
O pioneiro projeto de lei sobre legislação digital finalmente passou na Câmara dos Deputados depois de quatro anos desde sua concepção, mas mesmo ainda faltando ser aprovado pelo Senado para tornar-se uma nova forma de encarar a internet à luz da justiça, já é um senhor avanço. O Marco Civil da Internet começou como uma alternativa à Lei Azeredo, que punia os infratores de “crimes digitais” e chegava, em suas versões mais extremas, a exigir que qualquer um para se conectar à internet tivesse que digitar o CPF para acessar à rede (além dos cobrar que os provedores de acesso – servidores ou lan houses – guardassem os acessos de seus usuários por pelo menos seis meses). Não por acaso foi rotulado de “AI-5 digital”, devido à quantidade de restrições que impingia à rede.
A mudança de lógica começou com uma consulta pública proposta pelo Ministério da Justiça sobre o que realmente deveria tratar um projeto de lei – e assim foi lançado um site em que as pessoas poderiam palpitar nos principais temas relacionados ao assunto. Dei o assunto na capa do Link há exatamente quatro anos, em março de 2009, e por um bom tempo, o Link foi o único veículo na mídia tradicional a dar atenção ao tema, acompanhando o parto que foi chegar a um consenso sobre uma série de assuntos sem criar leis ou punições que diferenciavam quem cometesse alguma infração dentro e fora da rede. Nossa cobertura no Link aos poucos fez o projeto de lei ganhar vulto e vimos a discussão sendo aprofundando a partir do acompanhamento que fazíamos, mas foram as revelações feitas por Edward Snowden no ano passado – que os EUA vigiavam seus próprios cidadãos e estrangeiros pelo mundo através da internet – que o processo foi acelerado. O trabalho do deputado Alessandro Molon foi crucial para que o projeto conseguisse ser aprovado – principalmente após tirar o fardo imposto pelo PMDB que travava um dos principais pontos do projeto de lei, a neutralidade de rede.
O trabalho que comecei no caderno de cultura digital do Estadão há quatro anos rendeu bem e hoje vejo com orgulho, Tatiana de Mello Dias na Galileu e o Murilo Roncolato no Link, sob a batuta do atual editor do caderno, Camilo Rocha, darem uma verdadeira aula de cobertura sobre o tema além de frisar de forma didática o que é informação do que é desinformação. Os três foram da minha equipe no Link e tomaram consciência da importância deste tema a partir da cobertura que lá fizemos. Confirma os textos do Murilo e da Tati que explicam detalhadamente a importância do tema, são claros e bem elucidativos. E se ler tá difícil, o Marco Gomes desenhou via Twitter:

Mas ainda temos chão pela frente e o Senado é a próxima parada antes de termos a legislação mais moderna e avançada no que diz respeito à internet no mundo. Claro que no meio do caminho ainda veremos o aumento do jogo de desinformação (como o desserviço que foi esta entrevista no Jornal da Record ou as vítimas desse tipo de análise enviesada reunidas neste tumblr Sabe de Nada, Inocente) e vamos voltar a ouvir falar em asneiras como “controle de mídia”, “cubanização” ou “o fim do Facebook”.
É preciso ter calma, afinal quanto mais perto algo está de ser mudado, mais quem vai sofrer esta mudança esperneia e grita. E isso não diz respeito somente a este tema, como vocês já devem ter percebido…

É o fim de uma era. Foi-se o tempo em que a melhor sexta-feira de São Paulo acontecia no porãozinho da histórica Avenida São Luís. Diga adeus ao papel de parede de jogo da velha e à sequência de “No Scrubs” seguida de “Lose Yourself to Dance” ou “Lança Perfume”. Nunca mais o balde de gelo com a garrafa de uísque na cabine um degrau mais alta que a pista, com sua iluminação de camarim, o ar condicionado pingando, o calor insuportável e todo mundo sorrindo. As duplas de desconhecidos que até o fim da noite eram casais. O retorno que desligava sozinho. As pernas femininas descendo correndo a escada como termômetro de que aquela música funcionava mesmo. O volume cortado no refrão pra todo mundo cantar junto. A partir de hoje, oficialmente, as Noites Trabalho Sujo não acontecem mais na casa que viu a festa nascer.
Lembro quando o Ivan veio conversar comigo, em 2011, sobre a possibilidade de fazer uma festa semanal em sua recém-inaugurada casa. O Alberta #3, no centro, havia sido batizado a partir das músicas homônimas de Dylan e tinha suas paredes forradas com fotos de ícones de um rock bem roqueiro – Ramones, Stones – afinal era a casa do Ivan, um jornalista que sempre prezou pela estética transgressora do rock clássico. Já eu havia largado a ortodoxia do rock há muito tempo e, embora ainda fiel aos clássicos, sempre vi essa “atitude” como um fundamentalismo pop. Por outro lado, sempre tive vontade de ter uma festa semanal e fiz a ressalva: “Não é uma festa rock”. Ivan arregalou o olho já esbugalhado, como se não cogitasse a possibilidade que eu tocasse outros gêneros (e como se nunca tivesse me visto discotecar). “Tá bom, mas é uma festa do quê?”, perguntou. “De dance music”, respondi na galhofa. Ele não engoliu direito aquela história e nos primeiros meses foi realmente complicado – na primeira festa, ainda nos tempos da Gente Bonita, com o Kalatalo, já estávamos tocando funk carioca enquanto umas caras amarradas ficavam encostadas na parede, pedindo AC/DC através do celular. Na segunda noite, as meninas da Awe Mariah conseguiram fazer trenzinho no meio da pista quando tocaram axé music. A cara do Ivan era de pavor. A pista estava inteirinha sorrindo, fora os camisas-pretas encostados na parede. Eu sempre me divertia.
Comecei a chamar amigos, muitos deles que nunca haviam discotecado na vida (confiando apenas no bom gosto musical de cada um), para dividir a cabine comigo em longos sets que podiam ir para todos os lados, todos os gêneros, todas as épocas, todos os idiomas. A única regra era que o clima fosse pra cima e que a pista estivesse cheia e se divertindo. E não foi uma regra imposta, foi um clima que se instaurou a partir das pessoas que escolhi para fazer a festa comigo.
Depois de um ano tocando todas as sextas sem parar, precisei fazer uma cirurgia (pra finalmente consertar o braço, agora 100%) e convidei três amigos mais próximos para dividir a sexta-feira comigo. Danilo, Babee e Pattoli já haviam passado pela cabine do Alberta comigo mais de uma vez e sabíamos dos gostos em comum a ponto de saber que funcionaria dividir a festa entre nós quatro. E deu mais certo do que imaginávamos. Hoje a Noite Trabalho Sujo somos nós quatro e já estamos nos espalhando por aí, como vocês sabem.
Mas, no fim do ano passado, o Alberta teve problemas internos e ficou fechado por alguns meses (o que, no fim, deu origem às festas Sussa e Naites, já encubadas na minha cabeça, esperando sair) e agora neste começo de 2014 mais uma vez voltou a ser fechado. Ao mesmo tempo já vínhamos percebendo que o espaço do Alberta estava ficando pequeno para o nosso público, populoso o suficiente para causar as já infames filas na porta de nossas festas na Trackers. Ao mesmo tempo, recebemos uma proposta para mudar de casa. Essa série de fatores culminou no anúncio de que não haverá mais Noites Trabalho Sujo no Alberta #3.
Na memória, grandes momentos. Duas noites Beatles. Uma noite contando a história do rock em ordem cronológica. A noite do especial relâmpago Beastie Boys no dia em que o MCA morreu. A catártica discotecagem do saudoso Fred :~~~~. A Bia correndo para a pista quando tocava “Moves Like Jagger”. O Márvio dependurado na escada dublando “Don’t Stop Me Now”. Os pedidos de música no fumódromo. As meninas subindo nos totens quando tocava Britney Spears. “Sereia” do Lulu Santos. Tocar Pavement quando Mariana Neri aparecia. Aretha Frankin. Guilherme Arantes. LCD Soundsystem. Mutantes. Daft Punk. Neutral Milk Hotel. Rage Against the Machine. Led Zeppelin. Beyoncé.
Agradeço portanto a todos que tocaram comigo, a todos que foram às festas e vieram me cumprimentar pelo set ou pelo site, aos que se acabaram de dançar e aos que não dançaram mas ficaram num canto só sacando a convulsão pra cima daquela pequena multidão. Agradeço ao Ivan, à Thea, à Neiva, à Noemi e a todo mundo que conheci graças ao Alberta #3, sócios, funcionários, ex-funcionários e amigos em comum. E, claro, o agradecimento saudação ao trio Luiz, Babee e Danilo, formado durante esse período e que agora seguem junto comigo pra esse novo capítulo.
Porque a festa não pode parar – e as Noites Trabalho Sujo continuam a partir de abril em um novo endereço. Semana que vem eu falo mais disso. Enquanto isso, não esqueçam que neste fim de semana tem Naites no Neu e Sussa junto com a pool party Boogie Woogie no Telstar Hostel da Vila Mariana (sim, pool party = piscina liberada!). As sextas-feiras irão para um outro patamar ainda mais foda. Até breve.

Estamos às vésperas de uma conclusão épica de True Detective, que termina hoje sua primeira temporada. A série estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson chega ao final de seu primeiro capítulo já anunciando que o segundo terá outra história, outros protagonistas, outros atores. Só o fato de zerar sua própria história a cada nova temporada permite que a série crie outra forma de lidar com suas histórias. True Detective é um tom, um gancho: histórias de detetive que fogem do comum. Como era a própria True Detective original, uma compilação de contos e casos policiais escritos por semianônimos (alguns deles, como Dashiell Hammett, tornaram-se clássicos no tema) publicados na aurora e primeira grande era do gênero policial, um dos principais gêneros do século 20. Assistiremos, portanto, nos próximos anos, pequenas histórias relacionadas a crimes e tentativas de resolvê-los.
E se o nível de envolvimento com o espectador for semelhante a esta primeira temporada, estamos diante de uma longa e importante série, que independe de personagens para continuar sendo importante – não precisamos ver Jack Bauer salvar os EUA pela milionésima vez nem cada detalhe da biografia de personagens densos e complexos em plena transformação (como as sagas de Tony Soprano, Walter White e Don Draper) nem a criação de ecossistemas ficcionais complexos (como os de Game of Thrones, Downton Abbey, The Wire e Battlestar Galactica). Tudo bem que não é a primeira série a cogitar esse formato (American Horror Story sobrevive porque nasceu assim), mas a forma como True Detective se apresentou foi determinante para atingir este patamar. Escrita por apenas uma pessoa (Nic Pizzolatto, não uma equipe liderada por ele) e dirigida por outra (Cary Joji Fukunaga), True Detective não é apenas uma história sobre um crime mal resolvido, mas fala sobre uma nova forma de consumir conteúdo audiovisual – ou o mais perto que a televisão chegou da literatura.
Ao se comprometer a contar uma história em oito capítulos divididos em oito semanas, o quarteto formado por Nic, Cary, Woody e Matthew nos conduziu em uma jornada contada em diferentes camadas. True Detective é sobre a investigação do assassinato de Dora Lange por dois detetives em 1995 e a volta do caso 17 anos depois, com depoimentos que aos poucos vão nos situando sobre quem são aqueles dois investigadores (Harrelson e McConaughey, em atuações brilhantes) e o que eles realmente fizeram no passado. Ao mesmo tempo, a série nos mostra uma série de relações, conexões e coincidências que criam uma mitologia ao redor de personagens recém-apresentados na série (muitos deles apenas um nome, um retrato, uma descrição) e a toda uma genealogia que interliga a história a cânones de literatura policial e de horror, permitindo a construção de uma mitologia em pouquíssimas semanas, viciando um público ávido por interligar dicas e buscar hiperlinks em qualquer palavra, qualquer olhar ou citação. O programa de TV também trata de uma atmosfera, uma tensão silenciosa que paira sobre rituais macabros, crimes inadmissíveis, perversões inconfessas, o Mal propriamente dito. Uma sensação de desconforto e curiosidade que torna True Detective tão irresistível quanto um vício. Junte isso a um texto que, ao mesmo tempo em que confronta a alma white trash americana a contrapõe a uma filosofia existencialista niilista, encarnada no personagem de McConaughey, Rusty Cohle.
True Detective não apenas a prova de que a conversa entre e TV e a internet é um fato – quem viveu buscando significado entre os sete primeiros episódios sempre terá uma sensação bem diferente em relação à série do que quem a assisti-la de uma vez só. Ela mostra que é possível ter sucesso – em diferentes níveis – apostando na inteligência. Sem mirar no entretenimento barato, a série prova que, em oito semanas, reputações sérias podem ser construídas, uma audiência criteriosa pode tornar-se fã instantaneamente e que é existe vida inteligente no público quando se aposta nele.
Tomara que o último episódio confirme isso.

Juçara Marçal acaba de disponibilizar para download gratuito seu aguardado disco solo, batizado de Encarnado, em seu site oficial. Alicerçada pelas forças instrumentais (mínimas, há poucos instrumentos no disco) de Kiko Dinucci, Thiago França, Thomas Rohrer e Rodrigo Campos, ela lança seu primeiro disco solo depois de quase vinte anos de carreira, tocando em projetos como o conjunto vocal Vésper, o robusto Metá Metá composto ao lado de Kiko e Thiago e o grupo de pesquisa A Barca. Nestes trabalho pode construir uma personalidade ao mesmo tempo forte e delicada, uma persona comum às divas da música brasileira que tem se tornado artigo raro no último quarto de século. Em Encarnado ela desfila com leveza e graça sem perder o pulso firme e o sangue nos olhos – é um disco essencialmente guerreiro e por mais cru que possa parecer – tanto nas releituras de Tom Zé (“Não Tenha Ódio no Verão”) e Itamar Assumpção (“E o Quico?”), quanto na dolorida e gráfica “Ciranda do Aborto”, de Kiko Dinucci. O disco ainda conta com canções de Siba (“A Velha Capa Preta”), Douglas Germano, Rômulo Fróes, Gui Amabis (numa bela versão para “Pena Mais Que Perfeita”, composta com Régis Damasceno) e Rodrigo Campos, cuja faixa que abre o disco – a angular “Homem Amarelo” – escolhi como amostra deste trabalho. O disco inteiro pode ser baixado aqui.
Encarnado funciona tanto como a consagração de uma carreira em plena ascensão quanto como uma introdução a uma das melhores cantoras ainda desconhecida pelo resto do Brasil. Salve, Juçara!

Se você não está vendo True Detective, a nova série da HBO que estreou no início do ano, pare o que está fazendo e corra para tentar acompanhá-la. A série, cuja primeira temporada conta com apenas oito episódios, está exatamente na metade de sua história e seus primeiros quatro capítulos foram fodas o suficiente para deixar o nível de expectativa altíssimo. História, elenco, direção, fotografia, trilha sonora – tudo contribui para tornar o clima denso e surreal. E desde o primeiro episódio sabemos que não estamos assistindo a uma série policial qualquer.
Acompanhamos dois momentos na vida de dois investigadores – Rustin “Rust” Cohle e Martin Hart (interpretados respectivamente por Matthew McConaughey e Woody Harrelson). Os dois seguem um padrão manjado de qualquer série policial – dois detetives que acabaram de começar a atuar como uma dupla, dois extremos opostos que têm de aprender a conviver com as excentricidades alheias para concluir uma investigação. Durante toda a série assistimos aos dois começando a puxar o fio da meada de um crime bizarro acontecido em 1995 e retomando-o através da memória em uma série de depoimentos dados em 2012.
Rust e Marty são parceiros improváveis. O policial vivido por Harrelson é conservador e tradicional, pai de família, religioso e correto, enquanto o de McConaughey é pragmático e pessimista, um solitário que saiu cético e desolado de um casamento destruído por uma tragédia familiar. Mas na medida em que os acompanhamos pela série vemos que essa dualidade não é tão maniqueísta assim. Por trás da fachada de bom moço de Marty, descobrimos um adulto infantilizado, irracional, emotivo e com surtos de agressividade. Enquanto Rust, um profeta niilista que demole qualquer esperança com um ponto de vista frio e racional demais, aos poucos mostra que é mais do que simplesmente um psicótico em trajes policiais.
O personagem de McConaughey é um dos principais pilares temáticos da série. Sua filosofia de vida considera a consciência humana um acaso da evolução e todo o sentido da vida torna-se um mero auto-engano para que possamos suportá-la. A cada fala de Rust, os parâmetros em que nos seguramos emocionalmente para garantir nossa sanidade mental são um a um destruídos: religião, família, relacionamentos, sentimentos e até a própria noção da morte. Rust afunda-se num existencialismo inevitável e denso, atraindo uma carga psicológica desagradável que infesta todo o seriado. O personagem ganha uma profundidade ainda maior pelo fato de ser interpretado por McConaughey neste exato momento de sua virada de carreira (assista a Killer Joe, Dallas Buyers Club e à sua ponta em O Lobo de Wall Street e perceba que ele deixou de ser o galã de comédia romântica que estávamos habituados a assistir). Woody Harrelson também não deixa por menos em um personagem avesso à caricatura do doidão que sempre acompanhou a biografia do ator. Seu Marty é um ser humano incompleto, instável e emotivo, que, aos poucos, começa a deixar sua máscara cair.
Os dois investigam um assassinato de uma garota, Dora Lange, encontrada morta nua no meio de uma fazenda, vítima do que parece ser um estranho ritual – chifres fincados em sua cabeça como uma coroa, corpo cheio de inscrições misteriosas. Rust, de cara, suspeita que aquele crime não é um simples assassinato, mas mais um dentro de uma série de mortes bizarras e começa uma investigação pessoal em torno dessa possibilidade, descobrindo pistas que tornam, pouco a pouco, o crime cada vez mais complexo e estranho.
Corta para 2012 e os dois investigadores estão sendo interrogados sobre o crime de 1995. Marty, já careca, de terno e gravata, trabalha com segurança particular. Rust, de cabelos compridos e bigode, rosto magro e olhar ainda mais perturbado, parece ter abandonado a polícia de acordo com sua lógica hiperrealista. Mas não sabemos muito sobre o que acontece em 2012. Por que eles estão dando aqueles depoimentos? Aparentemente, há um novo crime que parece ter ligação com aquele anterior, mas poucas pistas nos são dadas. Não sabemos por que os depoimentos são tomados em separado nem o porquê de uma possível ruptura entre os antigos parceiros.
Suas camadas de entendimento vão para além das falas existencialistas de Rust ou das paisagens desoladas de Louisiana e mexem com temas mais pesados, ainda que não tenha se aprofundado neles. A série tirou seu título da mais clássica publicação pulp policial dos Estados Unidos nos anos 20 e faz referência, em diferentes trechos, à coleção de contos The King In Yellow, escrita por Robert W. Chambers, em 1895, e que serviu de inspiração para autores como Raymond Chandler, Robert Heinlein, Neil Gaiman e, principalmente, H.P. Lovecraft. Os contos deste livro fazem referência a uma peça chamada The King In Yellow, que fala sobre uma cidade chamada Carcosa governada por uma entidade maligna chamada Hastur, o rei amarelo. Não sabemos de mais nada sobre essa peça além disso (e que os nomes Carcosa e Hastur apareceram primeiro nos trabalhos de Ambrose Bierce, autor do Dicionário do Diabo, que desapareceu durante a guerra entre México e Estados Unidos, no início do século passado) e sobre sua influência em seus leitores – os personagens do livro de Chambers que leem The King in Yellow simplesmente enlouquecem. As palavras “carcosa” e “Yellow king” aparecem em um diário encontrado em dado momento em True Detective, mas a citação não foi além disso.
Talvez seja apenas a dica inicial de que não estamos, de forma alguma, assistindo a uma série policial. A investigação da morte de Dora Lange pode ser só o ponto de partida para algo maior e mais bizarro, talvez sobrenatural. Afinal o pessimismo filosófico de Rust também pode ser entendido como a tétrica constatação que permeia toda a obra de H.P. Lovecraft – de que somos cobaias na mão de um deus perverso e que a humanidade apenas nasceu para sentir dor e desespero. O programa também faz citações a outro clássico da desesperança, Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, quando somos apresentados ao vilão da série no final do terceiro episódio (que cita nominalmente o Vietnã) e quando Rust parte, num bote movido por hélice, rumo ao desconhecido, perto da espetacular sequência final do quarto episódio. Há uma caça a um coronel Kurtz em andamento e é claro que ele já viu “o horror”. A inspiração de Coppola, o livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad, aprofunda as comparações com o niilismo de Rust, que também encontra eco em outro clássico da literatura, Crime e Castigo, de Dostoiévski.
Escrita apenas pelo criador da série – Nic Pizzolatto – e dirigida por apenas uma pessoa – Cary Joji Fukunaga, em seu primeiro trabalho na TV -, True Detective é um longo filme de oito horas, cuja ambientação dura e sufocante às vezes ganha ares de sonho ou alucinação. Sua segunda temporada contará outra história, com outro elenco e personagens. Esta que assistimos agora termina daqui a quatro capítulos e o quinto deles será exibido ainda hoje, nos EUA (e retransmitido pela HBO brasileira na meianoite do domingo para a segunda).
Sexo, drogas, violência e rock lúgubre e pesado (com toques de country music, cortesia de T Bone Burnett, que já tocou colocou Captain Beefheart, Lucinda Williams, Black Angels e Grinderman pra tocar no programa) dão a tônica de um seriado ímpar, que já é a melhor coisa na televisão em 2014 e tem tudo para se tornar uma forte referência para a TV do futuro, implodindo ainda mais os limites entre cinema e televisão. Só a cena final do quarto episódio – um take de seis minutos de tirar o fôlego até de Alfonso Cuarón – já mostra que estamos assistindo a um outro nível de série. Acompanhe enquanto é tempo, pois cada episódio pede para ver e ser revisto ao menos duas vezes. E descubra que não é preciso cogitar duelos entre casas reais de um passado fictício ou a tensão zumbi de um futuro apocalíptico para trazer o horror para a televisão – ele pode estar à espreita, na esquina.

A foto ficou péssima, já tinha falado no Insta, mas é o único registro visual do papo que tive com o Miranda e com o Ricardo Alexandre sobre nosso período de formação – o meu e de Ricardo como jornalistas e o de Miranda, mais velho que nós dois, como produtor. Ricardo nos juntou ali no estúdio da YB na Vila Madalena pra falar sobre o período retratado em seu novo livro Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar – 50 Causos e Memórias do Rock Brasileiro (1993-2008), que será lançado em dois eventos nas próximas semanas. O que devia ser uma análise sobre como o mercado de discos desandou a partir do Plano Real para chegar à terra de ninguém que vivemos hoje virou uma bela conversa de boteco saudosista, com eu e Ricardo pilhando Miranda para contar suas histórias do início dos anos 90.
Cheguei Bem a Tempo… é o terceiro livro do Ricardo Alexandre e o título se refere não apenas à queda do palco no primeiro dia do segundo festival Juntatribo, em 1994, em Campinas, mas também à sua formação como jornalística no início da queda do sistema que havia se erguido décadas antes. Depois de usar o rock brasileiro dos anos 80 para falar da formação do mainstream pop no país em seu Dias de Luta e de contar a história de Wilson Simonal em Nem Vem que Não Tem, Ricardo abre mão de longas pesquisas e de temas delicados para lembrar de histórias de cabeça e escrever sem a pretensão de estar se referindo à história – embora esteja. Em tom de bate-papo, o livro foi publicado originalmente em posts em seu blog e exige uma leitura quase informal, de fácil grude, que o faz ser devorado rapidamente.
Estive ao lado de Ricardo em várias situações retratadas no livro – algumas nominalmente, quando o conheci na calçada do lado de fora do Hitchcock, em Santa Bárbara d’Oeste, quando saímos no meio de um show do Símbolo, quando o encontrava com o Emerson “Tomate” Gasperin na redação do Estadão, em que trabalharia dez anos depois, para irmos a shows ou coletivas de imprensa ou quando assistimos, às gargalhadas ao lado de Marcelo Ferla, ao Acústico MTV do Capital Inicial. Uma colaboração minha no Caderno Z que Ricardo havia criado no Estadão foi meu primeiro frila pago (uma matéria sobre o aniversário de Syd Barrett) e escrevi a primeira matéria de capa da volta da Bizz capitaneada por Ricardo, em 2005, sobre a volta dos Stones daquela época. Por isso passear pelas páginas do livro foi um reencontro com épocas da minha biografia que estavam encaixotados em prateleiras da memória. A melhor gargalhada do livro, a pergunta que outro bróder, Fabio Bianchini, faz ao baterista do Jota Quest, era dessas histórias que eu não me lembrava que lembrava.
Mas fora os bastidores da notícia, o livro fala da ascensão e queda de nomes que formaram o panorama pop brasileiro atual – dos Raimundos aos Los Hermanos, de Charlie Brown Jr. à Nação Zumbi, da Trama à Pitty, dos Racionais a Marcelo D2 -, explicando didaticamente como é que chegamos onde estamos. E, a meu ver, o principal trunfo do livro é contar essa história sem o pesar derrotista da maior parte dos contadores de história atuais. Seus ingredientes funcionariam como um prato cheio para quem quisesse detectar, nesses quinze anos retratados pelo livro (1993-2008), os motivos pelos quais o Brasil nunca vai dar certo. Mas a leitura de Ricardo redime o leitor e fechei o livro mais otimista do que quando o abri. Recomendo pacas.
Em São Paulo, o livro será lançado na Fnac de Pinheiros, dia 13, com show dos Charts. No Rio, o lançamento acontece na quinta seguinte, dia 20, na Livraria Cultura Cine Vitória, com show de Piu Piu e Sua Banda. Abaixo, uma hora e meia de papo furado entre eu, Ricardo e Miranda, que, diz, vai lançar seu próprio livro em breve. Aí eu quero ver!

O penúltimo filme do mestre documentarista recém-falecido Eduardo Coutinho chama-se Um Dia na Vida e não pode ser exibido comercialmente, devido a questão de direitos autorais. O motivo é óbvio: o filme é uma edição de uma hora e meia de dezenove horas de material registrado no Rio de Janeiro entre a manhã do dia 1° e a madrugada do dia 2 de outubro de 2009 em diferentes canais da TV aberta. O resultado é uma colcha de retalhos bizarra e contraditória, o tecido esquizofrênico que mistura família, violência, consumo, obsessão por forma física e religião que constitui o espelho cruel que nossa televisão serve à brasilidade.
Propagandas de brinquedos, cervejas, dietas e remédios, Marca Goldsmith, telenovelas brasileiras e mexicanas, Wagner Montes, câmeras escondidas ou postas em helicópteros, Chaves e o Jornal Nacional, crimes reencenados, Sandra Annenberg, Ana Maria Braga tocando Guitar Hero, uma entrevista com Dr. Rey e outra com Lula, Sônia Abrão, televangélicos de todos os tons, Sílvio Santos dormindo com uma cachorra, panicats, infomerciais e Amaury Júnior – tudo tirado de contexto e dando ao Brasil uma aura de mosaico de bestas mitológicas. Tudo ainda ganha contornos ainda mais surreais quando nos deparamos com reportagens sobre a candidatura do Rio de Janeiro para a Olimpíada de 2016 ou o Massacration tocando com o Falcão fantasiado de faraó em um premiação da MTV.
Com a morte do cineasta no último domingo, o filme foi parar no YouTube – e funciona como uma apresentação à queima-roupa de um Brasil pouco vendido lá fora. É tão hilário quanto desagradável e constrangedor – o que dá uma boa medida do longo caminho que temos pela frente como nação. Assista antes que tirem do ar:

Sim, a edição de fevereiro é a última edição da Galileu sob minha direção. Fui demitido na sexta passada, em pleno fechamento da edição de março e não faço a menor idéia sobre o futuro da revista. Só sei que, como havia dito na minha retrospectiva do ano passado, esse ano Galileu foi um ano de muito aprendizado, em vários níveis, e saio de lá com a sensação de que o trabalho que vinha fazendo foi interrompido pela metade, mas disposto a seguir com meus planos por conta própria. Já tinha novidades engatilhadas e, agora, fora do escritório, vou poder dar mais atenção e empenho a elas (isso também diz respeito ao próprio Trabalho Sujo). Essa semana ainda estou devagar por motivos pessoais e devo tirar um fevereiro de madame, aproveitando o verãozão e a piscina, mas grandes novidades surgem ainda antes do carnaval. Abaixo, minha última Carta ao Leitor.

SEMPRE TEM: Perguntamos na redação se alguém tinha um iPhone quebrado e o Danilo Saraiva, da Quem, apareceu com esse
Quando foi que deixamos de fazer trabalhos manuais? Quando eu era criança — e nem faz tanto tempo assim —, gostava de montar quebra-cabeças, modelos Revell, carrinho de rolimã, além de abrir equipamentos quando meu pai deixava, normalmente eletrodomésticos velhos. Anos depois, na adolescência, comecei a tocar trombone e violão (não ao mesmo tempo) e a manutenção era uma parte tão importante quanto o uso dos instrumentos. Mas em dado momento as atividades manuais foram diminuindo — e a LER aumentando. O computador tinha entrado em nossas vidas.
Mas mesmo nos primeiros dias do computador, ainda havia alguma interação com a máquina para além da interface. Era preciso montá-lo: reunir peças e transformar HD, processador, pentes de memória, monitor, mouse, teclado e gabinete em um só aparelho. Isso também ficou no passado — e a caixa de ferramentas só sai do quartinho dos fundos quando há algum reparo rápido a ser feito em casa.
O certo é que, com a chegada do computador e da internet, deixamos as atividades manuais em segundo plano — em alguns casos, em terceiro ou quarto. Afinal, a era consumista que vivemos nos permite o luxo de, em vez de procurarmos o defeito, descartarmos o aparelho com problema. Basta lembrar quantos telefones celulares você teve nos últimos dez anos.
Esse luxo tem produzido uma montanha de lixo cada vez maior. E, mais do que isso, tem nos tornado menos práticos e mais dependentes de empresas e assistências técnicas para lidar com problemas que poderiam ser resolvidos em casa.
Mas há uma reação em curso e graças à mesma era digital que nos deixou mal acostumados: muita gente tem se reunido para retomar estas atividades — e consertar seus próprios aparelhos. O movimento “fixer” começou nos Estados Unidos, já se espalha pelo mundo e advoga que, se você não pode consertar seu próprio aparelho, você não é dono dele de verdade. Faz sentido.
Estes consertadores são o assunto de nossa matéria de capa e inspiram reflexões que vão além do descarte e da propriedade de aparelhos com problemas. Eles questionam a obsolescência programada que algumas empresas embutem em suas máquinas para que elas parem de funcionar depois de um tempo. E, como pude perceber, nossa falta de familiaridade com atividades que vão além de cliques de mouse e apertos de botões. Talvez seja o mote que precisamos para deixarmos o mundo virtual em outro plano. Vamos lá?
Alexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Vocês viram, né?
Foi bonito: Boogarins, Single Parents, Rodrigo Amarante, Black Drawing Chalks, Móveis Coloniais de Acaju e Caetano Veloso frequentarão os palcos do melhor festival que eu já fui, que acontece no final de maio, em Barcelona. Bonito um front generoso que não peca por favorecer um recorte específico da música brasileira (forçando, daria pra falar em indie-MPB, mas isso nem é um gênero como descarta os Móveis, os Single Parents e os Chalks).
E numa edição com uma escalação memorável – que pode não pecar por ter grandes headliners, mas isso um “problema” mais da indústria e das transformações do mercado que do festival em si (são poucos eventos que conseguem emplacar nomes com grande peso na segunda década do século 21).
Mas tire Arcade Fire, Queens of the Stone Age, Pixies, Nine Inch Nails (oi Lollapalooza Brasil), National, e o Kendrick Lamar da equação e imagine apenas shows de bandas como (ainda seguindo a ordem do cartaz) Neutral Milk Hotel, Disclosure, St. Vincent, Metronomy, Chvchers, Slowdive (!!! – aliás, o !!! também, perdoem-me a infâmia), Darkside, Dr. John, Haim, John Grant, Slint (!!! de novo), Mogwai, Television e Godspeed You! Black Emperor… Bandas se viessem para cá em palcos de médio porte por preços mais decentes (mais de cem dinheiros num show é algo bem pesado pro bolso, ponham na ponta do lápis), não nos obrigariam a cogitar viajar para ir a um festival na Europa ou nos Estados Unidos. E é aí que a música ganha um contrapeso considerável, ao notarmos, além dos shows, a forma como o público destes países é tratado em eventos do tipo. Talvez por isso seja bom vermos como as coisas funcionam em países que já tiveram a era do desbunde consumista que estamos vivendo para entender no que realmente vale pagar. Vai lá, assiste um monte de shows de bandas que quando vierem pra cá vão chegar custando uma bica – e, como você já viu o show, não precisa pagar pra ir.
Eu ainda não sei se vou, mas se você realmente cogitou, faça as contas e boa viagem.
E ficam duas questões no ar: o Caetano vai tocar o Transa na íntegra (como será que surgiu esse boato?)? E será que o Primavera tá querendo vir pro Brasil?
Abaixo, as bandas brasileiras que irão para essa edição do festival:


















































Estes são os melhores discos de 2013 e estas são as melhores músicas do ano passado (pra quem não ouviu, as reuni todas num mesmo Vida Fodona). Não caiam na armadilha de achar que esses são os discos que considero mais importante pra história da música ou os discos que mudaram o panorama musical no ano que passou. Tem disco que entrou em lista de melhores do ano que eu nem ouvi nem mesmo me dei ao trabalho ou discos de 2013 que só fui ouvir em 2014 (como o excelente disco do Saint Pepsi que o Tomás pinçou em sua lista ou disco do Men, citado pelo Silvano), do mesmo jeito que a maioria das revistas (que fecham sua edição de janeiro no meio de dezembro) não conseguiram incluir o disco da Beyoncé, lançado aos 45 do segundo tempo do ano passado.
Os discos escolhidos são os que mais ouvi e gostei durante o ano que passou. É critério de eleger melhores obras de arte produzidas num período determinado de 365 dias é arbitrário – e com a série de camadas culturais que coexistem hoje em dia, talvez estejamos ouvindo discos que soem como 1931, 1968, 1985 ou 2032 em pleno 2013. Foi-se o tempo que um único disco ou uma única música regia o zeitgeist, o mundo de nichos interligados que hoje formam o panorama do pop (em que até o mainstream – ou os mainstreams – virou um nicho) permite que cada um eleja sua trilha sonora como pano de fundo para sua vida. Muita gente passou o ano ouvindo músicas de outras épocas, resgatando as referências citadas no disco do Daft Punk, dissecando a discografia de Bruce Springsteen porque ele veio ao Brasil, desbravando a música africana graças à recente conexão África-São Paulo ou ouvindo as composições eruditas que Kubrick escolheu para musicar seus filmes. Foi-se o tempo em que uma publicação decidiu que o disco do fulano ou o filme do beltrano era quem melhor capturava o espírito daquela época e pronto, todos deviam acatar calados.
Hoje todos temos vozes, fazemos nossas listas e trilhas sonoras. Você pode gostar da minha lista, mas não da ordem dos discos. Ou talvez prefira separar os brasileiros dos gringos. Ou que na minha lista não entrou nenhum disco que entrou na sua. Tudo bem, não vou grilar com isso e espero que você também não grile. Me incomodo mais com o fato de não ter escrito ao menos um parágrafo para cada um dos discos e músicas ou de linkar pra onde dá pra ouvir esse ou aquele álbum como gostaria de ter feito, mas o tempo urge e prefiro deixar apenas a lista na íntegra do que deixar o trabalho pela metade.
E com esse post, começo a pisar de fato em 2014. O Trabalho Sujo volta aos poucos às atividades normais e, já adianto, mudanças virão.
Afinal, elas sempre vêm.