Entrevista que fiz sobre o filme Winnebago Man para o Link de hoje.
Quando um meme vira filme
Como erros de gravação cheios de palavrões deram origem a um documentário
De gravata e camisa social, um homem começa a falar com a câmera. Ele está num comercial de TV, vendendo o trailer que é cenário para o anúncio. Só que esquece o texto e começa a xingar. Joga os braços para cima, com raiva. Faz careta. “Fuck!”. Corta para outra cena. Ele começa a mostrar algo do lado de fora do carro e uma tampa se fecha. Mais xingamentos. “Fuck!”. Mais braços para cima. Mais caretas. Mais “Fuck!”. “Fuck! Fuck! Fuck!”.
Jack Rebney era um dos muitos apresentadores de infomerciais na TV americana durante os anos 80 que, como qualquer um, lamentava os problemas ocorridos ainda com a câmera ligada. Mas sua reação era sempre enfezada e alguém da produção do programa compilou os melhores momentos em um vídeo que começou a circular em fitas VHS.
Até que, em 2005, o vídeo foi parar no YouTube e, como muitos antes dele, Rebney virou uma celebridade. Uma vez online, ganhou o título de “World’s Angriest Man” (O Homem Mais Bravo do Mundo, em inglês) e o vídeo, que antes era objeto de culto entre os poucos que conseguiram assisti-lo antes da internet, virou hit nos Estados Unidos.
Em pouco tempo, entrou no inconsciente digital do país. O personagem de Alec Baldwin na série 30 Rock e o desenho Bob Esponja cansaram de soltar aspas de Jack. O diretor Spike Jonze teria enviado fitas com o vídeo como presente de Natal para amigos. E no recente Homem de Ferro 2 o pai do protagonista esbraveja em um vídeo antigo como se fosse Jack.
Mas uma coisa intrigava o diretor Ben Steinbauer, que havia assistido aos pitis de Jack ainda no videocassete. Ao ver o protagonista de uma piada entre amigos ganhar grandes proporções, estranhou que o próprio não havia aparecido. Teria morrido? Sumido? Estaria ainda mais bravo com a piada que se tornou?
“Queria saber como ele se sentia em relação à exposição que ganhou por algo que fez há quase vinte anos”, explicou o diretor em entrevista ao Link. “Não foi fácil. Em tempos de Google, em que basta digitar o nome de alguém para descobrir quase tudo sobre aquela pessoa, só encontrei seu nome em um comentário que ele fez em um site de venda de barcos, em que ele perguntava qual seria o melhor barco para viajar pelo mundo”.
Fazendo o caminho de volta da fita VHS que recebeu, chegou à produção do programa original, que não sabia por onde andava o sujeito. Até que Ben resolveu contratar um detetive, que o ajudou a encontrá-lo. O homem mais bravo do mundo morava no topo de uma montanha no norte da Califórnia, alheio ao resto do mundo e, obviamente, a seu sucesso inesperado.
O encontro deu origem ao filme Winnebago Man, documentário que já foi exibido em alguns dos principais festivais do mundo, colhendo aplausos e gargalhadas por onde passou, e que estreará nos EUA no próximo mês. O filme está sendo negociado para ser exibido no Brasil ainda este ano, por um canal de TV a cabo.
“Não sei se esse tipo de celebridade se tornará uma regra ou se é só uma anomalia do início do século da internet”, explica o diretor. “Mas uma coisa é fato: hoje é muito mais fácil se tornar famoso no mundo inteiro, mesmo à revelia”.
Jack, no entanto, não é contra a fama inesperada e participou de algumas entrevistas coletivas do filme, participando por celular. Mas o diretor não recomenda que futuros fãs tentem o encontrá-lo. “Além de morar literalmente escondido, ele tem uns rifles em casa…”, ri, sem jeito.
Bom, eu sou puro e acredito em fair play. Já tinha visto a carta acima antes mesmo de terem me indicado no post que o Vinícius citou, mas aprovei o comentário na crença que meu adversário teria mais cartas em sua manga. Pois ele tirou da minha! E que carta… Mas tudo bem, como ele mesmo disse, T-Girls é um jogo e jogo também envolve sorte – e azar, no caso, o meu. Pois abri um baú pra arrumar a próxima.
Pirraças esportivas à parte, o fato é que Vinícius tem razão: lançamos uma tendência há alguns meses que só agora os grandes nomes da moda estão começando a notar. Vide que nossa batalha foi parar até no comentário que a importante crítica de moda do jornal que trabalho fez sobre o fenômeno da camiseta Three Wolf Moon.
Vamos combinar que já não era sem tempo. Essas estampas de camisetas que funcionam como trocadilho visual com marcas conhecidas – bandas inclusive – fazem parte da década do mashup (os anos 00) mas ainda carregavam aquela ironia espertinha que intoxicava os anos 90. Ao voltarmos a usar nossos ícones favoritos no peito, sem piadinha interna ou sacada espertinha pra iniciados, resgatamos uma das principais contribuições da camiseta no imaginário mundial – o fato de que, quando você encontra uma pessoa que você nunca viu na vida com a estampa de uma referência que vocês possam ter em comum, criar um vínculo instantâneo, inesperado, por vezes surreal.
É claro que usamos mulher porque gostamos de mulher. Mas o próprio Vinícius já deu a deixa pras meninas começarem seus T-Boys. Por aqui, continuamos com as gatas.
Jogo a seguir.
Entrevistei o Anthony Volodkin, criador do Hype Machine, para esta edição do Link.
“A rádio tradicional só toca as mesmas 40 músicas”
Criador do Hype Machine, agregador de blogs de MP3, ele vem ao Brasil para falar sobre música digital
“Estava na faculdade quando percebi que não ouvia música nova”, lembra Anthony Volodkin, que chega ao Brasil esta semana para participar do evento YouPix. “Não tinha mais tempo para ficar em salas de bate-papo por causa das aulas e do trabalho. Mas descobri os blogs de música e não acreditei quando vi que tanta gente estava escrevendo sobre música só porque gostava. Depois de algumas noites em claro, escrevi um protótipo do que se tornaria o Hype Machine”.
A história se parece com a de muitos criadores de serviços digitais, com um agravante. Quando, há cinco anos, o nova-iorquino Volodkin descobriu o mundo maravilhoso dos blogs de MP3, este era formado por amadores que dispunham seu tempo livre à caça de novos artistas e bandas que ninguém tinha ouvido falar. Cinco anos depois, o Hype Machine não só se tornou a grande central dos blogs desta natureza, como ajudou-os a redefinir um papel importante na história da música digital: o de filtro.
Se as gravadoras se perderam em números de vendas que desabavam enquanto os downloads proliferavam online, os blogs de MP3 se tornaram o grande refúgio para ouvintes que não sabiam o que ouvir. A indústria do disco, perdida entre artistas gigantes que vendem cada vez menos, deixou de ser a referência para descobrir novos nomes. Assim, coube a blogueiros apaixonados por música assumir esse papel.
E são as gravadoras maiores quem mais sofrem com esta nova realidade digital. “Elas não conseguem responder rapidamente a vazamentos de álbuns, por exemplo”.
A reação do mercado ao site foi gradual. “Somos uma forma independente pela qual a indústria pode monitorar o que as pessoas estão fazendo nesta nova mídia”, ele explica, e diz que as gravadoras pequenas e blogs de MP3 responderam positivamente – e logo – à existência do site. “Foi um processo orgânico”, lembra.
Em seus cinco anos de existência, o Hype Machine acompanhou as drásticas mudanças na indústria. “As gravadoras passaram a ousar mais ao vender música online. Já estão contando o fã como um agente importante, em vez de deixá-lo de lado, como no passado”, explica o dono do site, que também comenta as mudanças nos hábitos de consumo. “As pessoas estão comprando mais música digital do que nunca – além de ouvir cada vez mais música na web e nos seus celulares.”
“Mudou também a forma como as pessoas gastam seu dinheiro”, continua. “Isso não quer dizer que a música deixou de ser importante para as pessoas. Mas o mais interessante é perceber como as pessoas interagem e criam neste novo ambiente.”
Às vésperas de lançar uma nova versão do seu site, além de um aplicativo para celular, Volodkin nem pestaneja ao ser perguntado se a internet assumiu o papel do rádio. “Sem dúvida. A rádio tradicional só existe para tocar as mesmas 40 músicas, sempre, sem parar, como se fosse um iPod de baixa capacidade de armazenamento”.
Serviço
YOUPIX.COM.BR – MELHORES DA WEBSFERA 2010.
De 8 a 11 de junho, das 15h às 23h. Museu da Imagem e do Som. Av. europa, 158. Jardim Europa. Volodkin será sabatinado na quinta-feira, às 21h. confira toda a programação no site do evento
Minha coluna no 2 de domingo…
Uma ajuda da internet
Mark Millar, quadrinhos e cinema
Kick Ass – Quebrando Tudo, que estreia na próxima sexta-feira nos cinemas do Brasil, pode até não ser candidato às listas de melhores filmes de 2010 feitas por críticos de cinema. Mas, desde que foi anunciado, ele já estava entre os filmes mais legais que seriam lançados este ano. Basicamente porque seu autor, o escritor Mark Millar, criou todo o conceito do novo super-herói pensando nos fãs. Mas antes de falar do filme, vale contar um pouco a história de Millar.
Escocês, ele decidiu que se tornaria um escritor de quadrinhos quando viu uma palestra de Alan Moore (autor de clássicos modernos como Watchmen e V de Vingança) e estreou no mercado norte-americano sob a guarida de outro ídolo, Grant Morrison (da série Os Invisíveis), em 1994. Em menos de cinco anos, ele já era festejado como um dos grandes nomes daquela indústria, continuando o trabalho de Warren Ellis em Authority, e criando uma das melhores histórias do Super-Homem, Red Son, que imagina o último sobrevivente de Krypton chegando à Terra pela antiga União Soviética.
No ano 2000, mudou-se para a Marvel e começou a virar do avesso aquele universo de super-heróis, primeiro reinventando o Homem-Aranha para o século 21 e fazendo, mais tarde, o mesmo com os X-Men, Capitão América, Hulk e Thor. Em comum, estas novas histórias tinham o fato de atualizar aqueles heróis para o mundo pós-internet (Peter Parker, por exemplo, era o estagiário que cuidava do site do Clarim Diário). Mas depois de muitos anos escrevendo histórias criadas por outros, decidiu inventar seus próprios mitos.
E, entre eles, Kick Ass. A minissérie em quadrinhos foi lançada mirando em sua adaptação para o cinema. Millar já brincava com as duas mídias na Marvel – em uma edição dos Supremos (sua versão para os Vingadores), os heróis discutem quem seriam os melhores atores a interpretá-los no cinema.
Com Kick Ass a metalinguagem vai além – e a internet ajuda a misturar realidade e ficção. Na história de Millar, um garoto resolve virar super-herói por conta própria – mas só se torna notado depois que uma briga em que se envolve é filmada por celular e vai parar no YouTube.
Estes pequenos detalhes mostram que Millar está atento não apenas às novidades, mas também disposto a não tratá-las como coisas de outro mundo, mas partes do cotidiano de cada um. O protagonista mede sua popularidade ao comparar o número de amigos em seu perfil do My-Space com o da identidade secreta que criou. E quando ele pergunta à pequena heroína de 10 anos, a adorável Hit Girl, onde ela conseguiu um lança-chamas, sua resposta é direta: “Ebay.”
Desta forma, Millar é o primeiro autor a pular dos quadrinhos para o cinema sem ser um mero contratado. Produtor executivo do filme, Kick Ass não é a primeira obra sua a ganhar vida na telona (a série Wanted virou o filme O Procurado, com Angelina Jolie). E não deverá ser a última.
Um mashup para a Copa do Mundo
http://365mashups.wordpress.com. Segue a árdua tarefa do produtor João Brasil que vai fazer um mashup por dia durante todo o ano de 2010. Uma das novidades dele é a mistura da nova versão de Umbabarauma de Jorge Ben com Mano Brown com Uma Partida de Futebol, do Skank.
Onde ouvir música nova
Os blogs de MP3 e o Hype Machine
O que faziam as gravadoras antes da crise na indústria fonográfica? Além de produzir, distribuir para as lojas e vender discos – artefato cada vez menos importante devido à música digital –, essas empresas tinham a louvável tarefa de descobrir novos artistas, ajudá-los a entender o mercado em que estavam dispostos a entrar e encaminhar seu futuro artístico. Mas, com a crise do disco pós-MP3, elas aos poucos foram perdendo esse papel de filtro para cada vez mais se preocuparem com aspectos econômicos do negócio da música.
Coube aos blogs de MP3 assumir este papel. São sites feitos por ouvintes e amantes de música, quase todos sem nenhum vínculo anterior com o mercado e produzidos de forma amadora. Começaram a aparecer no início do século e, pouco a pouco, foram substituindo as gravadoras para o público, cada vez mais online, no que diz respeito a saber onde descobrir a melhor música que vem sendo feita hoje em dia.
De lá para cá, estes blogs cresceram, ganharam respeitabilidade e alguns até conseguiram criar modelos de negócio para serem sustentados. E o ponto de partida para quem está procurando música nova online é o site Hype Machine, criado há cinco anos pelo nova-iorquino Anthony Volodkin, que vem ao Brasil na próxima semana, no evento YouPix (de 8 a 11 de junho, no MIS. Mais informações no site www.youpix.com.br).
“Blogs de música têm uma seleção cuidadosa e têm atraído um público cada vez maior, mas não se preocupam com o lado de negócios como outras gravadoras”, ele me disse na última sexta. “E isso torna suas escolhas mais interessantes, pois não estão atrelados à gravação, à produção ou ao marketing, como as gravadoras estão.”
O Hype Machine funciona de forma simples. Basta entrar no site (www.hypem.com) e procurar por algum artista e ele lista uma relação com os blogs que linkam MP3s do nome procurado. Clicando na opção “Popular”, logo na home do site, há uma lista com as músicas mais procuradas da hora – uma parada em constante movimento, como tudo na web.
Apelou, perdeu
M.I.A. contra The New York Times
M.I.A., que lançou o manifesto antirruivos Born Free, ataca de novo – e desta vez é pessoal. Ela não gostou do que a jornalista do New York Times Lynn Hirschberg escreveu sobre ela e não hesitou em twittar o número do telefone da jornalista. O perfil escrito por Hirschberg estava longe de ser ofensivo, mas a cantora não deve ter gostado de ler que ela se considera uma outsider enquanto come batatas fritas com trufas, e anunciou que vai “contar tudo” em dias. Detalhe: Lynn é ruiva.
Da menina
– www.myspace.com/tuliparuiz. Tulipa Ruiz é a bola da vez da MPB paulistana e lança seu primeiro disco hoje, no Auditório Ibirapuera, às 18 horas (ingressos: R$ 30), com participações de Jeneci e Mariana Aydar. Algumas faixas de Efêmera podem ser ouvidas em seu MySpace.
Lost seguia a lógica de entretenimento de uma montanha-russa. Quanto mais loopings tivesse um episódio, mais querido pela audiência ele seria. E o último episódio teve tanto disso que muita gente tá vomitando até agora.
O programa foi fiel ao seu preceito mais básico, o de não explicar coisa nenhuma. Desse jeito, as discussões sobre o final da série vão muito além do “gostei / não gostei”, o que condiz bem com o que foi Lost durante essa formidável jornada.
Outro detalhe incrível foi que Lost evidenciou a fraqueza do ensino básico brasileiro, levando em consideração a dificuldade de compreensão a respeito do momento em que os personagens estavam vivos ou mortos.
Para ajudar no brainstorm do Matias, incluo aqui uma canção do grupo Pixote que, no final dos anos 90, já anunciava como seria o final de Lost. Prestem atenção na letra.
* Chico Barney escreveu este texto pra cá.
Foi certo Lost terminar como uma grande novela das oito. Afinal, a série foi isso durante estes seis anos, é por isso que ela conseguiu o alcance que teve. Se não tivesse o elemento Janeth Clair (mais do que Manoel Carlos ou Gloria Perez, como alguns citaram, meros amadores na arte cada vez mais, er, perdida de escrever uma telenovela), Lost seria uma série que falaria com um público específico, uma tribo. Seria cult, alternativo, cool, nerd – seria uma realidade paralela. Como toda a obra de J.J. Abrams, Lost pegou uma fração específica de um nicho e deu-lhe uma noção épica, monumental. “Dar tratamento A à cultura B”, como ele mesmo diz, com freqüência. E quando pensamos que Lost é uma mistura de Além da Imaginação com um reality show numa ilha deserta, tendemos a nos animar com o lado do seriado de Rod Serling, esquecendo que é a novelinha e os personagens que tornam a série tão importante.
Essa história foi encerrada em The End, seu último episódio, que junto também trouxe uma pontada de frustração por não responder as tais inúmeras perguntas abertas pelo seriado semanalmente. Mas como Across the Sea, o antepenúltimo episódio, que já havia causado cisão entre os fãs, The End não estava preocupado com as respostas. E, como em quase toda duração da série, ambos episódios não esclareceram nada, funcionaram apenas como uma amostra do poder narrativo de Lost, enfileirando questionamentos vagos à medida em que traduzia os sentimentos dos protagonistas – que poderiam ser resumidos no título da série, a sensação de estar perdido, e não apenas geograficamente.
Este sentimento não era exclusivo dos personagens – era também nosso. Passamos seis anos perdidos numa ilha maluca que muito de vez em quando dava alguma amostra de racionalismo. Seis anos perseguindo números, constantes, equações, cronologias, efeitos especiais, coincidências e linhas do tempo que nos fizeram crer que a ilha fosse o paraíso perdido, uma nave espacial, o oco do planeta, uma dimensão alternativa, um estado de espírito, uma anomalia eletromagnética, um lugar místico. Ilha que já colheu gente de todas as épocas e lugares – de adoradores das divindades do Egito antigo a cientistas e militares norte-americanos – e que por seis anos (três, na contagem cronológica da série, entre 2004 e 2007) foi palco para o drama dos passageiros do vôo 815 da Oceanic Airlines. E para o nosso drama também, como telespectador.
Eis o trunfo de Lost: nos colocar como participante da viagem. O tempo todo sabíamos que o que acontecia na ilha era ficção, não havia como confundir ator com personagem e havia um próprio subtexto na produção da série – o blog de Hurley, a transformação de Damon e Carlton em ícones pop, as entrevistas de Michael Emerson – que fazia questão de nos lembrar que estávamos apenas acompanhando uma novela e que o ator que fazia o vilão não era, de verdade, um vilão. Por mais ridícula que esta afirmação possa parecer, lembre-se que estamos na era dos reality shows e torcidas são organizadas em torno do caráter – ou a falta de – de qualquer participante deste tipo de programa, esteja cantando, dançando, cozinhando ou simplesmente discutindo o nada com outros tipos sem graça.
Lost esfregava ficção em nossa cara ao mesmo tempo que nos deixava tão atônitos quanto o estado de seus personagens. E enquanto os personagens só começaram a experimentar as viagens no tempo a partir da quinta temporada, nós estamos sendo submetidos, desde a primeira, a flashbacks e flashforwards na vida de cada personagem, que nos deixaram tão desorientados a ponto de sermos lindamente driblados no final da terceira temporada.
The End nos ajudou a nos reencontramos com a essência de cada personagem – explicando, assim, a função dos flashsideways. Mais do que o “purgatório” visto com esgar pela parte dos fãs do seriado que se sentiram traídos, a realidade paralela criada nesta temporada serviu para que voltássemos a nos encontrar com os personagens da primeira temporada, aqueles que foram importantes no período em que Jack esteve na ilha (que, não custa lembrar, existiu, existe e continua existindo – a ilha em si não é um purgatório, como interpretações ainda mais apressadas tentaram provar). Os personagens que deram origem à história que assistimos.
Aos que reclamaram do final, exigindo respostas, não custa lembrar que a ficção científica também aborda a questão do pós-vida e que a metáfora de uma realidade exatemente idêntica à que vivemos é tema recorrente até neste meio. É uma ficção científica, no entanto, espiritualizada e epitomizada em um autor que, de tão específico, não pertence a nenhuma escola: Philip K. Dick. PKD usava ficção científica para discorrer sobre filosofia e, mais tarde em sua bibliografia, espiritualidade. Viciado em drogas para manter-se acordado e escrevendo, K. Dick teve a própria sanidade posta em xeque quando, no meio dos anos 70, viveu um delírio em que acreditava viver duas épocas ao mesmo tempo (história que o R. Crumb conta com maiores detalhes na tradução que fiz para A Experiência Religiosa de Philip K. Dick). Profundamente abalado por estas visões, K. Dick passou a buscar o sentido da vida em livros quase cifrados – como Ubik e Valis -, em que discorre sobre o que acontece depois da morte indo para além das metáforas religiosas, mas sem se distanciar das referências terrenas. Daí a igreja com seu vitral ecumênico na última cena.
Mas Lost não terminou de maneira espiritualizada e mística, pura e simplesmente. Retire todos os flashsideways e a rendenção final de Jack Shephard e eis a história dos passageiros do Oceanic 815 na ilha, contada desde sua queda até a fuga. Do confronto final entre Jack e Locke (na mesma chuva negra do último duelo entre Neo e Smith em Matrix Revolutions, a série se autoironizou até os últimos minutos) ao sacrifício feito por Jack (Donnie Darko feelings) para restaurar a luz do coração da ilha (puro Disney) até o último fechar de olhos na última cena, toda a história do Jacob e de seus candidatos foi contada. Alguns morreram, outros fugiram, mais outros ficaram. Sem o flashsideways, no entanto, não teríamos a citação de Ben e Hurley à série O Prisioneiro, ao se referirem como “número 1” e “número 2” e saudarem-se com um parente do “be seeing you” – e fico imaginando a reação de quem não gostou do fim de Lost com o fim do Prisioneiro (não o remake americano, tou falando do original inglês)…
(Lost ainda termina com a troca de cargo, deixando o pacato Hurley para tomar conta da ilha que equilibra a bondade do mundo. Há um subtexto maior aí, de que o mundo em que vivemos era regido por um personagem em plena vingança contra seu irmão – e que agora está nas mãos de um gordo gente boa.)
Assim, Lost não foi só uma história que ouvimos, mas que vivemos. Uma experiência coletiva que gerações seguintes apenas poderão imaginar – e comemorar quando, décadas no futuro, alguém explicar os números ou a segunda canoa ou quem é aquele povo dizimado pela mãe dos gêmeos ou contar a história dos DeGroot, entrando assim, para um cânone que começou quando ele nem havia nascido. Quando resumirem Lost em uma frase no futuro (“todos morrem no final” – mas esse não é o spoiler da vida?), a ironia por vir não dará conta das teorias imaginadas e da busca por referências, numa capa de livro, num recado por escrito, num gesto, que vivemos nos últimos seis anos. Lost foi como se pudessem medir a audiência de um seriado que era ao mesmo tinha a densidade dramática de um seriado novelesco (pense em A Sete Palmos) e tensão paranóica e pseudocientífica de uma série geeek (por exemplo, o novo Battlestar Galactica) segundo a segundo, mesmo após a exibição dos episódios. Mesmo após a exibição do último episódio.
Foi bom enquanto durou. Agora, como nos avisaram, é hora de deixar ir – e seguir em frente.
Vambora.
Citando Fellini:
Você fez a coisa certa. Esse é um grande dia pra você. Foi uma decisão difícil, eu sei. Mas nós, os intelectuais – porque eu te considero um -, temos o dever de permanecer racionais até o mais amargo fim. O mundo já está lotado de coisas supérfluas – não há sentido em adicionar mais uma na multidão.
Afinal, perder dinheiro faz parte do trabalho de um produtor… parabéns, não havia alternativa. Ele teve o que mereceu por embarcar tão levianamente em tão frívola aventura. Não tenha receio ou arrependimento. É melhor destruir do que criar, quando se falha em criar aquilo que é mais essencial.
Além disso, há realmente algo que seja tão claro e justo a ponto de ter o direito de existir? Um filme ruim é simplesmente um problema financeiro para ele. Mas para você poderia ter sido o fim. É melhor deixar as coisas irem embora e jogar sal sobre elas como os antigos faziam para purificar os campos de batalha… afinal, tudo o que precisamos é um pouco de higiene, limpeza, desinfetante… porque estamos sufocados por palavras, imagens e sons que não têm razão de ser… que vêm de lugar nenhum e vão para lugar nenhum. Um artista que seja realmente digno do nome deveria ter de realizar um único ato de lealdade: restringir-se ao silêncio. Lembra-se da eulogia de Mallarmé à página branca…?…– Nós estamos prontos para começar!… Todas as minhas felicitações!
– … se não se pode ter tudo, nada é a verdadeira perfeição. Perdoe-me essas citações, mas nós críticos fazemos o que podemos. Nossa verdadeira missão é limpar os inúmeros abortos que obscenamente tentam invadir o mundo. E você gostaria de deixar atrás de si nada menos que um filme inteiro, como um homem coxo deixaria impressas suas pegadas deformadas? Que presunção monstruosa crer que os outros se beneficiariam de alguma forma do esquálido catálogo dos seus erros. Por que você deveria se importar em costurar os retalhos da sua vida, as vagas memórias e os rostos das pessoas que você nunca foi capaz de amar?
– “O que é esse clarão de alegria que está me dando nova vida? Por favor me perdoem, doces criaturas. Eu não me dei conta, eu não sabia… Como é certo aceitá-los, amá-los. E como é simples! Luisa, eu sinto como se tivessem me libertado. Tudo parece lindo, tudo tem um sentido, tudo é verdade. Ah, como eu queria poder explicar…! Mas eu não posso… e tudo está voltando ao que era. Tudo está confuso novamente… mas essa confusão sou eu. Como eu sou, não como eu gostaria de ser. E, agora, não tenho medo de contar a verdade, o que eu não sei, o que eu procuro. Só assim posso me sentir vivo e olhar nos seus olhos fiéis sem sentir vergonha. É uma festa, a vida. Vivamo-la juntos. Não posso dizer mais nada, para você ou para outros. Aceite-me como eu sou, se puder. É só assim que nos podemos tentar encontrar um ao outro”.
– Não sei se você está certo. Mas posso tentar, se você me ajudar.
Sim, é uma comparação hiperbólica e aparentemente absurda. Mas não, não é paródica. Eu realmente acredito na semelhança entre os dois. Não me parece uma associação infundada. Porque ambos realmente me atingem de maneira parecida, as duas cenas me causam reação similar (sim, sim – as lágrimas).
Claro, o final de Fellini é perfeito, genial, obra-prima. E o de Lost tem algo de brega, de over, de desajeitado, de confuso. “Mas” – foi o próprio Fellini quem o disse, e eu não poderia pôr de outra maneira – “essa confusão sou eu”.
* Gabriel citou este trecho em seu blog.
Há seis anos um canal de TV norte-americano estreou mais uma série. As primeiras cenas mostravam os primeiros instantes após a queda de um avião em uma ilha aparentemente deserta. Há poucos dias, as cenas finais deste mesmo seriado apresentaram seus personagens principais se reencontrando amigavelmente, longe da ilha. Um final feliz, não há dúvidas. Mas o quanto os fins justificaram os meios neste caso?
Entre 22 de setembro de 2004 e 23 de maio de 2010, a indústria de entretenimento foi tomada de assalto por um dos universos ficcionais mais audaciosos de todos os tempos. Dentro e fora da ilha, J. J. Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse não tiveram a menor timidez em entupir o programa com mistérios, dúvidas, detalhes e referências das mais diversas naturezas, além de misturar gêneros e montar-desmontar-remontar enredos e estruturas narrativas. Se a pretensão foi muita e o sucesso também, seria evidente que as expectativas seriam imensas e as frustrações idem.
Este texto não pretende se alongar nessa “fase 2″ da discussão, que teve início assim que a tela preta com o logo “L O S T” surgiu pela última vez na ABC. Os significados e interpretações trazidos pelos fãs após o final merecem um cuidado próprio. Por enquanto, vamos nos ater às impressões mais imediatas deixadas pelo episódio duplo em questão.
Mistérios, dúvidas e expectativas à parte, todos os espectadores entraram na viagem de 104 minutos do desfecho querendo saber como o vilão-mor, o Homem de Preto, seria derrotado. A série teve início com o abrir e encerrou com o fechar dos olhos de Jack Shephard. E no penúltimo episódio, foi ele quem – pela enésima e última vez – chamou a responsabilidade, assumindo o cargo de Jacob. Portanto, nada mais natural que o “doc” fosse o artilheiro do gol decisivo, embora como Romário, não teria conseguido sem o passe irretocável do seu Bebeto, o bom escocês Desmond.
Daí em uma sucessão de cenas pouco claras – é “Lost”, lembre-se – Jack não se importou de ver o MIB-Locke executar seu plano de usar Desmond para “tirar o ralo” da ilha, façanha que só ele supostamente seria capaz por ser imune às grandes doses de eletromagnetismo emanadas daquele lugar. Jack sabia/sentia que isso faria a ilha começar a ruir, como o MIB planejara, mas também “desligaria” a mesma energia que transformou aquele homem em uma entidade sobrenatural o tempo suficiente para ele retornar à mortalidade. Era a última e única chance.
Vamos combinar: o quebra-pau entre Jack e o MIB foi arrepiante. Direção, montagem e atuações de primeira. E a conclusão com o tiro de Kate e o chute final de Jack à beira do precipício foi impecável. Um dos grandes momentos da série. A morte do monstro não poderia ter ocorrido melhor.
Uma das justificativas que mais ali a favor do polêmico episódio final é que, “no fim de tudo, a série era sobre aqueles personagens”. Não concordo inteiramente com essa afirmação, que pode ser interpretada como desculpa para negar sua própria insatisfação sobre o que não “deu certo” no programa, mas admito que os personagens foram um dos grandes ativos de “Lost”.
Dito isso, o final acertou em fazer o que a série sempre fez muito bem: dar atenção a quase todos os personagens minimamente cativantes. O “ex-flashsideway” teve seus pontos altos no despertar de memória de todos que ainda não se lembravam da ilha, com destaque para os cinco casais: Jack e Kate; Sun e Jin; Sawyer e Juliet; Charlie e Claire; e Sayid e Shannon. O amor foi fundamental. Nesse processo, os poucos personagens que ainda se sentiam na pior, como Sayid, Locke e o casal coreano, perceberam que o insight não era apenas um retorno de memórias: era em si a chave para sua própria redenção.
Novelesco? Não tenha dúvida. Vai de cada um acatar. Como a direção e as atuações estavam muito boas, pelo menos a mim conseguiram comover.
O complicado, porém, é que esse desfecho, culminando no reencontro na igreja, era falho diante das circunstâncias de produção. Afinal, por que alguns personagens mereciam estar naquele “lugar”, naquele “momento” e tantos outras pessoas que também “caminharam juntas” ficaram de fora? O papo do “eles ainda não estavam prontos” porque tinham “coisas a resolver” é aceitável até certo ponto, pois serve para o cheio de pecados Ben ou para o traíra Michael, mas por que não para Mr. Eko, por exemplo? Apesar da marra e de ter sido um assassino antes da ilha, ele sempre ajudou a todos por lá. Sem teorias aqui, meus caros: Eko “não estava pronto” simplesmente porque o ator Adewale Akinnuoye-Agbaje não aceitou voltar à série. Isso sem falar de Miles, que conviveu com Juliet e Sawyer por anos…
Apesar de triste, achei adequado Jack morrer na ilha. Ele foi o herói trágico do início ao fim. Foi o cara que se sacrificou por todos, mesmo por quem questionava e desprezava sua liderança em todos esses anos. E a companhia de Vincent naquele último instante não foi menos que poética. O doutor descansou em paz porque seu lema – viver junto para não morrer sozinho – foi recompensado.
Não gostei, porém, de Hurley, Desmond e Ben ficarem por lá. Ben até entendo, pois a ilha sempre foi o seu lar mesmo. Mas no penúltimo episódio, Hugo falou claramente que estava aliviado de não ter sido ele o guardião. Daí porque Jack decidiu ficar, ele não só ficou também, como virou o novo Jacob? Não me convenceu. O diálogo dele com Ben ainda deu a entender que eles conseguiriam/conseguiram tirar Desmond da ilha, mas como e em quanto tempo, vai saber…
Aqui é terreno delicado e caro a muita gente. Até porque a própria definição de mistério é muito sutil em uma série como “Lost”, onde o mistério não era um gênero em si, mas uma ferramenta importante e usada à exaustão na série toda.
Todos divergem entre o que foi totalmente, parcialmente ou não explicado, sobre as possíveis interpretações das “respostas” ou mesmo o quão importante tais resoluções eram para curtir o programa. Por enquanto, vou me ater ao que considerei mais crucial na condição de fã.
Acredito, portanto, que os “mistérios” mais importantes foram “resolvidos” – as aspas existem porque, como falei acima, tudo é questão de interpretação e ponto de vista. No “Lostverso”, o planeta Terra concentra uma forte energia eletromagnética com benefícios e malefícios inúmeros. A ilha é o ponto de maior concentração desta energia, que precisa ser guardada por alguém que aceite a responsabilidade e o esforço de protegê-la da cobiça da Humanidade. Um mito moderno, enfim.
Talvez o eletromagnetismo seja o maior motivo da ilha ser tão difícil de ser encontrada. Como o físico Daniel Farady comprovou, essa energia, liberada sob certas condições, permite viagens no tempo. Mas apesar de difícil, não é impossível encontrar a ilha, e diversas gerações de visitantes passaram por lá. A mãe adotiva de Jacob e MIB, depois a mãe natural deles, o Black Rock, a Dharma, o barco Elizabeth, o voo Oceanic e o voo Ajira conseguiram, pois cada um teve a “sorte” de cruzar com as condições certas. Sim, o termo “Triângulo das Bermudas” acende em neon neste momento.
A explicação maior para os números foi mesmo o grau do ângulo de cada nome de candidato no observatório de Jacob. Além disso, no ARG de “Lost” falava-se que os números eram variáveis de uma equação matématica sobre o fim do mundo. Não explica inteiramente todas as coincidências envolvendo tais números, claro. Atribuo isso a traquinagem dos produtores mesmo.
Agora quem era a mãe adotiva de Jacob, por que a fonte emanava aquela luz, como a mesma fonte transformou MIB em um monstro, como Desmond não fritou o juízo com tanto eletromagnetismo, porque Walt tinha poderes, porque Richard pôde envelhecer de novo, que diabo era aquele cavalo de Kate, bla bla bla… enfim, tudo isso vai ficar em aberto mesmo. Se isso resulta na grande farsa dos produtores incompetentes ou em uma obra propositadamente aberta para que os espectadores a preeencham com suas versões, você decide. Mas voltarei a esse ponto crucial do debate em outro texto, como falei acima.
Para resumir muito bem resumido: gostei bastante do episódio final, mas não o considerei um desfecho satisfatório para a série como um todo. Não apenas por todos os pontos negativos já citados aqui, mas também porque não comprei muito terem transformado o flashsideway em um – na falta de um nome melhor – “purgatório”. Nem se trata da sensação de ser “enganado”. Mas acredito que, mais que resolver ou não mistérios, a grande falha de “Lost” foi se afogar nas águas navegadas por suas pretensões.
É, os produtores juraram por anos que a tese do purgatório era infundada. Só aí já dá pano pra muita manga. Mas a minha decepção vai por outro viés. Será que usar um recurso relativamente batido – “Ghost”, “O Sexto Sentido” e “Os Outros” só de relance – é mesmo digno para uma trama tão ambiciosa? E será que foi certo Lindelof e Cuse chegarem no começo da sexta temporada e mudarem o discurso de “as respostas virão no final” para “nem tudo será respondido“?
Apesar de meio “lei da compensação”, há tempos aprecio a ideia que muita gente também vem seguindo: de que o grande barato de “Lost” foi a viagem, não o destino. Não era importante para mim que a série acabasse com todos juntos felizes de volta à civilização – e antecipar esse momento no flashforward foi uma jogada de gênio. Também não era um maníaco por respostas de mistérios. Daí vejo que, assim como “Arquivo X” nos anos 90, “Lost” foi uma série que definitivamente marcou seu lugar no panteão dos grandes conceitos pop por diversos méritos, por mais falhas que tenham apresentado no processo.
Já falei um pouco os motivos disso aqui, mas falando especificamente da história, acho que o programa criou personagens incríveis e de fácil identificação, apesar de complexos nos detalhes. A sensação de estar sempre “perdido” a todo início de episódio, mesmo acompanhando toda semana, era semelhante a pular de 100 metros de altura no bungee-jump: por mais que se repetisse, era sempre um prazer inédito. A estrutura narrativa mutante desafiava positivamente nosso interesse pela trama.
E os detalhes? As frases impagáveis de Hurley, os apelidos de Sawyer, a fé insistente de John Locke, o heroísmo de Jack, a coragem de Kate, o medo de cada aparição do monstro, o (des)agradável cinismo de Ben, os dramas particulares, os romances, as cenas engraçadas… será que todas essas coisas boas não compensaram desastres como “Across the Sea”, os flashbacks chatos de Kate, a dupla Paulo e Nikki, o desfecho meia boca e todas as outras coisas ruins?
Não sei você, mas para mim compensou. No fechar de olhos de Jack Shepherd, é hora de manter os meus abertos. Que venha outro “Lost” em nossas vidas.
* Marcio escreveu este texto em seu blog.
Eu me lembro quando a série começou, em 2004, e as primeiras teorias sobre Lost começaram a pipocar nas publicações gringas. Assim que começou a fazer sucesso e merecer teorias mirabolantes, uma das primeiras hipóteses era a do “purgatório” (junto a outras que diziam que a humanidade foi extinta ou que era tudo uma alucinação ou que era um projeto científico). Venceu a primeira alternativa, o “purgatório adaptado” ou uma espécie de limbo necessário antes de se atingir a redenção. No eterno dilema entre fé x razão, a primeira levou a melhor.
A quem pensava (como eu) que a ciência explicaria tudo resta um grande “só lamento”. Mas não é difícil compreender esta explicação do final e fazê-la encaixar com todas as seis temporadas anteriores. Pensando bem, quem acreditou nessa hipótese durante toda a duração da série deve estar com um grande sorriso no rosto até agora. E, ah, como eu queria nunca ter desistido desta ideia! Ok, os produtores sempre negavam a teoria (e caso eles admitissem, vamos combinar que seria chatíssimo ter um “spoiler oficial”).
Também não é difícil aprovar esta escolha para solucionar a série. É claro que uma solução narrativa considerada “fácil” – tão fácil quanto dizer “era tudo um sonho”, justamente o final proposto por Stephen King quando questionado sobre como ele terminaria Lost se fosse o autor. No entanto, o “fácil” mesmo é criticar sem dar uma segunda chance para a compreensão total da série. Lost não seria Lost se não precisasse de textos intermináveis para ser explicada. Tampouco há certo ou errado em se tratando de Lost, pois o fã faz o seu próprio sentido (gostando ou não da série).
Nada nunca foi mastigado na série. Não seria no momento final que isso mudaria.
***
Desde o primeiro episódio da primeiríssima temporada, quando fomos apresentados à estrutura narrativa principal de LOST – os tais “flashbacks” – estávamos conhecendo o passado de cada um dos personagens. Seus erros e seus fantasmas que os perseguiam no momento da queda do avião da Oceanic, voo 815, tudo estava lá. Na ilha, de um jeito ou de outro, cada um dos personagens conseguiu “expurgar” os esqueletos no armário ou trabalhar seus problemas. Essa seria uma das interpretações.
A quem já chegou neste parágrafo pensando “que bobagem”, tomo como exemplo o próprio Sayid, uma recente “redenção” que ficou marcada na memória dos lostmaníacos. Mesmo após ter morrido, voltado à vida de forma misteriosa no templo e ficado meio zumbi, o iraquiano conseguiu salvar muitas pessoas. No passado, havia tirado muitas vidas. Seria, pela lógica do purgatório/limbo, uma maneira de “compensação”.
A cada minuto que penso na solução do purgatório as coisas começam a fazer sentido. O avião caiu, os personagens ficaram vagando pela ilha (como alguns até hoje estão lá sem conseguirem “se libertar”, conforme as explicações do que são os “sussurros”) e cumpriram sua pena para terem direito á passagem para outro lugar/outro mundo/outra dimensão. Os flashsideways representariam isso, então: um limbo antes da redenção final. Não gosto de classificar como “céu ou inferno”, ainda que estas serão expressões muito citadas nos próximos dias. Quando os losties estão reunidos naquela espécie de igreja, fica claro que a cruz que cada um carregava já não importa – e eles estão prontos para o próximo passo.
Nesta simbologia identificamos ainda a presença de certos personagens como “seres especiais” que ajudaram os losties a cumprirem essa jornada. Citaria Desmond como o principal – coube a ele resgatar um a um os “passageiros” e guiá-los para a tomada de consciência (com cenas emocionantes de cada um lembrando de sua história na ilha). Também outros como Charlotte, Faraday e Miles (que não tiveram essas “visões” no flashsideways e que foram parar na ilha para ajudar os losties) se encaixariam nessa teoria de ajudantes. Perdoem-me se parece que eu vejo Supernatural em excesso, mas neste caso caberia chamá-los de “anjos”, na minha opinião. E que dizer, então, de Hurley, que ficou de guardião da ilha e que teve papel central nos últimos episódios, demonstrando o poder de se comunicar “com o lado de lá”?
Enquanto tentávamos explicar os flashsideways pelo mundo da física, os produtores estavam escrevendo uma história inteiramente baseada na fé.
No entanto mesmo a “parte da ciência” pode ser explicada com a premissa do purgatório. Um exemplo corriqueiro entre os chamados “mistérios da ilha”: por que as mulheres que engravidavam na ilha morriam? Uma resposta é que elas já estariam mortas, portanto não poderia gerar novas vidas. Sendo assim, como que Claire e Sun tiveram seus filhos? É que elas já estavam grávidas quando caíram e morreram na ilha. Pensando sob a ótica do “eles estavam todos mortos”, faz sentido. A filha de Sun e Jin, portanto, nunca existiu.
* Camila publicou este texto em seu blog.









