O maior mérito de Lost foi potencializar transformações culturais possíveis através das internets. A maior delas é a NECESSIDADE de acompanhar a série em tempo-real, que fez com que as pessoas dessem um foda-se para a qualidade e se atirassem ao streaming em tempo real, mas PRINCIPALMENTE pela questão dos downloads, que fez nascer uma indústria informal responsável por colocar o episódio disponível com ótima qualidade, e até com LEGENDAS muitas vezes melhor que as que vemos na TV por assinatura. Aliás, os responsáveis OFICIAIS pelas séries no Brasil tiveram um gostinho de INDÚSTRIA DA MÚSICA, onde uma realidade se mostra tão escandalosamente irreversível.
Lost é o maior fenômeno envolvendo ficção nerd (ciência e / ou magia) depois de Star Wars, com a vantagem de ter a internet e a própria saga de George Lucas o imaginário popular ao seu favor. Ou você acha que existiria Sawyer sem Han Solo? Essa overdose de referências externas muito bem resolvida talvez seja o seu grande trunfo. E o mais foda é que essas referências não ficam só ali entre o cagalhão gente boa do Locke e o goiaba do Jack:
Um dos baratos do Jorge Lucas é conferir as criações derivadas da sua obra, e certamente para o Abrams (o novo Spielberg / Lucas), Lindelof e Cuse deve ser assim também, das bobagens geniais que pipocam a cada MINUTO no 4Chan até a banda Previously On Lost. O que de Star Wars ficou restrito a convenções e fanzines por quase 20 anos, Lost conseguiu ter desde o seu início e para todo mundo, em tempo real.
Por outro lado, outro excesso, o de mistérios (que NÃO terão respostas), pode ter sido uma escolha tão ruim quanto a dos Ewoks no episódio VI. Ainda acredito que Lost tenha pulado o tubarão lindamente quando o Ben girou a ilha. Imagino, e entendo, a empolgação dos responsáveis pela série diante da repercussão inédita em fóruns e blogs, e o quanto isso não influenciou nos caminhos que a série trilhou (caminho esse que, é bom lembrar, foi encurtado depois de um ultimato dos executivos da ABC para que a série tivesse só mais uns 45 episódios). De todo modo, e principalmente para quem tem menos de 40 anos, é indescritível a experiência de ser testemunha destes tempos de revolução cultural tão bem representados por Lost. E o mais foda é saber que é apenas o começo.
* Ian Black também mandou seu texto depois da minha convocação inicial.
Nada me tira da cabeça que, se os produtores de Lost fizessem Hurley voltar ao penhasco em que quase se suicidou na 2ª temporada da série, os fãs seriam muito mais surpreendidos do que com o final que virá no domingo. Resta pouca coisa a acontecer. Há poucas teorias a serem exploradas agora. Tenho algumas na cabeça – fora essa do Hurley, que fica de brinde.
Uma delas é a mais fácil de acontecer e, nela, haverá um embate final entre Jack e Flocke, o bem vencerá o mal, o Man in Black continuará preso na ilha e Jack, coitado, ficará por lá protegendo a ilha para sempre. O problema desta teoria é que ela não explica os sidebacks, tornando a linha alternativa de tempo em que todos caminham para um final feliz meio inútil.
Entra em campo outra teoria: como em Donnie Darko, o que se acredita ser a linha real de tempo desde o início da série é, na verdade, a linha alternativa, que deve ser destruída para preservar o tempo original — que são os sidebacks. Explico: quando a ilha foi movida e Daniel Faraday percebeu que a destruição da ilha era a solução, ele certamente vislumbrou a cisão do tempo em duas frentes em 1977. Então, a partir daí, TUDO o que ocorreu a partir da explosão da bomba naquele ano, e isso inclui CINCO temporadas, é um universo tangente. Apenas na sexta somos apresentados, no tempo certo, ao que chamamos de sidebacks, a vida real. Na qual apenas Desmond tem o poder, como a constante que é, de tornar todos os losties conscientes do que houve. O fim parece óbvio: deter John Locke. Para quê? Nesta linha de pensamento, boa pergunta.
Há uma terceira teoria, que combina um pouco as duas, mas com outra premissa. Mantém-se o esquema Donnie Darko, a bomba, o esquema das realidades invertidas. Mas, no processo da destruição, Flock é quem vence Jack. Nesse sentido, explica-se porque Desmond quer detonar Locke: porque este, nos sidebacks, é na verdade Flock. E ele, Des, precisa despertar todos os losties para, talvez com a ajuda de Eloise Hawinkg, que aparentemente também está consciente de tudo, destruir definitivamente o Man in Black e, então, todos viverem felizes para sempre.
Há outras coisas a se considerar. Por exemplo, Christian Sheppard. Lost tem uma relação muito intrínseca com nomes. Basta ver a relação agora estabelecida entre Jack e Jacob. Não parece estranho que todas as aparições do pai de Jack sejam bem diferentes das aparições do monstro de fumaça? Ainda acho que isso ainda vai surpreender a todos e deve ter a ver com a luta de Jack e Flock. Afinal, não se esqueçam que Jacob estava fora da ilha quando se encontrou com os losties. Será que Jacob não saiu da ilha e, para retornar, utilizou Christian Sheppard?
Outra: por que o Miles está vivo? Lapidus está mesmo morto? E Claire, por que Flock não a matou? Mas principalmente Miles: se ele consegue ouvir os mortos, e os sussurros são os mortos, então ele pode descobrir a chave para resolver a luta contra o Flock. É bem a cara do J. J. Abrams tirar o foco dos personagens secundários e dar a eles uma inesperada, mas lógica, importância ao final. Não se esqueçam que, como Fábio Yabu percebeu, Miles foi o único a não conversar ainda com o MiB e, portanto, apenas ele estaria apto a matá-lo.
Mas e Walt? E Vincent (que já sabemos que ainda está por lá)? E Aaron? E as cinzas da Ilana?
À parte de teorias, há coisas que não saberemos jamais, porque se perderam completamente na história. Por exemplo, se você esperava saber algo sobre Henry Gale, o balonista negro, esqueça. Equação Valenzetti, campeã dos ARGs de Lost? Sequer citada na série. Qualquer relação de Gary Troup com a realidade (qualquer delas)? Nada. Quem construiu a estátua de Tawaret? Dois mil anos de realidade, em algum momento aconteceu, mas não vão explicar.
De algum modo, me parece claro que há uma relação intrínseca entre o episódio piloto e o final. Tanto que, no domingo, a maratona de conclusão de Lost começará com a reexibição do piloto.
Lembro da reação que tive quando assisti àquele episódio inicial pela primeira vez. Foi na primeira exibição brasileira, no AXN. Era 2005 e eu tinha ido para um lançamento literário na Mercearia São Pedro na noite anterior e, por causa do adiantado da hora, parei para dormir, na volta à Campinas, na casa dos meus pais. Quando acordei, fui direto para a sala, porque lá, ao contrário da minha casa, tinha tevê a cabo. Liguei o aparelho bem na hora em que Jack, que até aquele momento era só o irmão certinho e mais velho de Party of Five para mim, abre os olhos na ilha. Estava na cara que era algo especial acontecendo ali. Eu já tinha ouvido algumas coisas sobre a nova série do criador de Alias, mas não me toquei na hora. Só sei que o mistério e a tensão daquelas duas horas me fizeram querer ver mais daquilo. E aí perdido estava eu, junto com milhões de pessoas no mundo.
Todo mundo já comentou sobre o fenômeno transmídia da série, sobre a revolução que Lost representa para a experiência de ser espectador finalmente ativo. Eu quero destacar outro aspecto, no entanto, que é a renovação narrativa que Abrams, Cuse e Lindelof trouxeram para a tevê. Conseguiram emplacar, para o mundo todo ver, um programa televisivo que não era representante legítimo de apenas um nicho em nenhum momento. Lost começou como um thriller, passou a série investigativa, depois uma série de suspense, passou por momentos de fantasia e realismo fantástico, depois nitidamente era uma série de ficção científica. Mas em nenhum momento ela deixou de ser todos estes estilos, somando-se a eles pitadas dos bons e velhos romance romântico, drama e comédia. Mas isso só funcionou por conta da qualidade dos textos apresentados ao público, ainda que muitas vezes interpretados por atores que não passariam nem nos testes das novelas de mutantes da Record. A força desses roteiros, em minha opinião potencializados no período em que Brian K. Vaughan, exímio roteirista de quadrinhos americano, esteve envolvido com Lost, é que fizeram com que a série conquistasse os fãs de cara e, com isso, tornassem naturalmente possíveis os planos do trio criador.
Foi assim comigo. E, acredite, mesmo que você não se dê conta, foi assim contigo também.
Assunto puxa assunto quando a gente fala de Lost e, como eu disse numa DM ao Matias, é foda escrever apenas um texto sobre isso. Este mesmo já foi reescrito umas quatro vezes, porque não podia ficar comprido demais (mais gente quer dar o seu pitaco por aqui). Dá vontade de falar de tudo e de coisas que muita gente nem se toca: a importância da Lostpedia no cenário wiki mundial; a música de Michael Giacchino e sua vital relevância; as homenagens a diversos escritores durante toda a série e as influências de cada um nos roteiros e na trama; as conexões de Lost com o Universo J. J.; a quantidade de gente que sistematicamente aposta os números malditos nas loterias em volta do globo (quem aí nunca fez isso?); a conexão misteriosa entre os campeonatos italianos ganhos pela Inter de Milão e o tempo de exibição da série; etc.
Seja como for, tudo se acaba no domingo. Ou, como estou propenso a acreditar, tudo apenas se encaminha para uma resolução que, ao contrário do que o título do episódio spoileia, ainda não será realmente o final. Para você ficar pensando aí, mando miniteorias que são incongruentes entre si:
– Tudo é mesmo uma piração do Hurley e ainda assim ele será feliz com a Libby no hospital;
– Desmond é o Donnie Darko da vez;
– Sawyer, o grande desajustado, será o herói do dia;
– O curso da história em que eu e você vivemos é o errado e é um erro estarmos aqui;
– Cada um de nós é o Man in Black.
See you in another life!
* Delfin está lançando a Machado.
Lost é um filho direto da Grande Conspiração Americana. O maior erro, no entanto, é superestimar a sua contribuição para a cultura de massas, tentando achar na história e em seus desdobramentos algo mais inteligente do que uma luta mitológica entre o Bem e o Mal. Situada em um ponto imaginário entre o desbunde paranormal de Twin Peaks e o suspense de tablóide de Arquivo-X, a série tentou por vários momentos levantar questões mais interessantes do que o seu enredo inicial poderia prever, mas se perdeu em seus próprios truques e em sua narrativa circular e auto-indulgente. E ao final, ficamos todos com a sensação que, entre as pretensões iniciais dos seus criadores e o resultado final, alguma coisa se perdeu pelo caminho.
Uma boa conspiração nasce de duas maneiras: ou através da paranóia ou do exercício mental de cogitar diversas possibilidades. E por isso mesmo, quase nunca precisa de fundamento científico ou histórico para ser levada adiante. Ela precisa, sim, guardar relações profundas com a realidade, com os aspectos mais aparentes do nosso processo cognitivo, justamente aqueles que irão lhe dar subsídios para ser apreendida por nossa percepção como algo possível de ter acontecido. Quanto mais forte essa relação, mais enraizada no inconsciente coletivo e na cultura de massas uma conspiração irá se tornar.
Por exemplo: ninguém acreditaria na notícia de que um disco voador pousou em frente à Casa Branca. É fantástico demais, irreal demais, uma iconografia barata ligada aos filmes trash e às histórias em quadrinhos, entendida como clichê de ficção científica através de quase um século de cultura pop. Por outro lado, um disco voador capturado nos desertos do Novo México e mantido em segredo pelo Exército norte-americano, junto com seus tripulantes ETs, nos parece mais real, justamente por lidar tanto com aspectos que compreendemos como parte da nossa realidade -bases secretas, manobras militares clandestinas e ufologia barata – quanto por nos levar a todo o tipo de indagação supostamente inteligente (“hmm, se os militares não têm nada a esconder, porque não liberam a Área 51 para visitação pública, hein?”). Foi a partir da sua capacidade de suscitar mais dúvidas do que de responder perguntas, ao usar uma realidade possível para criar todo o tipo de possibilidades teóricas, que se desenvolveram as grandes conspirações da história recente da Humanidade.
No cinema, David Cronenberg talvez tenha sido o diretor que mais soube trabalhar essa questão. Em Scanners, The Brood e Videodrome, o horror acontece de maneira banal: nos centros comunitários, no parquinho da escola, na loja da esquina. Ele está tão entranhado nos aspectos mais corriqueiros do cotidiano que imaginar a sua existência torna-se quase natural. Assim como a elite sexualmente corrupta de De Olhos Bem Fechados, antes de serem personagens da ficção fantástica, Brian O’Blivion e Barry Convex, os dois arquétipos centrais de Videodrome, são também figuras comuns, baseados tanto no clichê do intelectual intransigente e aburguesado quanto do zé ninguém invisível, que com seu terno de loja de departamentos se integra passivamente à paisagem da América Corporativa. São essas pessoas comuns, sem poderes sobrenaturais ou visual extravagante, que nos suscitam o impulso paranóico de acreditar que, se o horror existe, ele está entre nós. Não na figura de um monstro do espaço sideral ou de um demônio cenobita, e sim na assepsia de um centro de pesquisas clandestino, no underground dos snuff movies, nos complexos industriais fortemente vigiados, nos círculos de pornografia ilegal, nas redes secretas de comunicação e vigilância, na indústria aeroespacial e nas salas de reunião das sociedades secretas. Um imenso lugar-nenhum criado a partir de fragmentos distintos da paisagem urbana ocidental pós-Segunda Guerra Mundial.
Por outro lado, Lost falha quando não estabelece esse tipo de conexão com o cotidiano e reduz a suas seis temporadas a uma luta do Bem contra o Mal, o confronto entre Luz e Trevas recriado de maneira pós-moderna a partir de memes e clichês pilhados da herança deixada por cinco mil anos de história das religiões. O estranhamento cotidiano e o terror possível até existem, nos filmes de 16 milímetros usados nos treinamentos da Iniciativa Dharma, nos centros de operações low-tech da Ilha, na corporação de Charles Widmore, nos experimentos paracientíficos de Daniel Faraday nos porões da universidade onde estuda e nos números 4, 8, 15, 16, 23 e 42. Diferente de Arquivo-X -que ganhou corações e mentes nos anos 90 justamente por transformar em histórias de terror o imaginário ufologista e a nascente comunidade da conspiração na internet com as manchetes do jornal sensacionalista National Enquirer, filho direto da indústria do entretenimento e da paranóia da Guerra Fria – Lost optou pelo isolamento, confinando no ambiente fantástico da Ilha todas as suas possibilidades de narração e desenvolvimento dos personagens, uma dimensão paralela aos moldes de O Senhor dos Anéis que não conseguimos assimilar como algo possível. As situações cotidianas existem, mas sem a força necessária para beslicar o nervo certo e provocar a pergunta: “e se isso estiver acontecendo de verdade?”.
Isso fica claro quando a série não consegue criar o estranhamento necessário para ir em frente, limitando-se a prender o espectador com o “continua na próxima semana” das histórias em quadrinhos ou as reviravoltas com jeito de pegadinha dos gibis da Cripta. A curiosidade se reduz apenas a saber como a história vai terminar e não em intuir como os seus aspectos mais aparentes, e possíveis desdobramentos, se relacionam a realidade, como é o caso de Kolchack – The Night Stalker, Millenium e Arquivo-X, todos produtos diretos da cultura da conspiração que usaram a paranóia de maneira muito mais inteligente e instigante. Lost chega ao fim e todas as possibilidades narrativas e intuitivas propostas inicialmente se diluíram na trama em torno da Ilha e seus habitantes. Ao contrário do que todo mundo imaginava, a série não teve fôlego suficiente para criar uma mitologia interessante e consistente. Valeu a tentativa. Infelizmente não foi dessa vez.
* Essa cara de mau do Vlad é tipo.
Se tem uma metáfora de que gosto demais é a do alinhamento cósmico. Sabem aquela conjunção de planetas e/ou estrelas que acontece uma vez a cada zilhão de anos, e que cientistas, estudiosos amadores, esotéricos etc. admiram por saber que nem tão cedo, talvez nunca, verão algo igual? De vez em quando isso acontece na vida alheia e na nossa também. E na arte. Só que há uma diferença notável entre os alinhamento reais e os simbólicos: enquanto astrônomos conseguem calcular quando os astros vão provocar estes fenômenos no Cosmo, os daqui debaixo às vezes só são compreendidos tempos depois que ocorrem.
Lost é um desses alinhamentos. E se torna ainda mais especial porque, desde seu primeiro episódio, nos avisou o que de fato era. Nos permitiu uma mistura de previsão e de certeza de que tínhamos algo espetacular diante dos nossos olhos. Os caras certos, escrevendo roteiros para os caras certos, com uma história bela, fantasiosa, cheia de alegorias e referências, recheada de elementos infalíveis. A fórmula da Coca-Cola sendo criada na nossa cara.
Que outra série de TV conseguiu colocar no mesmo balaio – e de forma muito bem trançada – Star Wars, Alice no País das Maravilhas, mediunidade, Stephen Hawking, Experimento Ludovico e Iluminismo? Se ainda havia uma pá de cal a ser jogada no túmulo dos ultrapassados bobalhões que apontam a televisão como inimiga da leitura e da reflexão, qual outro seriado fez esse serviço de forma tão competente? Qual outra série fomentou tantas discussões e debates inflamados em intervalos de aulas, mesas de bar, listas de e-mails e ambientes corporativos? E qual outra atração do gênero teve a manha de gritar aos olhos e ouvidos de espectadores do mundo todo que, hoje, os meios pertencem às histórias, e não mais o contrário, se estendendo em livros, jogos, videogames, webisódios…?
Criação individual e coletiva, nascida por todos os lados; aniquiladora de maniqueísmos, reverente a defeitos e a virtudes, fã ardorosa do ser humano; geradora de verdades singulares e, ao mesmo tempo, universais. A verdade é que Lost não cabe em si – e para serem justos e corretos com essa realidade, os produtores prometem deixar novos temas para debate, unindo interrogações às exclamações de seu ato final. Há os revoltados, que clamam por respostas diretas e concisas – idiotas da objetividade, alguém? -, mas sei que estes simplesmente não estão entendendo o que de fato nos foi proporcionado por todos esses anos e agora em seu momento máximo se garante como espetáculo inesgotável, que irá se irradiar para muito além de seu suposto encerramento: uma experiência única e inesquecível para cada um que, de verdade, resolve limpar os olhos e mergulhar naquilo que se vê no alto.
* Conheço o Carlão do tempo em que ele era só um dos melhores guitarristas de surf music do Brasil, antes de ele virar essa autoridade toda na série, a partir de sua central, o Lost in Lost, e da filial, o Tudo Está Rodando.
Eu nunca lembro o que acontece em Lost. Esse é um dos principais motivos para eu gostar tanto da série. Todo dia de episódio, fico esperando até tarde da noite para o torrent aparecer e o download chegar ao fim. Mesmo em época de horário de verão, quando esse processo todo costuma acabar pra lá das quatro da manhã – e acho que isso ajuda na fugacidade da memória.
E antes que comecem as piadinhas dizendo que “é melhor esquecer, mesmo”, explico: todo episódio fica ainda mais surpreendente. E não é que eu não faço ideia do que acontece nos episódios, eu só me guio mais facilmente pelas emoções que pelos detalhes factuais. Eu não sei, por exemplo, em que momento aquela galera das tochas no meio do mato virou uma cohab dos anos 70, mas lembro que odeio o Locke desde que ele explodiu a porra do submarino só porque achava que estavam todos lá “por um motivo”. Em uma nota paralela: quer ficar, fica, mas não mela o bonde dos outros, porra.
Também confesso que até hoje não entendi porque, ao serem resgatados, os Oceanic Six não avisaram ao mundo da existência do resto da ilha. Mesmo que fosse pra proteger a parada toda, custava pelo menos fretar a porra de um barco pra resgatar o resto da galera? Enfim, sei que quase todo mundo que assinou um post sobre Lost nesse blog nos últimos dias é capaz de me oferecer uma explicação razoável para cada um desses questionamentos. Ou eu poderia simplesmente procurar na Lostpedia. Mas voltando ao que eu queria dizer, a série fica muito mais surpreendente. Nunca fui capaz de desenvolver uma teoria sobre o que é a ilha e porque estavam todos ali por sempre esbarrar em detalhes que me passavam completamente despercebidos.
É uma experiência quase psicodélica, e a montanha-russa de acontecimentos estupefacientes faz com que eu nunca ache um episódio de Lost ruim. Eu mal consigo isolar os acontecimentos sob um único título, como posso querer apontar dedos para os diretores e roteiristas e acusá-los de enrolação? O que me importa são os personagens e a mitologia que os envolve. Iniciativa Dharma. Números mágicos. Viagem no tempo. A sensação é de que a cada episódio surge uma nova loucura que em nada explica a anterior, mas que me deixa desesperadamente ansioso pela próxima.
* Fred Leal é um dos caras. Melhoraê, compadre!
Se tem uma coisa que aprendi na vida é que a gente nunca sabe quando uma paixão vai surgir. E nem estamos preparados para ela. Claro que eu não seria nem louco de querer comparar Lost com uma mulher, mas quando a série entrou na minha vida, também me pegou de surpresa.
Claro, eu acompanhei todo o hype pela estréia e a repercussão dos seus primeiros episódios. Mas a verdade é que na época eu não liguei pra isso, não dei muita importância. É tipo aquela menina linda dos tempos de escola que por ser mais na dela, discreta, só percebemos o quanto valia a pena anos depois, quando o contato já foi embora. Pra mim sorte, eu não precisei de anos para notar Lost. Bastou um domingo, na Globo. Aquele foi o estopim para que eu baixasse tudo que já tinha rolado e em uma semana estivesse já emparelhado com a exibição nos EUA.
O que me atraiu em Lost e ainda me atrai é que, por mais loucas e sem sentido que algumas tramas possam parecer em alguns (ok, em vários) momentos, a essência dela é a humanidade. Os nossos heróis estão perdidos, e nós também. Nós não temos respostas, e eles também não. Lost é um fenômeno porque coloca público e personagens na mesma condição. É fácil se identificar, fácil se relacionar. Não que a gente esbarre na rua o tempo todo com velhos carecas com coleções de facas, ou com ex-torturadores iraquianos. Mas quantos de nós não somos ou pessoas em que a vida deu rasteiras e que se sustentam vivas por causa da fé e da esperança como Locke, ou ainda pessoas perseguidas por traumas e fantasmas do passado como Sayid?
É por isso que tanta gente diz, e com razão, que Lost não é um seriado, é uma experiência. Que a gente não assiste, vivencia. E da mesma forma que Desmond teve sua constante em Penny, posso dizer que também tive nos últimos seis anos uma paixão como uma constante na minha vida: Lost.”
* Não conheço o Alexandre Esposito, mas ele edita o Vida Ordinária, que é bem bom, e foi o primeiro não-amigo a responder à convocação para escrever sobre a série que eu fiz ontem cedo.
No dia 8 de janeiro de 2007, entreguei a primeira das 4 listas de palavras que o amigo e então chefe Lucio Ribeiro havia me pedido para organizar para um Almanaque sobre LOST. Lembro que fiquei responsável por 15 termos que relacionavam a série ao Brasil, e 16 “termos não ligados a série”, ou seja, eu não explicava quem era Jack, e sim o verbete David Hume, ou Charles Dickens. Aos poucos, notamos como esse trabalho era complicado, porque afinal, como explicar John Locke ou Rousseau?
E essa foi a beleza da série. Mistério atrás de mistério, até fritar a sua cabeça com conexões deliciosamente perturbadoras e fazer com que os episódios virassem papo em mesas de bar, blogs que discutiam as referências secretas que surgiam a cada cena, ou até aulas de filosofia (eu tive uma, amigos).
Devo admitir publicamente que traí Lost duas vezes. Durante a terceira temporada troquei Jack por Dr. House, mas logo fui curada e em 3 dias, voltei para a ilha com a ajuda de uma maratona dos DVDs piratas do meu pai, que a essa altura estava tão viciado, que já tinha um fornecedor especialmente para essa entrega. Ninguém escapou.
Nunca vou esquecer o dia em que fui fazer uma reportagem sobre refugiados haitianos na República Dominicana. Eu não falo francês, nem creole, e o contato estava difícil. Mas na minha mochila tinha um botton (nerd) da Dharma, com o número 42, e um dos caras da comunidade reconheu, apontou e disse: LOST. Vai entrar no avião depois disso…
E mesmo sem ter visto nenhum dos episódios dessa última temporada, estou ansiosa pelo final. A rede de informações em torno da série é tanta, que foi possível acompanhar os acontecimentos depois de desviar da rota, e ficar desconectada do mundo (projeto Kaos unplugged). Nesse 23 de maio, o show acaba, muitos dos mistérios continuarão indecifráveis e nós é que vamos ficar um pouco perdidos. Aliás, Matias, se quiser tomar uma cerveja na madruga de terça horário costa leste de baixar a série semana que vem, liga ae. Existe vida após a Ilha (acho).
* Kátia Lessa é a rainha do Ka-kaos – e a cerveja eu já declinei, porque eu não bebo cerva.
No último Encontro Estadão & Cultura, evento que ajudei a bolar no meu trabalho oficial como editor do Link, me vi mediando um papo com o Flavio Moura da Flip e o Samuel Titan do Instituto Moreira Salles. O tema à mesa era literatura em tempos digitais e pegávamos notícias e números sobre Amazon, Apple e Google para ampliar os rumos da experiência da leitura para além do papel. Logo instaurou-se um consenso de que o digital ainda engatinhava, mais deslumbrado com as possibilidades multimídia do que efetivamente usando-as de forma criativa, enquanto a narrativa escrita, textual, em que o autor tira a cabeça do leitor para dançar, fica cada vez mais reservada ao livro de papel, cujas melhores qualidades são exibidas apenas como metáfora nos dispositivos digitais de leitura.
Fala o Flávio (aos 2m25 no vídeo acima):
“Confesso que não tive nenhuma experiência estimulante e também não sou dos mais interessados, isso tem um lado muito daquele sujeito que gostava de jogar RPG, sabe aquele tipo que vai por essa linha? Por enquanto sou um pouco cético sobre essa possibilidade de você ter um livro que tem um vídeo ou um áudio esquisito do autor.
Acho que isso tudo tende a ser ruído na experiência de leitura. Pode ser uma postura conservadora. Mas você pega um autor super consagrado recentemente, esse alemão Sebald. Alguns livros dele têm imagens, fotos. Ele tem um tom um pouco autobiográfico, ensaístico, e à certa medida da narrativa você vê algumas fotos, geralmente preto e branco, embaçadas, e você acha que elas vão esclarecer alguma coisa da narrativa, mas na verdade elas deixam as coisas mais turvas, tornam o entendimento muito mais embaçado, complicam um pouco o que deveria ser uma tarefa da fotografia, elas não estão ali para ilustrar nada, elas estão ali pra lhe lembrar o tempo inteiro que você está num jogo entre verdade e ficção e que isso é o poder literário desse livro.
De certa medida é como se fosse um hipotexto em vez de um hipertexto, que é o negócio clássico da internet. Isso eu acho uma coisa interessante e extremamente literária, se houver gente capaz de pensar coisas nessa direção se valendo dessas novas possibilidades tecnológicas, eu acho maravilhoso. Agora só colocar uma entrevista com o autor no fim do e-book ou colocar um videozinho com um filme que remete àquele livro ou coisas meramente ilustrativas… Isso não me parece muito interessante. Só diz contra a experiência de leitura como uma coisa pessoal e que exija uma certa concentração e uma certa relação com seu tempo que é cada vez mais rara, que é poder se retirar dessa confusão.”
Samuel, do outro lado (aos 4m55 do mesmo vídeo), concordava:
“O Flávio tocou no ponto central. Nós estamos embarcando muito rapidamente e ingenuamente na idéia de que tudo tem que ser explicado, acessível, digerível, os enigmas têm de ser solucionados o mais rápidamente possível, quando qualquer leitor de literatura sabe que a experiência de leitura vai na contramão disso. Muito da experiência de ler um romance, uma peça, seja o que for, está em se deixar capturar pelo enigma. E nesse sentido a gente fica louvando as possibilidades de explicação, de acessibilidade, de resolução de problemas do livro digital como se essa fosse a questão central da leitura ou de qualquer leitor de literatura que de fato se entrega àquela experiência específica. Se você não está a fim dessa experiência, então vamos parar de falar de e-books e vamos falar de qualquer coisa, mas não vamos falar de leitura. E não que eu seja cético, é que eu acho que a questão está mal posta. Não é por aí que nós vamos tornar a leitura mais intensa ou mais produtiva ou mais interessante. As outras não ficarão mais interessantes porque basta eu clicar aqui ou apertar ali para que desta obra eu passe pro dicionário, pro site, pra entrevista e assim por diante. Então, acho que, pro domínio da literatura, não acho que há nada de muito interessante já em curso. E eu não consigo imaginar, dado esse caráter de claro enigma, pra citar o Drummond, que talvez esteja no coração da literatura, eu não sei que tipo de aporte que o livro digital poderia trazer.
Parece que uma nova era se abriu com a chegada na cena do Kindle, do iPad e do Sony e-reader e assim por diante. Mas se a gente voltar um pouquinho, qual é o prólogo, qual é o capítulo imediatamente anterior desse momento que a gente vem vivendo? E a gente pode tentar imaginar quais são os vários vetores por trás dessa transformação que a gente tá vivendo agora. Há muito tempo, a comunicação e a produção científica, a troca de idéias na comunidade científica vem se fazendo não só na forma impressa, mas na forma de documento digital. O PDF, que ainda tem esse aspecto simpático, que pode ser aberto em qualquer em qualquer computador, não está preso a esta loja ou àquela marca, se transforma no veículo universal da comunicação acadêmica. Se eu publico um artigo numa revista tal, em vez de mandar pro Flávio o número da revista porque provavelmente é muito caro e toma muito tempo até chegar à caixa postal dele, eu mando em formato de PDF. E ele faz o mesmo com as coisas que publica. Nas ciências naturais, isso é vertiginoso. Os físicos trocam idéias via PDF há muito tempo, trabalhos, papers. O paper científico só se chama papel no nome, porque há muito tempo ele é um veículo digital.
Corta pra sábado, dez de outubro do ano passado, num saguão de um hotel com vista pro Times Square, em Nova York, eu perguntava pro Clay Shirky:
Dá para comparar as mudanças que vemos hoje com alguma outra mudança histórica?
Sim, com a invenção da cultura impressa, outro período em que o enorme acesso à informação mudou tudo. E quando ela apareceu, havia o temor de que ela centralizaria a cultura. A nova tecnologia permitiria que todos pudessem ter acesso a livros, mas sempre aos mesmos títulos, e a noção de cultura se tornaria mais massiva, ainda mais porque era controlada a pela Igreja Católica. O que aconteceu foi o contrário – e até hoje eu fico impressionado como a Elizabeth Einseinstein fala bem sobre essas mudanças sociais em seu livro A Revolução da Cultura Impressa (Ática, 1998).
Em vez de um mesmo livro ser lido por milhares de pessoas, uma pessoa podia ler milhares de livros. E o choque da diversidade – de formas de pensar e viver – virou o mundo de cabeça para baixo. A internet é uma ferramenta para acessar informação, isso é óbvio, mas é uma ferramenta muito mais importante para conectar uns aos outros. E a variedade de formas de pensar e viver está apenas começando a crescer porque, de repente, a idéia de nicho – você achava que era a única pessoa do mundo que gostava de determinada coisa ou que fazia uma atividade de um jeito diferente – pode ser expressa socialmente. Antes da consolidação da internet assistimos a diferentes movimentos – como a questão ambiental, a luta pelos direitos civis ou os direitos do consumidor – que começaram localizados e se tornaram globais.Essa mudança poderia acontecer sem a invenção da internet?
Perceba o seguinte: embora a revolução científica não fosse possível sem a invenção da cultura impressa, ela não foi a causa da revolução científica. O que vemos com a internet é a ascensão de uma plataforma que permite o pensamento global numa época de problemas de escala global. Esse foi o ponto da revolução científica: não foi que os cientistas descobriram que havia a mídia impressa em que eles poderiam publicar suas descobertas, mas o fato de eles perceberem que precisavam de uma cultura em que uns lessem o que os outros estavam fazendo e em que pudessem se desafiar uns aos outros. O foco agora deve ir para essas normas culturais que podem mudar a forma como usamos a internet.
Volta pra Livraria Cultura, dia 14 de maio de 2010, em São Paulo, do lado da Livraria Cultura. Com a palavra, Samuel (aos 7m01):
Todos concordamos que estamos num momento de limiar. E estamos nos primeiros capítulos do que vem pela frente. E a melhor aposta é numa fecundação dos vários veículos, das várias linguagens, que estão à nossa disposição. O mais tedioso num certo tipo de discussão sobre o digital que se alastrou pela imprensa e pela web nos últimos meses é que agora todos somos digitais e isso é uma espécie de tabula rasa, que todos nós devemos passar por cima todas nossas experiências, para começar como que do zero. Acho uma versão pobre dos acontecimentos e uma versão pobre do digital. Acho que o mais interessante do digital, para quem vem vivendo isso nos últimos quinze anos, é o tipo de possibilidade e de intercâmbio que ele abre com outras formas, com outras linguagens, com outras plataformas. É esse âmbito que promete coisas mais interessantes.
Daqui a pouco começa The End.
* Eu não vou me apresentar, né… Já foi esquisito dar esse título e fora que eu acho que quando a pessoa começa a se referir na terceira pessoa é o primeiro sintoma evidente de maluquice. Quem quiser saber mais sobre o meu vício em Lost leia a entrevista que eu dei pro Vírgula. Quem quiser ler outro texto que escrevi sobre a série, tente minha coluna de hoje no Caderno 2. O texto sobre o final de Lost vai demorar um pouco pra aparecer, semana que vem é quase uma semana de folga. Mas o último Comentando Lost vai ao ar amanhã, junto com a edição do Link da semana, etc. O Sujo segue indo, mas em ritmo de dub.
Lost é um fenômeno cultural, não apenas uma série de TV. A narrativa cortada, os desdobramentos online e principalmente a maneira com que a estratégia do mistério foi capaz de engajar uma audiência global e simultânea é um marco. Se você não é fã da série e não aguenta mais esse assunto, prepare-se: é um acontecimento que será estudado e analisado por muito tempo ainda. É exatamente por isso que acompanhar a derradeira temporada tornou-se obrigatória não apenas para os maníacos pela ilha, mas por qualquer um com o mínimo de interesse nas muitas áreas do entretenimento.
Foi exatamente essa última porta que me trouxe ao último capítulo nesse domingo. Tendo acompanhado boa parte da primeira temporada e desistido de Lost por absoluta falta de paciência para ocupar a cabeça tentando desvendar a intrincada trama. Escaldado com a frustração da conclusão da trilogia Matrix, preferi deixar passar. Porém, antes da ducha de água fria, naqueles seis meses entre Matrix Reloaded e Matrix Revolutions qualquer encerramento da saga de Neo era possível. Em meio as intermináveis discussões sobre o que poderia acontecer, uma única certeza resistia: após o lançamento do terceiro filme provavelmente ninguém viveria esse período de especulações. A resposta estaria, para sempre, a um clique de distância.
Bombardeado pela apreensão dos fãs de Lost antes do início da sexta temporada, percebi que algo parecido estava acontecendo. Com a diferença de que era algo com alcance ainda maior, afinal Lost é um programa de TV. Se quisesse viver esse momento cultural histórico com o mínimo de envolvimento, incrementando a experiência social, a última chance era essa, nem que fosse entrando pela janela, através de resumos e mais resumos de cada uma das temporadas anteriores.
Seja como for, tornou-se impossível escapar do assunto, até quem não assistiu um episódio da série sabe um bocado sobre ela. Sugado pelos segredos da ilha, não demorou muito para entrar em rota de colisão com os fãs mais radicais. Um dia, ao fazer um comentário sobre a fotografia do episódio na noite anterior no Twitter (imaginando que se até eu já havia assistido, todos deveriam ter assistido também), falei mais do que devia e tive uma fatwa decretada em meu nome. Havia cometido o mais vil dos pecados, um spoiler, e questão de segundos estava chovendo xingamento para mim.
O ocorrido serviu para ilustrar como são delicados os tempos atuais em termos de informação. Ao mesmo tempo que os episódios são disponibilizados na rede menos de um hora após serem exibidos nos EUA, as pessoas continuam tendo cada uma o seu tempo para assistir. Tem os apressados que correm pra ver, tem gente que espera até final de semana, tem gente que espera acumular para assistir vários episódios em sequência. A mudança na distribuição do conteúdo interefere inclusive na maneira como algo tão banal quanto um programa de TV é conversado nas ruas. O fato de Lost, tão dependente da expectativa, ter conseguido prender atenção de milhões de pessoas nessas circunstâncias é uma vitória por si só.
Nesse domingo a série chega ao fim e estaremos todos finalmente livres para falar o quanto quiser sobre Lost e finalmente poder discutir o final dessa história. Isso é, se as respostas vierem. O que aliás, pouco importa e pouca gente quer. O segredo da longevidade de Lost promete mesmo ser o eterno mistério.
* Bruno Natal foi quem teve a idéia dOEsquema.
11 Pontos para desconstruir LOST
(Ou como não falar do assunto proposto para apontar caminhos em termos nativos para a criação/destruição).
O Matias, esse sim experto das teorias cultura pop, me pediu um texto sobre o Lost. Tentei ser o homem dos 20 mil caracteres para jogar à altura do patrono, mas aqui é mais pá-pum, falta fôlego e dedo indicador para digitar. Assim, vai um texto com gosto de convite para conversa de nerds obsessivos e parcamente ilustrados e deformados.
Saí confuso depois do penúltimo episódio. Mas adianto: o único personagem “forte” pra valer nessa brincadeira toda depois de tanto enrola-desenrola é o Desmond Hume! Não vou arriscar futurologia – por mais óbvio que aparentemente pareça o fim da série –, porque acho desnecesário.
Resolvi prestar homenagem ao falecido e superlativo Ricardo Rosas, criador do portal rizoma.net – que, com certeza, estaria curtindo muito essa farra toda de 6 anos de duração e rivalizaria com o Matias nas observações sobre essa série fenômeno.
1. Lost in The Supermarket – no tiroteio das referências, essa música do The Clash serve como balizador da ideologia/projeto/conceito da série. E, ironia das ironias, reverbera novamente o filho de diplomata: o futuro não está escrito. Evoé Joe Strummer!
2. Lost = Charles Dickens. Sentimentalista e melodramática, jogos de moralidade. Inglaterra chega aos Estados unidos moderno – a crítica social e de costumes para a sarjeta. Da era vitoriana para o fundamentalismo cristão pós-moderno. Linhagem enviesada, linhagem enfraquecida. Muito a que se observar. A equação entre Orwell e Alan Moore, de Revolução dos Bichos à V de Vingança, linhagem coerente e sintomática de nosso tempo. Política. Ah, a Inglaterra. Soprano e Crime e Castigo. Bernard Shaw e Monty Python. Mark Twain e David Chapelle. Lost consolida e/ou encerra o período áureo das grandes narrativas em séries/folhetins teledramatúrgicos.
2. Nada é sagrado, tudo é permitido. Sincretismo religioso careta – nada que assuste a nós, brasileiros. Nos bastidores, o zeitgeist da cruza entre estadunidenses democratas, liberais, e judeus expatriados do grande capital do enterteinment. Nunca a religião se prestou tanto a ficção sem potência alguma.
3. Assim, se a religião foi o ópio das massas, hoje nosso ópio realmente está na TV – sem medo de parecer retórica esquerdista circa 1960. Medo e delírio. A banalização do bem e do mal – ou a elasticidade desses onceitos. Viva o ópio, viva o torpor. A religião para “religarmos” a TV.
4. a síntese máxima da conjunção do melhor que a literatura especulativa produziu (Fantasma de Lee Falk/HQ Adulta pós Gaiman-Moore-Morrison aportarem na Amérikkka/Hollywood dos filmes em série) – deslumbre com as possibilidades cênicas do capitalismo pós-fordista/limitações estruturais e/ou estruturantes, a ficção pós-moderna em seu ápice: constrói-se uma fortuna narrativa exemplar sem nenhum poder constituinte.
5. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica ad exaustão. Arte/mercadoria. Walter Benjamin rolando no túmulo. Os donos da série em orgias homéricas em mansões de L.A, curtição no Havaí. Espectadores ansiosos – a ansiedade alimentada pela indústria farmacêutica chega à TV Paga. Mal aí, Escola de Frankfurt: alienação wins!
6. Ainda em termos pós-modernos: o revés da ideia multitudinária ainda que plena em LOST – o revés da própria teoria ímplicita. A ilha como o Leviatã hobbessiano. Sawyer e Ana Lucia, Hugo e Libby, Sayid e a loira. Descontração no meio do pesadelo. A resolução pouco importa. Locke – vejam bem, Locke! – mata as possibilidades sociológicas radicais do texto. Logo, Bakunin é um personagem do quarto escalão com poucos recursos cênicos. O inconsciente estadunidense – essa besta com bombas atômicas comandando sinapses e o Apocalipse. Lost poderia ser a encenação do apocalipse bíblico. Não será.
7. Encruzilhadas do Labirinto. Cá entre nós: vale a pena pinçar cada uma das armadilhas em exercício mental botequeiro? Lost prova a descontinuidade do raciocínio e da historicidade como um exercício inevitável para o homem médio. Deixa Lost me levar, lost leva eu…
8. Ficção científica e a ideia de não estarmos sozinhos no universo. Bullshit. Mais um mote para a lata de lixo da história. O estranho em nós. Um, nenhum, cem mil. Personagens lineares: Jack e Hugo. A Amérikka profunda e débil, flácida em sua estupidez. Sedutora e engraçada, companheira, ao mesmo passo. O sonho americano – aqui cada vez mais tedioso e lento e contínuo como um elefante – em chave maior.
6. Seis anos e alguns estudos de caso da moralidade estadunidense – infelizmente – implícita. Pretos amarelos e terceiro mundistas explodidos, soterrados, afogados. Mortes violentas. Mesmo o consenso hollywoodiano democrata e o liberalismo judaico ressoando em cada episódio. Fim trágico do multicultarismo como promessa de um mundo globalizado.
7. o mundo não suporta/quer/demanda grandes narrativas estruturantes – foda-se Balzac e Proust e cavalgando alucinadamente da outra ponta mas em direção convergente, o Pynchon também – o que se espera/suporta/necessita-se são grandes narrativas não-constituintes. Será uma grande biblioteca de Alexandria de ponta cabeça, desorganizada, um remédio consentido entre as partes para finalmente enterrarmos a história, pra aliviar nossas dores?
8. Lost como cume de uma grande espiral de um gênero que se pretende como o “das ideias” em nosso tempo, a ficção especulativa, e mais centralmente a ficção científica, devidamente dopado e sintetizado ao DNA de uma cultura viciada e analgésicos e aliviadores de consciência – do Prozac aos construtores de consenso manufaturado. Transcender essa espiral, assim espero, somente com as surpresas dos samurais oriundos do Oriente profundo – para vingar os amarelos, negros, terceiro mundistas e demais párias devidamente jogados para debaixo do tapete da série para que soçobre um heroi bundinha tipicamente americano (eleja-se do caipira racista Elvis Presley, ao Ciclope dos X-men ao sem sal emolóide Jack Sheppard de LOST) que diz muito sobre o anima de um império decadente. Nem Obama nem Mao Tsé Tung. A devir, se ele guarda algo de grandioso para nosotros, terá mais que ver com uma narrativa Luther Blissetiana.
9.O caos reina. A cultura pop ganhando vulto de alma popular.
10. Diversão descompromissada? Jamais, Siegel e Shuster, Crumb e Shelton, irmãos Wachowski, irmãos Coen, irmãos Marx, Moore e Morrison, Pelé e Coutinho, Maradona e Careca, descontração e sedução de inocentes.
11. Inocentes? Ninguém é inocente, diria Sayid Jarrar, o personagem de onde começaria uma narrativa a moda do Brasil pós-Lula – o meu herói da série. Viva Lost!
P.S: um comentário ingênuo e objetivo: no meio da última temporada me sentia enganado, mas acabarei no domingo plenamente recompensado.
* Arthur Dantas é o Velot Wamba. Ou é o contrário?









