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Na minha coluna do Link desta segunda, falei sobre como smartphone e tablets são só o começo de uma mudança drástica.

Tablet e smartphone são só o início da era pós-PC
Nova era se consolida com fim destes aparelhos

Os dois principais nomes da Microsoft e da Apple no século 21 concordam: estamos na era pós-PC. Tim Cook, o número 2 da Apple quando Steve Jobs ainda era vivo, usou a frase do ex-patrão para coroar o lançamento da nova versão do iPad. E Ray Ozzie que, mesmo tendo saído da MS em 2010, ainda é o principal nome de tecnologia da empresa após a saída de Bill Gates, usou a mesma expressão para definir a segunda década deste século (leia mais na pág. 3).

As duas empresas são os principais nomes na ascensão e consolidação do computador pessoal – o aparelho cuja onipresença destronou a imbatível televisão como principal ferramenta humana na virada do século 20 para o 21. Monitor, mouse, teclado, torre e alguns cabos entraram em nossa rotina a partir do início da década de 1980 para, a partir da metade da década seguinte (graças à invenção da web), começarem a se proliferar por todos os ambientes – casa, trabalho, lazer, negócios… Para onde você olhar, vai encontrar o PC.

E pouco daquele pacote básico inventado na virada dos anos 70 para os 80 mudou: foram-se os disquetes e as fitas cassete (que eram usadas, sim, para gravar bytes), os drives de CD e diferentes portas de entrada para cabos e assessórios. Seja o monitor de fósforo verde, venha acoplado a uma impressora ou um kit multimídia (lembra? Leitor de CD-ROM, caixas de som, microfone…), tenha entradas USB ou não – se tiver monitor, compartimento para processador e disco rígido, mouse (ou trackpad) e teclado, esse dispositivo é um computador pessoal. Um aparelho que, aos poucos, está saindo da nossa rotina – e na mesma velocidade que entrou.

A Apple quer por tudo na conta do tablet. Como conseguiu transformar a prancheta digital em um objeto rotineiro (não foi a primeira empresa a tentar emplacar o formato, que vem sendo tentado desde os anos 1980), a empresa aponta para seu iPad como substituto infalível do desktop ou do notebook. Faz esse alarde todo sem lembrar da liderança de seu iPhone porque não quer desviar o foco da mudança para o smartphone – mas o fato é que a era pós-PC começa nos primeiros Blackberry. Coube à Apple reinventar o conceito de supertelefone em 2007 ao lançar seu brinquedo mágico – que espera sua quinta versão para este ano – ao mesmo tempo em que reinventou o software para o século 21 como um ambiente autossustentável, a economia dos aplicativos. Quando Tim Cook frisou que estamos na era pós-PC durante o anúncio do novo iPad, ele não lembrou da importância do iPhone porque o celular da Apple tem muitos concorrentes, ao contrário do tablet, que segue líder.

A Microsoft, por sua vez, não comenta oficialmente a nova era pois ainda é líder absoluta no ambiente desktop. Por mais que o sistema operacional da Apple tenha crescido e que o Google possa tornar seu Chrome OS viável em algum tempo, é muito pouco provável que alguém tire o cetro da empresa de Bill Gates. A era do PC também é a era do Windows. Por isso que quando Ozzie diz que estamos na era pós-PC, o mundo entende que o reinado do Windows está chegando ao fim. E por mais que a Microsoft consiga estender seu legado por alguns anos ao dar o salto mais radical em seu sistema operacional desde que apresentou o botão Iniciar no Windows 95, o novo Windows 8, com cara de sistema operacional móvel, pode selar o reinado MS para sempre.

Porque a era pós-PC não é necessariamente a era do smartphone. É o tempo em que os computadores vão sumir de vista – eles se integrarão ao carro, à casa, ao dia-a-dia, sem que a gente perceba que está usando um computador. O movimento do controle remoto é mais natural que o do mouse, a tela sensível ao toque é mais amigável que o teclado. Tablets e smartphones são o início da nova era, que se consolidará com o desaparecimento deles. Há a paranoia de que um dia teremos chips no cérebro. Mas não é preciso que o aparelho fisgue a carne para que o implante aconteça. Basta que o avanço seja suficiente para que a gente não se dê conta de que estamos usando ferramentas. Isso está próximo, chega em pouco mais de dez anos.

Minha coluna na edição do Link desta semana foi sobre o excesso de formas de nos comunicarmos.

Existem mil maneiras de falar com alguém. Quero só uma
Todo mundo mesmo vai ter celular em dez anos

Alguém liga para você e pergunta se você viu o e-mail que mandaram. Ou um amigo escreve via SMS para saber se você está online. Ou alguém manda uma mensagem pelo Facebook para avisar que procurou você no MSN e não encontrou. Uma mensagem chega via Gtalk perguntando se “você está aí?”.

Houve um tempo em que havia poucas formas de entrar em contato com algum conhecido. Além da possibilidade de encontrá-lo pessoalmente, você poderia mandar uma carta ou tentar contactá-lo por telefone – que estava em um único lugar. Dá até para pensar que, no futuro, nossos filhos ficarão espantados com esse passado – hoje quase remoto – em que, para encontrar alguém era preciso ligar para o lugar em que ele poderia estar, em vez de ligar diretamente para a pessoa.

Mas surgiu a internet e ela trouxe outros canais: primeiro o e-mail (que você ganhava ao assinar um provedor de acesso à rede), depois o webmail (que mostrava que você poderia ter mais de um e-mail), os chats e, pouco depois, os programas de comunicação instantânea, que funcionavam como bate-papo, mas que permitiam identificar quem estava do outro lado. Mais tarde veio a web 2.0 primeiro com os blogs, depois com os sites de publicação de vídeo e fotos e, finalmente, (inúmeras) redes sociais. Cada um destes novos canais criou uma nova forma de entrar em contato.

Não bastasse tudo isso, veio o celular. E, com ele, tivemos de decorar mais um número, além do telefone de casa e do trabalho (para depois, com o tempo e a agenda de contatos no celular, esquecer quase todos eles). E além de falar ao telefone, também mandamos mensagens de texto. Logo depois, o aparelho se conectou à internet e não bastassem as ligações e SMS, todos os outros canais que antes só habitavam a tela do computador vieram para o telefone. Então checamos mensagens no Facebook, DMs no Twitter, e-mail e todos os outros tipos de contatos via web possíveis no celular. Isso sem contar um infindável universo de aplicativos que ajudam a estar em contato com quem quisermos – e até com quem não queremos.

Essa vida hiperconectada é rotina para um número cada vez maior de pessoas. E tende a piorar – ou a melhorar, dependendo do ponto de vista – com o tempo. Isso porque a tal inclusão digital, que parecia que iria acontecer quando todos tivéssemos um computador em casa, está acontecendo muito mais rápido do que imaginávamos, graças à popularização do celular e a convergência do aparelho com a internet. E por mais que já existam mais celulares do que habitantes no planeta, esse número tende a aumentar ainda mais.

“Fazendo as contas, telefones que custam US$ 400 vão custar US$ 20 daqui a 12 anos, e se o Google fizer tudo certo, haverá um Android em cada bolso”, disse Eric Schmidt, eminência parda da empresa no Mobile World Congress, maior evento de tecnologia móvel do mundo que aconteceu na semana passada, em Barcelona, na Espanha. Desconte-se a megalomania típica do Google (de que todo mundo terá um celular Android em pouco mais de uma década) e sua profecia não é nada descabida. E se lembrarmos que todas as grandes empresas de telefonia celular trabalham com objetivos semelhantes, não é exagero achar que todos os habitantes do planeta terão um smartphone em dez anos.

Para vender seu peixe, Schmidt frisou que, uma vez que todo mundo estiver conectado, o mundo será mais justo, os pobres serão menos pobres, todo mundo terá mais consciência política e as castas econômicas se aproximarão. Há um tanto de fantasia – e marketing – nesse discurso. E vai saber se daqui a alguns poucos anos alguém inventa algo que possa tornar o celular obsoleto…

O segredo para isso acontecer talvez esteja na possibilidade de integrar todos nossos contatos. Mensagens de redes sociais, e-mails, telefones… Tudo poderia convergir para uma só caixa de entrada. Que poderia ser acessada a qualquer minuto, de qualquer aparelho. Se alguém juntar esses pontos – num aparelho ou serviço – pode estar começando a redesenhar o futuro. De novo.

Vintage 80s

A história do filme é ridiculamente simples – galã-durão trabalha como dublê em filmes de ação (capotando carros) e faz bicos como motorista em assaltos conhece vizinha gatinha que tem um filho com um sujeito que está preso. O que vem a seguir é aquela velha história de amor e vingança que habita todos os telefilmes que passam no Super Cine, aquele sábado à noite sem graça e dublado, “um crime que abalou a opinião pública norte-americana”, gangsters, carros e reviravoltas dignas de um filme de Steven Segal.

A diferença é que Drive não é um filme com Steven Segal – mas com Ryan Gosling, queridinho da cinefilia indie há uns cinco anos por um algum motivo inexplicável. E em vez do herói ter um rabo de cavalo e usar uma jaqueta de couro com franjas, ele traja uma jaqueta prateada fuleiraça com um escorpião estampado nas costas, uma versão 1983 de James Dean (canastrice inclusa no upgrade). E que a história pouco importa num filme essencialmente preocupado com estilo – estilo específico e perigoso de ser manuseado: o vintage 80s, a versão que não vê graça nenhuma no deboche trash dos anos 80. Assim que o filme começa, com sua tipologia pink cursiva-cool, sabemos que estamos no mesmo universo paralelo fundado pelo cinema cyberpunk daquela década, o futuro mundano e presente de filmes como Mad Max, Robocop, Blade Runner, Fuga de Nova York e Warriors. Tire o futurismo megalomaníaco e apocalíptico e perceba que já estamos em 2012. Não há carros voadores, nem andróides indistinguíveis de seres humanos nem ciborgues conversando com ETs. Mas as metrópoles estão implodindo, a violência está nas ruas e o máximo de tecnologia que realmente entrou nesse submundo é o fato de usarmos telefones portáteis minúsculos.

Pois o celular é um dos poucos elementos que nos lembra que Drive se passa depois de 1989. Todo o resto do filme é um exercício de estilo anos 80 – o neon superposto ao reflexo da poça d’água sobre o asfalto no escuro sobreposto à câmera lenta exageradamente lenta por sobre alguns litros de gel e outros tantos de vodca barata. O dinamarquês Nicolas Winding Refn faz jus ao prêmio de melhor direção que ganhou em Cannes no ano passado e faz um filme todo baseado numa estética que começa a ser reconsiderada (Drive é o Chromeo do cinema) – e não é por ter um coração de plástico que Drive não tem alma. A caricatura do “strong silent type” que Tony Soprano sentia falta torna o personagem de Gosling robótico como Clint Eastwood nos anos 70, mas o verniz fluorescente da direção torna a história trivial essencialmente secundária – o que é bom para a estética do filme. Um bom roteiro tornaria todo o estilo coadjuvante.

Drive é mais que trunfo da forma sobre o conteúdo, é pós-moderno na medula e cheira a mochila da Company. “2011 foi um grande ano para o cinema, vimos que dá para fazer um filme sem nenhum diálogo e ainda torná-lo divertido…”, Seth Rogen parecia se referir a filme mudo O Artista em seu discurso de abertura do Spirits Awards, mas falava de Drive. E, realmente, é um dos melhores filmes desse 2011 com cara de 1981.

O poster que abre o post não é oficial, e sim feito pelo designer canadense James White.

Aproveitei o mote do Pinterest na capa do Link para falar da novidade que todos esperam na minha coluna.

Qual será a grande rede social de 2012?
Será o Pinterest? Creio que não…

Começou com o Orkut, aí veio o MySpace, depois o Twitter, Facebook, Tumblr, Google Plus e, em poucos anos, nos acostumamos à ideia de que periodicamente seremos apresentados a mais uma rede social que teremos de conhecer e habitar. A consequência natural desta lógica deixou de se materializar na forma de palpites ou achismos de analistas de mídia e consultores digitais para virar uma grande questão online, discutida por todos: “Qual é a próxima?”. Ou, mais especificamente, qual vai ser a grande rede social de 2012?

Daí o interesse no Pinterest, assunto da capa do Link desta edição, que, devido a seu veloz crescimento na virada do ano, vem liderando a bolsa de apostas como a principal resposta para a pergunta acima. Mas é bem pouco provável que as pessoas passem a usar o Pinterest em vez do Facebook, ameaçando o reinado digital de Mark Zuckerberg. Mesmo porque o Pinterest não é propriamente uma rede social.

É uma rede social de nicho – a maior delas hoje, em fevereiro de 2012, mas não a única. Compare com o Canv.as, que o criador do 4chan, Christopher “Moot” Poole, lançou no ano passado. Os sites são bem parecidos, inclusive estruturalmente – com o agravante do Canv.as ainda contar com um software online embutido que permite que as pessoas remixem as imagens ali postadas. O Chill.com também segue a mesma lógica, mas é voltado apenas para vídeos. Como os três, há inúmeras outras, que dão a impressão de ser redes sociais porque pressupõem a criação de um perfil online e a interação entre os usuários.

A ascensão do Pinterest tem mais a ver com outro assunto recorrente e que é paralelo ao crescimento das redes sociais: a “morte dos blogs”. Ponho entre aspas porque é um tema que volta à pauta sempre que uma nova plataforma permite a publicação de uma espécie de diário, seja em texto, vídeo ou fotos. Foi assim quando, por exemplo, o Facebook permitiu que as pessoas usassem suas “Notes” como área para blogar.

O próprio Twitter ainda é constantemente referido como “microblog”, mesmo que já tenhamos entendido que ele não funciona como um blog – e que ninguém abandonou seu próprio blog para dedicar-se apenas ao Twitter.
Outros termos ajudaram a criar essa expectativa, como o “life streaming” – de sites como Posterous e FriendFeed –, o “reblog” – popularizado pelo RT do Twitter e pelo Tumblr – e o “social bookmarking” – de sites como Digg, Reddit, Delicious e StumbleUpon.

Todos estes serviços têm, em comum, o fato de facilitar ainda mais a vida de quem quer postar algo online. Como aconteceu com o próprio conceito de blog, que, quando surgiu, vendia a possibilidade que qualquer um poderia publicar na web sem saber nada de programação ou de linguagem HTML.

Daí o Pinterest e outros integrantes desta tendência de rede social de nicho serem apenas mais um passo rumo à autopublicação para completos leigos digitais. E a notícia de que seu crescimento espetacular vem do fato de que seus primeiros usuários não pertencerem ao perfil tradicional dos early adopters (donas de casa do Meio-Oeste americano impulsionaram a ascensão do site) só comprova isso.

Não acho que o Pinterest será a grande rede social de 2012, pois creio que o site que cumprirá esta expectativa não será desenvolvido para desktop. Acredito que a próxima rede social realmente importante – aquela em que todos precisamos conhecer e habitar – será feita para funcionar a partir do celular.

E já há vários lutando por esse posto. Entre eles o californiano Path.com, fundada pelo criador do Napster Shawn Fenning e por um dos fundadores do Facebook, Dave Morin, mas que já enfrenta problemas graças a críticas sobre o uso que o serviço faz dos dados de seus usuários.

A próxima grande rede social deve funcionar mais ou menos como o Instagram do brasileiro Mike Krieger, senão for o próprio. Atualmente ele ainda é restrito a usuários de iPhone, mas há rumores sobre o lançamento de um aplicativo para Android em breve.

Vamos aguardar.

Minha coluna no Link de segunda foi sobre a falta de educação das pessoas ao falar no celular.

Nossa falta de educação ao usar o celular
Estamos cercados por pessoas falando sozinhas

Uma amiga minha me contou que dois amigos dela chegaram com uma novidade do exterior. Um vinha da Califórnia; o outro, da Europa. E os dois lhe explicaram uma espécie de brincadeira que aos poucos estava tornando-se popular longe do Brasil. Ela apelidou de “roleta russa da conta”, que funciona assim: ao encontrar-se com amigos em um bar ou restaurante, todos fecham um trato que começa ao deixar o telefone celular exposto à mesa. Todos numa mesma pilha, num canto específico, eles não precisam nem estar desligados. Mas é melhor desligar. Porque aquele que atender o telefone no meio do encontro assume a conta da noite. É um teste para os nervos, ainda mais quando o celular é deixado ligado. Ele pode tocar. O problema não é esse. É resistir à chamada. Atendeu, pagou.

Nem faz muito tempo que o celular entrou em nossas vidas – um pouco menos que o Google, um pouco mais que o Facebook –, mas ele se tornou um acessório tão onipresente, que as pessoas perderam até a noção da própria presença quando começam a falar no telefone.

A tal “roleta russa” é uma brincadeira, mas revela que o uso do celular em ambientes sociais já está sendo visto como um problema até mesmo para quem não consegue deixar o aparelho de lado. Há um quê de vício, mas o hábito está mais próximo da ansiedade do que propriamente de uma adição.

Um dos motivos que me fez parar de frequentar boteco – um deles, não o único – é aquela mesa lotada com várias pessoas falando com outras que não estão ali. Você já deve ter visto tal cena: quatro pessoas ao redor de uma mesa, as quatro no celular, em conversas que poderiam muito bem ficar para depois daquele encontro.

Mas a frequência em bares e restaurantes é só um dos muitos aspectos da nossa má educação no uso do telefone móvel. Há inúmeros outros exemplos. Como andar na rua sem olhar para frente, checando SMS ou acessando a internet. Ou conversar com alguém olhando sempre para baixo, para ver se alguém está ligando ou mandando mensagem. Ou falar ao telefone no carro, usando apenas uma das mãos para dirigir. Ou usar o celular no cinema! Isso sem contar o pior de todos os pecados celulares: ouvir música sem fones de ouvido, discotecando sua trilha sonora para quem estiver por perto – e nunca, NUNCA, alguém que escuta música assim ouve algo que presta.

Quando o telefone ainda era fixo, o hábito de usá-lo era quase um sacramento. Havia um canto da casa dedicado ao aparelho – havia até móveis feitos para apoiar o telefone e ficar sentado ao mesmo tempo. Se uma ligação fosse interurbana ou fosse demorar mais tempo, era melhor fazer à noite, pois as taxas eram mais baixas. Ligar para alguém era uma atividade que requeria preparo e tempo. Era bem pouco comum ligar para alguém só para dizer que estava saindo de casa ou apenas para perguntar um ingrediente de uma receita, como fazemos hoje (isso sem contar que era preciso discar o número, em vez de simplesmente pressionar botões ou achar o nome da pessoa numa lista de contatos).

Veio o celular e estes hábitos mudaram completamente, com a exceção do fato de que ainda transformamos a ligação em um momento individual. E é aí que começa nossa falta de educação ao telefone. Basta reconhecer quem está ligando para ser teletransportado para uma esfera íntima que é habitada por apenas duas vozes.
E aí não importa se você está na rua, no ônibus, na sala de aula, no bar… As pessoas começam a conversar sem pensar nas outras que estão ao redor, conhecidas ou não. Assim, acompanhamos conversas alheias sem querer e, em poucos minutos, estamos cercados por pessoas falando sozinhas, sem parar.

A tal “roleta russa da conta” é o início de reação a tal hábito. Não deverá ser o único. Não duvido que, em pouco tempo, aparecerão restaurantes finos que pedem que os clientes deixem o celular à porta como restaurantes japoneses pedem para que se deixe os sapatos ao entrar. O problema é menos falta de educação e mais falta de noção. Vamos torcer para aprendermos a superar isso.

Minha coluna nessa edição do Link foi sobre a ressaca da web 2.0.

Quem disse que todo mundo precisa ter opinião sobre tudo?
Nas redes sociais, opinar é exibicionismo

Wando morreu. E eis que, no dia de sua morte, na quarta-feira, em meio ao luto súbito e homenagens póstumas de toda ordem (desde versões ilustradas para o hit “Fogo e Paixão” até piadas sobre um dos temas favoritos do cantor, as calcinhas), o blog Não-Salvo – um dos maiores blogs de humor do Brasil – postou uma foto de Sidney Magal em sua página do Facebook. Sobre a foto, um texto anunciava “Wando (1945-2012)” e citava um trecho da música “Borbulhas de Amor”, do Fagner.

Não era um erro. Foi de propósito, afinal o motivo era brincar com o fato de que as pessoas acabam confundindo determinadas informações e, no calor da hora, misturam lé com cré.

Os leitores do blog não só entenderam a piada como a passaram para frente, compartilhando a imagem em seus perfis na rede social. Mas como nem todo mundo conhece o site ou foi avisado de que aquela imagem veio de um site de humor, não faltaram comentários que não apenas corrigiam a imagem (“esse não é o Wando!”) como agrediam rispidamente a “ignorância” de quem postou a informação “errada”.

(Cabe um parêntese rápido sobre essa agressividade típica da internet. Uma vez que não há o contato próximo, é muito comum que se aproveitem desta frieza e distância da comunicação online para a exibição de uma fúria ameaçadora. Antes do Facebook, reclamações, acusações e ameaças ficavam escondidas sob o fato de que não era preciso se identificar para fazer comentários em sites ou blogs. Depois do Facebook, em que a identificação é capital, essa raivinha foi transformada em exibicionismo de opinião, com pessoas debatendo interminavelmente – e apaixonadamente – sobre qualquer assunto que vier à pauta. Seja um animal morto, uma declaração de um político, o resultado de um jogo ou um programa de TV – todo mundo tem opinião formada sobre qualquer assunto. Depois dos trending topics do Twitter, agora temos a polêmica do dia, no Facebook).

Mas é tudo uma questão de contexto. Como observa o fundador do site BuzzFeed, Jonah Peretti, (protagonista do Vida Digital desta edição do Link), o Facebook e as redes sociais em geral misturam notícias sérias e fúteis no mesmo ambiente – afinal, tais notícias interessam a qualquer um. Mas uma coisa é reclamar que a foto exposta não é do Wando e sim do Sidney Magal. Outra coisa é sair compartilhando qualquer tipo de informação sem checar de onde ela vem. É um exercício natural à prática do jornalismo que, aos poucos, está sendo repassado para todo o público não-jornalista.

É fácil acabar com a reputação de uma pessoa em alguns posts no Facebook. O que aconteceu com a Luíza, aquela, do Canadá, poderia não ser engraçadinho e curioso – e, sim, trágico, caso o tema fosse diferente de um pitoresco comercial de TV. Misture isso ao fato de que muitos passam para frente notícias sem nem mesmo checar de quando elas são e que há proliferação de sites de humor que fingem ser publicações jornalísticas e temos um trem saindo dos trilhos em nosso inconsciente.

Talvez seja a avalanche de informação, talvez seja algo que eu chamo de “a ressaca da web 2.0” (que permitiu a qualquer um dizer o que pensa online – e agora estamos vendo todo mundo dizer o que pensa só pelo simples fato que é possível dizer o que se pensa o tempo todo). Há a clássica frase de Gilbert Chesterton que, no começo do século 20, disse que “não foi o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”.

Essa sensação de euforia e paixão – que pode ser boa ou ruim – é uma espécie de desdobramento da constatação de Chesterton. Tanta informação faz que a gente queira acompanhar esse ritmo da mesma forma, mas vale o novo ditado “Google before you tweet is the new think before you speak” (“Usar o Google antes de twittar é o novo pense antes de falar”). Sem um mínimo de ponderação, mergulhamos de cabeça no redemoinho de informação que parece nos puxar para baixo. Mas essa força não age sozinho – é preciso que você dê o primeiro passo. Por isso, calma.

E a minha coluna na edição do Link de hoje foi sobre a Campus Party:

Sem popstars, a atração da Campus Party é o público
Evento acerta ao mirar o futuro e não o passado

Acompanho a Campus Party desde sua primeira edição, em 2008, quando o evento chegou ao Brasil e era realizado ainda no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera. Fui a todas as edições, sempre cobrindo para o Link, além de participar de debates e entrevistar alguns de seus convidados. Mas duas coisas sempre me deixaram com a pulga atrás da orelha.

Uma delas diz respeito à velocidade de conexão do evento, que, desde a primeira edição, era vendida como um dos grandes trunfos do encontro, permitindo downloads numa velocidade muito além da que tínhamos em casa, há cinco anos – espantosos 5 gigabytes de banda larga! Quem acompanha o mundo digital há um mínimo de tempo sabe que a tendência é que tal velocidade cresça a cada ano. Por isso me perguntava qual seria a grande atração da Campus Party depois que conexões ultrarrápidas virassem algo comum para a maioria das pessoas. Como já acontece hoje.

O segundo ponto era o fato de o evento se preocupar em trazer medalhões para atrair a atenção de um público ainda em construção. Assim, foram chamados nomes que às vezes nem eram tão cruciais para a história do mundo digital – como, especificamente, o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore –, mas que garantiam audiência e mídia. Ou nomes importantíssimos, como o criador da world wide web, Tim Berners-Lee, que, na hora de falar, não fez jus à sua importância histórica.

Claro que houve exceções – e boas –, como a vinda do cofundador da Apple Steve Wozniak no ano passado ou a presença do hacker Kevin Mitnick na edição do ano anterior. Mas ia chegar uma hora em que a lista de figurões se aproximaria do fim, pois o mundo digital só agora alcança a maturidade.

Sem contar o fato de a Campus Party sempre pregar a colaboração e a participação como duas de suas principais bandeiras – que perdem força a partir do momento em que as grandes atrações do evento se resumiam ao público assistir a palestras, em que a maior interação com o palestrante seria depois da apresentação, em encontros como a (enorme) fila de autógrafos para o livro de Woz, no ano passado.

Eis que a Campus Party deste ano apresenta sua programação sem nenhum medalhão. Há nomes importantes e de peso, mas todos precisam ser apresentados detalhadamente para quem não é do ramo. Não há nenhum palestrante que mobilize atenções para além da cobertura de tecnologia e um dos principais debates reunirá nomes quase anônimos, mas que representam grupos que se estabeleceram coletivamente, como na mesa formada por integrantes de levantes políticos do ano passado (a Primavera Árabe, os Indignados da Praça do Sol na Espanha e o Occupy Wall Street) que se encontrarão para discutir este tipo de mobilização na tarde da próxima sexta-feira.

Sem nenhum popstar, a principal atração da feira volta a ser o público. E, para este público, o coordenador-geral do evento, Mário Teza, repete com insistência uma palavra-chave: inovação. Dito como uma tag, o termo “inovação” pode confundir, pois é comumente associado à novidade, à mudança. Mas não é tão simples assim.

Em se tratando de tecnologia e cultura digital, inovação é a gasolina do motor. A lógica eletrônica é oposta à industrial, que a antecedeu: importa menos manter as coisas como estão e mais antever as mudanças do futuro. E elas não vão parar. Erra quem cogita que as transformações digitais são passageiras, que, em algum momento, essas mudanças irão cessar e o ritmo da vida irá voltar a ser como era antes.

Esqueça: a mudança é a regra.

Por isso a Campus Party 2012 acerta ao apostar mais no futuro do que no passado da nossa idade eletrônica. Ao trazer nomes de menor calibre, facilitam até mesmo o acesso dos acampados aos palestrantes, que podem conversar com eles sem ter o receio comum do encontro com celebridades. Resta saber se, uma vez no Anhembi, vamos ter menos problemas do que as edições anteriores – mais especificamente nos debates, sem que o áudio de uma mesa redonda se misture ao das vizinhas.

Conversei com o David Haynes, um dos donos do Soundcloud e uma das atrações na Campus Party 2012, para a capa da edição do Link desta semana. E ele me falou que o site, que aos poucos se firma como a principal rede social de música atualmente, aspira ir para muito além do mercado fonográfico, apostando na voz como principal meio de comunicação online dos próximos anos.

A voz do som
O Soundcloud tem mudado a relação das pessoas, artistas e gravadoras na internet e é uma das atrações da Campus Party 2012

“Não acho que somos apenas uma rede social de música”, explica, pelo telefone, Dave Haynes, vice-presidente de negócios do Soundcloud, uma das atrações da Campus Party 2012, que começa na semana que vem.

Haynes pode até desconversar, mas o fato é que, aos poucos, seu site vem se estabelecendo como a principal rede social de música na internet, título que já foi do MySpace, quando este aspirava a ser maior rede social do mundo. Enquanto este último deslizou ao deixar a música em segundo plano – e aos poucos perder a relevância digital –, o Soundcloud restringiu seu foco e dedicou-se apenas ao compartilhamento de arquivos de áudio.

Esta definição rendeu bons frutos. Menos de dois anos depois de ter sido criado em 2009 pelo engenheiro de som Alex Ljung e pelo artista Eric Wahlforss na Suécia, já conseguiu atrair grandes nomes do mercado musical. Hoje o site é baseado em Berlim, na Alemanha. E diferentemente do MySpace, que começou a ganhar fama ao revelar artistas independentes como Lily Allen, Arctic Monkeys e Mallu Magalhães, o Soundcloud teve a facilidade de ser reconhecido mais naturalmente por artistas já estabelecidos. Eles começaram a usar a plataforma para mostrar, em alguns casos na íntegra, lançamentos inteiros em streaming, como foi o caso do Foo Fighters. A banda deixou seus fãs ouvirem todo seu disco mais recente, Wasting Light, na mesma semana em que ele foi para as lojas – digitais ou não. E não são apenas artistas cujos fãs já estão habituados a baixar músicas online, como é o caso do ex-beatle Paul McCartney. Ele encerrou o ano passado apresentando a primeira faixa de seu próximo disco – Kisses on the Bottom, na rede social. O disco será lançado no mês que vem.

E não são apenas artistas que se prontificaram a estabelecer perfis na rede social. Muitas gravadoras – principalmente selos pequenos – já o utilizam como base para lançamento de seus artistas, apresentando canções, discos e até mesmo promoções, como foi o caso da gravadora nova-iorquina DFA Records. Ela abriu no mês passado um concurso de remixes para a música “How Deep is Your Love”, do grupo Rapture. Na outra ponta do espectro, a tradicional gravadora alemã de música erudita Deutsche Grammophon também tem seu perfil no site.

Mas se Haynes não acha que o Soundcloud é uma rede social de música, então o que é este site, que, na semana passada, comemorou a marca de 10 milhões de usuários? “Somos uma plataforma de criadores de áudio”, diz. “É natural que nos associem a artistas, afinal música é muito popular e vários nomes – tanto estabelecidos quanto iniciantes – já ajudaram o público a entender a natureza do site. Mas achamos que música é só uma pequena parte de nosso potencial. Hoje, graças aos celulares, todos carregamos uma câmera no bolso, também temos um microfone à nossa disposição o tempo todo. E é nisso que apostamos.”

O executivo do site lista que as pessoas já usam o Soundcloud para publicar comentários falados, fazer diários em áudio, entrevistas e ler textos em voz alta. “E não são apenas pessoas comuns, mas jornalistas, comediantes, editoras de livros, radialistas, escritores, emissoras de rádio e TV”, continua Haynes.

Não é pouca coisa: nomes como a editora Penguin, a revista Vanity Fair, a emissora de rádio norte-americana ABC, a Sociedade Real pela Literatura inglesa e a BBC também utilizam a plataforma para priorizar mais a voz do que canções. E Haynes concorda quando pergunto se aos poucos vamos ver a voz substituir o texto como principal meio de comunicação na rede.

“Acho que isso é uma tendência que ainda vai se estender por alguns anos. A revolução da telefonia móvel está apenas começando”, diz, citando que só agora estamos vendo a ascensão dos smartphones para as pessoas que até outro dia apenas trocavam SMS e conversavam pelo celular. “Acredito que é uma tendência sem volta”, diz.

Na Campus Party, Haynes vai presidir o Music Hack Day, maratona de programação que o Soundcloud promove, com sucesso, em vários países. A competição reunirá programadores que terão de criar, em cima da API aberta do site, “a nova geração de aplicativos de música”, como gosta de falar.

“A antiga indústria musical – o rádio, as lojas de discos e as gravadoras – sempre impôs a forma como a música deve ser criada, distribuída e consumida. Isso acabou. Vivemos numa era em que todos colaboram com essa indústria, desde os programadores que participam destes Hack Days – que outros sites também fazem – até o ouvinte, além dos artistas e novos players no mercado de música. É um ecossistema em constante formação que não está restrito à definição de alguns poucos executivos com bons contatos.”

Mas ele não crê que o novo cenário deste mercado tenha aberto uma cisão entre duas gerações. “Acredito que a revolução digital a que estamos assistindo hoje é muito mais importante do que aquela que aconteceu há dez anos. Todos já entendemos que a internet chegou para ficar e há uma nova geração de executivos que entende a rede como um leque de novas oportunidades e não mais como uma ameaça. Eles estão dispostos a fazer novas parcerias, a dialogar com músicos, a ouvir o público, a criar novas ferramentas de interação entre os diferentes lados do mercado. Nós somos apenas uma peça neste novo cenário”, conclui.

Minha coluna no Link desta semana foi sobre o filme dos Chemical Brothers que vi na semana passada.

Imagine um filme-show em um cinema-pista-de-dança
Longa do Chemical Brothers mistura tudo

Uma hora e meia em uma sala de cinema assistindo a um show dos Chemical Brothers gravado no Japão. A experiência pode parecer atordoante para quem associa tal exibição aos velhos concertos de rock que eram lançados em salas de cinema, como The Song Remains the Same, do Led Zeppelin, lançado no Brasil com o infame nome de Rock É Rock Mesmo, nos anos 70. Ainda mais porque muita gente ainda vê apresentações de música eletrônica como meros nerds apertando botões e mexendo em equipamentos que pouco lembram instrumentos musicais.

O fato é que Don’t Think, o primeiro longa-metragem da dupla que popularizou a música eletrônica nos anos 90, foi exibido na quinta-feira passada em São Paulo e em outras 19 cidades no mundo inteiro, como pré-estreia. O lançamento de verdade acontece no próximo fim de semana e deve chegar a outros cinemas do Brasil (por enquanto foram anunciadas, além de São Paulo, datas no Rio de Janeiro, em Fortaleza, no Recife, em Curitiba e em Salvador).

Don’t Think, no entanto, é mais do que um simples “filme de show”. Para começar, em vez de ser lançado em DVD, como a maioria dos lançamentos desta natureza, Ed Simons e Tom Rowlands preferiram lançá-lo no cinema, para que a audiência não ficasse isolada, em casa, e sim conectada com mais gente interessada no evento.

E o filme vai além do mero registro do show. Afinal, apesar de ser uma dupla, os Chemical Brothers contam com um terceiro elemento, Adam Smith, responsável pela projeção das imagens que invadem os telões durante os shows dos Brothers. É ele quem assina a direção do filme – e, assim, mistura imagens que foram capturadas por dezenas de câmeras no show com as imagens que foram projetadas durante o show, transformando a tela de cinema num telão.

Aí basta seguir o conselho do título do filme – Não Pense, em inglês – e se deixar levar pela avalanche de sons e imagens, com hits como “Hey Boy Hey Girl”, “Block Rockin’ Beats” e “Galvanize” servindo de trilha sonora para cortes rápidos que intercalam imagens de animais, igrejas, palhaços e pessoas dançando com o público japonês extático.
O único problema é assistir a isso numa poltrona. O ideal é que a sala não tivesse cadeiras e o público pudesse dançar. E que o som (7.1 na gravação original) fosse bem mais alto.

O que me levou a imaginar um futuro em que bandas podem fazer shows e retransmiti-los em salas de cinema como se o público estivesse no lugar.

Imagine cidades do mundo inteiro interconectadas por um show que está acontecendo em um só lugar, transmitido em tempo real e com imagens editadas na mesma hora.

A telepresença não é novidade – São Paulo já assiste a transmissões de ópera feitas no exterior em salas de cinema, por exemplo –, mas ao destruir as barreiras entre filme, show e registro de show, os Chemical Brothers podem estar dando origem a um novo tipo de formato.

‘Link’ começa o ano com estreia de quatro colunas

A coluna da repórter Tatiana de Mello Dias nesta edição é uma das novidades do Link em 2012. Ela não chama-se P2P à toa – é a face impressa do blog de mesmo nome, publicado no site do Link desde o início de 2010, sobre as transformações que o digital vem impondo à cultura. Ao assumir o blog, Tati virou setorista e seria natural que assumisse uma coluna sobre o tema. A partir de hoje, o blog P2P passa a ter seu nome.

Sua coluna, quinzenal, alterna-se com a coluna No Arranque, do editor-assistente Filipe Serrano, dedicada ao cenário de startup no Brasil e no mundo. Filipe tem um blog com seu nome desde o fim de 2011 e também começa 2012 como colunista do Link. Outras novas colunas já circulam no caderno desde o início do ano, estas semanais. Homem-Objeto, do repórter Camilo Rocha, dedicada a testes de aparelhos, e esta Impressão Digital, que deixou as páginas do Caderno 2 no final de 2011 para frequentar este caderno. E são apenas as primeiras novidades de 2012. Outras virão.

Minha coluna no Link dessa semana reúne três assuntos diferentes, mas que são o mesmo.

Kodak, Yahoo, direitos autorais e a inevitabilidade do digital
Para milhões, baixar gratuitamente é rotina

A Sopa e a Pipa foram o principal assunto da semana passada, mas queria aproveitar para falar de outros acontecimentos ofuscados pela briga entre a indústria de entretenimento e a de tecnologia, mas que podem nos ajudar a jogar uma luz sobre a confusão legal a que estamos assistindo.

Um deles é a concordata da Kodak e o outro, a demissão de Jerry Yang, um dos criadores do Yahoo, do cargo de “cofundador e líder” do site (sim, esse era seu cargo). Ambas notícias podem ser comparadas à clássica anedota sobre a inevitabilidade do digital – quando as grandes gravadoras do mundo resolveram processar seus próprios consumidores (que, graças ao Napster, descobriram que era possível baixar música de graça e à vontade) e deram início ao fim de seu próprio monopólio, o da música gravada e lançada em mídias físicas.

A Kodak, uma empresa centenária, inventou a câmera fotográfica portátil que a tornou sinônimo do aparelho que popularizou. Mas também inventou a primeira câmera digital – na pré-história do mundo digital, nos anos 70. Mas como também vivia de vender filmes, preferiu não investir neste setor, com medo de perder o mercado analógico. Mas, ao manter-se irredutível nesta posição, viu ao mesmo tempo o mercado que queria proteger sumir e outras empresas assumirem as rédeas da fotografia digital. Até mesmo de outros tipos de produto, como a Nokia, que se consolidou no mercado de celulares justamente por apresentar boas câmeras embutidas nos aparelhos. Sua cabeça-dura custou-lhe a própria existência.

A mesma teimosia acabou fazendo Yang pedir demissão do principal cargo do site que criou. O Yahoo, muitos nem sequer devem se lembrar, já foi um dos titãs do mundo digital, numa época em que os sites eram contados aos milhares e as conexões ainda eram discadas. Com a chegada do Google, o site preferiu manter-se preso à lógica de portal, típica da última década do século passado, em vez de apontar links para o resto da rede. Fechou-se em si mesmo e apostava na possibilidade de ser comprado ou fundir-se a algum outro gigante. A Microsoft foi quem mais cortejou o velho líder das buscas, em vão. Até que a chegada de um novo CEO, Scott Thompson, obrigou Yang a sair do holofote – e sacramentar o fim de uma era.

O que nos leva de volta às polêmicas leis antipirataria que ameaçam a existência da web como a conhecemos – não apenas nos EUA, mas em todo o mundo. Não é a primeira vez que o Congresso norte-americano tenta aprovar leis que tentam restringir o avanço da pirataria digital. Mas o que estamos assistindo em 2012 é ao aumento da truculência e da força política de uma indústria que, como a Kodak e o Yahoo, preferem não abraçar o digital inevitável e agarrar-se a uma legislação que não faz sentido em tempos digitais.

O lobby de Hollywood é poderoso e pode ter consequências catastróficas para a rede. Imagine que o simples ato de linkar um vídeo do YouTube no Facebook (que não seja autorizado por seu criador) possa significar até cinco anos de cadeia. Como ironizou alguém no Twitter, se você uploadar uma música de Michael Jackson na internet, pode pegar um ano a mais de cadeia do que o próprio médico acusado de sua morte. Não faz o menor sentido.

Fora que o que é chamado de pirataria pela indústria do copyright é rotina para milhões (bilhões?) de pessoas por todo o planeta. Baixar conteúdo gratuitamente é infração do direito autoral antigo, mas há mais de uma pesquisa mostrando que, quanto mais alguém baixa conteúdo sem autorização, mais gasta no mesmo tipo de conteúdo. As leis não devem parar no tempo – elas devem mudar de acordo com as mudanças da sociedade.

E se insistir nisso, os EUA podem matar seus principais produtos no novo século: Google e Facebook vão ter que mudar completamente seus negócios. Abrindo espaço para alguém, em algum país, criar seu próprio clone de Google ou do Facebook e conseguir um público que antes era dos EUA. E aí pode ser que o cabeça-dura da história seja o próprio governo dos norte-americano.