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E a minha coluna deste domingo no Caderno 2 foi sobre o final da terceira temporada de Fringe – ou melhor, sobre a importância da ficção científica.

Realidades paralelas
Fringe e a ficção científica

Não tenho como falar do final da terceira temporada de Fringe pois esta coluna foi escrita horas antes da exibição de seu último episódio, The Day We Died, que foi ao ar na noite de sexta-feira, nos Estados Unidos. Também não vou entrar em detalhes que possam antecipar alguma revelação para alguém que está começando a assistir à série agora ou que a acompanha através da retransmissão feita no Brasil pelo canal pago Warner. Vou falar sobre Fringe, mas sem entregar o que está acontecendo na série agora. Pois o assunto de hoje não é o roteiro complexo que atordoa até quem cogita o impossível e o inusitado (temas, aliás, recorrentes na história).

Fringe é o seriado mais importante na TV hoje por explorar as fronteiras mais mirabolantes da ciência e da ficção científica. Logo na abertura somos bombardeados por uma nuvem de tags que apresentam termos considerados impossíveis pela ciência tradicional: teletransporte, precognição, psicocinese, clarividência, percepção extrassensorial, projeção astral, criogenia, mutação, universos paralelos. O termo “fringe” indica limite e quando se refere à ciência fala especificamente daquela que é ridicularizada ou desprezada pelo cânone tradicional.

Na série de J.J. Abrams, o mesmo criador de Lost, acompanhamos o cientista Walter Bishop (interpretado magistralmente por John Noble), que foi internado no meio dos anos 80 em uma instituição psiquiátrica e solto em nosso presente por ser a única pessoa que pode saber lidar com fenômenos estranhos que começaram a acontecer sem motivo aparente.

Acontece que alguns episódios se passam nos anos 80, e a abertura do seriado é magistralmente recriada como se ele fosse exibido naquela época. E os termos que surgem na tela são bem mais familiares a nós: computação pessoal, nanotecnologia, clonagem, cirurgia a laser, engenharia genética. Termos que poderiam ser encarados na época como ficção científica, mas que hoje são apenas ciência.

Eis a função do gênero: apontar os rumos para onde a ciência da vida real pode seguir. Não duvide se, em alguns anos, os termos da abertura de Fringe dos anos 10 se tornarem tão comuns quanto os dos episódios que se passam nos anos 80.

Bob Dylan, 70 anos

A Raq escreveu a capa do Caderno 2 de hoje sobre o aniversário de 70 anos do velho Bob e eu escrevi o texto abaixo, que foi no pé da página dela.

O último nome de um dos grandes legados norte-americanos

A importância de Bob Dylan pode ser medida de muitas formas. Ele foi um dos personagens centrais na luta pelos direitos civis nos anos 60, ajudou o rock a entrar na maturidade e se tornar o principal gênero musical da segunda metade do século passado, misturou alta e baixa cultura em letras que citavam a Bíblia, Shakespeare e os beats, expandiu a duração da música pop, fez a country music sair da Disney particular em que estava se enfiando (Nashville) e reabilitou Johnny Cash, apresentou maconha aos Beatles, duvidou (várias vezes) da religião, da cultura de seu tempo e dos próprios fãs. Montado no cavalo da contradição, foi o último caubói do Velho Oeste chamado Estados Unidos – ironicamente um judeu de Minnesota que fez sucesso entre os intelectuais nova-iorquinos.

Mas Dylan talvez mereça ser lembrado como o sujeito que salvou um dos maiores legados do século passado: a canção norte-americana.

Uma tradição que se iniciou quando definiram que os novíssimos discos de vinil não podiam carregar mais do que quatro minutos de música – e, portanto, não serviam para gravar música erudita. Foi inventado um gênero que misturava a tradição popular ao modelo fordista de produção – e logo os cânticos do povo eram enquadrados ao formato introdução-estrofe-refrão-estrofe-solo-refrão, que funcionou como terreno fértil para novos mestres como os Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin, Johnny Mercer e Louis Armstrong. A canção popular, como o carro, o jeans, o cinema e o computador, é um dos grandes legados da cultura americana do século passado para a História.

Mas aí veio o rock, que começou truculento e rude como uma espécie de baião ianque, e a música começou a perder sutileza e nuances. Com o rock veio a guitarra elétrica e o barulho – e em menos de dez anos após a aparição de Elvis Presley, a canção norte-americana estava fadada a sumir sob uma avalanche de microfonia, berros e quadris sacolejantes.

E depois veio Dylan, a princípio quietinho com seu violão e voz mirrada, e chamou a responsabilidade para si. E fugindo do óbvio, detectou as principais tendências de seu tempo como forma de fugir delas. Negou o título de porta-voz de uma geração, foi elétrico quando ser elétrico era sinônimo de adolescência, se isolou no campo quando o movimento hippie veio bater à sua porta, não teve medo de expor seus sentimentos e ansiedades numa persona arredia, canta – até hoje – as mesmas músicas cada hora de um jeito diferente. Mas ainda são canções. Ainda seguem a tradição inventada no tempo em que o vinil era uma novidade tecnológica tão excitante quanto a música digital hoje em dia. Comemorar seu aniversário é obrigação de todos nós.

A minha coluna no Caderno 2 foi sobre o debate sobre música eletrônica e redes sociais que mediei no YouPix, semana passada.

O DJ e a internet
Redes sociais e vida noturna

No dia 2 de abril, a colunista do C2+Música Claudia Assef publicou o artigo A Música Eletrônica Cresceu Demais?, em que comentava que os hábitos noturnos de São Paulo haviam mudado e como a noite paulistana havia deixado de se importar com música. Conversando com Facundo Guerra, empresário da noite e dono de casas como o Lions e o Vegas, ela ouviu que “os clubes já não são mais templos de música. São extensões das redes sociais, ponto de encontro. O cara vai na boate pra encontrar aquela menina que ele cutucou no Facebook. A música virou trilha de fundo”. E com as redes sociais, o artigo correu sozinho pela internet, gerando comentários acalorados e discussões enfurecidas.

Foi o suficiente para que a publicitária Lalai Luna, que também produz festas, resolvesse entrar na discussão, incentivando-a. Lalai estava na curadoria de uma das áreas do festival YouPix, que cresce ano após ano e que pode ter fôlego para disputar com a Campus Party o título de principal evento de cultura digital do País. E resolveu convidar algumas pessoas para continuar a discussão iniciada nas páginas do caderno. Além da Claudia e de Facundo, Lalai também participou da mesa e chamou a blogueira e produtora de festas Flávia Durante, o produtor e publicitário Bruno Tozzini e o jornalista e DJ Camilo Rocha e este nada modesto missivista para mediar a mesa. O título da discussão era propositalmente polêmico – As redes sociais estão matando a música eletrônica? –, mas o debate fugiu de rusgas fáceis e a discussão chegou a alguns pontos interessantes, que resumo aqui.

Sim – a noite virou uma extensão das redes sociais. As pessoas estão realmente mais interessadas em “reencontrar” pessoalmente os amigos com quem passaram o dia conversando, seja no Twitter, via Gtalk, no Facebook ou pelo MSN. E não é que as pessoas deixaram de se interessar por música, mas é que elas querem ouvir músicas que já conhecem, daí um fenômeno recente – de uns dez anos para cá – do frequentador que pede música para o DJ, algo considerado profano nos tempos em que o DJ era o soberano da noite. Talvez isso ocorra porque as pessoas estão ouvindo menos rádio e encontram, na noite, uma alternativa à zona de conforto que era o rádio em seus dias de glória.

Acontece que o DJ está perdendo a importância vertical que tinha sobre a pista – algo que afetou qualquer área que tenha sido invadida pela internet. Do mesmo jeito que as indústrias da música, do cinema, dos games, das notícias, entre outras, a cultura noturna também foi afetada pela horizontalização imposta pela rede. Agora é hora de aprender a lidar com isso para seguir a história.


Mutarelli desce a Augusta rumo à Casa do Artista após pedir para carregar a mala do fotógrafo André Lessa, à esquerda (essa foto é minha)

Fui assistir à cabine do Natimorto, o filme de Paulo Machline baseado em um dos livros de Lourenço Mutarelli, com o Douglas, um dos editores do Divirta-se, o guia de programação lá do Estadão, e compadre de outros carnavais (Douglas era editor da falecida Simples quando me convidou para ter uma coluna de música por lá, nos idos de 1840). Saímos da sessão comentando como o filme parecia ser situado em São Paulo apesar de se passar quase que inteiramente em um quarto de hotel. E assim naturalmente surgiu a idéia que foi capa do Divirta-se desta sexta, quando o filme chegou aos cinemas: passar uma tarde com o Mutarelli para que ele nos dissesse quais eram seus lugares favoritos da cidade. O encontro se materializou no mesmo dia em que Lourençou completou 47 anos (ele faz aniversário no dia 18 de abril e faz questão de não comemorar, “comprei um bolo Pullman”), quando conhecemos um sujeito pacato e de fala tranquila, mesmo que falasse de assuntos terríveis e projetos aparentemente sem sentido e fosse o autor de obras perturbadoras e caóticas. Publico o resultado a seguir, já com a promessa (ah, minhas promessas…) de trazer à toda, um dia, quem sabe, tudo mais que o mestre conversou com a gente pelas quase sete horas de passeio naquela segunda-feira quente de outono. As fotos da matéria são do André Lessa, de quem o Mutarelli se dispôs a carregar a mala, descendo a Augusta, em foto que tirei no celular.


O desenho da capa do guia foi feito em menos de dez minutos, enquanto eu tirava as fotos dos detalhes da casa de Lourenço (eu pedi e ele deixou!)


E na capa da versão do guia para o JT, Mutarelli encarnou o cartomante ao ler os maços de cigarro cenográficos em uma das salas do Espaço Unibanco

Saia já desse quarto
Baseado na obra de Lourenço Mutarelli, o filme ‘Natimorto’ se passa entre quatro paredes. Mas o Divirta-se levou o autor para passear pela cidade

Cigarros. Cafés. Obsessão. Simone Spoladore. Lourenço Mutarelli. Esses elementos serão suficientes para prender a atenção de quem estiver no cinema – e, ao mesmo tempo, serão suficientes para perturbar a paz dessa mesma pessoa. A capacidade de perturbar, aliás, não é privilégio de ‘Natimorto’, a mais nova adaptação de uma obra de Mutarelli, estrelada por ele e dirigida por Paulo Machline. É recorrente em seu trabalho. E, com a opção de Machline de tirar o humor presente no livro, restou apenas a tensão.

Os cigarros são essenciais para amarrar a história. É no verso de cada maço que está a principal sacada: o Agente (Mutarelli) interpreta as imagens exigidas pelo Ministério da Saúde como se fossem cartas de tarô. E não passa um dia sem que leia a sua sorte e, desde que a conheceu, a de sua musa, a cantora Voz da Pureza (Simone Spoladore).Ocafé não precisa de explicação – serve para acompanhar o cigarro, é claro.

A presença do autor como ator não estava nos planos. Quem faria o Agente seria Marco Ricca, mas problemas na agenda de Ricca fizeram o diretor cogitar outros nomes, comoMatheus Nachtergaele (que Mutarelli chama de ‘Mastercard’, por não lembrar da pronúncia do sobrenome). “Mas ele também não podia, e aí começaram a cogitar alguns galãs”, explica o escritor. “Foi quando sugeri ao roteirista, André Pinho, que eu poderia fazer o papel, pois não dava para ser um galã. Eu já havia atuado outras vezes. O diretor gostou da ideia e virei o protagonista.”

Assim, o personagem de Mutarelli embarca numa viagem kamikaze com a personagem de Simone, num quarto de hotel que se torna um templo à obsessão e à nicotina – a fumaça do cigarro pode incomodar, e muito, os não-fumantes que se arriscarem a ver ‘ Natimorto’. Toda ação do filme ocorre em um quarto claustrofóbico, que pode ficar em qualquer lugar da cidade.

Mas, se no filme a São Paulo de Mutarelli é um mistério, a da vida real é desvendada pelo Divirta-se. Passamos um dia com o escritor, cujo passeio impressionou pela normalidade, revelando uma São Paulo que frequenta com a mulher e com o filho. Siga-nos rumo à cidade bem familiar desse sujeito pouco família.

Mudança de nome

Era para ser Cowboy Light, como é no livro ‘O Natimorto’. Porém, durante o processo de adaptação, os produtores descobriram que já existia uma marca de cigarro com esse nome. A opção então foi mudar o nome para Cowboi – mais divertido, a propósito. E, nas advertências do verso, há fotos de muita gente da produção do filme – entre eles, o diretor, Paulo Machline.

A São Paulo de Mutarelli
As pessoas atravessam, Mutarelli observa. Mas ele não fica parado ali. Assume a missão de ser nosso guia pela cidade que ele mais gosta.

A sorte do dia
Na entrada do Espaço Unibanco, o escritor dá as últimas baforadas antes de iniciarmos a jornada. Mas não sem antes ler a nossa sorte.

Ainda dentro da sala 4 do Espaço Unibanco, minutos antes de nos apresentar a São Paulo que lhe ‘pertence’ – algo que vai da Rua Augusta até a Vila Mariana, com uma escapada pelo Parque do Ibirapuera –, Mutarelli tratou de prever a nossa jornada. Emseu baralho de tarô, formado por maços de Cowboi, teve uma impressão inicial de que o dia seria ruim. Mas mudou de ideia – ou melhor, as ‘cartas’ mudaram.

O dia prometia ser bom. E foi. Ali mesmo, mas na nobre sala 1, o quadrinista, escritor, roteirista e hoje
mais ator do que nunca, lerá a sorte outras vezes. Só que agora em público, como protagonista do filme ‘Natimorto’, que, segundo ele, você deveria assistir no próprio Espaço Unibanco, que é o “seu cinema”.

E, para não ficar perdido quando o filme acabar – o que, a julgar pelo caráter sempre perturbador das obras de Mutarelli (como ‘O Cheiro do Ralo’), pode realmente acontecer –, ele indica por onde caminhar.
Espaço Unibanco. R. Augusta, 1.470, Cerqueira César, 3287-5590.

Subindo a Augusta rumo à Paulista
Mutarelli sempre passa pelo sebo. São assim os frequentadores desse tipo de loja: fieis. E, depois revirar livros usados, é hora de mais um cafezinho.

“É um lugar a que sempre vou” afirma Mutarelli, enquanto dá apenas alguns passos até o sebo Alfarrabista Corsarium, em uma galeria a poucos metros do Espaço Unibanco. Vai lá. Só não espere encontrar um livro dele. “Me disseram que meu primeiro álbum está sendo vendido a R$ 300!”.
Alfarrabista Corsarium. R. Augusta, 1.492, loja 8, Cerqueira César, 3284-1214.

Entre um cigarro e outro, ele para e toma um café, em pé mesmo, no quiosque do Viena, na entrada do Conjunto Nacional, já na Av. Paulista. “Sempre tomo café ali. Às vezes mais de uma vez por dia.” Na hora de almoçar, voltamos à Rua Augusta. E hesitamos entre o PF da lanchonete BH (na esquina com a Rua Luis Coelho) e o clássico beirute do Frevo – ficamos com o segundo. Ufa.
Frevo. R. Augusta, 1563, Cerqueira César, 3284-7622

Perdido no Conjunto Nacional
Ele conhece o espaço muito bem, é verdade. Mas nem por isso a visita é rápida. Passa pelas estantes devagar e só observa. Espera que algum livro o encontre.

É sem um objetivo traçado que ele passa pela entrada da loja principal da Livraria Cultura, no Conjunto
Nacional. A única coisa que sabe é que vai passar antes pela unidade dedicada aos livros de arte. “Vou bastante ali. Mas, mesmo com as grandes livrarias, ainda é muito pequeno o acervo no Brasil. Então, eu
sempre dou uma fuçada para ver se apareceu algo novo. Depois, vou ver os outros livros e os DVDs.”
Livraria Cultura. Conjunto Nacional. Av. Paulista, 2.073, Bela Vista, 3170-4033.

Na oficina do traço
Ele olha para as penas (de desenho com nanquim) e as compara com agulhas de vitrola. Na Casa do Artista, perdoe a redundância, ele sente-se em casa.

Da Livraria Cultura, Mutarelli desce algumas quadras no sentido contrário, rumo ao Jardins, onde vai parar no parque de diversões que é a Casa do Artista, na Alameda Itu. Principal loja de materiais artísticos de São Paulo, a casa é um deleite para o autor, que se perde pelas prateleiras em busca de penas, tintas e papéis. “Acho que estão redescobrindo o papel. Teve uma hora em que todo mundo queria ser digital, ir para o computador. Acho que o desenho a mão está sendo redescoberto, como o vinil.”
Casa do Artista. Alameda Itu, 1.012, Jardins, 3088-4191.

Um cara normal
No final do passeio, vamos para a região onde mora Mutarelli hoje. No Parque do Ibirapuera e nas redondezas da Vila Mariana, ele mostra que é um ‘pai de família’.

Saímos da região da Paulista rumo ao início da zona sul, perto da casa do escritor. Antes de chegarmos a seu bairro, a Vila Mariana, fizemos uma pausa rápida no Parque do Ibirapuera. “Com cinco contos, você aluga uma bicicleta e faz um puta programa”, explica ao contar que vai ao parque passear com o filho de 15 anos. Do Ibirapuera vamos à Vila Mariana até chegarmos ao café Vila França, pertinho de seu apartamento, onde é recebido pelo nome e tem até conta para ‘pendurar’ seus cafezinhos. “Eu adoro o bairro. É o lugar que eu escolhi para morar. Enquanto der para pagar o aluguel, eu fico por aqui.”
Vila França. R.França Pinto, 49, V. Mariana, 5084-2281.

Longe do caos da cidade
Depois de mais de 8 quilômetros (percorridos em sete horas), voltamos com Mutarelli para a sua casa– o melhor lugar para o entendermos.

“O espaço em que eu trabalho é como uma jaula. Eu gosto de ficar preso ali. Acordo muito cedo e fico nela até a hora em que o telefone começa a tocar, lá pelas 9 e meia, 10 da manhã. É quando saio para dar uma volta na região, para reconhecer aminha geografia pessoal.”

Paulistano, Mutarelli já morou em vários lugares da cidade, mas se encontrou na Vila Mariana.“Eu nem via o quanto estava envolvido com a cidade. Ultimamente, percebo melhor o meu bairro.” Tanto que situou um de seus livros recentes (‘A Arte de Produzir Efeito Sem Causa’, 2008) na região, sem citá-la nominalmente. E conta que incluiu anônimos que encontra em seus passeios matinais. “Tem uma senhora oriental que usa um chapéu grande e anda empurrando uma cadeira de rodas vazia. Tem um outro cara que trabalha na mercearia perto de casa… Uma loja de roupas de que eu só mudei uma letra no nome…”

O que o fascina na cidade é como as pessoas se tornam anônimas. “Por mais peculiares que sejam, elas ficam invisíveis. São Paulo é uma cidade de figurantes. Todo mundo figura. Há pessoas desprezíveis que se acham protagonistas. Outro dia, eu estava no museu e um cara entrou na minha frente, como se eu não existisse. E, na cabeça dele, eu não existia mesmo. Tem muita gente assim, que se acha especial. Mas São Paulo esmaga”, diz, citando o Hulk.

Ele diz que gosta da dinâmica da Vila Mariana, que se opõe ao caos organizado da metrópole. “O ritmo de São Paulo é absurdo. Faço tudo para não ter pressa, porque ela me consome, é muito corrosiva. Prefiro ir a um supermercado do que ir à praia. Descer a serra para pegar fila para comprar pão? Não dá.”

Todo mundo já ouviu falar, mas quem se dignou a assistir à meia hora de autoesculhambação a que os Beastie Boys se submeteram ao lançar seu novo disco? Comento o clipe a seguir, por isso assista-o para não reclamar de spoilers.

O filme começa no final do clipe de “Fight for Your Right (to Party)“, de 1986, quando, depois que os Beastie Boys destroem o apartamento de um casal de velhos ao convidar um monte de maus elementos para jogar tortas nas caras uns dos outros (sim, tortas, muitas tortas), entre outras coisas não tão finas – como destruir uma TV com uma marreta. Galopando escadas abaixo após a destruição, os Beastie Boys já não são tão boys assim – Danny McBride é um MCA quase caminhoneiro, Seth Rogen é um Mike D sedentário e só Elijah Wood aparenta ter o físico e a disposição de Ad Rock daqueles dias de glória, numa de suas interpretações mais cativantes.

O trio central, no entanto, não deixa sua idade nem deformidades físicas atrapalhar suas performances como beasties adolescentes.

Após descerem as escadas, encontram com o mesmo casal que abre o vídeo de 25 anos atrás, vivido desta vez por Stanley Tucci e Susan Saradon. Depois de uma discussão aparentemente sem roteiro – “no pie, no sledgehammer team” é a cara dos improvisos de Seth Rogen – saem à rua para continuar a festa. Aos 4:20 Ad Rock convida Rashida Jones (a filha do Quincy, vestida com a mesma roupa que usa em A Rede Social) para uma pizza, pouco antes do MCA de McBride estourar a porta de vidro de uma loja de conveniência que estava fechada para pegar cerveja. É quando a parte “clipe” do vídeo começa e os três atores simplesmente encarnam os Beastie Boys de vez, dublando-os impecavelmente (Wood, de longe, o melhor deles, em poucos instantes em que sua atuação é tão importante quanto o resto de sua carreira). E enquanto rimam, jogam cerveja nos outros – como no Will Arnett do Arrested Development, que passa tranquilamente lendo um jornal, num táxi dirigido pelo Adam Scott do Parks & Recreation (que carrega um velho conhecido dos beastie boys como passageiro – Sir Stewart Wallace, o personagem de MCA no clipe de Sabotage, desta vez vivido pelo diretor de clipes Mike Mills) e num casal de religiosos (Rainn “Dwight” Wilson e Arabella Field).

O clipe diminui sua velocidade em uma das muitas variações de pitch desta meia hora – mas o rap se metamorfoseia numa composição eletrônica de Wendy Carlos, nos levando para território hostilmente kubrickeano. Os Beasties invadem um restaurante fino (o “Château de Ted et Michel Dée”, empreendimento citado nominalmente na letra de “Make Some Noise”) como a gangue de Alex de Large adentrou na leiteria Korova, arruaceiros num ambiente de fino trato – e lotado de participações especiais, pisque e perca alguém: Ted Danson é o mâitre, Steve Buscemi o garçom e entre os comensais estão Laura Dern, o diretor de clipes Roman Coppola, Amy Poehler (do Saturday Night Live e Parks & Recreations), Alicia Silverstone, Milo Ventimiglia (o Peter Petrelli de Heroes), Shannyn Sossamon (a Gingy Wu do How to Make it in America), Mary Steenburgen (do Curb Your Enthusiasm, mulher do Doc Brown no De Volta Para o Futuro) e Jason Schwartzman (que é creditado como… o Van Gogh do clipe de “Hey Ladies“!).

Mais uma vitrine quebrada e o grupo volta a rappear “Make Some Noise”, até que McBride rouba o skate de uma adolescente vivida por Losel Yauch (filha do MCA original), cruza a pista e é atropelado por uma limusine, que leva umas groupies para alguma banda de metal – interpretadas por Maya Rudolph, Kirsten Dunst e Chlöe Sevigny.

Esta última esfaqueia Ad Rock quase casualmente, enquanto a banda finge que é a banda de apoio do Bon Jovi e toma ácido como se fosse refrigerante.

E aí o Will Ferrell aparece tocando cowbell (“more cowbell!“) enquanto logo depois ele surger fantasiado de mariachi sobe no topo da limo (mais referência ao clipe de “Hey Ladies“). O jeito que essa cena é filmada pode ser considerado uma referência ao clipe de “Shake Your Rump“, da mesma época de “Hey Ladies”.

Imagina a quantidade de piadas internas que um vídeo desses deve enfileirar e a gente mal fica sabendo…

Viajado bonito, o clipe começa a alternar a velocidade da música, criando “ecos visuais” para a paisagem e o passeio dos beasties, e citando personagens que transitam entre a realidade e a ficção – como o vendedor de cachorro quente, vivido por Clint Caluory, que é creditado como se fosse o comediante Zach Galifianakis (de Se Beber, Não Case) fazendo o papel de George Drakoulias (o produtor dos Black Crowes, do Dust do Screaming Trees e do disco southern rock do Primal Scream, que foi homenageado nominalmente no Dead Man, no Paul’s Boutique, no Steve Zissou e no Jornada nas Estrelas do JJ Abrams). Mais adiante, Ad Rock/Elijah Wood segura a “câmera” do caricato diretor suíço Nathaniel Hörnblowér, o personagem tirolês vivido por Adam Yauch para dirigir todos os clipes dos Beastie Boys desde 1990. Em Fight…, Hörnblowér é vivido pelo comediante David Cross, do já clássico Mr. Show. Logo depois o Mike D de Seth Rogen encontra ninguém menos que Johnny Ryall, personagem-título de uma das faixas mais pitorescas do Paul’s Boutique, mendigo que se dizia rockstar do rockabilly, lavando o vidro de um carro e vivido por… Orlando Bloom, hahaha.

Até que a música para, o vento assovia (como no início de “Johnny Ryall“, veja só), passa uma bola de feno e os beasties encontram um velho Delorean com um tubo amarrado em seu capô. De dentro saem, fantasiados com as mesmas roupas que os três, Will Ferrell, John C. Riley e Jack Black, que logo se apresentam como os Beastie Boys do futuro e os desafiam para um concurso de break. Arrogantes e escrotos, os Beastie Boys do futuro discutem entre si e mal conseguem tirar o piso enrolado no capô de seu carro, enquanto o Mike D de Seth Rogen cogita que eles estão sendo apresentados a uma das versões possíveis do futuro da banda, “o fantasma de Licensed to Ill”, diz o MCA de Danny McBride, antes de constatar que “nós no futuro somos uns completos idiotas”.

Tem início a parte mais besta do filme, quando começa o campeonato de dança e nenhum dos dois trios é formado por atores propriamente dançarinos, e o tal concurso vira uma exibição de passinhos bestas e requebros preguiçosos cuja monotonia só é quebrada quando Elijah Wood começa a fazer o clássico passinho da “minhoca” no chão e o Mike D de John C. Riley começa a MIJAR EM CIMA DELE. O WTF não para por aí e só piora na medida em que todos os beasties revidam igualmente, tirando os paus pra fora e mijando uns nos outros. Só piora: vemos os rostos de cada um deles em closes fechados, tomando mijadas de todos os lados diretamente na boca. Nojento, grosseiro, inesperado e engraçadaço – como os beastie boys dos anos 80. O clipe termina de forma abrupta, com a chegada da polícia, cujos principais tiras são apenas os próprios Beastie Boys da vida real, dando bordoadas e borrachadas em seus clones hollywoodianos. Dá para ver melhor o logotipo de uma das lojas da rola, o CAFÉ MIJANO, antes do camburão carregar os mijões pra delega e um letreiro nos prometer uma terceira parte daqui a 25 anos.

Mas isso não é uma análise do vídeo, é apenas uma longa descrição em que tagueei as principais referências que pularam pelo clipe, uma versão audiovisual daquele infográfico da capa do Sgt. Pepper’s em que apenas os contornos das personalidades são realçados para que, através de uma lista de números, descubramos quem é quem. Não me admira o caráter enciclopédico dos beasties – a lista de vastas referências já é um formato escolhido pelo grupo tanto em clipes quanto em discos (é memorável a avalanche de samples em Paul’s Boutique e Hello Nasty ou de referênciais visuais nos clipes de “Sabotage” ou “Intergalactic”) e o grupo não parece ter escolhido seu nome por algum outro motivo além de posicioná-los entre os Beach Boys e os Beatles em qualquer ordem alfabética. Neste sentido, Fight For Your Right – Revisited mais do que um clipe, algo que mistura tanto cinema quanto videogame. A caça por referências a cada esbarrão é um convite ao espectador para ativar sua memória em relação a “quem é mesmo essa pessoa/esse disco/esse livro/esse filme?”, uma brincadeira exercitada pelos gênios do showbusiness atual, como JJ Abrams, os irmãos Coen ou Lady Gaga (esta última, depois eu falo melhor disso, em franca decadência). Os Beasties aceitam o convite feito por Michael Jackson em “Thriller” e resolvem entrar para um escalão de videoclipes que almeja o reconhecimento cinematográfico, clipes com cara de filme. 25 anos depois de terem dado a cara pela primeira vez, eles ainda se dispõem a desafios. E chamam sua turma de Hollywood para não fazer feio nesse novo nível. O resultado é o clipe acima.

Fight For Your Right – Revisited é, no entanto, um mea culpa e a consagração de uma assinatura. Mea culpa pois consagra o lapso de consciência que os Beastie Boys tiveram no final dos anos 80, algo parecido ao surto de lucidez que John Lennon teve logo após conhecer Yoko Ono, dizendo que se não tivesse encontrado sua mulher, terminaria sua carreira cantando “Blue Suede Shoes” em Las Vegas. Assim os Beastie Boys de Wood, Rogen e McBride se reconhecem nos beasties de Ferrel, Riley e Black. Se eles continuassem agindo daquela forma que agiam em 1986, seriam idiotas para o resto da vida. Daí a importância do questionamento consciente do Conto de Natal de Charles Dickens: se aqueles são os Beastie Boys do futuro, é melhor mudar o futuro.

O que, aparentemente é o que aconteceu, parece sublinhar o final do clipe. Mesmo que nada tenha dado certo, só o fato dos Beastie Boys terem encontrado eles mesmos mais velhos foi determinante para que eles seguissem outro curso, e mudassem de Nova York para a Califórnia, trocando Rick Rubin pelos Dust Brothers e o hard rock pelo groove setentista que passou a dar o tom de sua nova carreira. Não é difícil saber que o grupo olha para seu passado arruaceiro com uma dose de arrependimento, o próprio MCA (Adam Yauch) já deu várias entrevistas lamentando ter arruinado a vida de muita gente e seu fascínio temporário por armas. Não custa lembrar que Yauch é um personagem central nessa história: não é só ele o beastie boy que virou budista e organizou os concertos pró-Tibet nos anos 90 como teve câncer no ano passado, adiando o lançamento do novo disco do grupo para esse ano.

Mais do que isso: Yauch é o diretor e roteirista de Fight For Your Right – Revisited. E antes que se assustem com o súbito talento do MC, não custa lembrar que Yauch se escondia atrás do pseudônimo Nathaniel Hörnblowér para dirigir a grande maioria dos clipes dos Beastie Boys. Foi ele que, fantasiado de tirolês, invadiu a premiação da MTV norte-americana em 1994 para protestar contra “a farsa” que era o clipe vencedor (“Everybody Hurts” do R.E.M.) e dizendo que ele havia sido o criador da idéia original de Guerra nas Estrelas. Quase vinte anos depois de criar este personagem (que “dirigiu” o longa Awesome I Fucking Shot That, além dos clipes), Yauch dá adeus ao europeu e assume seu nome na direção do clipe, encerrando o média metragem com pelo menos mais uma promessa de vídeo, daqui a 25 anos.

É o momento de amadurecimento que reconhece a importância da adolescência descerebrada. A idade pode até estragar o título da banda, mas, na cabeça, os três ainda são boys.

Erudito x popular

Vamos continuar aquela discussão de ontem? Primeiro peço desculpas por não ter continuado o papo logo após o almoço conforme prometi, mas, sacumé, vida corrida, trabalho, etc. Mas vamos lá.

Óbvio que o texto que posto a seguir, escrito pelo Teté para a revista Iara (em PDF aqui) e me passado pela Helô, não é o único exemplo de bom diálogo entre a academia e a produção cultural contemporânea no Brasil e mais óbvio ainda que essa discussão já esteja acontecendo há décadas entre os muros da escola. Mas o que me chamou a atenção do texto abaixo é que, mesmo com todos seus cacoetes e maneirismos da universidade (notas de rodapé, citações, resumo), ele flui tranquilo e explica, para quem é de fora, um momento específico de um movimento cultural – no caso, a batalha de MCs que deu início à ascensão de Emicida. Há uma tentativa de conversar com quem está fora da academia, uma necessidade de compartilhar conhecimento e fazer as informações circularem de um lado para o outro.

Bem sei que, sim, há trabalhos acadêmicos sendo produzidos no Brasil sobre diversas manifestações culturais que não estão nem nos cadernos de cultura (onde deveriam estar). Raro o mês em que pelo menos um estudante (e não só de comunicação) não me venha me procurar como fonte, entrevistado ou para dar dicas sobre determinado TCC, mestrado ou trabalho do semestre. Mas lembro de quando trabalhava no Trama Universitário, fui confrontado por um professor de comunicação que, desesperado, me pedia ajuda: “Como eu faço para conseguir acompanhar meus alunos? Quando eu consigo entender como funciona e o que é o Orkut, eles me vêm com o MySpace que zera todo o meu conhecimento que eu tinha sobre internet até agora”. Acredite: ele não é o único.

E o texto a seguir não deverá ser o representante único desta espécie aqui no Trabalho Sujo. Se você souber de algum legal, por favor, me manda que eu quero ver. Estou inaugurando mais uma seção, chamada Erudito x Popular. O “x” não é de versus, e sim de “vezes”.

E agradeço ao Teté por ter liberado a reprodução do texto por aqui 🙂

Beastie's back

Escrevi sobre o disco novo dos Beastie Boys no Caderno 2 de hoje.

Beastie Boys volta a atacar
Trio nova-iorquino reafirma sua importância na história do pop com o autorreferente Hot Sauce Committee Part Two

Faz um quarto de século em que três branquelas boca-suja deixaram de ser uma banda de hardcore fuleira para assumirem um dos papéis mais cruciais na história da música pop recente: ensinar para moleques bem nascidos como eles qual era a graça daquele novo gênero chamado hip hop. E 25 anos depois de mudarem o curso da música moderna com o disco Licensed to Ill, o trio nova-iorquino volta a reafirmar sua importância com o autorreferente Hot Sauce Committee Part Two, seu oitavo disco.

A história do novo disco começa no início de 2009, quando o grupo começou a mostrar algumas faixas novas em shows e festivais após o bem sucedido álbum instrumental The Mix Up, de 2007. Mas Hot Sauce Committee tem um prefácio a curto prazo, quando o grupo anunciou que o lançamento do disco seria simultâneo ao lançamento do média metragem Fight For Your Right Revisited. No filme, os Beastie Boys são interpretados pelos atores Danny McBride, Elijah Wood e Seth Rogen e revivem seus dias de arruaça quando entraram para a história da música moderna com sexo, cerveja e hip hop misturado com rock’n’roll. Até que encontram outros Beastie Boys, vividos por Jack Black, Will Ferrel e John C. Reily, que os desafiam para um concurso de break que acaba de forma tristemente infame, bem ao estilo das grosserias originais do grupo.

O filme de meia hora serviu como não apenas como aperitivo para o disco como foi lançado online poucas horas antes do disco vazar na internet, no fim de semana passado (seu lançamento “oficial” chega às lojas estrangeiras no início de maio). A reação do trio ao vazamento foi exemplar – e antes de eles mesmos deixar o disco inteiro para ouvir em streaming em seu site oficial (www.beastieboys.com), o trio também anunciou a audição do novo disco direto do Madison Square Garden, no sábado passado. E transmitiu ao vivo, do meio da quadra do ginásio, o disco sendo tocado em um velho aparelho de som portátil, típico dos rappers dos anos 80. Além do boombox, alguém fantasiado de gorila dava as caras na transmissão, vez por outra.

Mas o excesso de referências e de citações à própria carreira em todo o material promocional do disco se contrapõe à linha direta adotada pelo grupo no novo disco. Segunda parte de um disco cuja primeira parte foi adiada após o câncer de um de seus MCs (Adam Yauch, o MCA) ter sido diagnosticado e curado, o novo disco é primo de Hello Nasty, do final dos anos 90, em que voltavam ao hip hop old skool sem abandonar o humor e as visitas a gêneros diferentes. Nas e Santigold temperam Hot Sauce com participações incisivas e precisas, convidados mínimos da nova edição de um clube que já tem 25 anos de história. Longa vida aos Beastie Boys!

Na edição da semana do Link, pedi pra equipe do caderno comentar sua relação com os aplicativos e não poderia fugir de comentar meu vício portátil favorito, as enfezadas aves kamikazes e os malditos porcos verdes!

Nada vale mais que um pássaro voando

Depende do ângulo da borracha do estilingue e da hora do tapinha na tela. Tem também o tipo de pássaro arremessado e o material de que é feita a parede que ele tem de atravessar para matar o maldito porco verde. Morra!

“Opa, chefe, chegamos”, o taxista me tira do transe de explodir pássaros em cima de porcos. Calma, Ibama! Os bichos que explodem nas pontas dos meus dedos são os protagonistas de Angry Birds, um dos aplicativos mais populares do mundo. Tento conter o uso desses pequenos programas para não cair numa espiral de uso contínuo típica do meio digital – o “loop de tecnologia” descrito na série Portlandia. Mas eis que o celular me transporta para os Game Watch da minha infância e os Nintendinhos da minha adolescência, dragando mais energia vital que o player de MP3, checar e-mail ou tirar fotos.

E a minha coluna de ontem no 2 foi sobre aplicativos, antecipando o especial que fizemos nesta segunda-feira no Link…

Outros programas
Vivemos a era dos aplicativos

Houve um tempo em que dizia-se que o celular não era só um telefone móvel, mas também um dispositivo portátil de acesso à internet. Esse tempo já era. Estamos vivendo uma fase de transição que culmina com a extinção do computador pessoal, mas que começou justamente com a possibilidade de conectar um aparelho portátil à internet, inaugurado para as massas quando Steve Jobs apresentou o iPhone para o mundo, em janeiro de 2007.

O clichê que chamava o aparelho de “supertelefone da Apple” levava a crer que a revolução acontecia no hardware do celular, enquanto na verdade a grande novidade era seu sistema operacional, que funcionava online. Assim, seus programas ofereciam muito mais do que se fossem apenas instalados no próprio aparelho. Online, esses programinhas – chamados aplicativos – deixavam de fazer tarefas simples para ganhar funções impensáveis até mesmo para tradicionais programas de computador.

Fácil entender o porquê. Uma vez móvel, o aparelho ganhava qualidades impossíveis de serem aproveitadas num computador de mesa. Para começar, a mobilidade do aparelho permitia usar programas em que sua localização – e, portanto, de quem o usa – pudesse ter alguma utilidade. O mesmo pode ser dito aos sensores de movimento, que fazem o celular perceber se, por exemplo, você está o segurando com a tela na vertical ou horizontal. Una isso à câmera que filma e fotografa, microfone, sensores de luminosidade, a tela sensível ao toque e o fato de caber no bolso e, voilà, os programas de celular são muito melhores que seus companheiros dos velhos PCs.

Vivemos uma era em que o celular não é mais só um aparelho para fazer ligações ou conectar-se à internet. Com programas específicos, ele se metamorfoseia em todo tipo de ferramenta. Há aplicativos para achar o carro no estacionamento, que traçam o percurso que você precisa percorrer para chegar a algum lugar, que diz quais constelações estão acima de sua cabeça, que convertem medidas e moedas, que permitem edição de fotos e vídeos, entre um sem-número de opções.

A chegada dos tablets, que também usam esses aplicativos, e a popularização dos smartphones (celulares que acessam a rede) tornam esses programinhas cada vez mais onipresentes. E para quem quer saber por onde começar e quais os mais úteis e fúteis (afinal, lazer também está na agenda do celular móvel), basta ler a edição desta segunda do Link, o caderno de tecnologia e cultura digital do Estadão, que traz um guia para quem quer entrar nessa nova realidade móvel.

Twin Pixies

O post do Mutlei me lembrou o que escrevi quando o Teenage veio para o Brasil pela primeira vez, shows que aconteceram na mesma semana em que o Pixies veio para o Curitiba Pop Festival. O que vem a seguir é uma relíquia do passado – looooongo texto de uma época em que seu Trabalho Sujo era afeito a viagens intermináveis em primeira pessoa. Espírito da época, vai saber. Quem agüenta ler até o fim? Acho que tá na hora de começar a ressuscitar estes textos por aqui…

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Twin Pixies
Você ouviu o que eu disse?


(Eu sei que o vídeo é do show de Recife, mas foi o único que encontrei no YouTube…)

Sentaê que lá vem pedrada: texto gigantesco sem propósito pré-definido, escrito de uma vez só e sem olhar pra trás. Você conhece o riscado – às vezes vale à pena seguir a interminável ladainha como uma espécie de montanha russa pros sentidos interiores, altos e baixos intercalando baboseiras, adjetivos forçados, bolhas de hipérbole, trocadilhos infames e frases de efeito que se fundem uma filosofia auto-ajuda pseudo-beat a alternar referências de cultura inútil sem notas de rodapé, comentários dispensáveis sobre os bastidores de uma “cena” (aspas propositais – pois ela segue uma regra em que existe apenas enquanto acontece) que é tão pessoal quanto pop (seria o novo mainstream a revolução individual, ou justamente o contrário?), além de descrições e considerações sobre feitos e acontecidos, próprios ou alheios (e quase sempre avesso às normas da chamada objetividade no que diz respeito ao tamanho de orações e períodos e do uso de travessões ou parênteses [fora os colchetes {colchetes! Isso é matemática?!}e o gerúndio-muleta]) – isso sem contar o flerte exibicionista com o charme do chulo (tifudê…), e citações não creditadas de frases soltas pelo caminho (acontece). Às vezes é um saco, o texto não sai do lugar e a impressão que só o autor se diverte – dono da bola que só vai deixar a geral jogar depois que ele fizer mil embaixadinhas (todo mundo contando, hein): um, dois, três, quatro… Um, dois… Um, dois… Um, dois, três… Um… Quer jornalismo? Compra o jornal: “aqui é internet, mano, vale tudo”. E nada de ler em voz alta ou imprimir pra ler deitado (num güenta, é?) – tem que ser na frente do monitor, luz branca fritando as pupilas no escuro – crrr… Tudo bem, eu deixo ler por partes, mas sendo assim considere-se júnior (as sêniors podem contar os minutos, pela diversão).

Você lembra do Rock in Rio 3, do Abril Pro Rock de 2001 e do Eletronika no ano passado, né? Lembra sim que cê tava lá, não faz essa cara de prego. O mesmo protagonista destas sagas anteriores (este seu irresponsável missivista) está prestes a embarcar em uma semana cujos acontecimentos terão desdobramentos de dimensões extraplanetárias. Signos de consideração cósmica estão escondidos sob o tecido de quatro apresentações aparentemente inofensivas de uma mesma banda de pop rock e em um festival de indie rock que culminaria com o show antológico de uma banda histórica em sua única apresentação no país, mostrando coincidências não tão coincidentes, que revelariam toda a ironicamente simples complexidade de um sistema de forças e poderes que se traduz neste falso consenso (que generaliza e força a barra) que chamamos de realidade. E tudo começa com a locutora anunciando que “essa é pra quem tá indo pro show do Teenage Fanclub: ‘The Concept'” na hora em que o rádio do carro é ligado.

É pra isso que rádio existe. Sim, há o valor comunitário e social, que é inegável, mas a interseção entre as ondas de transmissão e o tímpano do ouvinte pressupõe, antes de qualquer coisa, um contexto pessoal e intransferível. É uma ação solitária, que tem muito mais a ver com escutar discos em casa do que sair para dançar, é mais leitura do que conversa, mais introspecção que interação. As supracitadas coincidências não tão coincidentes são objeto de estudo de grandes desocupados da história e quando o acaso da programação coincide com o que você está fazendo o que acontece é, como reza uma nova expressão autoirônica 360o (tão irônica que deixa de ser), “mágico”. É o chamado sincronismo definido por Jung, que o Burroughs definia, ao falar em seus cut-ups, como “quando o que acontece fora de você se alinha com o que acontece dentro de você”. Imagino a reação em cada um dos ouvintes que tiveram a mesma sensação que eu, ouvindo ali, no rádio, aquela mesma música poucos minutos antes de um show da banda e cogito um mapeamento daquele tipo de energia brilhando por cima da noite de São Paulo, tentando imaginar quantos pontos de luz poderiam ser vistos e se eles poderiam formar uma estranha constelação. Aí já estamos no contexto social do rádio, mas, como eu disse, ele é secundário ao individual.

E podia ser qualquer música do velho Tineije, mas foi “The Concept”, que, como seu título explica, é “o conceito” da banda. Conceito? A música fala de uma garota que tá pensando em arrumar os discos do Status Quo (gente boa faz bons trocadilhos), que não vai ser forçada a fazer o que não estiver a fim, que leva a galera pro bar de carro e faz a cabeça de vez em quando, qual é o conceito? Pois é justamente esse – a celebração de uma informalidade que as pessoas têm com a música que sequer dão conta. A relação fã-ídolo mistura muito as coisas na cabeça de neguinho, que sequer percebe que o vínculo é com a própria música, e não com seus intérpretes ou autores. “Não é o músico que toca a música, é a música que toca o músico”, disse um übbernerd desses aí (Fripp, pra quem está anotando) e é justamente disso que o Teenage Fanclub trata. Pense no grupo como uma sociedade secreta chamada Fã Clube Adolescente, que exalta justamente os valores intrínsecos à audição e curtição dos sentimentos mais escancaradamente associados à música (ou, cultura, dependendo do escopo preferido) pop. Nada de tristeza, agressividade, violência, angústia – estes sentimentos tornam-se pop em uma segunda instância e pela exceção, não como regra (o mercado os “regra” com o tempo, mas não é uma ação natural). O grupo escocês está no universo dos filmes de Elvis e dos Beatles, naquele paraíso tropical (ou estância de inverno? Barzinho?) em que Burt Bacharach, o Kiss, o Abba, Kurt Cobain, Leo Jaime e os Carpenters se jogam para trás por baixo de uma corda esticada na horizontal ao som de “Tequila”.

A música é intercalada por “oh yeahs” que antecipam a entrada da seqüência básica dos acordes, expressões que, em si, já dizem muito sobre a banda. “Oh yeah” é uma espécie de “pois é” com “só…” (além de ser, claro, “sim”) que virou sinônimo de rock’n’roll (e, quase por conseqüência, de cultura pop) e em “The Concept” eles são cantados com desleixo e informalidade que raramente são associados ao gênero. Lemas como “sexo, drogas e rock’n’roll”, “Tougher than Leather” e “quero morrer antes de ficar velho” sempre associam o rock a um machismo autodestrutivo que se justifica em sua própria existência. Mesmo que essas baboseiras hemingwaynianas tenham lá um fundo de verdade, há um outro aspecto que é fundamental na estrutura disso que chamamos de rock e que é solenemente ignorado pelos slogans consagrados pela história. Não há frase de efeito que se refira à idolatria à música que é igualmente característica ao gênero. Conceitos pós-modernos como os Smiths (ou sua versão anos 90, o Belle & Sebastian), a grife Alta Fidelidade, o Oasis e o Weezer, aquele clipe do Yo La Tengo, o filme Quanto Mais Idiota Melhor e a consolidação do rótulo “indie” no Brasil como referindo-se a um grupo específico de pessoas são exemplos recentes do início de uma autoconsciência neste aspecto nerd do rock que é tão imprescindível quanto o “only the good die young”/River Phoenix da parada. A iconografia básica é igualmente clássica e talvez ainda mais certeira: as fãs dos Beatles na primeira apresentação do grupo no Ed Sullivan, Woodstock, Dark Side of the Moon, o conceito Rolling Stones, o London Calling inteiro, o clipe de “Paranoid”, Graceland, capas de disco, as máscaras do Kiss. Imagens e idéias que vêm e vão apenas para mostrar que, mais do que “atitude”, rock’n’roll é energia adolescente a todo vapor: hormonal e inocente, sem consciência que está em “fase de crescimento” – apenas se divertindo muito com tudo isso.

“Eu não quis te machucar”, cantam os caras no refrão. Pra que machucar os outros? Sai pra lá, urucubaca, más vibrações atraem más vibrações. Olho gordo engorda sozinho e, nas sábias palavras de Picapau (cujo desconhecimento da autoria da frase seguinte custou ao estudioso pop Rogério de Campos um tremendo vexame público em plena redação – pior que isso, só quando o Sidney Guzman disse que não era nerd): “Vodu é pra jacu”. Só por emanar tais sentimentos com o açúcar pop na medida já garante ao Teenage Fanclub um lugar de honra na história do pop (sem contar que eles fizeram isso em plenos anos 90, esforço dobrado por certo cinismo burro). Fora isso, o grupo exerce um papel junto a seus fãs que não é o de popstar, ídolo ou guru, um sentimento que a Aninha resumiu aos prantos: “Eles são os meus melhores amigos que eu nunca conheci”.

Não havia melhor jeito de começar tudo. Se nada interferisse no percurso, seria uma semana com quatro shows do Teenage Fanclub, um dos Pixies e dezenas de bandas nacionais pelo caminho. Ao alardear “o conceito” na hora certa, o rádio se justificava. O acaso ainda proveria duas outras pérolas na seqüência, “Roam” dos B-52’s e “Wild Flower” do Cult, outras duas bandas de rock cujos excesso de referências e aspecto temporão em relação à fase clássica do gênero tornavam-nas próxima do TFC. Minutos mais tarde, o próprio grupo explicaria-se em acordes e letras, resumindo-se em um gigantesco sorriso de quase duas horas nos quatro dias seguidos.

No palco, eles são o mais próximo dos Beatles que um grupo pode chegar hoje em dia. Lá atrás, Francis MacDonald, o Nice Man, balança a cabeça de um lado para o outro como Ringo Starr, ritmo seguro e groove rock’n’roll próprio do baterista mais famoso do mundo – além de prover vocais de apoio tão imprescindíveis quanto os da dupla principal. Raymond McGinley é o próprio Mr. Cool, como convém ao terceiro integrante de qualquer banda que se equilibre em uma dupla principal de compositores (só o Led e os Smiths fogem à regra – pense em George Harrison, Brian Jones, Paul Simonon): grisalho, sempre de preto e à esquerda do palco, fechava os olhos para assumir graves vocais e certeiros de faixas-chave, como “About You” e “Verisimilitude” (a versão definitiva para “Primeiros Erros”, do Kiko). Na ponta da direita, o baixista Norman Blake, tímido e quieto, fazia as vezes de um Paul McCartney feio – vegetariano e sósia de Kevin McDonald (do Kids in the Hall), apaziguava toda a euforia das músicas de Gerry Love em números mais terráqueos, como os clássicos “Starsign” (o primeiro contato que a maioria do público brasileiro teve com o grupo, via clipe ou rádio), “Don’t Look Back” ou “Discolite”. Love, no meio, comanda a festa como um Peter Pan pop – o Gordinho falou em “Michael J. Fox”, mas a semelhança talvez incorresse mais ao imaginário adolescente defendido pelo ator (Teen Wolf, O Segredo do Meu Sucesso, De Volta para o Futuro) do que por fisionomia ou incapacidade de envelhecer.

Os três shows no Sesc Pompéia, em São Paulo, foram equivalentes, mesmo com o repertório bem variado entre si – era formado basicamente pelas músicas dos discos Grand Prix e Songs From Northern Britain, com alguns petiscos do Bandwagonesque e poucas faixas dos outros álbuns, além de um único cover (“He’d Be a Diamond”, do Bevis Frond, nos primeiro e terceiro shows) e da música inédita da coletânea (“The World’ll Be OK”). A diferença entre os três shows, igualmente perfeitos, aconteceu mais na forma com que eles interagiram com os fãs. O primeiro foi uma apresentação de reconhecimento, em que o grupo tateou lentamente as possibilidades com canções que funcionaram como termômetros – “Near You”, “Versimilitude”, “Start Again”, “Radio” e “Mellow Doubt” usadas com certa parcimônia. Na quarta-feira, o clima pendeu à introspecção graças à maior quantidade de músicas do Thirteen (“Hang On” e “The Cabbage”) e a crepuscular “Cul de Sac”, com direito ao Ray no bongô – o show ainda foi o único em São Paulo em que a banda terminou “The Concept” com a parte final de “Satan”, um hardcorezinho fuleiro. Quinta-feira – que, na minha opinião, foi o melhor show deles no Brasil (e, disseram depois, que a própria banda considerou o melhor show que eles já fizeram) – foi dia de explosão pop, com direito a “Alcoholiday”, “Broken” e “Metal Baby”, negligenciadas nas noites anteriores. Pelos três shows, tomem versões de “Speed of Light”, “Neil Jung”, “Can’t Feel My Soul”, “Don’t Look Back”, “Your Love is the Place Where I Come From” (com xilofone de brinquedo), “Ain’t That Enough”, “Did I Say”, “I Need Direction”, “Sparky’s Dream”, “What You Do To Me”, e, claro, “Discolite”, “Everything Flows”, “The Concept” e “Starsign” – sempre revezando um verdadeiro desfile de instrumentos clássicos: vimos um Fender Jaguar, uma Gibson SG, uma Guild, uma Gibson Les Paul, duas Stratocasters, uma Epiphone Casino semi-acústica e baixos Fender Jazz e Precision.

A apresentação em Curitiba foi uma espécie de melhores momentos dos shows no Sesc Pompéia, só que sem a proximidade que o palco paulistano dava à platéia. Mas nada que desconcentrasse público ou banda – ambos estavam hipnotizados pela renca de hits que uns mandavam para os outros; a massa sorridente com o rosário pop e a banda esfuziante com seis mil fãs semibilíngües – e ainda rolou “My Uptight Life”, que não tinha rolado em nenhum show de São Paulo. E uma tremenda Lua, ensaiando a míngua, solta num céu lindaço. A companhia carioca não podia ser melhor…

A banda adorou o Brasil e nem precisava dizer isso – estava estampado no rosto de cada um deles. A interação Brasil-Escócia foi aproximada pelo apreço cervejeiro do grupo, que sentia-se em casa com o frio repentino que baixou na cidade. Em São Paulo, passearam por restaurantes, botecos e foram até vítimas de uma festinha surpresa na Vila Madalena – sempre rodeados por fãs e velhos amigos (ser fã é ser um velho amigo, parece sublinhar o mote da banda), recebendo mimos e sorrisos de brasileiros que nunca tinham visto na vida. A reação do grupo foi a melhor possível e o tempo todo, durante toda a estada do grupo no Brasil, era fácil vê-los dando atenção a moleques deslumbrados com o fato de estarem falando com alguém que tinham visto pela primeira vez quando a Bandeirantes transmitiu aquele mítico festival de Reading em 92 ou 93 (rito de passagem pra quem o assistiu, mais importante que o show do Nirvana em termos de impacto). Assisti tudo à distância, despreocupado em conversar com os integrantes da banda e mais interessado na própria reação do grupo ao público e vice-versa. Que funcionava às mil maravilhas, com a banda oferecendo músicas pras meninas e para casais de namorados pelo nome. Ao integrarem-se à platéia, o TFC apenas sintonizou-se a uma freqüência que já estava difundida entre as pessoas que foram assisti-los. Não é exagero dizer que mais da metade daquilo que chamamos de público indie passou pelo Sesc Pompéia para vê-los, provocando aquele clima de reencontro de amigos que sempre caracteriza os megaeventos deste meio (quantas pessoas compõem o “núcleo indie” no Brasil? 10 mil? Não pode ser muito mais do que isso…). Veio gente do interior e do litoral, do Rio e da Bahia, de Recife e de Brasília, de Floripa e de Belo Horizonte, e até do exterior – fora os diversas semicelebridades do meio – gente de banda, de gravadora independente, de produção de shows e festas, escritores pop, blogueiros famosos, etc. Pode incluir, tranqüilamente, o Teenage Fanclub na lista dos grandes acontecimentos indies da virada do século, ao lado dos shows do Stereolab, dos White Stripes, do Mogwai, do Sonic Youth, do Yo La Tengo, do Superchunk, do Mudhoney e do Belle & Sebastian – quase todo mundo foi em todos esses shows. E esse ano ainda deve ter Radiohead – a jóia que falta pra fechar a coroa (ou tem mais? Strokes? Pulp junta tanta gente [eu ia, fácil]? A volta do Pavement? PJ Harvey? Suede? Weezer?).

Entre os shows de São Paulo, quatro bandas brasileiras, mas só consegui ver, direito, o Grenade – a melhor banda do Brasil. O telefone elétrico que Rodrigo aplica nos ouvintes deixa todo mundo atordoado durante todo o show. São riffs clássicos enfileirados como se estivessem prestes a sair de moda, encaixados em músicas que parecem sair de uma improvável parceira entre John Lennon e Ray Davies. A pegada da banda é absurda e soa tão precisa quanto uma caixa de música, apresentando cada nova música com perfeição de faixa gravada. O repertório do show começou desfilando exatamente a mesma ordem das faixas do novo disco, abrindo espaço para uma ou outra nova composição e uma versão quebratudo de “Vampire Blues”, do Neil Young (fazendo o trocadilho-cotovelo com um dos hits do Grenade, a ausente “Vampire”). Show perfeito, que pede mais tempo de execução e, talvez, um espaço menor, para a reverberação mais tensa dos ruídos elétricos. Ainda tinha a ilusão de ver o grupo no palco grande do CPF, mas uma cláusula-frescura dos Pixies cortou meu barato. Quem mandou confiar no atraso brasileiro… Das outras bandas que abriram para o Teenage, eu não vi o Delomax (a nova banda do Gui, ex-Spots), vi só o finzinho do show do Vellocet (que, apesar do indiesmo estridente, parece ser outra banda) e peguei as quatro últimas músicas do show do Cigarrettes, cuja banda de apoio, desta vez, é a ainda anônima banda de apoio all-star da Slag: Eduardo Ramos (do Headache) na guitarra, Pedro Palhares (do Charlotte’s Suit) na outra guitarra, Ronaldo Evangelista (da revista Jazz+) no baixo e Bruno Ramos (também do Headache) na bateria. O som, shoegazer parede-de-som, sofreu com o baixo volume imposto pela casa, mas Marcelo Colares, o homem-cigarro, não tava nem aí – e tocou as mesmas músicas de sempre, com aquela disposição característica. Veio o Luciano Vianna me comentando justamente sobre isso e eu nem precisei pestanejar: “Daí o termo autoral, né?”, disse, percebendo que não havia a menor ironia no que eu estava falando, apesar de achar que ele tinha entendido assim.

Mais um diagnóstico de que, como eu falei repetidas vezes (pleunasmo!), os anos 90 estavam desintegrando-se naquela semana. A ironia, o sarcasmo e o cinismo, estes grifos de linguagem que a década passada se esforçava em usar para passar-se por cool, estavam vaporizando-se à medida que o Teenage Fanclub não permitia segundas interpretações para sentimentos tão descarados. Não era o Oasis dizendo-se maior que os Beatles ou o Primal Scream revivendo alguma parte da história do rock – os principais traços de referência vinham ao próprio público, listado por vezes nominalmente. O stage dive em câmera lenta que alguns felizardos protagonizaram não remetiam ao The Year that Punk Broke e sim ao simples prazer de ser carregado por uma massa de mãos.

Outros fatores ecoariam por aquela semana determinando o fim da década, a repetição como fim do ciclo. Granado dividindo o mesmo palco com diferença de dias tinha a ver com o fato de eu ter finalmente encontrado o Palugan para ele digitalizar o vídeo que eu tenho do segundo Juntatribo (ó lá, hein!). Daqui a uns dias os Pin Ups tocariam em seguida de três ícones gaúchos dos 90 – Flu, Wander Wildner e Frank Jorge -, que tocariam clássicos portenhos basicamente daquele período (fora um DeFalla e outro Replicantes). Sem contar os Pixies – e o último show da jornada, que encerraria a semana com uma música símbolo da década da ironia (repetida ainda na semana seguinte, veremos), embora não trouxesse o mínimo traço desta. Com o fantasma dos anos 90 lentamente se dissipando (um sentimento que, de forma semelhante, desintegrou o “rock alternativo” no show do Mudhoney no Olympia), finalizava a etapa paulistana da maratona. Restava pegar o vôo para Curitiba, tomar a última dose de Teenage Fanclub e me preparar para os Pixies. Quer dizer: não dá pra se preparar para os Pixies. Acho que essa foi uma conclusão que todos nós chegamos. Mas eu falo disso mais tarde.

Depois de um aperto na Rubem Berta, quase sou espirrado para trás pelo vôo, que por dez minutos, conseguiu me capturar. O que te dá mais aflição? O vôo ou todo o ritual que o antecede? Há quem viaje diariamente e sequer sinta a rotina. Mas viagens costumam ser esporádicas para a maioria das pessoas. E todo o processo de fatos que precedem o momento em que se olha, finalmente, o aeroporto do lado de dentro do avião (nem que seja por cima do ombro dos outros), parece ser muito mais complexo que todos aqueles mostradoresinhos no interior da cabine do piloto. Ora, mostradores. Há uma série de mostradores no painel de cada carro do planeta e nenhum deles é usado simultaneamente ao outro. A menos que o sujeito tenha muito azar – tipo esquentar o motor ao mesmo tempo em que a gasolina acabar -, as possibilidades de ter de se verificar dois mostradores ao mesmo tempo é bem pequena. Tudo bem que um avião deve ter lá suas dificuldades, mas aquele emaranhado de números, ponteiros e vidrinhos redondos são apenas sensores para cada pequena parte de um todo gigantesco que levanta-se pesadamente rumo ao céu. Se der merda, todos os ponteiros vão dar merda ao mesmo tempo. Bastava substituir aqueles microrrelógios por um mostrador de parede gigantesco que ocupasse toda uma parede da cabine, ao lado do piloto. Olhando de soslaio para o piloto, o megamostrador seria tão assustador quanto um segurança de boate – o tamanho da responsabilidade te olhando como um filhodaputa. Não há “calma passageiros” quando o ponteiro vai para o vermelho. Desta forma, o piloto gritaria “meidei! meidei!” como um galã de segunda num filme de segunda guerra mundial, ao mesmo tempo em que entregaria a todos os passageiros a verdadeira coragem aeronáutica frente à inevitável lei de Newton. Num “tora! tora! tora!” à brasileira, medraria e borraria-se em primeira pessoa do passado, evitando qualquer paliativo sexydróide vindo do alto-falante das aeromoças. No ar, pânico. Por isso, as companhias disseminam o ponteirão em centésimos ponteirinhos, para a dar a impressão de que é um trabalho verdadeiramente técnico – e não apenas aquela alavanca que qualquer moleque sabe mexer desde o primeiro videogame (sem as bombas ou as metralhadoras, o que deve ser um saco).

Pilotar um avião é fácil. Tenha umas aulas e mande ver. Mas tentar otimizar o tempo anterior à chegada do vôo é tarefa de bibliotecário – isso não se aprende em poucas aulas. Não é simplesmente segurar no volante e abrir os flapes na hora em que o avião triscar no asfalto. Preparar-se para uma viagem é como descer de escadas um prédio que está desabando: quando chegar no chão, você ainda tem que correr para fora. Há um nível de afobação entre o “o que que eu levo?” e o “será que tá tudo certo?” que é capaz de desestruturar o mais frio dos robôs. Case isto com a minutometria de check-ins, rádio-taxis e trânsito no caminho, por si só uma tarefa que requer concentração e destreza – simultâneas. Quando a véspera foi um dia que não existiu, resta apenas acordar assustado com a certeza de que o despertador falhou e o avião já pousa em terras distantes, jogar toda a roupa que puder na primeira mala que estiver a mão e esperar a largada do alarme à base de TV no mute e com os próprios movimentos como som ambiente, como se Jerry Lewis suingasse em um assoalho de boxe. O pré-vôo desta vez equivaleria a um pouso forçado no meio da Amazônia, num teco-teco baleado pelo narcotráfico e pelo descaso, na chuva. Ainda me avisam que eu não poderia embarcar no vôo porque acabaram de avisar no som a tal “última chamada”. Ora, menina, tenha a santa paciência, olha a minha cara (e o sorriso, canto da boca, tipo a Cláudia Abreu faz na novela pra dizer que “agora eu posso mostrar que sou vilã” – embora eu use esse gesto com outras intenções). Entro no avião e encontro com o Diego e o Miranda, que tira do bolso sua lista de bandas cujos discos ainda não comprou (guardada num saco plástico, pra não molhar!) e começa a falar de reedições de artistas que eu nunca ouvi falar e de discos novos de outros caras que eu mal conheço de nome. Enquanto ele ia explicando e situando cada um dos nomes, comecei a cogitar que a afobação pré-vôo tenha sido uma forma inconsciente de me familiarizar àquela ida à Curitiba, que, pela primeira vez, me chamava com antecedência.

O Curitiba Pop Festival era mais uma desculpa para voltar à Curitiba. Não uma desculpa minha, mas da cidade. Ela tem dessas. Tomo doses freqüentes de Curitiba há uns anos e ela toma doses freqüentes de mim. Toda vez de um jeito esquisito, nunca numas de “vou pra Curitiba”. É sempre algo resolvido meio em cima da hora, algo que não tem a ver necessariamente com o meu emprego da vez, um atalho para evitar uns dias em casa – seja jabá de gravadora, favor de amigo ou convite de desconhecido (ou variações das seis alternativas entre si). Caí em anos de entressafra e passei por situações estranhas e shows do caralho. Um Relespública, um Dash, um Happy Cow, um Woyzeck… Preso sem a chave do apartamento, sem lembrar de como havia parado lá. “Posso emendar até terça? Não, a outra! Trago a matéria da capa!”. O show de lançamento do Sr. Banana – bebedeira-livre e todo underground curitibano em noite hi-fi. Indies lovecraftianos numa viagem erradíssima no James. O nascimento da “irreverência”. Como assim, perdeu a carteira? Pentelhando a Cissa numa performance Contos da Cripta. Como é mesmo o seu nome? Esmolando quarto de hotel pra produção do falecido BIG edição Aeroanta onde conheci pessoalmente Simone, no mesmo evento do infame e famoso incidente dos 50 reais. Acabação etílica no mexicano na conta de algum poder público. Digão – indefectível e infalível – o único que vi TODAS as vezes. As várias caras do 92… O motivo do nome do Abonico. O Diet abrindo a porta do quarto do hotel só de short vermelho. A risada da Paola. A Angélica com o queixo quebrado do outro lado do telefone. Devorar o macarrão expresso que até os Concreteness (hoje estrelas do jetset paulistano) desprezaram. O policial perguntando o que a gente tava fazendo na porta do hotel (o que a gente tava fazendo?). Flanar pelo centro com o casal Candyland e a Clarah. Las ticas tienen fuego. Cidade esquisita, realidade paralela. As coisas funcionam, mas de um jeito diferente. É como se Twin Peaks não fosse uma cidadezinha, mas a capital de um estado. E, convenhamos, o Paraná é muito Twin Peaks. Troque os pinheiros pelas araucárias e espere o anãozinho vir falando de trás pra frente. Os caipiras daqui não são brasileiros, eles vêm de Fargo. As pessoas não olham na cara (como não olham em São Paulo – mas, pensando bem, você olharia na minha cara?) e ficam intimidadas com qualquer demonstração de afetuosidade, por menor que seja.

Completava o Miranda, sobre a capital: “Mulher casada te cumprimenta com a mão e não dá beijo nem por telefone. Tu fala ‘um beijo’ e elas respondem ‘um abraço'”. Junte isso ao fato de ser uma cidade essencialmente indie. Apesar dos fãs de Ramones e dos torcedores do Atlético Paranaense (um tipo de gente que, por algum motivo xis, faz parte do mesmo grupo social), Curitiba está mais próxima de Roma e Londres do que da Califórnia carioca ou da São Paulo noviorque. Não tem o sabor caribenho de Recife, o charme cajun de Salvador, o antídoto cronenberguiano à claustrofobia de Brasília, a atmosfera platina de Porto Alegre, o bon-vivantismo dundee de Florianópolis ou a aspiração barcelonesca de Belo Horizonte. O Brasil tem o privilégio de encubar texturas de todo o ocidente e em nenhuma capital do país o pesar do Velho Continente é melhor sentido do que em Curitiba. Até os policiais são indies: uns fantasiados de Chips (capacete branco) e outros de Guarda Belo (de quepe). E sexta-feira, o tempo traduzia de forma perfeita o sentimento bucólico-medieval que paira sobre avenidas e shopping centers: um solzinho amarelo, quente o suficiente para aquecer a pele do impacto bruto de um frio seco, que cortaria a pele com seus menos de 15 graus não fossem as bem-vindas boas vibrações do chamado astro-rei. A frieza curitibana é aquecida com uma certa tristeza feliz, uma conformação com a compensação que é característica central do adjetivo indie. Poucas horas dali, os Pixies explicariam o porquê da convergência rumo à capital paranaense. Mas até aqui, no percurso rumo ao hotel, o cheiro da cidade ainda é daquele que faz o povo ouvir Smiths, Sonic Youth e Jesus & Mary Chain antes de Pink Floyd, Led Zeppelin e Doors. INDIE! dizem os outdoors, estejam anunciando motéis ou imobiliárias.

Chegamos ao hotel e em poucos segundos percebo que aqueles quatro ali não são o Alcir Pécora, o Sérgio Brito, o Charles Pilger e a mãe do Malcolm, e sim os Pixies – ciceroneados pela Fabbie, que quando a cumprimentei, transitava entre o estado de choque e o estado de alerta, ainda sem alguma noção palpável de quem estava do lado. Depois de acomodado no hotel (piscina aquecida e o escambau, eu mereço…), seria a hora de uma banda pelo centro acompanhado das literais celebridades Kid Vinil e Miranda, que pararam várias vezes para tirar foto e cumprimentar fãs. Só em uma cidade indie! Colamos no Stuart para petiscar uns tapas (e curar um trauma de infância do Kid, que comeu coelho pela primeira vez) e lamentamos a onipresença Kaiser tomando água. No meio do hecatombe (vá ao dicionário), pinta um carinha que, depois de reconhecer meus chapas andarilhos popstars, vira-se para mim e metralha um inquisidor (“eu te conheço de algum lugar…”), que me constrange tanto quanto uma cantada gay. Tal qual, desvencilho-me com o coração tranqüilo:

– Você não me conhece.

A satisfação do anonimato só seria compatível ao momentum Orkut horas mais tarde no CPF, que, apontando na direção oposta, me aproximaria de pessoas que estariam a bem mais tempo longe do meu alcance, traduzindo perfeitamente a geografia do espaço-tempo para o universo das relações entre as pessoas. “Amigos dos amigos” já se batizava a facção malaca nos morros do Rio, “the enemy of the enemy is a friend” cantava o Asian Dub Foundation e agora vem o cadastro do Big Brother proposto pelo Google – e aceito por nós – com o conceito de “Friends of Friends” (os “Fofs”, pros meta-irônicos) que, no fim das contas, reverbera exatamente a noção teia/formigueiro que está, pouco a pouco, minando conceitos que eram tão sólidos e consistentes quanto as torres gêmeas ou a ética do exército norte-americano: Pê-Dois-Pê, malandro, “de parrrceiro pra parrrceiro”, tudo na faixa, sem crise, pegaê. Uma lógica que tem tanto a ver com o sucesso de programas como Soulseek e Napster quanto a cada vez mais intensa queda moral rumo ao solteirismo, à cultura do DJ e do software livre. Pitchupi or not pitchupi, esta é a tal questão – e vocês sabem a resposta.

O melhor exemplo desta nova forma de interação foi encarnado no casal Cris e Maui, cuja existência só me foi apresentada quando eles já haviam se mandado do Brasil, mas que amizades em comum e listas de discussão sempre me mantiveram em contato com os dois. Pouco antes de vir para cá (aproveitar o grande encontro da semana ida), Cris me manda um email avisando da chegada e, quando os encontro, estou conversando com velhos amigos. Novos velhos amigos, uma sensação que você com certeza já teve – e que muita gente que não teve ainda olha com estranheza. Azar deles.

De volta de um passeio por lojas de vinil e um minitour gastronômico com o Miranda, a Rosa e o Zé Guilherme, restava ir ao evento de táxi. Com a credencial à mão, abriam-se os portões dos fundos e foi possível uma entrada triunfal pelo elevador Gotham City nos fundos da Pedreira. Era a minha primeira vez naquele lugar e não tem como não ficar impressionado – e a noite, em especial, contribuía para o deslumbre. Descer naquela espécie de cratera de luxo, uma arena lunar, num elevador que, estrutura de andaime, explicava, visualmente, todo o mecanismo de funcionamento do aparelho, já seria uma experiência e tanto – que fora completa com o fato do Pipodélica estar encerrando sua participação com “Space Oddity”, de David Bowie. Uma abertura ímpar para a minha edição pessoal do CPF. O Íris, em seguida, com aquele famoso “som de Curitiba” (que parece muita coisa, não chega a empolgar e funciona muito bem como trilha sonora) serviu para ambientação na Pedreira – e encontrar uma enorme quantidade de compadres, conhecidos, chicas e comadres. E novos velhos amigos – eram em quantidade suficiente para serem mencionados como um grupo.

O público começou a balançar com o groove do Sonic Júnior, um dos poucos a destoar da uniformidade rock da noite. Não chegou a comover em massa, mas era possível perceber nas filas do bar e nas rodinhas de conversa, pés batendo e ombros chacoalhando às levadas proto-eletrônicas da dupla alagoana – e que melhor juiz que o fluxo sangüíneo? Os suecos do Hell on Wheels trilharam pelo mesmo caminho, mas trazendo o clima de volta ao rock’n’roll – riffs e pegadas substituindo o suíngue e o bolebole. Como o Sonic Júnior, foi igualmente recebido com morna indiferença, embora uma ou outra faixa empolgasse bolsões de animação espalhados pelo público. Nada demais, comparada à catarse feliz que o Teenage Fanclub induziria logo a seguir – e que já foi contada anteriormente. No meio do show, o público derruba as duas grades que separavam os dois setores da platéia – um acontecimento previsível e que podia estragar o show, caso rolasse algum empurra-empurra pesado. Mas felizmente, a turba era curitibana e o tumulto, indie, foi apenas caótico o suficiente apenas para derrubar as barreiras, sem maiores contusões – maravilha.

Findo o primeiro dia do festival, restava seguir para o segundo programa da noite, o festival RG, que acontecia num lugar chamado Cine – que, como o nome diz, era um antigo cinema. Mas o fato do CPF ter acabado bem depois do horário previsto e um demorado pitstop no hotel fez com que chegássemos a tempo da última banda da noite, o trio paulistano Detetives, que melhorou horrores desde o outro show que eu vi do grupo. Presença rock na mesma medida das referências certas (o cover garagesco pra “White Light White Heat” do Velvet foi o ápice), o grupo está tão próximo do rock gaúcho quanto da cena churly paulistana e do Novo Rock que sai de Nova York. Capta freqüências que estão no ar e a transferem com um grau de virulência contido o suficiente para garantir sotaque e personalidade, uma fórmula que seria repetida com esmero na noite seguinte do evento. O Biônica, também de São Paulo, ainda apareceu como banda-surpresa da noite, mas sem novidades – eles são apenas OK, falta concretizarem o nível de periculosidade que tentam induzir entre riffs, solos e gritinhos. Restava terminar a noite (já dia, e de óculos escuros) se empanturrando com as frutas do café da manhã do hotel. Que coca-cola gelada o quê! O melhor remédio pra ressaca há de ser uma porção com vários pedaços de frutas tropicais, repetidas vezes.

O dia seguinte começaria a diluir os resquícios finais do Teenage Fanclub à medida em que a presença pixieana ia se tornando uma realidade – cheguei a ouvir a camareira assobiando “Gigantic” ou era só aquela música do Belo? O fato é que quando eu liguei no canal de TV que mostrava o que a câmera no teto da recepção filmava, certa presença feminina chamou minha atenção: recostada ao balcão do lobby do hotel, ela conferia alguns papéis com um funcionário. Pensei – era uma oportunidade e só, não custava nada. Desci pelo elevador e encostei-me ao seu lado, perguntando para o funcionário se haviam deixado algum recado para o meu quarto. Enquanto ele conferia o que eu já sabia, virei para a vítima e sorri um “oi” em inglês que me funcionou como passaporte para um ícone crucial para a década que esmaecia naquela semana:

– Hi

, respondeu o sorriso de Kim Deal. A poucos palmos do meu (e igualmente clássico, embora em outras dimensões), o sorriso de Mona Lisa emulado por Kurt Cobain e Billy Corgan em suas parcas tentativas de parecerem delinqüentes juvenis. Eis o sorriso que suspira não apenas a letra de “Gigantic” como os uivos iniciais de “Cannonball” e que encantou mais de uma geração com seu misto de insanidade e juventude. Há um certo grau de indolência naquele sorriso que parece não ser certo deixá-lo à solta, para pegar pessoas desprevenidas com aquele desprezo natural. Eu fui preparado, mas não sabia o que havia por trás daquela paisagem horizontal. Certamente, um enigma, mas qual? Um sorriso com olhar de cantos da boca, preenchendo o campo de visão feito o mar em uma praia. Uma esfinge ao contrário: decifra-te ou devoro-me. Deixei-a devorar-se, enquanto descubro que ninguém deixou mensagem pra mim. Satisfeito, voltei ao quarto, para me preparar para a grande noite.

De saída, não dava pra não se apaixonar por duas pequenas ninfetas que grudaram naquele bando de credenciados na tentativa de entrar no show sem pagar. Como quem não queria nada, elas sentaram num cantinho e foram ficando, até perceberem-se no meio da Pedreira. Ah, o viço da adolescência, o rubor da tez macia frente aos perigos da idade, a candura dócil dos verdes anos, aqueles peitinhos e sorrisos tímidos… O Grenade havia passado (mérde!) e era a vez do Excelsior mandar um capitular Som Indie para a massa que ainda chegava no lugar – e põe letra maiúscula nisso, tamos falando de uma banda com gente do Woyzeck e do Wandula na formação. Meio fora d’água num evento daquele tamanho, mas foi show caprichado, pop de gente grande como só Curitiba sabe fazer.

Logo era a vez dos Autoramas puxar seu cordão de hits, boa parte deles cantarolados pelo público. Quem já viu os caras ao vivo, sabe: não tem erro nem mistério, é rock’n’roll como se o gênero não tivesse se tornado uma espécie de piada interna. Gabriel ainda cutucou a aflição da geral ao, pouco antes de sair do palco, entoar as solitárias notas de abertura de “Here Comes Your Man”. “Lá vem os caras”, pensava o público em uníssono, respondendo em rugido. “Lá vem a bomba”, pensei, na multidão.

Depois entra o Pelebrói Não Sei, que é outro mistério: a banda é muito, mas muito ruim, embora os caras façam o show empolgadaços e o vocalista Dee Diedrich roube a cena. É impressionante isso – a banda é um hardcorezinho fuleiro cantando músicas toscas sobre sexo e violência, mas nem é o conceito que decepciona e sim o fato da execução sem muito primária. Mas com um sujeito daqueles no microfone, se a banda entrasse batendo lata e saísse tocando chocalho, ganharia o público do mesmo jeito. Lembro do outro show que eu vi deles, no De Inverno de 2002, quando os caras ainda tavam ganhando intimidade com o palco e Dee já impressionava. Dois anos depois, o cara é popstar local, o público sabe cantar boa parte das letras e ele tava com a platéia na mão. “Obrigado a todas as mulheres que vieram pra cá me ver” – não é todo dia que alguém solta uma pérola dessas sem ser expulso às latadas. Fora que foi a banda que agitou a derrubada da cerca no sábado, pedindo “o fim do Apartheid”. Fico imaginando a banda num palquinho, show lotado, todo mundo pirando. Mas não é o meu tipo de som, por isso fui dar uma banda pelas lojinhas encontrando o Júnior “sexto Mogwai” felizaço com a quase rapa que aconteceu com as camisetas que ele levou pra vender e o Lariú com um sorriso gigante por ter esgotado todos os discos do PELVs que ele trouxe. Só em Curitiba… Ainda trombo com o Nobre que, depois de me intimar para o show do MQN mais tarde na continuação do RG, me lembra da primeira resenha que escrevi sobre a banda dele, descendo o malho. Mais um motivo para ir ao festival paralelo, e direto do show, sem passar no hotel. O outro eram os Walverdes que, motivo de vergonha admitido, pois nunca havia os visto em palco. Mas tenho meus canais de averiguação de confiança e já sabia que veria um Grande Show de Rock depois do Evento Pixies, cuja conjunção planetária começava a alinhar-se no céu.

Depois de um problema e uma solução de natureza drosófila, trombei com o roadie do Teenage Fanclub que, até então, era apenas o “George” – um sujeito grande e grisalho, com os cabelos lisos escorrendo até os ombros, sempre de jaqueta de couro, olhar pacato e prestativo. Sua fisionomia o levara a ser batizado pelo Diego e pelo Lúcio como “Bob”, em referência ao espírito que mata Laura Palmer em Twin Peaks – é coincidência? Não acho… Restava confirmar um rumor que o acompanhava desde São Paulo e qual a surpresa da confirmação que era ele mesmo, o próprio George Borowski, lenda-viva da guitarra elétrica no norte inglês que tocava na banda The Out e fora homenageado em letra pelos Dire Straits, em “Sultans of Swing”. É o próprio “Guitar George”:

“You check out Guitar George he knows all the chords
Mind he’s strictly rhythm he doesn’t want to make it cry or sing
And an old guitar is all he can afford
When he gets up under the lights to play his thing”

“Just George”, disse ao ser inquirido, antes de começar um discurso apaixonado sobre o Brasil e as qualidades da terrinha. “Você sabe quais são, mas eu preciso falar” e comentava sobre o calor das pessoas e como o fato do país ser um lugar lindo era a menor das qualidades. “São as pessoas que importam e você sabe disso. Vocês todos sabem disso, por isso que o Brasil é um lugar tão bonito”, explicava, visivelmente emocionado e candidamente ornado por um vaso de orquídea provavelmente dado por uma fã. É isso aí, mister gringo, tu captou a nossa mensagem. Spread the word, então. Diz ele que ano que vem tá aí, pra fazer shows solo – vamos ver.

Enquanto isso, o Ludov continuava sendo o Supertrunfo ou os Maybees, apesar de tudo. Soam como um Pato Fu paulistano – ou seja, todas as gracinhas do quarteto mineiro acabam transformadas em… nada. O problema não é serem uma banda ruim (como eu sou gente boa, hein…), e sim só o fato de não transmitirem energia suficiente para passar algo. Vai ver sou eu, mas mesmo prestando atenção em duas ou três músicas, a má impressão não se desfaz, mantendo-se com a cara de pop papel-de-parede, música ambiente num sentido pejorativo, muzak inconsciente. Mas o que é? É a vocalista? São as letras? As guitarras? Não consegui detectar uma coisa específica que tornasse o som da banda tão insípido – o que me leva a crer que é o próprio conjunto que chega a esta conclusão. Falando em sorriso da Kim Deal, encontro a Paola (o P de CPF) num canto atrás do palco, maravilhada com o fato de tudo ter corrido como planejado (salvo uma ou outra bobagem, normal num treco deste tamanho). Ela me pede desculpas por uma besteira qualquer, enquanto aproveito a deixa pra assuntar o elenco de sonho pra edição do ano que vem. Ela finge que não sabe, mas tem a lista na ponta da língua – mas como estamos no plano das idéias, melhor nem falar nada, pra não agourar. Sacumé…

No palco, a Relespública, novamente um trio, explica porque ainda é uma das melhores bandas de rock do país, abalroando tímpanos com versões para “A Fumaça é Melhor que o Ar” (do Ira!), “Eu Sou Terrível” (Dele) e “Won’t Get Fooled Again” (do Who). Entre os transeuntes pelo público, encontro uma massa: o casal De Inverno, o Bicso, a Lia, o Farinha, Charles Pilger ele mesmo, o Jonas, a Grazi, o Rafa, os onipresentes Zé e Gordinho, Diógenes, Mestre Giglio, a Eiko, a Liana, Luciano Elcabong, Dodô, o Sapo, o casal André e Rafaella, Takeda, o Cassiano (que havia salvo a discotecagem do festival da tragédia da noite anterior, em que um tanso ficava curtindo, sozinho, o mesmo disco do Pantera), Miss Bobsin, o Sol, Abonico, Mutley, o Pablo – enfim, um monte de gente conhecida (minha – numa coluna social pessoal – e entre si), fora os novos velhos amigos, uma vaibe incomparável. Pouco depois, o Mombojó repetiria o efeito Sonic Júnior, trocando o groove da sexta-feira por um flow quase jazzístico, com um pé num lounge mangue e outro na MPB. Únicos artistas não-rock da noite, sofreram com o som baixo, mas nem a banda nem o público pareceu se preocupar. Hipnotizados pela tranqüilidade séria e serena do sexteto, a choldra parou para prestar atenção em mais uma prova da maturidade do grupo. O palco gigantesco também prejudicou o impacto da banda (problema que trios como a Reles e os Autoramas não tiveram), mas o andar da carruagem não foi prejudicado em nenhum momento e além de alguns pontuais grooves do disco Nadadenovo (como “A Missa”, “Deixe-se Acreditar” e “Nem Parece”), que moveram a multidão, o resto da apresentação induziu a um transe psicodélico light, bem azeitado com o tempero samba, violão acústico, cavaco e flautinhas providenciais à viagem. “Essa é de Chico”, anunciou o vocalista Felipe, “Buarque”, antes de entrar em uma “Tem Mais Samba” quase lounge.

Logo então começaria o segundo melhor show do sábado no CPF, um encontro que poderia ser genial ou um fracasso, reunindo, numa mesma banda, Wander Wildner, Frank Jorge e Flu, tocando (aham) “clássicos do rock gaúcho”. O que poderia ser um mico de proporções cepeéficas, no entanto, mostrou-se o show certo na hora certa (quase na hora certa, pois o Pin Ups devia ter vindo antes). Abrasileirando um pouco o imaginário indie que alinhava Curitiba a Boston e outras cidades universitárias improváveis pelo planeta, enquanto a Lua seguia seu aparente ingênuo percurso por um céu que aos poucos vias as nuvens dissipar, o trio lembrou-nos da grande contribuição do rock feito no Rio Grande do Sul para a cultura nacional: a diversão pura e simples, prima de oitentistas desafetados como Léo Jaime, Ultraje a Rigor e Camisa de Vênus. Uma seqüência de canções que juntava os pontos de diferentes situações e oportunidades conseguidas pelo gênero nas duas últimas décadas – de clássicos dos Replicantes (“Sandina” em versão bilíngüe, “Hippie Punk Rajneesh” e “Surfista Calhorda”), hits improváveis do DeFalla (“It’s Fucking Boring to Death”), nuggets do Cascavelettes (“O Dotadão Tem Que Morrer” e “Menstruada”), a velha Graforréia (“Empregada”) um Frank Jorge patofuzado (“Eu”), um sucesso wanderiano (“Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”) e o hino de Júpiter Maçã “Lugar do Caralho”, que, como quase todas as músicas, foi cantada aos berros por boa parte do público (são hits, ora pois) – esta última com a certeza de que, mesmo que a cerveja não fosse tão barata quanto a do lugar descrito pelo velho Basso (veria o sujeito mais tarde), o CPF de sábado chegava próximo à paisagem cantada. Só faltou umas músicas, ou ao menos uma, do Carteira Nacional de Apaixonado, clássico gaúcho desde sua incepção.

Os Pin Ups vieram em seguida e fizeram um show apenas OK – e eu só digo OK pra não pegar pesado e dizer “ruim” direto. Porque não chegou a ser ruim, mas foi tão deslocado e fora de sintonia com o resto do evento que parecia estar em rotação errada ou sem contato com o público, como se tocassem atrás de um muro (um The Wall involuntário, punk). Sem contar que o Pin Ups redivivo é uma aparição essencialmente paulistana, o que torna as coisas ainda mais desfavoráveis para a banda fora de casa – no dia do Mudhoney (e ainda mais com o Mario do Wry puxando “Evisceration”) fazia muito mais sentido. E nem ao tocar a mesma seqüência de covers de sempre (um Stooges, um MC5, um Jesus & Mary Chain) o grupo conseguiu animar o público, que fingia agitar apenas para não perder o embalo para os Pixies. Eu circulei ali no meio – mais se conversava do que se prestava atenção no palco. O clima era “PIXIES! PIXIES!” em diferentes escalas de articulação sentimental, o público extático com a cada vez mais curta distância espaço-temporal entre suas próprias individualidades e um conceito midiático considerado clássico associado a um período feliz de suas vidas. Mesmo longe do público, a presença dos Pin Ups fazia todo o sentido no âmbito fim dos 90 que exaltava da semana, que ainda contou com a virtual presença do Killing Chainsaw, cuja “Passion” (do disco-atordôo Slim Fast Formula) vinha metralhada em um anúncio de loja de skate que passava nos telões, entre um show e outro.

O grupo paulistano deixou o palco pouco antes da meia-noite e o clima de expectativa começa a tornar-se um ruidoso zunzum de apreensão. É o barulho da massa crepitando os próprios engulhos, tomada de excitação pelo momento coincidente que está por vir. A calma antes da tempestade, o vácuo que anuncia a tsunami, o vazio na alma aos pés do apocalipse. Me instalei a menos de cem metros do palco, estrategicamente entre o casal Maui e Cris, o Du, o Bernardo e a Fabiana. Enquanto os verticalmente prejudicados roubavam cadeiras de plástico da praça de alimentação para não perder nenhum detalhe. Mas alguém procurava um lugar melhor para o show.

O palco montado na Pedreira era formado por dois grandes retângulos, sendo um deles, o da base, o dobro do tamanho do outro, a parte de cima. Vistos de cima, ambas áreas eram alinhadas ao centro, fazendo com que, de cada esquina do palco, subisse uma viga de metal em diagonal, rumo ao centro do palco e apontando para cima. Visto de frente, o palco parecia um trapézio (a figura geométrica, quem disse que você não lembra?). Não sei se você consegue visualizar, acho que uma foto facilitaria as coisas. E à medida em que os minutos se aproximavam da meia-noite, as nuvens já não estavam mais no céu e a Lua lentamente se posicionava um pouco acima do palco, formando, pelo menos olhando de onde eu estava, uma outra figura geométrica, tridimensional, de contornos adequados ao evento que aos poucos o show dos Pixies se tornava. As pontas do palco, a Lua e a banda no meio: uma pirâmide.

Ô-ôu.

Você deve ter alguma noção do que isso significa. Pirâmides não apenas remetem ao início da civilização ocidental mas seu formato inspira o equilíbrio mental e espiritual que é a meta de diferentes religiões, ideologias e filosofias – além do Egito, tem pirâmide no México, no meio da selva brasileira, no fundo do mar, na África, na Ásia, na nota de dólar, em Brasília, no símbolo da maçonaria, no Louvre. Diferentes teorias posicionam-na como matriz para possibilidades improváveis – a teosofia da Madame Blavatsky falava em rituais de renovação da energia vital baseando-se no Livro Egípcio dos Mortos; outros pesquisadores do século 19 conseguiam interrelacionar as pirâmides egípcias com profecias bíblicas; matemáticos e arquitetos debruçavam-se sobre a perfeição numérica do formato. Uma superstição mágica fala que a carne leva mais tempo para apodrecer caso deixada sob uma pirâmide e não é raro encontrarmos gente dentro de estruturas piramidais fazendo exercícios ou meditando, aproveitando-se da dita paz encontrada no interior de um treco daqueles. A natureza enigmática da pirâmide vai além e evoca até mesmo os mais antigos temores humanos, mistérios inexplicáveis como Atlântida, ocultismo e seres alienígenas.

Estamos, definitivamente, em território pixieano.

Os quatro Pixies sobem ao palco, quatro lados da pirâmide, quatro elfos brincando de deus para uma massa de quase oito mil fãs de carteirinha. Lovering, impecavelmente vestido com uma camisa bufante com estampa de cartas de baralho (ele também é mágico, caso você não saiba) esmurra sutilmente seu kit, pouco antes do baixo da senhora John Murphy enganchar no andamento de “Bone Machine”, abrindo o caminho para os acordes gritalhões das duas guitarras e o zurro primevo de Frank Black. Tanto o público quanto a banda sabia que a viagem dali em diante não seria uma mera apresentação clássica, e sim uma provação ritual, para ambos os lados. Os Pixies precisavam enfrentar o público brasileiro e tentar uma comunhão mais séria e todos presentes estavam dispostos a validá-la. E se o número humano é 5, não custa lembrar que 5 também são os lados da pirâmide – nos esquecemos do lado que não vemos, pois somos nós. A própria base. Quatro Pixies no palco e o público. A Lua no alto, observando tudo, olho solitário. O cenário estava armado.

Sim, eram os Pixies mesmo. Mesmo que fisicamente tenham mudado (Black foi o menos afetado pelo tempo – apenas aumentou de tamanho), na hora em que os quatro embarcaram na primeira de uma seqüência de vinte e seis músicas praticamente sem intervalo, numa coletânea perfeita que nem eles mesmos conseguiram sintetizar em disco, percebemos que estávamos de frente para tudo aquilo. A banda começa a tocar e tudo era familiar: os berros e sussurros de Francis e sua guitarra grunhida; as intervenções cândidas de Kim ao vocal, sob um baixo tão firme quanto o eixo magnético da Terra; os gemidos e uivos elétricos de um Joey Santiago tão discreto no palco quanto indiscreto no som; os três instrumentos e dois vocais convulsionando possibilidades simples propostas pela pegada segura e precisa do prestidigitador David Lovering. Não era difícil imaginar todo mundo lembrando do primeiro vinil, daquela fita que havia pego emprestado com o amigo, do primeiro clipe, da primeira vez que leu o nome “Pixies”.

Nenhum deles é músico virtuoso… e daí? O que faz dos Pixies fundamentais nessa história toda é justamente que cada canção conter um excesso de simplicidade tão impressionante a ponto de nos inquirir sobre o fato de elas não terem sido compostas antes. Eles pegam o molde do punk e o colocam em perspectiva, relativizando seu impacto e cogitando novos caminhos para o formato baixo-guitarra-vocal-bateria. Não há influência de blues ou de rock clássico explícita em nenhum momento do grupo (a única, talvez, seja a citação do riff de “Purple Haze” de Jimi Hendrix, pelo final de “Into the White”, um lado B) e a banda é tão surreal que parece ser um dos grupos de música pop inventados por Thomas Pynchon e Robert Anton Wilson, dos filmes de David Lynch ou de Pedro Almodóvar ou do imaginário pop aleatório das realidades paralelas da Hanna Barbera. Não parece existir.

Convenha: um grupo de punk surf com tendência ao pop radiofônico perfeito, citando ufologia, cinema de arte e violência gráfica e gabando-se de influências como western spaghetti e cultura porto-riquenha, além de uma estranha obsessão com a morte não é exatamente o que se espera da História do Rock. Um grupo nerd, estudantes de escola de arte, olha a cara desses sujeitos. A descrição dos Pixies é adequada a desenhos animados para gente grande, a filmes do John Waters ou de Quentin Tarantino ou elocubrações ensandecidas de Hunter Thompson. Não parece um grupo que realmente existiu – parece ter sido um sonho. Não é acaso o fato do grupo pertencer ao mesmo terreno crepuscular de bandas como Cocteau Twins e Dead Can Dance (a gravadora 4AD) e o fato de ter sua discografia resumida a quatro discos e um EP os coloca ao lado de outras lendas tortas do século passado, como o Velvet Underground, os Doors, os Stooges e o T-Rex – bandas igualmente estranhas, improváveis e fugazes.

O transe ia em direção à consciência histórica da própria banda (que batizou informalmente a turnê com o trocadilho Sold Out Tour e se negava a falar com a imprensa – pra desespero, frustração e raiva dos ditos coleguinhas), até que aconteceu “Velouria”. A seqüência de acordes que abre a canção é tão esquisita quanto triste e o fato de todo o público se entregar àquele sentimento de desespero febril, em apenas uma canção me acordou para vários sentidos, que começaram a revelar-se numa seqüência quase apocalíptica. Os sete selos.

Foi quando eu pensei na teoria da velha Blavatsky e comecei a concatenar os fatos. Sim, havia um ritual sendo realizado no meio da pirâmide daquela cratera lunar de granito escuro e não é uma festa, apesar dos ânimos estarem a mil. Ao menos não uma festa como imaginamos. É uma celebração, mas não estamos comemorando simplesmente a vinda dos Pixies ao Brasil, ali em nossa frente, naquela conjunção astral que tomou décadas para acontecer – primeiro o palco, depois a Lua no topo e finalmente a banda no centro. Tanto que era comum o sentimento à grande parte dos que assistiram ao show, logo que a apresentação terminou: “Agora, já posso morrer!”.

É, meus amigos, estávamos em frente a uma imensa Dança da Morte, celebrando a finitude humana e o fato que tudo um dia vai embora. Claro que conscientemente as pessoas estavam apenas cantando apenas várias de suas músicas favoritas como se não houvesse amanhã (mais uma referência ao fim?), mas quando “Velouria” terminou, percebi o que havia acontecido até ali. Por trás das letras surrealistas ou teoricamente nonsense de Black e Deal, havia certo significado alheio, esperando ser revelado num momento daqueles: “Segure minha mão, finalmente iremos saltar através do teto rumo a algum lugar próximo e longe no tempo”.

A Morte. Vendida diariamente como o pior que nos pode acontecer, a morte ainda nos é algo completamente desconhecido, e nada como o que não conhecemos para atiçar nossa curiosidade. Nos entregamos à Morte com a morbidez e o fascínio de uma menina gótica de 13 anos, embora mídia e mercado insistam em uma tragédia brutal e mal explicada, como se morrer fosse algo injusto. Junte com a culpa ocidental de ter o Filho de Deus crucificado PELOS SEUS PECADOS e a Morte torna-se o pior castigo do mundo, a ponto de pessoas de pensamento estreito e retenção anal a cogitarem como punição, seja de forma legal ou informal.

Não sabemos o que é a morte. A Luz do outro lado é só uma metáfora visual (e das mais básicas) para o que pode acontecer do outro lado. Mas ao vilanizarmos a morte como castigo, como punição, esquecemos a principal lição da vida – que somos temporários o tempo todo. Que nada é pra sempre, que poucas coisas resistem a mais de alguns minutos intactas. Estamos em constante mudança, nos reavaliando e revendo consciente ou inconscientemente. Da mesma forma que andar é uma sucessão de quedas, viver é um alinhamento de pequenas mortes. De sete em sete anos, todas nossas células se regeneraram e são novas – ou seja, fisicamente, já morremos. Morremos o tempo todo, sem perceber, e aguardamos a Morte Final como uma aposentadoria moral, a vida eterna que os cristãos acreditam, que não passa de uma utopia tão distante da realidade quanto a terra das oportunidades do capitalismo e a sociedade pós-estado do comunismo – mera isca pra cair no engodo. E tal qual a aposentadoria, você estará velho demais para curtir o que poderia ter curtido quando era mais jovem. Descansar de ter passado a vida apenas se cansando. Pior: imagine que o Outro Lado tem um porteiro Mike Patton, que te recepcione sorrindo: “Surpresa! Você está morto! Abra seus olhos: nunca termina!”. Pra quem você vai chorar?

O Fim. É inevitável, é o que nos une a todo o cosmo. “É a única certeza que temos”, diz o Veríssimo, “não sairemos dessa vivos”, citando Jim Morrison, em “Five to One”. Tivemos um começo e iremos acabar. Nosso ciclo é finito. Podemos aprender a estender sua duração (como a Cura da Morte proposta pelo Cory Doctorow), mas até hoje vivemos realidades prontas a serem desligadas, a qualquer minuto, por qualquer motivo. Mas nos esquecemos que, como a vida é passageira, a morte não pode ser temida. Precisamos conviver com a morte, não com o fantasma do Castigo Final, mas com a presença de nossa própria finitude. Temos de celebrar a Passagem. É quando entra toda uma simbologia pixeana que, fora de contexto, parecia apenas surreal: “Bone Machine” como uma constatação cartesiana de nossa angústia frente ao trágico da vida (“Você é uma máquina de ossos”). “Cactus” e “Nimrod’s Son” falando em quase morte, “Isla de Encanta” cantando um lugar onde não há sofrimento, “Hey” ameaçando a morte à separação, sem contar o macaco indo pro céu (o mesmo tema da “máquina de ossos”) e o fato de “Vamos”, em sua aparição oficial, começar com Black Francis ameaçando “you fucking die” para Kim Deal. Mais adiante falavam em acreditar no “Senhor Luto” (“Mr. Grieves”). E isso só até “Velouria” – ainda teríamos quase uma hora de show pela frente e a obsessão do senhor Charles Thompson pela morte provocaria estranhas reações coletivas cantadas em inglês num país subdesenvolvido.

O primeiro destes momentos seria o bizarro coro de uivos em “Caribou”. Porque uma coisa é você ouvir, no disco, apenas Frank cantando o alongado “u” que acompanha a palavra-título e outra coisa é estar no meio de quase oito mil integrantes de um coral improvisado que, mesmo sem um ensaio geral, entoava massivamente a mesma vogal, doce e triste, pelas frias pétreas paredes da cratera Pedreira. “Number 13 Baby” também surtiria um efeito prosaico com seu refrão cantado em uníssono, urrando “Viva” com uma melancolia distante da saudação. O apreço do grupo pela cultura latina proporcionou vários destes momentos – palavras em espanhol cantadas com sotaque norte-americano por fãs brasileiros, desmoronando fronteiras geográficas sem embaraços característicos. A mesma música ainda cantava: “Não quero olhos azuis/ Quero olhos castanhos”. Dispersos pela platéia, gente de todo o Brasil, na cidade que menos lembra Brasil de todas – daí a conjunção Curitiba, que, além de obrigar o público a se renortear por nova Estrela da Manhã (o Cruzeiro do Sul?), ainda proporcionava um show em “território neutro” – nem carioca, nem paulista; nem gaúcho, nem baiano.

De repente, Frank e Kim começam a empilhar “ride, ride, ride” e estamos indo, indo, indo pelas águas do Rio Eufrates, outro berço da civilização ocidental, voltando milhares de anos na quarta dimensão, cantando que “o Mar Morto faz flutuar” e “o Mar Morto faz engasgar”, sem perceber do que realmente estamos falando. Em seguida estamos pedindo para levitar e para apagar nossos próprios egos. “Isso não é um feriado” (ou “dia santo”, como possibilita a etimologia de holiday), Black Francis redivivo nos impele ao grito central de “Holiday Song” num idioma que não é o nosso, “mas sempre acaba sendo”. “Gouge Away”, como “Hey”, falando em estarmos acorrentados, em estar o dia inteiro acordado, numa festa que dura três dias – antes que todos morram.

A banda é precisa, talvez melhor que em seus dias originais. A aparente rusga entre os dois vocalistas desmancha-se antes da aparência e eles trocam sorrisos e olhares de cumplicidade entre si. À parte do jogo cênico, completamente introspectivo, Joey Santiago é um Raymond McGuinley chicano, comunicando-se apenas com seu instrumento. As guitarras se entrelaçam com a perfeição da produção de Gil Norton, que, pelo jeito, apenas apertava o “REC” e deixava a banda fazer o serviço (claro que não, né, mas você entendeu): a de Frank que rasga-se como seus próprios vocais, estraçalhando-se em microfonia e volume; a de Joey abrangendo todo o espectro pós-punk do ruído com a desenvoltura e maturidade rebelde dos guitarristas de rock clássico, como se Robbie Krieger ou David Gilmour tivessem sido punks – o próprio comedimento no palco é referência à fleuma cool típica dos guitarristas psicodélicos originais. Atrás dos três, Lovering é o próprio Charlie Watts punk, submetendo sua bateria a uma sessão de massagem não-convencional, que provavelmente mataria um ser vivo, ainda que para manter seu equilíbrio corpóreo. Peso compacto, bordoadas curtas – um animal minimalista, um outro sentido para o termo jazz punk.

Mas o cimento da banda é Kim Deal. Seu baixo é o motivo de nove entre dez baixistas mulheres tocarem baixo (Kim Gordon, outra unanimidade, é o modelo da décima) e só isso já é motivo o suficiente para erguê-la ao panteão (o Godard falava que não há nada mais sexy e cool do que uma mulher com uma arma na mão [ou algo do tipo]; eu sugiro trocar o falo ianque pelo baixo elétrico). Mas sua influência vai além – ela repensa a função do baixista em uma banda de rock, principalmente à luz do reducionismo do punk. A grande maioria das bandas tinha (e tem) baixistas que apenas acompanham o guitarrista em riffs esmagadores, segurando a mesma base quando os outros começam a solar. Kim reeducou seu baixo para um outro lugar. Enquanto as duas guitarras dos Pixies conversavam no âmbito tradicional, numa reedição torta para o formato base/solo, Kim criava uma segunda linha de diálogo musical, criando uma espécie de “segundo chão” para a música – e, praticamente (à Zé do Caixão), inventando o rock alternativo. “Debaser”, Nirvana; “I Bleed”, Weezer; “Monkey Gone to Heaven”, Pavement, e por aí vai… Uma fórmula que vai sendo lapidada em Come On Pilgrim e Surfer Rosa e que é a base para ambos Doolittle e Bossanova, inteiros. E são linhas de baixo simples, com poucas notas, fáceis de serem tocadas – mas são pegas com virilidade tipicamente feminina, circular, cíclica. Unindo-as ao vocal de criança fantasma típico da baixista e temos uma assinatura musical intransferível, capaz de validar qualquer projeto musical que a tenha no meio – bandas medianas como o Breeders e o Amps soam geniais apenas pela presença do baixo e voz de Kim Deal. Um Paul McCartney irresistivelmente diferente: mulher.

Entra “Wave of Mutilation” e o Du brinca que iria começar “uma Open Field Church gigante”, em referência ao fato de seu coral indie cantar a música. Nem percebeu o que, sem querer, havia descrito uma enorme igreja a céu aberto. Celebrando o Fim – seja dos anos 90, da Espera, da Existência. “Cessar de existir, dando adeus/ Dirijo meu carro rumo ao oceano/ Você acha que eu morri, mas eu navego por aí”. “Tame” criaria outro grande momento, de coral apocalíptico, intercalando os “arran” que o casal vocalista canta no meio da música entre homens e mulheres em toda a platéia, provocando aquele tipo de catarse coletiva de expectativa masoquista, feito espera de pênalti em final de campeonato – só que, no caso, já sabíamos que ia ser gol (“Taaaaaaaaaame!”) e que havia uma deliciosa interação entre gêneros na simples alternância de gemidos em massa.

A ingênua “Here Comes Your Man” (ingênua? Vai falar isso pro Colt Silvers, que ouviu o apocalipse nuclear nas entrelinhas da música) entrega o quanto a banda está se divertindo no show, todos com largos sorrisos de clara satisfação. É isso aí, macacada, assumam: vocês faturaram uma gorda nota por pouco mais de duas horas de trabalho, mas não tem dinheiro que pague essa tiração de onda. Fazem por merecer, ora bolas. “Where’s My Mind?” encerraria a primeira parte do show com mais demonstração coletiva de intensidade, graças ao corinho em “u” que passeia pela música. “Com seus pés no ar e sua cabeça no chão/ Faça isso e gire/ Sua cabeça vai entrar em colapso e se não houver nada lá/ Você vai se perguntar:/ O que estou pensando?”. “Onde está minha cabeça?”. Onde estamos? UuuuuUUUUUuuuuu… UuuuuUUUUuuuuu…. Um lamento triste ecoando na Pedreira, que continua quando o grupo se vai. O coro logo vira um chamado por “Pixies! Pixies!” que inevitavelmente traz a banda de volta ao palco.

E eles recomeçam com o equivalente a ouvir “Hey Jude” e “Revolution” tocadas pelos Beatles na mesma noite: a sutilmente exagerada “Gigantic” de Kim Deal e o esforço concentrado de Black Francis de resumir-se em uma música, “Debaser”. Lembro do papo do Perry Farrell tendo a idéia de criar o Lollapalooza ao ver 20 mil moleques berrando “Debaser!” num festival de Reading do começo dos anos 90. Mais um marco naquilo que convencionamos chamar de rock alternativo envolvendo os Pixies. Mais uma vez, restava ao grupo jogar a pá de cal na esquife da década que inauguraram. Não por acaso, a última década do milênio. E o fim dos anos 90 deixa de ser uma mera referência histórica pop e passa a ter ares de fim do próprio conceito de Milenarismo (seria a constatação da morte a revolução individual, ou justamente o contrário?). É o Fim do Fim.

De repente entra “Into the White”, uma favorita, que eu, sinceramente, não esperava ouvir. A coisa fica séria demais. Inacreditável. O riff linear começa a convulsionar muita energia sônica em torno de um tema simples e a lembrança do Sonic Youth é inevitável – é o mesmo território de Daydream Nation, visitado com epicidade e eletricidade típicas do disco dos nova-iorquinos. Só que, ao contrário do show do grupo em São Paulo, os Pixies tinham um som que, por mais que embaralhasse as guitarras, estava muito alto. Hora de ir mais para frente ainda, tomar a enxurrada de volume mais de perto. À medida em que me aproximava do palco, Kim Deal começava a cantar:

“Não existe dia
E não existe noite
E não existe dia
E não existe noite
E não existe dia
E não existe noite

No branco
No branco
No branco
No branco

Você ouviu o que eu disse?
Você ouviu o que eu disse?
Mais fundo que sua cabeça sonolenta
Mais fundo que sua cabeça sonolenta
Nada para ver
Nada à vista

No branco
No branco
No branco”

Muralhas de guitarras sendo erguidas sobre a base simples do baixo de Kim e do que é que ela tá falando?

“Vá e irá bem longe
Vá e irá bem longe”

Para o branco. O branco puro, a tal Luz. Na hora, lembro do bisavô do Moby explicando porque a baleia do seu livro era branca, num capítulo chamado, er, A Brancura da Baleia. Depois de enfileirar várias manifestações religiosas e culturais em que a cor branca tem um significado majestático ou de pureza, Herman Melville começa a olhar para o outro lado do branco, chegando à trágica conclusão:

“Porém não resolvemos ainda o problema da magia da cor branca nem descobrimos por que razão ela atrai a alma com tal força, e, o que é ainda mais estranho e prodigioso, por que razão é ao mesmo tempo o símbolo das coisas espirituais, o verdadeiro véu da divindade cristã e contudo é o agente que dá maior relevo às coisas que mais atemorizam a humanidade.

Será porque, pelo que tem de indefinido, projeta a sombra sem coração dos vazios e imensidades do universo e assim nos apunhala pelas costas com a idéia de aniquilamento, no momento em que contemplamos as brancas dobras da Via Láctea? Ou será antes porque em essência o branco não é tanto uma cor visível como a ausência de cor e ao mesmo tempo a concreção de todas as cores? Será por essa razão que existe um silêncio ermo cheio de significação numa ampla paisagem de neve – a completa ausência de cor do ateísmo, que nos apavora? E quando considerarmos essa outra teoria dos filósofos da Natureza, segundo a qual todas as outras cores terrestres, cada esmalte magnífico e encantador, as tintas suaves dos céus crepusculares e dos bosques, os veludos brilhantes das borboletas e as faces das borboletas das donzelas não são mais do que ilusões sutis de modo algum inerentes à substância e sim meras exterioridades, chegamos à conclusão de que a divina Natureza pinta-se como uma cortesã, cujas atrações nada cobrem senão o sepulcro que leva dentro de si. E ainda mais, quando considerarmos que o mistério cromático, ou seja o grande princípio da luz, permanece para sempre branco ou incolor, em si mesmo, e que se atuasse sem ter ponto de apoio na matéria tocaria todos os objetos, fossem tulipas ou rosas, com a sua própria tonalidade vazia, chegamos à conclusão de que afinal o universo é como um leproso; e, como os bisonhos viajantes da Lapônia que não querem usar óculos de cor, o viajante descrente sente-se cegar diante da mortalha monumental que envolve todas as perspectivas que o rodeiam. E de todas essas coisas a baleia branca constitui o símbolo”.

Esqueça a piadinha com o tamanho do Frank Black, a coisa aqui é pra valer. Dentro do branco era o estágio em que todos se encontravam ali. Longe de algum ponto imaginável específico – era o mesmo tipo de sensação que eu havia percebido quando “The Concept” tocou no rádio do carro antes do primeiro show do Teenage. A diferença é que se eu havia pensado num traçado de energias entre os pontos desconexos que poderiam estar ouvindo aquela música poucos minutos antes do show da banda que a gravou, aqui em Curitiba todos estes pontos (quase 8 mil) estão reunidos, uma pequena e concentrada Via Láctea de adoração pixieana. “Passe pelo quasar”, continua cantando Kim, enquanto a platéia, sem querer, forma um.

Aos poucos, comentávamos uma ou outra coisa entre si, ainda sem saber se o que estava acontecendo ali na frente era sério. Não estávamos pensando em mais nada a não ser na entrega a um show perfeito, como há muito não se via no Brasil. Não era só o show dos Pixies – era um show dos Pixies envelhecido com gosto, com todos os presentes venerando cada uma das músicas como um momento especial, sem pensar no que ocorria de fato. Todos os presentes se curtindo – “hey, tava tentando te encontrar!”. Era um banda clássica tocando, em grande forma, seus melhores momentos porque todos seus momentos eram melhores. Dava pra montar um novo repertório só com as músicas que ficaram de fora. Sente o drama que seria um show desses:

– Cecilia Ann
– Tony’s Theme
– Allison
– Hangwire
– There Goes My Gun
– Break My Body
– Is She Weird?
– Oh My Golly!
– The Sad Punk
– Dead
– Letter to Memphis
– Something Against You
– I’m Amazed
– I’ve Been Tired
– Motorway to Rosswell
– La La Love You
– All Over the World
– Dig For Fire
– Alec Eiffel
– Ed is Dead
– Head On
– Havalina

– Subbacultcha
– Rock Music
– I Bleed
– Ana

É claro que reclamaríamos por não ter não apenas “Here Comes Your Man”, “Debaser” ou “Monkey Gone to Heaven” como quase todo o repertório do Doolittle, a grande unanimidade entre os fãs da banda – mas presta atenção nesse repertório que eu fiz aí em cima e veja se um show desses não salvaria sua vida. Acontece que o show que vimos foi justamente o outro. O um. “Planet of Sound” encerrou a noite quase de improviso – não estava no repertório original e foi a primeira vez que o grupo a tocou na nova turnê. “Esse não é um planeta de som”, berrava Frank Black, “essa não é uma cidade rock’n’roll!”. Resquícios finais da ironia dos anos 90, em grande estilo. Era o Fim. De um show antológico, histórico, irretocável. Dos anos 90, do Milênio, do Milenarismo. O Fim do Fim. Quem esteve lá, sabe.

Sintomaticamente, encontro dois paranaenses por opção, ambos em êxtase: Granado praticamente sem palavras e a Lilli não se agüentando de felicidade, contando como puxou um flash mob anti-Apartheid. Mas não era o fim da noite. Dali ainda iria continuar no RG, saldar a dívida com o Mini e o Nobre de nunca ter visto shows de suas bandas. Depois de parcos minutos à espera da saída, entre gracinhas autorâmicas sobre o paramentar de palco pixie, de volta no elevador-andaime rumo ao MegaHotel. Pelo caminho, um engraçadinho brinca sobre minha condição empregadícia e, ironicamente, pergunta por quem eu estava no evento (com ares de “quem você está enganando?”). Com a autoridade típica do Pequeno Poder concedido pela credencial, tive de esfregá-la na cara do Mala: SITE TRABALHO SUJO. O sorriso sem graça havia sido suficiente para a forra, mas intrépida forasteira percebeu o entrevêro formado e intimou o cidadão: “Tu acha que algum jornal ou revista publica o tipo de texto que ele escreve no site?”.

Claro que não. Havia uma ironia interna na inquisição da menina (o “no site” foi pronunciado quase como por obrigação), mas também havia um fundo de verdade. Imagina se alguém vai gastar tanto papel com um texto desses – só tendo muita raiva do patrão, e olhe lá. Olha o tamanho do texto, olha o nível da informação, olha o grau de nerdismo. Qualquer psicólogo usaria um tratado desses como oportunidade perfeita para um diagnóstico relâmpago (“autismo esquizofrênico exibicionista egocêntrico com tendências autoritárias e controladoras”), mas eu sei que psicólogos fazem isso do mesmo jeito que gente normal faz palavras cruzadas ou fica tentando adivinhar siglas improváveis nas três letras das placas do carro (ué, tu não faz isso?). E eu falei no início – isso não é jornalismo, não é literatura, não é não-ficção, nem sequer invenção. Não é blog nem relatório; não é travelogue, nem mera tiração de onda. Não é mentira, palavrório, nem causo de pescador (pescar… Sei não, hein…), teste de paciência, esnobismo pop… Não é história, não é doutrina, não é ciência, seita ou religião – muito menos coisa limpa, coisa pura… Isso é apenas texto – a área inexistente em que o olho encontra a letra e tudo começa a ser possível. É também meio sonho (ou pesadelo): (in)felizmente, isso tudo não existe.

De volta ao hotel por falta de opção de transporte, espero amigos altos falantes dispostos a enfrentar a segunda noite no Cine. Pelo sofá da recepção todo o Teenage Fanclub se confraterniza com Frank Black, ao redor de bolinhos, bolachas, cafés, Boêmias long-neck (finalmente cerveja) e um Dimple sendo seco aos poucos. Comento com o Cris sobre a ausência de “Rock Music” no show e um pândego tira a viola do saco e passa para o Frank: “Toca Rock Music”. O cara vê aquele violão preto flutuando em sua frente e o segura como se estivesse recebendo uma ferramenta alien, não sabe bem o que fazer com aquilo. Coloca no colo e a apreensão na sala é evidente, embora todos disfarcem a expectativa com uma informalidade curitibo-escocesa – até os Tineijes estão olhando de esgueio, se perguntando se ele vai tocar algo.

Minutos depois, ele tamborilaria os dedos no corpo do violão e voltaria-se para o sujeito que o deu o instrumento: “Rock Music?”. “Yeah”, mais de uma voz responde, antes de ele começar a puxar as cordas iniciais no violão, emulando microfonia com perfeição e berrar: “Your mouth! Your mouth! Mile away!”. Ninguém no lobby estava acreditando naquilo. Todos se olhavam incrédulos, sem saber se estavam assustados com o fato de Francis ter aceito de graça um pedido de uma música dos Pixies depois de tocar num show que custou uma baba ou do fato da música, mesmo só ao violão, soar idêntica à versão em estúdio. O cara acabou de tocar a música de uma vez (“I’m already gone!”) e devolveu o violão ao pedinte, convulsionando palmas esparsas e pasmas.

Até parece. TÉ PARECE. Até parece que o Frank Black ia tocar “Rock Music” depois do show, no lobby do hotel… Ainda mais num violão. Tu já ouviu “Rock Music”? Se sim, sabe que uma música dessas não se toca no violão. Cê também, acredita em qualquer coisa, né? Isso é só pra mostrar que TEXTO (independente de literatura, ficção, jornalismo, crônica ou bula de remédio) é uma equação que envolve IMAGINAÇÃO, CRIATIVIDADE, EXPERIÊNCIA e OPINIÃO. Que pouco tem a ver com o fato. Aliás, o que são fatos, mesmo? Fatos são definidos por textos, o que nos leva a crer que sequer os fatos existem. São apenas versões.

Meia hora esperando, o show vai começar, né? Chamo a Mariana pelo interfone que chega a tempo de lamentar “o Frank Black tava aqui…?” e ser empurrada para o táxi rumo ao Cine. Lá chegando, vemos um ônibus com os dizeres “Valverdes Banda” (com “V” mesmo) saindo de frente do lugar. Quequéêss… Uma muvuca de gente se acavalava na entrada, indicando que o festival havia começado há pouco tempo – já tinha rolado a banda Pata de Elefante e estava saindo do palco, felizmente, a banda Bartenders, cujo vocalista devia ser um dos organizadores do evento (ia o tempo todo para o microfone anunciar as bandas e explicar procedimentos pro público, pelo menos). Só isso explicava o fato de uma banda de blues rock fuleiro em português (daquelas que perto do Barão deixam o Barão bom) num festival de rock de garagem.

Pelo público, mais enxurrada de caras conhecidas – entre elas o vocalista do Pelebrói Não Sei que, em meio ao meu torpor etílico, me ouviu dizendo o que eu realmente achava da sua banda. Pensei que ele fosse me devolver quatro dedos fechados na têmpora, mas o cara foi gente boa e disse que era legal que alguém falasse isso. Também devia estar bêbado…

Começam os Walverdes e eu tenho de esfregar os olhos. Quantos músicos têm no palco? Quantas guitarras o Mini toca ao mesmo tempo? O som que sai do palco não é compatível com o baixo, guitarra e bateria que estamos vendo – há uma avalanche de ruído compacto saindo das caixas de som que parece ser de duas ou três bandas tocando simultaneamente. Fabrício Nobre se juntou à banda para berrar “Classe Média Baixa Records” e o grupo fechou o set com uma versão cavalar de “Sweet Leaf”, que abria um vácuo pela metade e virava um reggaeinho que, se deixassem, dubava bonito. E mesmo com a banda citando há tempos que as referências iniciais são o Who e o Mudhoney, não dá pra não deixar de ver a influência do Nirvana no trio. É o mesmo rolo compressor sonoro, com canções apenas menos pop. Depois é a vez do MQN e não precisa ouvir muito pra saber que o Fabrício comanda o palco, fazendo mão de fogo e tudo mais. A banda deixou de lado (há tempos) o fantasma de rock alternativo que perseguia na época do primeiro disco e hoje cai de boca no bom e velho, sujo e malvado rock’n’roll. São os riffs mais conhecidos da história do zeitgeist roqueiro, embaralhados e reempacotados como presente novo. Reciclagem é isso aí – e se essa é a norma do chamado Novo Rock, podem incluir o MQN nessa tchurma. Hard rock instantâneo: apenas adicione cerveja.

Os locais dos Faichecleres retomariam o festival como se fossem uma banda de rock gaúcho retrô, mas, pouco a pouco, iam crescendo em volume e impacto. O público se dividia em ver a banda ao vivo e um vídeo projetado na parede em que o baterista deles surtava como veio ao mundo, usando apenas uma gravata como traje para rolar no chão. Uma cena bisonha, que distraía a atenção do palco – atenção foi retomada graças a alguns hits locais (cantados pela racinha, eu é que não vou lembrar dos nomes) e aos covers de “Casalzinho Pegando Fogo” (da primeira demo do Júpiter Maçã, quando ainda era acompanhado pelos Pereiras Azuis) e “The End”, dos Beatles, numa versão fodona. E justo na noite do Fim. Nada é por acaso, camaradas…

Nem o fato de o último show da noite NÃO ter sido o dos Faichecleres, como estava programado. Com sua cara de Ricardo Alexandre dândi, o próprio Júpiter Maçã acompanhava o festival por trás de óculos escuros meio de gatinha e resolveu apresentar-se no RG como atração surpresa. Mais do que isso: estava com duas bandas diferentes – a atual e o mesmo trio que gravou o clássico A Sétima Efervescência. “Vai ser a Oitava Efervescência”, disse o apresentador sem graça.

Júpiter começou discreto, melancólico e cuzão – era sua versão Jupiter Apple sussurrando “Collector’s Inside Collection”, com a esposa nos vocais astrudianos. Ainda tocou “Carol”, que os Stones gravaram, para delírio de um adolescente bêbado na minha frente que, vez por outra, ficava de quatro para vomitar embaixo do palco – levantando-se em seguida e, lentamente, formando um círculo vazio de umidade e náusea ao seu redor. Júpiter trocou o baixo pela guitarra e chamou os músicos de seu primeiro disco (a saber, os irmãos Glauco e Emerson Caruzo, bateria e baixo) e iniciaram uma trip assumidamente retrô, rumo, não a 1968, e sim a 1998, quando o ex-cascavelette Flávio Basso assumiu-se oficialmente o cidadão psicodélico Júpiter Maçã, com o auxílio de discos antigos e muito ácido lisérgico. Passou a enfileiras clássicos instantâneos do rock gaúcho e da psicodelia nacional, como “O Novo Namorado”, “Pictures and Paintings” e “Querida Super Hist”, além da já citada “Casalzinho Pegando Fogo”, o novo hit instantâneo “Síndrome de Pânico” e outro cover, de “My Generation”, do Who, em versão slow-motion. Conectando-se com toda a semana passada e com o show na Pedreira, encerrou a apresentação com a inevitável “Lugar do Caralho”, igualmente cantada em uníssono.

Chefe, fecha a conta. Saio do Cine com o Sol aceso e o taxista, calado (coisas de Curitiba…), até deixa fumar no carro… Subo pra outro café da manhã cheio de frutas e outras poucas horas de sono. Aterrissando em São Paulo, pego o carro no exato momento em que “Starsign” toca na Brasil 2000. A semana ainda teria o mesmo Wander revisitando o “Lugar do Caralho” e apresentando seu Pára-quedas do Amor no Outs e o mesmo Mombojó lotando o Urbano, cheio de fãs cantando as músicas do disco de estréia, Nadadenovo, fazendo cover de “Tem Mais Samba”, como em Curitiba, e de Nelson Cavaquinho, “Juízo Final”. Lugar do Caralho e Juízo Final… “O amooor será eterno novameeeeenteeeee….”.