de volta ao palco, vinte anos depois da separação que aconteceu no início do século, mantendo a mesma formação e energia que sempre mantiveram foi de encher os olhos.

Siba, Maurício Bade, Helder Vasconcelos, Sergio Cassinado, Eder O Rocha e Mazinho Lima estavam melhores do que nunca e estão retomando uma carreira que certamente correrá o Brasil num momento em que o país tanto precisa disso. O show foi emocionante em muitas camadas e, apesar dos ingressos já terem se esgotado, vale dar uma passada um pouco antes do show começar por lá, sempre tem algum ingresso que sobra… Não irá se arrepender – isso é história sendo feita.

Assista aqui.  

Super Bruni Bros

Em seu espetáculo N64, que aconteceu nesta terça-feira Bruno Bruni conduziu o público do Centro da Terra para uma viagem à fase 64 bits do personagem de games Super Mario, a partir das trilhas dos jogos Super Mario 64 e Mario Kart. Acompanhado de uma bandaça com vocais de Marina Marchi e Flavia K, saxes com Cassio Ferreira, Thomas Souza e Anderson Quevedo, Felipe Pizzu no baixo, Vincente Pizzu na bateria e Pedro Luce nas percussões e MPC, o jovem maestro regeu as paisagens sonoras dos games com um pé no jazz e outro na música brasileira instrumental, temperando com algumas canções do seu próprio repertório – e sem nunca deixar o astral cair. Uma noite surreal!

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Psicodelia de brinquedo

Que maravilha a apresentação que a Raquel Dimantas fez neste primeiro dia de agosto no Centro da Terra, quando, acompanhada de uma bandaça formada por Guilherme Lírio, Iuri Brito, Pedro Fonte e Bruno Di Lullo, desfilou as músicas de seu disco de estreia ao vivo pela segunda vez na vida e encontrou um cantinho pra mandar um “I Shall Be Released” e essa pérola do mestre Erasmo que é “Grilos”.

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Depois de uma longa turnê

E que saudade que eu tava de assistir a Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo ao vivo, principalmente após acompanhar pela internet a longa turnê que o grupo fez pelo Brasil no primeiro semestre (quase 20 cidades!). E no show que fizeram no Sesc Av. Paulista lançando seu primeiro vinil (pelo selo Amigues do Vinil) nessa sexta não apenas passearam pelos hits de seu primeiro disco, como apresentaram várias músicas novas – e ainda chamaram Lucinha Turnbull para acompanhá-los em uma das músicas. É sempre bom!

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Da psicodelia ao krautrock

O encontro da Bike com o guitarrista Guilherme Held, que produziu o próximo disco da banda, Arte Bruta, no Centro da Terra, convidou o público a um transe coletivo que ia da psicodelia ao krautrock, passando pelo noise e fusion, numa catarse melódica e barulhenta que atordoou a todos os presentes. Impacto fulminante!

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Erasmo rock

O show que Erasmo Carlos fez neste sábado no Sesc Pinheiros foi em cima de seu disco mais recente, O Futuro Pertence À… Jovem Guarda, em que recria hits do início de sua carreira ao lado de uma banda regida pelo tecladista José Lourenço e com Billy Brandão como guitarrista solo, Luiz Lopez na guitarra de apoio, o baixista Mario Vitor e o baterista Silvio Charles, todos dando uma roupagem mais clássica (citando Kinks aqui, Stones ali, Deep Purple acolá) a vários hinos da Jovem Guarda. E entre pérolas sessentistas como “Sentado à Beira do Caminho”, “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, “É Proibido Fumar”, “A Carta”, “Devolva-Me”, “Esqueça”, “Gatinha Manhosa” e “Negro Gato”, o mestre ainda pinçou algumas de seu repertório posterior, como “Mulher”, “Mesmo Que Seja Eu”, “Sou Uma Criança, Não Entendo Nada”, “Minha Superstar” e uma das minhas favoritas de seu repertório, “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”. Showzaço.

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