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Da maior importância

Começamos muito bem a temporada 2024 no Centro da Terra nesta segunda-feira, quando recebemos o MC fluminense Dadá Joãozinho para mostrar a próxima fase de seu trabalho, que está sendo construída no palco. Depois da boa recepção de seu disco de estreia, Tds Bem Global, o produtor rearranjou canções deste primeiro trabalho no espetáculo Global Inabitual, em que, sozinho, desconstruiu suas faixas, deixando seu canto livre para experimentar novas paisagens sonoras. Com o auxílio luxuoso da luz de Mau Schramm, Dadá saudou parceiros como Bebé, Alceu e Joca, além de reverenciar Maria Beraldo numa versão particular para sua “Da Menor Importância”. Foi bonito.

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Uma viagem pesada com os Boogarins

Show dos Boogarins é sempre um acontecimento transcendental – a liga desenvolvida entre os quatro filhos do Centro Oeste transforma qualquer momento de entrosamento musical dos quatro em um delírio particular que pode ser esticado por horas se eles quiserem. Às vésperas da primeira turnê pelos EUA desde o período pandêmico, o grupo passou pelo Sesc Vila Mariana neste fim de semana celebrando os dez anos do aniversário de seu disco de estreia, Plantas Que Curam, que finalmente ressurgiu em vinil após anos fora de catálogo, e assistir a Dinho, Benke, Rapha e Ynaiã passeando por um repertório que já tem uma década não só reforça a importância do grupo na história da psicodelia brasileira como mostra que sua evolução é coesa, intensa e ampla, fluindo quase organicamente. A apresentação deste domingo contou com a íntegra do disco de 2013 – em ordem diferente -, trazendo ainda faixas que não entraram na edição original e que ressurgem nesta nova versão (como “Resolvi Ir”, que, como faziam há dez anos, fazia o show começar já engatado, “Olhos”, “A Sua Frente” e “Refazendo”), “Foi Mal” e uma faixa inédita, do próximo disco (“Cais dos Olhos” – é isso, Benke?). Por uma hora e meia de transe, o quarteto do cerrado nos submeteu a uma hipnose sonora auxiliada pelo time-família titular para além do palco (Renatão e Alejandra no som, Chrisley como roadie, Rolinos nas imagens e Igor na luz) que expandia minutos por horas psíquicas. O final da primeira parte do show, em que “Infinu”, “Fim”, “Doce” e “Eu Vou” se fundiram em uma só, foi só um dos vários exemplos que eles colocaram em prática a natureza psicodélica de seu som. Uma viagem pesada.

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Primeiros passos…

Uma noite incrível no Picles desta quinta-feira viu os primeiros shows de duas bandas promissoras. A noite começou com a Schlop, trabalho solo de Isabella Pontes, que tornou-se um trio quando ela juntou-se a Cadu Scalet e Ruan Yagami para mostrar suas músicas ao vivo, aproveitando para eles mesmos mostrarem as suas. Revezando-se entre os três instrumentos, o trio também aproveitou para celebrar os 470 anos de São Paulo numa versão paulistana para o triste lamento que o LCD Soundssytem fez para Nova York que tornou-se “São Paulo Eu Te Amo Mas Tá Foda Demais” na versão Schlop. Depois foi a vez do Monstro Bom liderado pela Gabi para mostrar como suas canções azedinho-doces envolvem-se no entrosamento instrumento do quarteto de Osasco. No final, eu e a Fran assumimos a pista e foi aquele descontrole que faz todo mundo se acabar na pista do Picles madrugada adentro…

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Esse delírio paulistano chamado Rumo

O grupo Rumo começou suas comemorações de 50 anos de atividade nesta quarta-feira, véspera de feriado, no Sesc 24 de Maio, quando fez a primeira de duas apresentações que também aproveitaram para celebrar o aniversário de São Paulo – que foi, inclusive, o ponto de partida da noite, depois de começarem a noite com a clássica “Ah!”, puxando várias músicas do grupo que falam sobre a cidade, como “Paulista”, “Pro Bem da Cidade”, “Esboço”, “Ladeira da Memória” e uma versão foda para “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa). E por mais que Paulo Petit tenha dito que não tinha terminado a parte de homenagem à cidade, é inevitável que outras canções – que por mais que não abordem a cidade em si – soem nascidas nesta cidade, afinal o Rumo é uma instituição e um delírio essencialmente paulistano. E canções irresistíveis e cabeçudas como “O Apito”, “Toque o Tambor”, “Trio de Efeitos”, “Esperança Ribeiro”, “Bem Baixinho”, a tocante “Único Legado”, “Carnaval do Geraldo”, “Felicidade”, “Universo” e a deslumbrante “Falta Alguma Coisa” são a cara da megalópole sulamericana – e mesmo antigos sambas cariocas (como “Você Só… Mente” de Noel Rosa e “Cheio de Saudade” de Sylvio Caldas e Luis Barbosa) ganham posturas e sotaques característicos daqui ao serem relidos pelo grupo. Como de praxe, seus integrantes mudam de instrumentos constantemente montando formações instantâneas que vão de apenas um a nove músicos no palco – e cada um deles, Danilo Penteado, Pedro Mourão, Zecarlos Ribeiro, Gal Oppido, Akira Ueno, Paulo Tatit, Ná Ozzetti, Luiz Tatit e Geraldo Leite, ganha seu momento de brilho individual, reforçando seu aspecto de superbanda. Mas nada traduz melhor o espírito da banda quanto Ná encarnada em uma versão de “Delírio, Meu!” que teve direito a solo de vocal e dança. Foi ótimo.

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Dois Carlos e um Arrigo

Arrigo Barnabé começou 2024 cantando Roberto Carlos e Erasmo Carlos nesta quarta-feira, no Bona, sem precisar recorrer a faixas desconhecidas ou momentos fora da curva da dupla de compositores. Em vez disso, amparado pelo tecladista Paulo Braga e pelo violonista Sérgio Espíndola (ambos fazendo vocais de apoio), preferiu ir no cerne da obra dos dois procurando suas músicas mais conhecidas e relendo-as com sensíveis mudanças de arranjo, vocais guturais, lembranças que aquelas faixas traziam e observações sobre as composições dos dois Carlos – como quando reforçou, quase como um alívio cômico involuntário, a onipresença da palavra “estrada” naquelas canções. E por pouco mais de uma hora, o maestro torto do Lira Paulistana invocou clássicos como “Os Seus Botões”, “Como é Grande o Meu Amor por Você”, “Como Dois e Dois”, “As Curvas da Estrada de Santos”, “Gatinha Manhosa”, “Quero Que Tudo Mais Vá Para o Inferno”, “Sentado À Beira do Caminho”, “Força Estranha”, “Sua Estupidez”, “Detalhes”, “Eu Te Darei o Céu”, “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo” e “Se Você Pensa”, além de “Ternura Antiga”, letra de Dolores Duran musicada por Roberto, que foi tocada apenas por Mauro e Sérgio, e “Quando Eu Me Chamar Saudade”, de Nelson Cavaquinho, que Arrigo puxou após provocar Sérgio para tocar alguns sambas de Cartola, que finalmente cantou lindamente “Acontece”. Uma noite improvável e sensível, que o trio encerrou com a trágica “Cachaça Mecânica”, de Erasmo Carlos.

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Geraldo Azevedo implacável

Geraldo Azevedo chegou implacável e não quis saber de conversa quando apresentou-se neste domingo no teatro do Sesc Pinheiros emendando, praticamente sem cumprimentar o público, uma sequência de hits inacreditável: “Tanto Querer”, “Canta Coração”, “Príncipe Brilhante”, “Inclinações Musicais”, “O Paraíso Agora”. “O Principio do Prazer”, “Felicidade”, “A Saudade Me Traz”, “Quando Fevereiro Chegar”, “Você se Lembra”, “Bicho de Sete Cabeças” e “Dona da Minha Cabeça” – e pode ficar tranquilo que se você não reconheceu alguma delas a conhece mesmo assim e só não reconheceu o título. E quando o show, que o capricorniano de Petrolina fez sozinho com seu violão elétrico, foi chegando perto de uma hora de duração a audiência já estava completamente entregue ao seu carisma e talento. E além de seu repertório clássico – que ainda teve, claro, “Dia Branco”, “Tudo É Deus”, “Moça Bonita” e, inevitavelmente, “Táxi Lunar”, que fechou a noite -, o velho ourives da canção ainda saudou seus pares ao pinçar pérolas compostas por Chico César (“Pensar em você” e “Deus Me Proteja”), com quem acabou de fechar uma longa turnê em dupla, Jorge de Altinho (“Petrolina e Juazeiro”), Marcelo Jeneci (na já citada “Felicidade”), Zé Ramalho (“Frevo Mulher”), Luiz Gonzaga (“Sabiá”) e Accioly Neto, representado por sua grande canção, a maravilhosa “Espumas ao Vento”. Foi bonito demais.

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Aquecendo o inferno

Começamos os trabalhos do Inferninho Trabalho Sujo nesta quinta-feira, quando recebemos lá no Picles mais uma vez a Xepa Sounds do Thiago França, que passou por tudo quanto é tipo de hit – teve desde “Total Eclipse of the Heart” até “Hotline Bling” – antes que eu e a Fran incendiássemos a pista para começar a aquecer os trabalhos da festa neste novo ano. E como bem lembrou a Fran, já já completamos um ano de discotecagem em dupla, quando tocamos juntos pela primeira vez, justamente num show do Thiago, só que com sua Charanga. Deu muito certo, né?

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Tempo suspenso

Mais uma noite linda nesta quinta-feira, quando Cacá Machado e Laura Lavieri apresentaram sua versão para o disco de 1973 de João Gilberto no Sesc Pompeia. É a segunda apresentação que os dois fazem do disco, que continua no próximo sábado, com outra noite dessas no Sesc Jundiaí. Foi bonito ver a ideia original que tivemos – eu que apresentei Cacá para Laura, que procurava alguém para realizar o sonho que era fazer esse disco ao vivo – florescer ainda mais lindamente do que o ótimo show que já havíamos feito na Casa de Francisca, há exatos dois meses. No novo palco, o silêncio era palpável e os dois burilavam as texturas musicais de seus instrumentos – voz e violão, a epítome de João – acompanhados mais uma vez dos efeitos especiais delicados da percussão cirúrgica e orgânica de Igor Caracas, que deveria ser efetivado como terceiro integrante de fato da apresentação. Juntos, os três suspenderam o tempo e a respiração de todos os presentes, imersos na sensível grandeza pautada por outro trio, há cinquenta anos, quando a produtora Wendy Carlos e o baterista Sonny Carr envolveram a realeza do maior artista de nossa cultura de uma forma única e precisa em sua carreira.

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Pop brasileiro ímpar

Ao completar três décadas em atividade, o Pato Fu talvez seja o exemplo mais improvável do que é o pop brasileiro. Sem ancorar-se em cânones já estabelecidos, o grupo mineiro traça sua própria linhagem ao enfileirar canções que fogem daquilo que se espera quando falamos do mercado de música para as massas no país ao mesmo tempo em que cria uma sonoridade única, que bebe de diferentes fontes musicais sem parecer derivado deste ou daquele gênero musical ou linha genealógica. Em mais uma bateria de shows celebrando seus três fins de semana abrindo a programação musical do ano do Sesc Pinheiros, o grupo formado por Fernanda Takai, John Ulhoa e Ricardo Koctus lotou três datas no teatro Paulo Autran e enfileirou quase duas horas de hits que, em sua maioria, são tão reconhecíveis e radiofônicos (seja lá o que isso queira dizer hoje em dia) quanto experimentais e ímpares. Amparados pelo baterista Alexandre Tamietti e pelo tecladista Richard Neves, o trio recapitulou o próprio cancioneiro lembrando também de sua história audiovisual, usando um telão para lembrar dos clipes que filmaram em sua trajetória, sincronizando a imagem dos vídeos às canções que estavam sendo tocadas na hora, ao mesmo tempo em que no palco estão em ponto de bala, afiadíssimos tanto no ponto de vista instrumental quanto nas piadas infames trocadas entre os três, exercitando dois pontos específicos da cultura belorizontina (a excelência instrumental e o humor que se finge de bobo). O show foi maravilhoso e desfilou hits inevitáveis (“Sobre o Tempo”, “´Água”, “Antes que Seja Tarde”, “Depois”, “Menti Pra Você”, “Canção Para Você Viver Mais”, “Made in Japan”), versões de sucessos alheios (“Ando Meio Desligado”, “Eu Sei” e “Eu” – esta última com a participação surpresa de BNegão, que saiu da plateia direto para o palco -, canções solitárias na primeira pessoa feitas por artistas tão ímpares quanto o próprio Pato Fu) e clássicos que há tempos o grupo não visitava ao vivo (“Spoc”, “Vida Imbecil”, “Capetão 66.6 FM”, “O Processo de Criação Vai de 10 a 100 Mil”), incluindo uma inacreditável versão ao vivo para a faixa-título do primeiro disco do grupo, Rotomusic de Liquidificapum, que usaram para encerrar a apresentação, exibindo no telão a foto que era a capa da primeira fita demo do grupo (a infame Pato Fu Demo, que guardo até hoje). Um excelente show para começar os trabalhos de 2024. Vida longa ao Pato Fu!

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Jards com ascendente em Tutty

Em 2023 tive o privilégio de assistir ao encontro ao mestre Jards Macalé ao vivo por cinco vezes: uma delas com o saudoso Donato, outra com o Metá Metá, mais uma sozinho com seu violão e duas vezes com seu velho camarada Tutty Moreno e a presença do mestre baterista eleva a performance de Macau a outro patamar. Não foi diferente nesta quarta-feira, quando os dois voltaram a se apresentar juntos, mais uma vez escudados por Guilherme Held e Pedro Dantas, na Casa de Francisca. Passeando pelos clássicos de Jards e as composições de seus discos mais recentes, os quatro hipnotizaram o público que lotou o Palacete Tereza, tantra musical conduzido pelo groove da mão direita de Jards e pelo corpo de Tutty, um dos maiores bateristas deste país até hoje, sempre solando contido, mesmo quando o band leader não sublinha estes momentos. Uma noite mágica.

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