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Minha coluna no 2 de domingo…

Uma ajuda da internet
Mark Millar, quadrinhos e cinema

Kick Ass – Quebrando Tudo, que estreia na próxima sexta-feira nos cinemas do Brasil, pode até não ser candidato às listas de melhores filmes de 2010 feitas por críticos de cinema. Mas, desde que foi anunciado, ele já estava entre os filmes mais legais que seriam lançados este ano. Basicamente porque seu autor, o escritor Mark Millar, criou todo o conceito do novo super-herói pensando nos fãs. Mas antes de falar do filme, vale contar um pouco a história de Millar.

Escocês, ele decidiu que se tornaria um escritor de quadrinhos quando viu uma palestra de Alan Moore (autor de clássicos modernos como Watchmen e V de Vingança) e estreou no mercado norte-americano sob a guarida de outro ídolo, Grant Morrison (da série Os Invisíveis), em 1994. Em menos de cinco anos, ele já era festejado como um dos grandes nomes daquela indústria, continuando o trabalho de Warren Ellis em Authority, e criando uma das melhores histórias do Super-Homem, Red Son, que imagina o último sobrevivente de Krypton chegando à Terra pela antiga União Soviética.

No ano 2000, mudou-se para a Marvel e começou a virar do avesso aquele universo de super-heróis, primeiro reinventando o Homem-Aranha para o século 21 e fazendo, mais tarde, o mesmo com os X-Men, Capitão América, Hulk e Thor. Em comum, estas novas histórias tinham o fato de atualizar aqueles heróis para o mundo pós-internet (Peter Parker, por exemplo, era o estagiário que cuidava do site do Clarim Diário). Mas depois de muitos anos escrevendo histórias criadas por outros, decidiu inventar seus próprios mitos.

E, entre eles, Kick Ass. A minissérie em quadrinhos foi lançada mirando em sua adaptação para o cinema. Millar já brincava com as duas mídias na Marvel – em uma edição dos Supremos (sua versão para os Vingadores), os heróis discutem quem seriam os melhores atores a interpretá-los no cinema.

Com Kick Ass a metalinguagem vai além – e a internet ajuda a misturar realidade e ficção. Na história de Millar, um garoto resolve virar super-herói por conta própria – mas só se torna notado depois que uma briga em que se envolve é filmada por celular e vai parar no YouTube.

Estes pequenos detalhes mostram que Millar está atento não apenas às novidades, mas também disposto a não tratá-las como coisas de outro mundo, mas partes do cotidiano de cada um. O protagonista mede sua popularidade ao comparar o número de amigos em seu perfil do My-Space com o da identidade secreta que criou. E quando ele pergunta à pequena heroína de 10 anos, a adorável Hit Girl, onde ela conseguiu um lança-chamas, sua resposta é direta: “Ebay.”

Desta forma, Millar é o primeiro autor a pular dos quadrinhos para o cinema sem ser um mero contratado. Produtor executivo do filme, Kick Ass não é a primeira obra sua a ganhar vida na telona (a série Wanted virou o filme O Procurado, com Angelina Jolie). E não deverá ser a última.

Um mashup para a Copa do Mundo
http://365mashups.wordpress.com. Segue a árdua tarefa do produtor João Brasil que vai fazer um mashup por dia durante todo o ano de 2010. Uma das novidades dele é a mistura da nova versão de Umbabarauma de Jorge Ben com Mano Brown com Uma Partida de Futebol, do Skank.

Onde ouvir música nova
Os blogs de MP3 e o Hype Machine

O que faziam as gravadoras antes da crise na indústria fonográfica? Além de produzir, distribuir para as lojas e vender discos – artefato cada vez menos importante devido à música digital –, essas empresas tinham a louvável tarefa de descobrir novos artistas, ajudá-los a entender o mercado em que estavam dispostos a entrar e encaminhar seu futuro artístico. Mas, com a crise do disco pós-MP3, elas aos poucos foram perdendo esse papel de filtro para cada vez mais se preocuparem com aspectos econômicos do negócio da música.

Coube aos blogs de MP3 assumir este papel. São sites feitos por ouvintes e amantes de música, quase todos sem nenhum vínculo anterior com o mercado e produzidos de forma amadora. Começaram a aparecer no início do século e, pouco a pouco, foram substituindo as gravadoras para o público, cada vez mais online, no que diz respeito a saber onde descobrir a melhor música que vem sendo feita hoje em dia.

De lá para cá, estes blogs cresceram, ganharam respeitabilidade e alguns até conseguiram criar modelos de negócio para serem sustentados. E o ponto de partida para quem está procurando música nova online é o site Hype Machine, criado há cinco anos pelo nova-iorquino Anthony Volodkin, que vem ao Brasil na próxima semana, no evento YouPix (de 8 a 11 de junho, no MIS. Mais informações no site www.youpix.com.br).

“Blogs de música têm uma seleção cuidadosa e têm atraído um público cada vez maior, mas não se preocupam com o lado de negócios como outras gravadoras”, ele me disse na última sexta. “E isso torna suas escolhas mais interessantes, pois não estão atrelados à gravação, à produção ou ao marketing, como as gravadoras estão.”

O Hype Machine funciona de forma simples. Basta entrar no site (www.hypem.com) e procurar por algum artista e ele lista uma relação com os blogs que linkam MP3s do nome procurado. Clicando na opção “Popular”, logo na home do site, há uma lista com as músicas mais procuradas da hora – uma parada em constante movimento, como tudo na web.

Apelou, perdeu
M.I.A. contra The New York Times

M.I.A., que lançou o manifesto antirruivos Born Free, ataca de novo – e desta vez é pessoal. Ela não gostou do que a jornalista do New York Times Lynn Hirschberg escreveu sobre ela e não hesitou em twittar o número do telefone da jornalista. O perfil escrito por Hirschberg estava longe de ser ofensivo, mas a cantora não deve ter gostado de ler que ela se considera uma outsider enquanto come batatas fritas com trufas, e anunciou que vai “contar tudo” em dias. Detalhe: Lynn é ruiva.

Da menina

www.myspace.com/tuliparuiz. Tulipa Ruiz é a bola da vez da MPB paulistana e lança seu primeiro disco hoje, no Auditório Ibirapuera, às 18 horas (ingressos: R$ 30), com participações de Jeneci e Mariana Aydar. Algumas faixas de Efêmera podem ser ouvidas em seu MySpace.

Lost seguia a lógica de entretenimento de uma montanha-russa. Quanto mais loopings tivesse um episódio, mais querido pela audiência ele seria. E o último episódio teve tanto disso que muita gente tá vomitando até agora.

O programa foi fiel ao seu preceito mais básico, o de não explicar coisa nenhuma. Desse jeito, as discussões sobre o final da série vão muito além do “gostei / não gostei”, o que condiz bem com o que foi Lost durante essa formidável jornada.

Outro detalhe incrível foi que Lost evidenciou a fraqueza do ensino básico brasileiro, levando em consideração a dificuldade de compreensão a respeito do momento em que os personagens estavam vivos ou mortos.

Para ajudar no brainstorm do Matias, incluo aqui uma canção do grupo Pixote que, no final dos anos 90, já anunciava como seria o final de Lost. Prestem atenção na letra.

* Chico Barney escreveu este texto pra cá.

Foi certo Lost terminar como uma grande novela das oito. Afinal, a série foi isso durante estes seis anos, é por isso que ela conseguiu o alcance que teve. Se não tivesse o elemento Janeth Clair (mais do que Manoel Carlos ou Gloria Perez, como alguns citaram, meros amadores na arte cada vez mais, er, perdida de escrever uma telenovela), Lost seria uma série que falaria com um público específico, uma tribo. Seria cult, alternativo, cool, nerd – seria uma realidade paralela. Como toda a obra de J.J. Abrams, Lost pegou uma fração específica de um nicho e deu-lhe uma noção épica, monumental. “Dar tratamento A à cultura B”, como ele mesmo diz, com freqüência. E quando pensamos que Lost é uma mistura de Além da Imaginação com um reality show numa ilha deserta, tendemos a nos animar com o lado do seriado de Rod Serling, esquecendo que é a novelinha e os personagens que tornam a série tão importante.

Essa história foi encerrada em The End, seu último episódio, que junto também trouxe uma pontada de frustração por não responder as tais inúmeras perguntas abertas pelo seriado semanalmente. Mas como Across the Sea, o antepenúltimo episódio, que já havia causado cisão entre os fãs, The End não estava preocupado com as respostas. E, como em quase toda duração da série, ambos episódios não esclareceram nada, funcionaram apenas como uma amostra do poder narrativo de Lost, enfileirando questionamentos vagos à medida em que traduzia os sentimentos dos protagonistas – que poderiam ser resumidos no título da série, a sensação de estar perdido, e não apenas geograficamente.

Este sentimento não era exclusivo dos personagens – era também nosso. Passamos seis anos perdidos numa ilha maluca que muito de vez em quando dava alguma amostra de racionalismo. Seis anos perseguindo números, constantes, equações, cronologias, efeitos especiais, coincidências e linhas do tempo que nos fizeram crer que a ilha fosse o paraíso perdido, uma nave espacial, o oco do planeta, uma dimensão alternativa, um estado de espírito, uma anomalia eletromagnética, um lugar místico. Ilha que já colheu gente de todas as épocas e lugares – de adoradores das divindades do Egito antigo a cientistas e militares norte-americanos – e que por seis anos (três, na contagem cronológica da série, entre 2004 e 2007) foi palco para o drama dos passageiros do vôo 815 da Oceanic Airlines. E para o nosso drama também, como telespectador.

Eis o trunfo de Lost: nos colocar como participante da viagem. O tempo todo sabíamos que o que acontecia na ilha era ficção, não havia como confundir ator com personagem e havia um próprio subtexto na produção da série – o blog de Hurley, a transformação de Damon e Carlton em ícones pop, as entrevistas de Michael Emerson – que fazia questão de nos lembrar que estávamos apenas acompanhando uma novela e que o ator que fazia o vilão não era, de verdade, um vilão. Por mais ridícula que esta afirmação possa parecer, lembre-se que estamos na era dos reality shows e torcidas são organizadas em torno do caráter – ou a falta de – de qualquer participante deste tipo de programa, esteja cantando, dançando, cozinhando ou simplesmente discutindo o nada com outros tipos sem graça.

Lost esfregava ficção em nossa cara ao mesmo tempo que nos deixava tão atônitos quanto o estado de seus personagens. E enquanto os personagens só começaram a experimentar as viagens no tempo a partir da quinta temporada, nós estamos sendo submetidos, desde a primeira, a flashbacks e flashforwards na vida de cada personagem, que nos deixaram tão desorientados a ponto de sermos lindamente driblados no final da terceira temporada.

The End nos ajudou a nos reencontramos com a essência de cada personagem – explicando, assim, a função dos flashsideways. Mais do que o “purgatório” visto com esgar pela parte dos fãs do seriado que se sentiram traídos, a realidade paralela criada nesta temporada serviu para que voltássemos a nos encontrar com os personagens da primeira temporada, aqueles que foram importantes no período em que Jack esteve na ilha (que, não custa lembrar, existiu, existe e continua existindo – a ilha em si não é um purgatório, como interpretações ainda mais apressadas tentaram provar). Os personagens que deram origem à história que assistimos.

Aos que reclamaram do final, exigindo respostas, não custa lembrar que a ficção científica também aborda a questão do pós-vida e que a metáfora de uma realidade exatemente idêntica à que vivemos é tema recorrente até neste meio. É uma ficção científica, no entanto, espiritualizada e epitomizada em um autor que, de tão específico, não pertence a nenhuma escola: Philip K. Dick. PKD usava ficção científica para discorrer sobre filosofia e, mais tarde em sua bibliografia, espiritualidade. Viciado em drogas para manter-se acordado e escrevendo, K. Dick teve a própria sanidade posta em xeque quando, no meio dos anos 70, viveu um delírio em que acreditava viver duas épocas ao mesmo tempo (história que o R. Crumb conta com maiores detalhes na tradução que fiz para A Experiência Religiosa de Philip K. Dick). Profundamente abalado por estas visões, K. Dick passou a buscar o sentido da vida em livros quase cifrados – como Ubik e Valis -, em que discorre sobre o que acontece depois da morte indo para além das metáforas religiosas, mas sem se distanciar das referências terrenas. Daí a igreja com seu vitral ecumênico na última cena.

Mas Lost não terminou de maneira espiritualizada e mística, pura e simplesmente. Retire todos os flashsideways e a rendenção final de Jack Shephard e eis a história dos passageiros do Oceanic 815 na ilha, contada desde sua queda até a fuga. Do confronto final entre Jack e Locke (na mesma chuva negra do último duelo entre Neo e Smith em Matrix Revolutions, a série se autoironizou até os últimos minutos) ao sacrifício feito por Jack (Donnie Darko feelings) para restaurar a luz do coração da ilha (puro Disney) até o último fechar de olhos na última cena, toda a história do Jacob e de seus candidatos foi contada. Alguns morreram, outros fugiram, mais outros ficaram. Sem o flashsideways, no entanto, não teríamos a citação de Ben e Hurley à série O Prisioneiro, ao se referirem como “número 1” e “número 2” e saudarem-se com um parente do “be seeing you” – e fico imaginando a reação de quem não gostou do fim de Lost com o fim do Prisioneiro (não o remake americano, tou falando do original inglês)…

(Lost ainda termina com a troca de cargo, deixando o pacato Hurley para tomar conta da ilha que equilibra a bondade do mundo. Há um subtexto maior aí, de que o mundo em que vivemos era regido por um personagem em plena vingança contra seu irmão – e que agora está nas mãos de um gordo gente boa.)

Assim, Lost não foi só uma história que ouvimos, mas que vivemos. Uma experiência coletiva que gerações seguintes apenas poderão imaginar – e comemorar quando, décadas no futuro, alguém explicar os números ou a segunda canoa ou quem é aquele povo dizimado pela mãe dos gêmeos ou contar a história dos DeGroot, entrando assim, para um cânone que começou quando ele nem havia nascido. Quando resumirem Lost em uma frase no futuro (“todos morrem no final” – mas esse não é o spoiler da vida?), a ironia por vir não dará conta das teorias imaginadas e da busca por referências, numa capa de livro, num recado por escrito, num gesto, que vivemos nos últimos seis anos. Lost foi como se pudessem medir a audiência de um seriado que era ao mesmo tinha a densidade dramática de um seriado novelesco (pense em A Sete Palmos) e tensão paranóica e pseudocientífica de uma série geeek (por exemplo, o novo Battlestar Galactica) segundo a segundo, mesmo após a exibição dos episódios. Mesmo após a exibição do último episódio.

Foi bom enquanto durou. Agora, como nos avisaram, é hora de deixar ir – e seguir em frente.

Vambora.

Citando Fellini:

Você fez a coisa certa. Esse é um grande dia pra você. Foi uma decisão difícil, eu sei. Mas nós, os intelectuais – porque eu te considero um -, temos o dever de permanecer racionais até o mais amargo fim. O mundo já está lotado de coisas supérfluas – não há sentido em adicionar mais uma na multidão.

Afinal, perder dinheiro faz parte do trabalho de um produtor… parabéns, não havia alternativa. Ele teve o que mereceu por embarcar tão levianamente em tão frívola aventura. Não tenha receio ou arrependimento. É melhor destruir do que criar, quando se falha em criar aquilo que é mais essencial.
Além disso, há realmente algo que seja tão claro e justo a ponto de ter o direito de existir? Um filme ruim é simplesmente um problema financeiro para ele. Mas para você poderia ter sido o fim. É melhor deixar as coisas irem embora e jogar sal sobre elas como os antigos faziam para purificar os campos de batalha… afinal, tudo o que precisamos é um pouco de higiene, limpeza, desinfetante… porque estamos sufocados por palavras, imagens e sons que não têm razão de ser… que vêm de lugar nenhum e vão para lugar nenhum. Um artista que seja realmente digno do nome deveria ter de realizar um único ato de lealdade: restringir-se ao silêncio. Lembra-se da eulogia de Mallarmé à página branca…?…

– Nós estamos prontos para começar!… Todas as minhas felicitações!

– … se não se pode ter tudo, nada é a verdadeira perfeição. Perdoe-me essas citações, mas nós críticos fazemos o que podemos. Nossa verdadeira missão é limpar os inúmeros abortos que obscenamente tentam invadir o mundo. E você gostaria de deixar atrás de si nada menos que um filme inteiro, como um homem coxo deixaria impressas suas pegadas deformadas? Que presunção monstruosa crer que os outros se beneficiariam de alguma forma do esquálido catálogo dos seus erros. Por que você deveria se importar em costurar os retalhos da sua vida, as vagas memórias e os rostos das pessoas que você nunca foi capaz de amar?

– “O que é esse clarão de alegria que está me dando nova vida? Por favor me perdoem, doces criaturas. Eu não me dei conta, eu não sabia… Como é certo aceitá-los, amá-los. E como é simples! Luisa, eu sinto como se tivessem me libertado. Tudo parece lindo, tudo tem um sentido, tudo é verdade. Ah, como eu queria poder explicar…! Mas eu não posso… e tudo está voltando ao que era. Tudo está confuso novamente… mas essa confusão sou eu. Como eu sou, não como eu gostaria de ser. E, agora, não tenho medo de contar a verdade, o que eu não sei, o que eu procuro. Só assim posso me sentir vivo e olhar nos seus olhos fiéis sem sentir vergonha. É uma festa, a vida. Vivamo-la juntos. Não posso dizer mais nada, para você ou para outros. Aceite-me como eu sou, se puder. É só assim que nos podemos tentar encontrar um ao outro”.

– Não sei se você está certo. Mas posso tentar, se você me ajudar.

Sim, é uma comparação hiperbólica e aparentemente absurda. Mas não, não é paródica. Eu realmente acredito na semelhança entre os dois. Não me parece uma associação infundada. Porque ambos realmente me atingem de maneira parecida, as duas cenas me causam reação similar (sim, sim – as lágrimas).

Claro, o final de Fellini é perfeito, genial, obra-prima. E o de Lost tem algo de brega, de over, de desajeitado, de confuso. “Mas” – foi o próprio Fellini quem o disse, e eu não poderia pôr de outra maneira – “essa confusão sou eu”.

* Gabriel citou este trecho em seu blog.

Há seis anos um canal de TV norte-americano estreou mais uma série. As primeiras cenas mostravam os primeiros instantes após a queda de um avião em uma ilha aparentemente deserta. Há poucos dias, as cenas finais deste mesmo seriado apresentaram seus personagens principais se reencontrando amigavelmente, longe da ilha. Um final feliz, não há dúvidas. Mas o quanto os fins justificaram os meios neste caso?

Entre 22 de setembro de 2004 e 23 de maio de 2010, a indústria de entretenimento foi tomada de assalto por um dos universos ficcionais mais audaciosos de todos os tempos. Dentro e fora da ilha, J. J. Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse não tiveram a menor timidez em entupir o programa com mistérios, dúvidas, detalhes e referências das mais diversas naturezas, além de misturar gêneros e montar-desmontar-remontar enredos e estruturas narrativas. Se a pretensão foi muita e o sucesso também, seria evidente que as expectativas seriam imensas e as frustrações idem.

Este texto não pretende se alongar nessa “fase 2″ da discussão, que teve início assim que a tela preta com o logo “L O S T” surgiu pela última vez na ABC. Os significados e interpretações trazidos pelos fãs após o final merecem um cuidado próprio. Por enquanto, vamos nos ater às impressões mais imediatas deixadas pelo episódio duplo em questão.

Mistérios, dúvidas e expectativas à parte, todos os espectadores entraram na viagem de 104 minutos do desfecho querendo saber como o vilão-mor, o Homem de Preto, seria derrotado. A série teve início com o abrir e encerrou com o fechar dos olhos de Jack Shephard. E no penúltimo episódio, foi ele quem – pela enésima e última vez – chamou a responsabilidade, assumindo o cargo de Jacob. Portanto, nada mais natural que o “doc” fosse o artilheiro do gol decisivo, embora como Romário, não teria conseguido sem o passe irretocável do seu Bebeto, o bom escocês Desmond.

Daí em uma sucessão de cenas pouco claras – é “Lost”, lembre-se – Jack não se importou de ver o MIB-Locke executar seu plano de usar Desmond para “tirar o ralo” da ilha, façanha que só ele supostamente seria capaz por ser imune às grandes doses de eletromagnetismo emanadas daquele lugar. Jack sabia/sentia que isso faria a ilha começar a ruir, como o MIB planejara, mas também “desligaria” a mesma energia que transformou aquele homem em uma entidade sobrenatural o tempo suficiente para ele retornar à mortalidade. Era a última e única chance.

Vamos combinar: o quebra-pau entre Jack e o MIB foi arrepiante. Direção, montagem e atuações de primeira. E a conclusão com o tiro de Kate e o chute final de Jack à beira do precipício foi impecável. Um dos grandes momentos da série. A morte do monstro não poderia ter ocorrido melhor.

Uma das justificativas que mais ali a favor do polêmico episódio final é que, “no fim de tudo, a série era sobre aqueles personagens”. Não concordo inteiramente com essa afirmação, que pode ser interpretada como desculpa para negar sua própria insatisfação sobre o que não “deu certo” no programa, mas admito que os personagens foram um dos grandes ativos de “Lost”.

Dito isso, o final acertou em fazer o que a série sempre fez muito bem: dar atenção a quase todos os personagens minimamente cativantes. O “ex-flashsideway” teve seus pontos altos no despertar de memória de todos que ainda não se lembravam da ilha, com destaque para os cinco casais: Jack e Kate; Sun e Jin; Sawyer e Juliet; Charlie e Claire; e Sayid e Shannon. O amor foi fundamental. Nesse processo, os poucos personagens que ainda se sentiam na pior, como Sayid, Locke e o casal coreano, perceberam que o insight não era apenas um retorno de memórias: era em si a chave para sua própria redenção.

Novelesco? Não tenha dúvida. Vai de cada um acatar. Como a direção e as atuações estavam muito boas, pelo menos a mim conseguiram comover.

O complicado, porém, é que esse desfecho, culminando no reencontro na igreja, era falho diante das circunstâncias de produção. Afinal, por que alguns personagens mereciam estar naquele “lugar”, naquele “momento” e tantos outras pessoas que também “caminharam juntas” ficaram de fora? O papo do “eles ainda não estavam prontos” porque tinham “coisas a resolver” é aceitável até certo ponto, pois serve para o cheio de pecados Ben ou para o traíra Michael, mas por que não para Mr. Eko, por exemplo? Apesar da marra e de ter sido um assassino antes da ilha, ele sempre ajudou a todos por lá. Sem teorias aqui, meus caros: Eko “não estava pronto” simplesmente porque o ator Adewale Akinnuoye-Agbaje não aceitou voltar à série. Isso sem falar de Miles, que conviveu com Juliet e Sawyer por anos…

Apesar de triste, achei adequado Jack morrer na ilha. Ele foi o herói trágico do início ao fim. Foi o cara que se sacrificou por todos, mesmo por quem questionava e desprezava sua liderança em todos esses anos. E a companhia de Vincent naquele último instante não foi menos que poética. O doutor descansou em paz porque seu lema – viver junto para não morrer sozinho – foi recompensado.

Não gostei, porém, de Hurley, Desmond e Ben ficarem por lá. Ben até entendo, pois a ilha sempre foi o seu lar mesmo. Mas no penúltimo episódio, Hugo falou claramente que estava aliviado de não ter sido ele o guardião. Daí porque Jack decidiu ficar, ele não só ficou também, como virou o novo Jacob? Não me convenceu. O diálogo dele com Ben ainda deu a entender que eles conseguiriam/conseguiram tirar Desmond da ilha, mas como e em quanto tempo, vai saber…

Aqui é terreno delicado e caro a muita gente. Até porque a própria definição de mistério é muito sutil em uma série como “Lost”, onde o mistério não era um gênero em si, mas uma ferramenta importante e usada à exaustão na série toda.

Todos divergem entre o que foi totalmente, parcialmente ou não explicado, sobre as possíveis interpretações das “respostas” ou mesmo o quão importante tais resoluções eram para curtir o programa. Por enquanto, vou me ater ao que considerei mais crucial na condição de fã.

Acredito, portanto, que os “mistérios” mais importantes foram “resolvidos” – as aspas existem porque, como falei acima, tudo é questão de interpretação e ponto de vista. No “Lostverso”, o planeta Terra concentra uma forte energia eletromagnética com benefícios e malefícios inúmeros. A ilha é o ponto de maior concentração desta energia, que precisa ser guardada por alguém que aceite a responsabilidade e o esforço de protegê-la da cobiça da Humanidade. Um mito moderno, enfim.

Talvez o eletromagnetismo seja o maior motivo da ilha ser tão difícil de ser encontrada. Como o físico Daniel Farady comprovou, essa energia, liberada sob certas condições, permite viagens no tempo. Mas apesar de difícil, não é impossível encontrar a ilha, e diversas gerações de visitantes passaram por lá. A mãe adotiva de Jacob e MIB, depois a mãe natural deles, o Black Rock, a Dharma, o barco Elizabeth, o voo Oceanic e o voo Ajira conseguiram, pois cada um teve a “sorte” de cruzar com as condições certas. Sim, o termo “Triângulo das Bermudas” acende em neon neste momento.

A explicação maior para os números foi mesmo o grau do ângulo de cada nome de candidato no observatório de Jacob. Além disso, no ARG de “Lost” falava-se que os números eram variáveis de uma equação matématica sobre o fim do mundo. Não explica inteiramente todas as coincidências envolvendo tais números, claro. Atribuo isso a traquinagem dos produtores mesmo.

Agora quem era a mãe adotiva de Jacob, por que a fonte emanava aquela luz, como a mesma fonte transformou MIB em um monstro, como Desmond não fritou o juízo com tanto eletromagnetismo, porque Walt tinha poderes, porque Richard pôde envelhecer de novo, que diabo era aquele cavalo de Kate, bla bla bla… enfim, tudo isso vai ficar em aberto mesmo. Se isso resulta na grande farsa dos produtores incompetentes ou em uma obra propositadamente aberta para que os espectadores a preeencham com suas versões, você decide. Mas voltarei a esse ponto crucial do debate em outro texto, como falei acima.

Para resumir muito bem resumido: gostei bastante do episódio final, mas não o considerei um desfecho satisfatório para a série como um todo. Não apenas por todos os pontos negativos já citados aqui, mas também porque não comprei muito terem transformado o flashsideway em um – na falta de um nome melhor – “purgatório”. Nem se trata da sensação de ser “enganado”. Mas acredito que, mais que resolver ou não mistérios, a grande falha de “Lost” foi se afogar nas águas navegadas por suas pretensões.

É, os produtores juraram por anos que a tese do purgatório era infundada. Só aí já dá pano pra muita manga. Mas a minha decepção vai por outro viés. Será que usar um recurso relativamente batido – “Ghost”, “O Sexto Sentido” e “Os Outros” só de relance – é mesmo digno para uma trama tão ambiciosa? E será que foi certo Lindelof e Cuse chegarem no começo da sexta temporada e mudarem o discurso de “as respostas virão no final” para “nem tudo será respondido“?

Apesar de meio “lei da compensação”, há tempos aprecio a ideia que muita gente também vem seguindo: de que o grande barato de “Lost” foi a viagem, não o destino. Não era importante para mim que a série acabasse com todos juntos felizes de volta à civilização – e antecipar esse momento no flashforward foi uma jogada de gênio. Também não era um maníaco por respostas de mistérios. Daí vejo que, assim como “Arquivo X” nos anos 90, “Lost” foi uma série que definitivamente marcou seu lugar no panteão dos grandes conceitos pop por diversos méritos, por mais falhas que tenham apresentado no processo.

Já falei um pouco os motivos disso aqui, mas falando especificamente da história, acho que o programa criou personagens incríveis e de fácil identificação, apesar de complexos nos detalhes. A sensação de estar sempre “perdido” a todo início de episódio, mesmo acompanhando toda semana, era semelhante a pular de 100 metros de altura no bungee-jump: por mais que se repetisse, era sempre um prazer inédito. A estrutura narrativa mutante desafiava positivamente nosso interesse pela trama.

E os detalhes? As frases impagáveis de Hurley, os apelidos de Sawyer, a fé insistente de John Locke, o heroísmo de Jack, a coragem de Kate, o medo de cada aparição do monstro, o (des)agradável cinismo de Ben, os dramas particulares, os romances, as cenas engraçadas… será que todas essas coisas boas não compensaram desastres como “Across the Sea”, os flashbacks chatos de Kate, a dupla Paulo e Nikki, o desfecho meia boca e todas as outras coisas ruins?

Não sei você, mas para mim compensou. No fechar de olhos de Jack Shepherd, é hora de manter os meus abertos. Que venha outro “Lost” em nossas vidas.

* Marcio escreveu este texto em seu blog.

Eu me lembro quando a série começou, em 2004, e as primeiras teorias sobre Lost começaram a pipocar nas publicações gringas. Assim que começou a fazer sucesso e merecer teorias mirabolantes, uma das primeiras hipóteses era a do “purgatório” (junto a outras que diziam que a humanidade foi extinta ou que era tudo uma alucinação ou que era um projeto científico). Venceu a primeira alternativa, o “purgatório adaptado” ou uma espécie de limbo necessário antes de se atingir a redenção. No eterno dilema entre fé x razão, a primeira levou a melhor.

A quem pensava (como eu) que a ciência explicaria tudo resta um grande “só lamento”. Mas não é difícil compreender esta explicação do final e fazê-la encaixar com todas as seis temporadas anteriores. Pensando bem, quem acreditou nessa hipótese durante toda a duração da série deve estar com um grande sorriso no rosto até agora. E, ah, como eu queria nunca ter desistido desta ideia! Ok, os produtores sempre negavam a teoria (e caso eles admitissem, vamos combinar que seria chatíssimo ter um “spoiler oficial”).

Também não é difícil aprovar esta escolha para solucionar a série. É claro que uma solução narrativa considerada “fácil” – tão fácil quanto dizer “era tudo um sonho”, justamente o final proposto por Stephen King quando questionado sobre como ele terminaria Lost se fosse o autor. No entanto, o “fácil” mesmo é criticar sem dar uma segunda chance para a compreensão total da série. Lost não seria Lost se não precisasse de textos intermináveis para ser explicada. Tampouco há certo ou errado em se tratando de Lost, pois o fã faz o seu próprio sentido (gostando ou não da série).

Nada nunca foi mastigado na série. Não seria no momento final que isso mudaria.

***

Desde o primeiro episódio da primeiríssima temporada, quando fomos apresentados à estrutura narrativa principal de LOST – os tais “flashbacks” – estávamos conhecendo o passado de cada um dos personagens. Seus erros e seus fantasmas que os perseguiam no momento da queda do avião da Oceanic, voo 815, tudo estava lá. Na ilha, de um jeito ou de outro, cada um dos personagens conseguiu “expurgar” os esqueletos no armário ou trabalhar seus problemas. Essa seria uma das interpretações.

A quem já chegou neste parágrafo pensando “que bobagem”, tomo como exemplo o próprio Sayid, uma recente “redenção” que ficou marcada na memória dos lostmaníacos. Mesmo após ter morrido, voltado à vida de forma misteriosa no templo e ficado meio zumbi, o iraquiano conseguiu salvar muitas pessoas. No passado, havia tirado muitas vidas. Seria, pela lógica do purgatório/limbo, uma maneira de “compensação”.

A cada minuto que penso na solução do purgatório as coisas começam a fazer sentido. O avião caiu, os personagens ficaram vagando pela ilha (como alguns até hoje estão lá sem conseguirem “se libertar”, conforme as explicações do que são os “sussurros”) e cumpriram sua pena para terem direito á passagem para outro lugar/outro mundo/outra dimensão. Os flashsideways representariam isso, então: um limbo antes da redenção final. Não gosto de classificar como “céu ou inferno”, ainda que estas serão expressões muito citadas nos próximos dias. Quando os losties estão reunidos naquela espécie de igreja, fica claro que a cruz que cada um carregava já não importa – e eles estão prontos para o próximo passo.

Nesta simbologia identificamos ainda a presença de certos personagens como “seres especiais” que ajudaram os losties a cumprirem essa jornada. Citaria Desmond como o principal – coube a ele resgatar um a um os “passageiros” e guiá-los para a tomada de consciência (com cenas emocionantes de cada um lembrando de sua história na ilha). Também outros como Charlotte, Faraday e Miles (que não tiveram essas “visões” no flashsideways e que foram parar na ilha para ajudar os losties) se encaixariam nessa teoria de ajudantes. Perdoem-me se parece que eu vejo Supernatural em excesso, mas neste caso caberia chamá-los de “anjos”, na minha opinião. E que dizer, então, de Hurley, que ficou de guardião da ilha e que teve papel central nos últimos episódios, demonstrando o poder de se comunicar “com o lado de lá”?

Enquanto tentávamos explicar os flashsideways pelo mundo da física, os produtores estavam escrevendo uma história inteiramente baseada na fé.

No entanto mesmo a “parte da ciência” pode ser explicada com a premissa do purgatório. Um exemplo corriqueiro entre os chamados “mistérios da ilha”: por que as mulheres que engravidavam na ilha morriam? Uma resposta é que elas já estariam mortas, portanto não poderia gerar novas vidas. Sendo assim, como que Claire e Sun tiveram seus filhos? É que elas já estavam grávidas quando caíram e morreram na ilha. Pensando sob a ótica do “eles estavam todos mortos”, faz sentido. A filha de Sun e Jin, portanto, nunca existiu.

* Camila publicou este texto em seu blog.

Sempre vou lembrar de três professoras de português.

Uma delas dizia: “Tiago, não comece uma história sem saber como terminar”. Eu, sete anos de idade, já era craque em parágrafos desregrados. Fluxos e mais fluxos de consciência. E ela me alertando, em agonia: menino, se ampare em vírgulas!, pontos finais são salva-vidas muito úteis! Muito teimoso (antes e hoje, sempre), nunca aprendi nenhuma dessas lições. Escrevo sem cuidado ou itinerário.

Lost highway.

A outra professora, que era a própria Afrodite, tentou me ensinar tantas fórmulas, truques, tantas manhas de redação! Tantas dicas que me salvariam de tantas gafes! Não ficou quase nada. Só uns flashes: o rosto rosado, a franja sobre os aros redondos dos óculos, a voz agudíssima (um terror) e o conselho: ”na literatura, Tiago, tudo é possível”. E meu coração inflava: ah. Ela estava certa ou estava errada? Nunca nem refleti sobre o assunto. O que fiz foi acreditar, e acredito: no papel, tudo é possível.

A terceira e mais intrigante, cansada dos meus delírios imaturos, me orientou: “Termine o texto da forma como quiser, Tiago, mas com beleza“. Eu não entendi. A ideia sempre me pareceu um mistério e, no mais, eu terminaria os meus textos como eu bem entendesse. Tudo é possível, tudo é possível. Eu era (sou) um cabeça de pedra. Mas depois, anos e mais anos depois, entendi o que ela queria dizer: eu deveria terminar meus textos com graça e elegância, como quem se despede de alguém que se ama.

Também não me vejo cumprindo essas formalidades. Mas, desde que me entendo por leitor, sempre me assombro com os desfechos extraordinários. Os desfechos iluminados. Belos ou feios ou chocantes ou abruptos e antipáticos. Tanto faz. Dizem que os primeiros parágrafos são atestados de inteligência e bom senso. Sempre preferi as conclusões.

Quando passo das cem páginas de um livro, me apresso para saber como ele vai terminar. Não me interessa exatamente o destino dos personagens. Quero saber como o livro termina. Como. Com que frase, adjetivo, interjeição, pensamento ou provocação. Um ponto final nunca é igual a um outro.

Voltei a pensar nessa minha mania quando ouvi os comentários sobre último capítulo de Lost. Os comentários dos outros e os meus comentários. Todos apaixonados, agressivos, furiosos, já que séries duradouras de tevê são como bandas de rock ou times de futebol. Nos afeiçoamos a elas. Dê três temporadas, apenas três temporadas, e elas grudarão na nossa parede feito fotografia de infância.

Um parêntese que explica a minha relação com séries: comecei a ver Lost ainda na primeira temporada, a contragosto. Minha namorada gostou e eu fui atrás. No início, me pareceu um show oportunista, mix de Survivor com Arquivo X. Nada especial. Na segunda temporada, eu já associava as aventuras de Jack, Sawyer e Locke ao jeito como a minha namorada deitava a cabeça no meu colo enquanto assistíamos aos episódios. Ao perfume, ao sofá da casa, ao barulho do ar condicionado. Na sexta edição, cada um dos capítulos me trouxe saudades dela, que hoje mora em outra cidade. Em mim, o seriado se transformou em uma espécie de souvenir, polaroide de uma época que passou.

Meio forte. E você entende?

Escrevi esse parêntese só para ilustrar como às vezes nos conectamos a esses programas muito tolos de tevê. Lost não é irrelevante, eu sei: poucas séries souberam brincar tão graciosamente com o tempo. Pretérito, presente do indicativo, futuro imperfeito. Muito se falou sobre os mistérios da ilha onde o avião da Oceanic se espatifou, mas o que me deslumbrou foi o jogo narrativo. Os flashbacks, flashforwards e flashsideways, soltos no ar.

Os fãs têm uma relação extremamente passional com a série, a série é só deles, e entendo a origem desse fogo. Tem muito a ver com a cumplicidade que sentimos em relação aos nossos ídolos pop. Confiamos neles. Torcemos para que, em retribuição, eles nos sejam fiéis. Perdoamos tropeços. E, nas situações mais trágicas, reconhecemos que eles nos deixaram de coração partido.

Sem querer ser piegas, mas a season finale de Lost partiu o coração deste fã aqui.

E acho que por um motivo que me leva aos desfechos brilhantes de livros que amo: não há encanto, elegância, graça ou inteligência nessa conclusão. Pior: é uma conclusão translúcida, banal como um show barato de mágica. Deixo de me deslumbrar quando descubro por que o coelho sai da cartola.

Eu acreditava – mesmo com todos os indícios de erro – que os roteiristas-ilusionistas seriam capazes de me assombrar. Mas aí a culpa é de quem? Minha, que esperava muito? Ou da série, que me ofereceu tão pouco?

Ou ninguém é culpado e o divórcio é amigável?

Não me pergunte. O curioso é que reagi às patetadas do episódio como um fã de rock que, num belo dia, recebe a notícia de que o ídolo decidiu se despedir do showbusiness com um disco ultraóbvio de canções natalinas.

The end me parece, sob todos os aspectos, um disco ultraóbvio de canções natalinas. Um episódio que nos chantageia, nos maltrata, nos subestima. Uma tortura em dó maior. Compartilho, até instintivamente, da irritação de alguns fãs: seis anos e isso? É muito tempo. Conheço gente que mudou três vezes de emprego nesse período de tempo. E os enigmas que não se resolveram? E os números? E o projeto Dharma? E os monumentos de pedra? E o Walt, coitado? E o nosso futuro?

Séries de mistério são quase sempre uma armadilha. Veja o caso de Arquivo X. O vilão é o tempo, sempre ele. O suspense é prolongado excessivamente, a multiplicação de subtramas deixa inúmeras pontas soltas nos roteiros, a mitologia vira um fardo e toda tentativa de encontrar soluções para os enigmas da trama soam simplórias, apressadas. Estava escrito: Lost só agradaria à maior parte dos fãs se terminasse com um desfecho imprevisto e emocionante que nos fizesse repensar a nossa existência no planeta e os rumos da ficção.

Mas o que nos resta é um roteiro de Damon Lindelof e Carlton Cuse.

Entendo que, para a dupla, deve ter sido uma jornada ainda mais complicada que a nossa. Imagine isso, conviver com todos esses personagens, definir os destinos de cada um deles. E pensar em malabarismos formais para espantar o nosso tédio e alimentar a nossa fome de fantasia. Deve ter sido dose. E mais: escrever um episódio-evento, um arranha-céu para a noite de domingo, atração imperdível para todas as idades e crenças. Quase uma mini-final de superbowl. Imagino que até eu, na pele deles, sentiria a obrigação de simplificar um pouquinho as coisas.

O episódio final de Lost, talvez aprisionado nesse jogo de pressões, soa tão singelo e descomplicado quanto o episódio-piloto. Perto dele, a quinta temporada fica parecendo um supletivo de física quântica. Há duas linhas narrativas: uma delas, sobre a luta do bem (Jack) contra o mal (Locke) na ilha da fantasia; a outra, sobre antigos amigos que se reencontram numa realidade movediça, onde os desejos aparentemente se realizam. Para o “leigo”, soa como uma ficção científica sentimental com a assinatura do protagonista de Dawson’s creek.

Já para os “fiéis”, trata-se de uma big despedida. A realidade “alternativa” mostra-se uma desculpa para uma reunião de elenco. A cada trombada dos personagens, flashbacks velozes pipocam na tela e nos fazem lembrar de todo o tempo que gastamos com a série. Caiu uma lágrima, arrancada pela útima tecnologia em chantagem sentimental.

Na ilha, a arquitetura do roteiro revela-se ainda mais grosseira. Um hipopótamo. Personagens correm para salvar o mundo, matam uns aos outros, provocam terromotos e tempestades, mergulham numa caverna dourada, manipulam uma rolha gigante (!) e resumem todos os dramas da série a uma perseguição de Tom vs. Jerry. O mocinho mata o vilão, beija a mocinha e se sacrifica por uma causa que ninguém sabe dizer se é nobre ou não. Whatever. Está claro que os roteiristas querem encerrar logo a epopéia e ir ao que interessa: a realidade paralela, onde tudo termina bem.

O que me incomoda (e aí aparecem os fios da narrativa e a picaretagem do empreendimento) é que esse tempo paralelo que tanto interessa aos roteiristas é uma criação da sexta temporada. Um truque de última hora inventado para nos surpreeender. Me pergunto se Damon e Carlton não poderiam ter encontrado uma surpresa aterradora sem abandonar o Grande Esquema das Coisas – isto é: dentro da ilha.

Mas, novamente, saquei a estratégia. Os roteiristas tentaram usar uma das teorias mais difundidas entre os fãs (a de que todos os personagens estavam mortos) de uma forma que os enganassem (já que não é a ilha o purgatório, mas a “realidade alternativa”). Uma tentativa interessante. Mais curioso ainda é como, neste finale, os roteiristas invertem nossas expectativas: a ilha é o mundo real, enquanto que Los Angeles vira a cidade dos sonhos.

Fico muito satisfeito quando penso que os roteiristas realmente refletiram sobre tudo isso. Mas duvido muito que isso tenha acontecido, já que o episódio todo é desenvolvido com as fórmulas mais apelativas de dramalhões religiosos. Quando descobrimos que os personagens estão à caminho do céu – eles se reencontraram e, por isso, têm direito à liberação -, é inevitável pensar que a grande lição da série é algo como “a vida é uma aventura, mas o melhor está por vir.”

O que, para mim, é uma filosofia abominável. Eu é que não vou ficar esperando pelo dia em que a porta da minha igrejinha particular vai abrir. Não. Mas, ainda que eu tenha me decepcionado com a série também por conta disso (sério, Damon e Carlton, leiam qualquer textinho do Carl Sagan e entendam que a vida às vezes não faz sentido e é bonita mesmo assim!), não é, repito, o que mais me frustrou no desfecho. É que parece ter faltado aquele elemento misterioso que separa os livros inesquecíveis das bobagens de autoajuda, aquele toque sobrenatural que nos enche de entusiasmo, nem que por alguns minutos. Que renova a nossa fé na literatura.

Quando leio um bom livro ou vejo um bom filme, quero viver mais.

Com este episódio de Lost, meu único desejo: esmagar o televisor. Fulo e bronco feito um hooligan. Meus ídolos! Lembrei da minha professora: tudo é possível. E da outra: escreva desfechos com beleza. Depois, mais calmo, tentei me convencer de que o errado sou eu. Esta é a conclusão que soa bela para quem a escreveu. Eu é que não deveria ficar sonhando os sonhos dos outros.

End credits. Hora de acordar.

* Tiago publicou este texto em seu blog.

de todas as teorias mais sinistras, mais engenhosamente brilhantes concebidas por fãs apaixonados por lost, nenhum final poderia ser melhor do que o final feito por cuse e lindelof. dificilmente alguma outra coisa poderia significar uma reviravolta tão drástica do que aquela ocorrida no “flashsideways”, e tão surpreendente também.

novamente vejo um series finale intenso que lida tão bem com o assunto mais delicado para o ser humano: a morte. digo isso porque assisti six feet under e o abalo que senti nos minutos finais de lost quase se compara ao estado de choque em que fiquei ao final da série da hbo. lembro que quando assisti “everyone’s waiting”, o final de sfu, não consegui me mexer. ou melhor, eu não queria me mexer, não queria me levantar. tive que esperar alguns minutos para recobrar a coragem e seguir com a vida (além de tudo, ainda tinha uma vida pra viver!). tive que me recompor. tive que chorar tudo antes. e então a gente percebe a importância de tanta dor: nos tornamos mais fortes. vale a pena estar vivo. aliás, é um momento extremamente tocante quando richard confessa ao ver um cabelo branco: “só agora me dei conta de que eu quero viver”.

nesse último episódio de lost nem sei quantas vezes eu chorei. chorei primeiro quando hurley encontrou charlie no “flashsideways”, a felicidade contida dele, dava para ver nos olhos o quanto hurley queria abraçar o velho amigo, e depois voltei a me emocionar no final quando descobrimos o real e inestimável valor daquele encontro. aliás, a cada encontro que devolvia as lembranças dos personagens era difícil conter as lágrimas, e finalmente o desfecho de jack naquela realidade foi arrasador.

foi realmente gratificante que o final tenha sido “humano”, antes de objetivo ou científico. se a primeira temporada eu detestei justamente porque eu achava perda de tempo as histórias pessoais em vez do foco nos mistérios da ilha, esse episódio só veio para constatar minha estupidez daquela época. nada em lost é tão importante quanto as pessoas individualmente. não fosse a humanidade com que os criadores desenvolveram seus personagens no início (e durante toda a série também, é claro, mas com especial cuidado no início), jamais seria satisfatório o desfecho da história.

por causa disso, somos parte da história. somos parte da redenção dos personagens, somos parte da felicidade dos personagens, somos parte da tragédia dos…

tsc… “personagens”. dessas pessoas, eu quero dizer. pessoas.

de repente me sinto como o rodrigo de clarice lispector. só agora lembrei que as pessoas morrem.

enfim…

não encontro modo de expressar minha enorme gratidão a todos os responsáveis pela série. é realmente gratificante poder ser levado dessa forma por uma história.

e ser mudado por ela.

* Diego publicou este texto em seu blog.

Salve! SPOILER ALERT!

Revelado o sergredo final de Lost, que é mais digno que os MAN BOOBS do Locke, estão pipocando fãs escandalosos reclamando que foram TRAÍDOS pelos roteiristas (só posso comparar com torcedores que vão ao estádio cobrar AMOR de jogador de futebol).

Senhores, antes de tudo, isso é uma atração de ENTRETENIMENTO. Parem de passar vergonha.

E graças ao Zico o seriado não terminou com uma EQUAÇÃO na tela, que provocaria ereções nos Faradayzinhos de plantão.

Agora, pensem bem em como a coisa fechou, e vejam como foi coerente com tudo que foi mostrado ao longo desses seis anos. Lost é uma série de DUALIDADES. O preto e o branco não são apenas o BEM e o MAL, são a RAZÃO e a FÉ, a CIÊNCIA e a ESPIRITUALIDADE, o EXPLICÁVEL e o INEXPLICÁVEL. Por isso o condutor da trama é Jack, um sujeito que abandonou sua racionalidade e aprendeu a aceitar que certas coisas estão fora do seu alcance.

E o fim da história dá essa opção a quem acompanhou a série. Existem duas vertentes de compreensão, que não se contradizem ou se excluem. Está tudo em aberto, assim como a trajetória dos personagens. Muito pouco foi respondido (quase nada mastigado), e exatamente por isso o final foi tão bacana. Sempre que tentavam dar respostas a série perdia o brilho.

Estão dizendo por aí que Lost foi uma série sobre pessoas. Acrescento algo aí, foi sobre pessoas e como elas se comportam diante do desconhecido.

Diz aí, você é um Jack ou um Locke?

* Raphael escreveu este texto em seu blog.