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Força e leveza

Começamos as comemorações de um ano de Inferninho Trabalho Sujo nesta sexta-feira ao reunir duas jovens deusas do rock que estão começando a mostrar seus trabalhos e colocar as garras de fora. A carioca Janine apresentou-se pela primeira vez fora de sua cidade com um convidado na segunda guitarra Marco Antônio Benvegnú, o homem por trás do codinome Irmão Victor, e mostrou que sensibilidade e peso podem caminhar lado a lado e mesmo que sua aparência frágil parecesse indicar ao contrário. Além de Marco, ela contava com sua banda habitual (Bauer Marín no baixo e Arthur Xavier na bateria) e alternava seus vocais entre um microfone e um gancho de telefone, que distorcia sua voz, fazendo uma apresentação concisa e na mosca.

Depois de Janine foi a vez de Luiza Pereira (ex-vocalista da banda Inky) mostrar toda a força de seu novo projeto solo, Madre. Formando um trio ao lado da baixista Theo Charbel e do baterista Gentil Nascimento, ela aumentou consideravelmente o volume e transformou seu trio em uma usina noise que ia pro extremo oposto da leveza de sua voz, rugindo eletricidade como se sempre tivesse feito isso da vida. E só quando passou da meia-noite – e quando comecei mais uma pista daquelas com a comadre Francesca Ribeiro – que alguém veio me cumprimentar pela escolha de duas bandas pouco convencionais para comemorar o dia do rock – e eu nem me lembrava que tinha isso! Mas quando o assunto é comemoração, aguarde que a próxima edição do Inferninho, dia 25, será épica e histórica! Aguarde e confie.

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Feitiço cinematográfico

Foi bonito demais ver Ava Rocha transformar uma sala de cinema em seu palco no espetáculo Femme Frame que ela fez dentro da sessão Trabalho Sujo Apresenta que fizemos nesta quinta-feira no Cine Belas Artes. Com seu cúmplice Chicão Montorfano no piano elétrico, ela conduziu o público que encheu uma das salas do tradicional cinema de rua paulistano por canções suas e de outros autores, regendo-o com seu corpo e voz ao mesmo tempo em que era ornada pelas luzes de Mau Schramm e pelos vídeos projetados por Carol Costa, que usou animações feitas pela própria Ava e imagens captadas por Jade Monteiro e Otávio de Roque, na tela do cinema, criando um clima única para a realização da show, que ainda celebrou o primeiro ano de seu disco mais recente, Néktar, que acaba de ganhar nova versão em vinil, e teve participações improvisadas da percussionista Victória dos Santos e do tecladista Vini Furquim, ambos parceiros de Ava, que subiram para cantar duetos no final da noite. Foi maravilhoso.

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Prestes a ligar outro disco…

Marcelo Cabral desligou seu primeiro disco solo, Motor, nesta quarta-feira, no Auditório do Sesc Pinheiros, quando reuniu-se com Maria Beraldo e Guilherme Held para revisitar mais uma vez seu disco de 2018 pela última vez ao mesmo tempo em que começa a mostrar seu próximo trabalho, ainda sem título definido, mas já em fase de finalização. Entre as canções sóbrias e melancólicas deste seu disco de estreia, Marcelo, tocando guitarra e não seu instrumento de origem, o contrabaixo, entrelaçou o clarone e o sax de Beraldo à guitarra de Held criando uma atmosfera ao mesmo tempo ambient e noise, com o auxílio de seu vocal conciso, pedais, microfonia e do técnico de som, Bernardo Pacheco. E entre as músicas do disco novo, que está sendo gravado com o baterista Biel Basile, d’O Terno, mostrou composições feitas com Rodrigo Campos e Rômulo Froes, além de uma canção composta com um novo parceiro, quando entregou “Tarde Azul” para ganhar letra de Fernando Catatau. Foi bem bonito.

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Luiz Chagas (1952-2024)

Arrasado com a notícia da morte do Chagasm que chegou como uma bordoada no fim desta terça-feira, não só pela perda de um caubói do jornalismo cultural, de um dos compositores mais subestimados de sua geração e de um samurai da guitarra elétrica, mas, principalmente, de um amigo, mistura de mestre zen e cúmplice cultural, que, mesmo nos encontrando rapidamente, era uma fonte de causos, anedotas, ensinamentos e lições de vida, muitas vezes tudo ao mesmo tempo, posto como quem conta uma piada ou revela um segredo, olhando por cima dos óculos com um olhar ao mesmo tempo sério e cínico, e em muitas vezes guardando um sorriso pro final, pra quando a ficha caísse do lado de cá. Sim, ele cobriu cultura em plena ditadura militar, foi guitarrista do Itamar Assumpção e parceiro de tantos monstros sagrados do underground de São Paulo, autor de uma das minhas músicas favoritas (a gigantesca “Às Vezes”), pai da Tulipa e do Gustavo, marido da Mônica e compadre de tantos compadres e comadres, mas a lembrança que fica é de uma das pessoas mais gente boa que conheci na vida, um dos raros “meu” ditos por um paulistano (na verdade, goiano, mas não espalha) que não doía nos meus ouvidos, que por vezes engrenava em papos que duravam horas, à mesa de alguma longa reifeição, passeando pelas ruas do centro, pelos arredores da Paulista ou indo de um lado para o outro de metrô. Não importava o assunto, podia ser uma música nova, uma história velha dos Beatles ou uma fofoca envolvendo alguém famoso da época em que era apenas jornalista – um assunto puxava o outro e era sempre um prazer estar em sua presença. Fico feliz de ter conseguido realizar alguns shows com ele – especialmente a temporada que fizemos no Centro da Terra em agosto de 2019, ao redor de seu ainda não lançado Música de Apartamento – e de ter podido ter umas dicas de guitarra quando comecei a levar mais a sério esse papo de tocar um instrumento: “os Beatles são óbvios, ou melhor, simples. Copiam todo mundo, ótimo para aprender”, disse citando nossa paixão comum como luz para a guitarra elétrica. Lamento imensamente ter perdido sua festa junina de aniversário, há exatamente um mês, mas sei que o Belo estará sempre olhando pela gente, lá do alto. Vai em paz, professor!

Assista abaixo à íntegra dos shows que fiz com ele (cinco no Centro da Terra e um no Estúdio Bixiga), três deles ao lado de sua eterna amiga Suzana Salles e à entrevista que fiz com ele durante a pandemia, em que ele conta parte de sua trajetória.  

Vibe boa

Yann Dardenne, Otto Dardenne, Thales Castanheira e Martin Simonovich ainda não sabem se sua atual banda é formada só pelos quatro ou se terá mais integrantes nem sequer qual é o nome deste novo projeto, mas usando o epíteto Protoloops – e contando com uma ajudinha dos amigos – colocaram em pé uma transformação musical que vêm acalentando desde antes da pandemia, quando começaram a desconstruir o projeto anterior que tinham – a banda psicodélica Goldenloki – em algo que soasse brasileiro, eletrônico e dançante, mas sem perder o gostinho lisérgico que é característico de quando tocam juntos. E assim apresentaram o espetáculo inédito Protoloops nesta terça-feira no Centro da Terra, mostrando poucas faixas já fechadas, que flertam com a bossa nova internacionalista de Sergio Mendes e Marcos Valle, com os experimentos político-eletrônicos do Stereolab e uma dance music de fim de século que abraça tanto a lounge music como o drum’n’bass. E a partir dessa vibe boa, reuniram outros amigos – como o videoartista Danilêra, que trouxe TVs e mais TVs para o palco do teatro, trazendo um clima retrô VHS para a noite, a dupla ténica Retrato (Beeau Gomez no som e Ana Zumpano na luz), as vozes de NIna Maia e Marina Reis, o violão de Felipe Vaqueiro e os synths Valentim Frateschi, todos comparsas de vida e com links diretos com seu próprio selo, o Selóki Records, enquanto revezavam-se entre instrumentos elétricos, acústicos e eletrônicos, forjando uma nova sonoridade à medida em se sentiam mais à vontade no palco. Uma noite astral.

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“Devagar e sempre”

O silêncio quase eclesiástico feito pelo público que encheu o Centro da Terra neste primeiro de julho tornou a apresentação de Lucca Simões ainda mais fluida e reverente, mesmo que estes adjetivos pareçam se contradizer. O músico começou tocando sozinho para depois chamar aos poucos os outros convidados da noite, primeiro Gabriel Milliet, tocando flauta transversal, seguido de Eduarda Abreu, só ao piano, com quem fez números em dupla. Depois chamou Lucas Gonçalves (no baixo) e Chico Bernardes (na bateria) para um primeiro número como trio para finalmente chamar Eduarda de volta e terminar a noite como um quarteto, mostrando as músicas que deverão entrar em seu primeiro álbum, com todo esmero e delicadeza que as canções precisavam. Afinal seu autor é, ao mesmo tempo, um vocalista quase tímido e um guitarrista sutil e discreto, o que culminou no segundo momento solo da noite, quando tocou a única versão do repertório, uma lindíssima leitura instrumental de “Você é Linda”, de Caetano Veloso. Todos os convidados eram sensíveis o suficiente para entender a leveza do repertório e da performance do autor, deixando-o à vontade sem que precisassem rechear sua sonoridade, tornando os vazios presentes. O único momento mais cheio do show foi quando Lucca chamou o público para cantarolar o refrão de uma canção que acaba sendo a síntese de sua musicalidade: “Devagar e sempre, sempre a caminhar”. Foi bem bonito.

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Uma orquestra de ritmo

De cair o queixo o ritual rítmico que o grupo Aguidavi do Jêje promoveu neste fim de semana no Sesc Vila Mariana. Pude ver a apresentação de domingo desta orquestra percussiva baiana que já tem 20 anos de atuação e só agora conseguiu apresentar-se pela primeira vez em São Paulo. Também pudera, só no palco são 16 cabeças atracadas ao ritmo do terreiro de Bogum, um dos mais longevos do país, que há quase 200 anos teve papel central na histórica – e pouco difundida – Revolta dos Malês, um dos principais levantes dos africanos escravizados na história do Brasil e palco para a gravação de seu primeiro álbum, homômino, lançado no ano passado, motivo de sua vinda para São Paulo. O grupo é um asombro percussivo cujo único instrumento harmônico – o violão de seu maestro e fundador, Luizinho do Jêje – é tocado de maneira percussiva e funciona como batuta para essa orquestra de ritmos. Entre os músicos, além do filho de Luizinho Kainã do Jêje (que toca uma bateria de atabaques chamada atabaqueria e acompanha artistas como Caetano Veloso e Ivete Sangalo), ainda temos músicos que acompanham diferentes artistas baianos de todas vertentes, de Bel Marques a Baco Exu do Blues, passando por BaianaSystem, Carlinhos Brown, Timbalada, Orquestra Afrosinfônica, entrre outros. O coletivo é um dos muitos filhotes espirituais deixados pelo mestre Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz – Luizinho era percussionista do Quinteto Letieres Leite e já tocou com Olodum, Mateus Aleluia, Virgínia Rodrigues, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Margareth Menezes, Daniela Mercury, entre outros. À esquerda do palco, ele rege com seu violão e canto, as vozes e peles vibradas por seu time, um grupo de músicos de idades distintas e dividido em grupos por instrumentos, embora entre agogôs, pandeiros, caxixis e berimbaus a predominância seja de atabaques. O ataque dos couros do grupo é único na música brasileira e sua força hipnótica de timbres ancestrais atrelada ao canto uníssono de 16 homens foi um dos espetáculos mais impressionantes que vi nos últimos tempos. Mágico.

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Dez anos de Quartabê

Seria só o show de lançamento de um EP, mas o Quartabê aproveitou para transformar a apresentação dessa sexta-feira no Sesc Vila Mariana em um espetáculo celebrando sua primeira década, numa sessão de tirar o fôlego. A primeira parte da noite foi baseada em Repescagem, disco que lançaram há pouco e que funciona como um complemento do álbum de 2018, que celebra a obra do mestre Caymmi e a primeira surpresa da noite surgiu logo que as cortinas se abriram, revelando apenas as silhuetas de suas integrantes, todas empunhando um violão, que não é o instrumento de nenhuma delas – e sim de Dorival. Aos poucos, cada um desceu da bancada em que começaram a brincar com o instrumento-base da música brasileira e tomou seus lugares à frente de suas ferramentas musicais: Chicão entre teclados e piano de cauda, Maria Beraldo e Joana Queiroz entre saxes, clarinetes e clarones e Mariá Portugal pilotando sua bateria. E assim começamos a colocar os pés na praia do baiano, envoltos pelo transe instrumental conduzido pelas quatro. A próxima surpresa veio como um voz do além, quando outra silhueta surgiu atrás do grupo – era a primeira convidada da noite, Ná Ozzetti, improvisando antes de sua entrada formal, quando participou da música que canta no recém-lançado EP, “Maricotinha”, esta misturada com “Batuque no Morro”, de Herivelto Martins, uma favorita do saudoso Zé Celso Martinez Correa, que o grupo homenageou nesta inclusão, como Chicão explicou. Depois foi a vez de receber a antiga integrante Ana Karina Sebastião e seu contrabaixo elétrico parecia nunca ter saído da banda, quando visitaram o autor homenageado do disco que gravaram quando a carioca integrava o grupo, Li​ç​ã​o #1: Moacir, em homenagem a Moacir Santos. A musicalidade e o carisma da segunda convidada engrossou ainda mais o caldo da noite e o público, boquiaberto, assistia em silêncio tanto os momentos mais intensos quanto os mais silenciosos, transformando a celebração da primeira década da banda em uma festa para os ouvidos – e olhos, este graças à integrante honorária do grupo, a iluminadora Olivia Munhoz, que brilhou mais do que o normal, como é quando apresenta-se com o grupo. “A gente faz uma linda trilha pra luz da Olivia”, brincou Beraldo, ao apresentar o time que faz o show e não estava no palco. A noite terminou com nova participação de Ná Ozzetti, quando as quatro voltaram à bancada de trás do palco com os violões, a luz destacou suas silhuetas e pudemos ver a participação sensível da cantora veterana que, na segunda volta ao palco, apenas dançou – lindamente. Fácil fácil um dos melhores shows do ano.

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Quinta desnorteante

Uma sexta em plena quinta-feira! Essa foi a vibe do último Inferninho Trabalho Sujo do semestre, que contou com duas atrações musicais desnorteantes, cada uma à sua maneira. A noite começou com o quarteto indie-prog-jazz Cianoceronte, ainda mais azeitados do que da última vez que os vi ao vivo, justamente quando estrearam o novo baterista Demian Verano. Com o novo integrante completamente sincronizado com os outros três (a tecladista e vocalista Eduarda Abreu, o baixista Victor Alves e o guitarrista Bruno Giovanolli), a banda nem precisa trocar olhares para acompanhar as trocas de andamento e tempo que seu som quase todo instrumental propõe, numa apresentação que ainda contou com a participação do saxofonista Gabriel Gadelha. Showzão.

Depois foi a vez da dupla Desi & Dino fazer sua estreia oficial, segundo os próprios. Juntos, Desirée Marantes e Dinho Almeida reuniram eletrônicos e pedais para, cada um com seu instrumento, puxar vibes espaciais e oníricas: Dinho com a guitarra cheio de efeitos e o vocal completamente à solta e Desi com seu violino hipnótico, empilhando camadas de drone com melodias improvisadas. Os dois colocaram a plateia do Picles – que, mais uma vez, reunia boa parte da cena independente cheia de curiosidade – em um transe bem específico, por poucos minutos que abriam portais nas cabeças dos presentes. Puro delírio. Depois pude receber de volta a querida Francesca de volta à nossa pistinha e foi uma noite daquelas, quem foi sabe. E te prepara porque o julho do Inferninho Trabalho Sujo, comemorando um ano na ativa, vai pegar fogo! Aguarde e confie.

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Mais fundo no Big Buraco

Jadsa subiu no palco do auditório do Sesc Pinheiros nesta quarta-feira com uma banda enxuta e já dando os passos decisivos para o que deverá ser seu segundo disco, Big Buraco. Ela começou a experimentar este conceito numa temporada que fizemos ano passado no Centro da Terra, quando chamou, como ela mesma lembrou, Fernando Catatau, Alessandra Leão, Juçara Marçal, Marina Melo, Josyara, Marcelle, Kiko Dinucci e Giovani Cidreira em diferentes noites para começar a desbravar o conceito sobre um buraco enorme que carregamos e que precisamos preencher durante nossas vidas. Desde então vem experimentando novas formações e desbravando ainda mais esse abismo espiritual interior enquanto vem gravando estas experiências no que deverá ser este disco, desta vez com a produção do maestro carioca Antonio Neves – e o motivo desta apresentação no meio da semana foi celebrar o encontro dos dois no mesmo palco em que o próprio Neves fez seu primeiro show, ainda com 14 anos de idade. Ao lado dos dois, outra dupla singular, uma cozinha precisa reunida como braços direitos de cada um, do lado de Jadsa o percussionista e manipulador de efeitos Felipe Galli e do lado de Antonio o monstruoso baixista Paulo Emmery. Mas as separações se desfazem logo na primeira música e aos poucos os quatro se amalgamam em uma só entidade, que vai para um universo diferente do disco de estreia da baiana, Olho de Vidro. Neves não tocou no seu instrumento principal, o trombone, dividindo-se entre a guitarra, a bateria e o trompete, deixando Jadsa brilhar com sua voz e guitarra em momentos que iam do reggae à MPB, do jazz à psicodelia. A apresentação culminou na única faixa não-inédita da noite, “Um Choro”, que Jad compôs para o EP que Juçara Marçal lançou como continuação de seu soberbo Delta Estácio Blues.

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