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Single

blackparade

Mesmo sem lançar nada desde seu clássico instantâneo Lemonade – o disco que considero o mais importante da década passada -, Beyoncé vem aos poucos mostrando que não vai ficar quieta em 2020, principalmente levando em conta o clima tenso em que seu país se encontra desde a morte de George Floyd por um policial. Ela foi uma das primeiras artistas a se pronunciar publicamente sobre a tragédia e suas consequências para os EUA, deu um belo discurso na iniciativa Dear Class of 2020 organizada pelo casal Obama e agora lança “Black Parade”, o primeiro single em mais de meia década, sincronizado com a comemoração do 19 de junho, a data do fim da escravidão nos EUA, conhecida pelo apelido de “Juneteenth” (misturando o nome do mês e o número do dia nesta nova palavra).

A deliciosa faixa não é um hit dedo na cara como ela fez quando lançou “Formation”, mas embala tradições negras que vão da música africana à Jamaica, passando pelo R&B e pelo trap, e a rainha Bey desliza seus versos com o apoio de um irresistível coral. É inevitável associar à versão cinematográfica para o filme Rei Leão que ela fez com ano passado com a Disney. Será que vem mais algo por aí…?

ze-manoel

O pianista pernambucano Zé Manoel lança a lindíssima e triste “História Antiga” para lembrar que a ferida do racismo segue aberta.

Que música maravilhosa…

Um novo Vitreaux

vitreaux-2020

O grupo paulistano Vitreaux está prestes a lançar seu segundo disco, Esperando na Fila, que marca sua consolidação como um conjunto criativo, uma vez que as músicas do disco de estreia foram feitas principalmente por seu líder, o guitarrista e vocalista Lucas Gonçalves, que também toca no grupo baiano Maglore. “Eu levei muita coisa pronta, o Ivan (Liberato, o outro guitarrista e vocalista) tinha acabado de entrar na banda e gravou sem saber as harmonias de algumas músicas, ficou pescando o disco inteiro – para a nossa sorte, ele é um ótimo pescador.”

Já o novo disco foi um trabalho coletivo. “Esse disco foi concebido em casa. Em 2016 estávamos morando juntos, eu, Ivan e João (Rocchetti, baixista e vocalista), todo o departamento de cordas e aí foram nascendo algumas das canções, em conjunto”, lembra Lucas. “Estávamos ouvindo muito Beto Guedes, Almendra, The Band, Clube da Esquina, Tarancón…”, continua. Completa o grupo o baterista Guib Silva. A primeira faixa do disco que sai no fim do mês, “Meia-Luz”, lançada em primeira mão no Trabalho Sujo, mostra esta nova sonoridade, distanciando-os da psicodelia do disco anterior e levando-os rumo à América que fala espanhol.

Descrita por Lucas como “uma marcha violenta, uma guarânia tocada num porão frio”, a música surgiu após o cantor e compositor sentir os ecos da ditadura militar há seis anos. “Boa parte dela foi escrita em 2014, ano que marcava os cinquenta anos do golpe militar”, lembra o líder da banda. “Assisti a um documentário sobre o João Goulart, Operação Condor, e todo aquele cinza. Pelo documentário, vi o prédio do Doi-Codi em São Paulo e coloquei na cabeça que já havia passado na frente, onde hoje funciona uma delegacia. Meio tonto, tentei despejar esse clima ruim que ficou naquele quartinho de pensão no papel, com a ajuda do violão. Aí mostrei para a banda, num ensaio no ano seguinte. Ivan não estava, pois tinha ido acompanhar uma cantora pelo Paraguai, um detalhe que só agora me veio, mas acho que contribuiu de alguma forma para o disco. Em 2016, eu fui morar com João e terminamos a música, a estrutura. Os metais foram gravados pelo Douglas Antunes, do Bixiga 70, na introdução e no final, dobrando o solo de baixo do João.”

O clima pesado e melancólico se reflete pelo disco, segundo Lucas. “A gente queria fazer um disco conectado com a nossa realidade, enquanto latino-americanos”, explica. “Tentamos recriar algumas paisagens de episódios recentes na história do Brasil e da ‘gran pátria’. Um cenário de opressão, cortinas de fumaça, torturas, omissão por parte da mídia, mas também de luta contra o massacre que vem sofrendo o povo brasileiro. Miramos no realismo a partir de uma ótica pessimista.”

O disco foi produzido por Caio Alarcon e é o primeiro lançamento da 3Works, empresa idealizada pelo saxofonista do Bixiga 70, Cuca Ferreira, ao lado de seu compadre baixista, com quem toca no grupo de jazz punk Atønito, Ro Fonseca. “Faz muito tempo que conversamos sobre como de um tempo pra cá, a principal encrenca de um artista não é mais produzir um disco, isto está cada vez mais fácil, acessível e com qualidade cada vez melhor; a encrenca agora é lançar e fazer com que sua música chegue no público”, explica Cuca. “A maioria dos selos ainda coloca muita energia na produção, e depois que o disco é lançado, fica uma sensação de ‘e agora?’. E estamos montando a 3Works a partir da estrutura da Baticum, produtora de audio do Ro. Nem estamos chamando de selo, porque a ideia também é de trabalhar em conjunto com outros selos, focando na etapa de planejamento e lançamento. A quarentena de uma certa maneira catalisou as coisas. Nos impôs um tempo que antes não tínhamos e, principalmente, uma necessidade!”

E Cuca já antecipa os próximos trabalhos: o grupo Valentin, liderado por Julia Valiengo, e a banda Corte, com quem ele divide o palco com Alzira Espíndola, com os companheiros de Bixiga Daniel Gralha e Marcelo Dworecki e o baterista Nandinho Thomaz. “Nosso critério será sempre sons que a gente gosta. Nada técnico nem racional, só emocional”, resume.

mangalarga

O casal Julia Debasse e Rian Batista resolveu assumir a dupla musical que já vinham incubando desde que morava no Rio de Janeiro. Mas a mudança para Fortaleza, em 2016, acabou acelerando este processo e o baixista do grupo Cidadão Instigado finalmente lança seu primeiro trabalho autoral depois de ano tocando com alguns dos principais nomes da atual música brasileira. Assumindo o nome de Mangalarga (“A Julia ama cavalos e me chama assim”, ri Rian), os dois lançam o primeiro single, “A Merda Que Você Fez”, em primeira mão no Trabalho Sujo e contam, numa troca de emails, a história deste processo criativo.

“O grupo nasceu no Rio de Janeiro, mas só atingiu sua configuração atual aqui em Fortaleza”, começa a recapitular Júlia. “Eu e Rian começamos a compor de forma bem descompromissada em 2011 ou 12, pouco depois de nos casarmos. Nós juntamos essas canções novas com composições mais antigas e começamos a brincar de arranjá-las no computador, usando sintetizadores do Garage Band.” Morando no Rio, Rian fez alguns trabalhos para a Globo, enquanto seguia com o Cidadão Instigado e depois de anos tocando com a banda do trio Instituto, liderada pelo maestro Ganjaman. “Vi nascer artistas que estão hoje aí com carreiras consolidas: Céu, Criolo, Karina Buhr, Emicida, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata”, além de passar treze anos tocando com Otto e do Mockers. Júlia, por sua vez, já havia dividido um disco com outro Cidadão Instigado, o guitarrista Regis Damasceno, em seu projeto indie folk Mr. Spaceman, Work For Idle Hands To Do, mas trabalha em artes visuais.

“Foi só quando nos mudamos para Fortaleza, em 2016, finalmente admitimos que precisávamos de ajuda para transformar aquelas ideias embrionárias em algo mais concreto”, continua a vocalista. “Falamos com o Daniel Groove que super comprou a bronca e juntamos a banda que ja vinha acompanhado o Daniel em algumas produções e da qual o Rian fazia parte: o compositor e guitarrista Bruno Rafael na guitarra, Beto Gibbs na bateria/SP-10, Rian no baixo. A ideia é que a banda tenha dois vocalistas mesmo, então tem músicas que eu canto, enquanto em outras o Rian canta. Eu também toco guitarra e violão.”

“Em Fortaleza reencontrei o Daniel Groove, que me chamou para coproduzir alguns artistas da nova cena cearense, como Ilya e Nayra Costa”, segue Rian. “A Julia é compositora desde adolescente, fez algumas gravações muito nova, tocou no Rio, mas nunca chegou a lançar nada, mas jamais deixou de compor. Tanto que nós usamos músicas dela que ela fez antes mesmo de me conhecer.”

“A Merda Que Você Fez”, mesmo sendo uma das músicas mais antigas da dupla, foi escolhida por conversar com a época que estamos vivendo. “É uma canção que funciona em dois níveis, como canção de amor e como canção de protesto, ou pelo menos essa era a intenção da compositora”, ri Júlia. “Eu acho que também mostra bem ao que viemos no sentido de que é uma canção inegavelmente pop, dançante, mas que tem algumas esquisitices, algumas quinas, arestas – seja na letra, seja nas guitarras do Catatau.”

Sem planos em relação a um álbum, eles planejam mais um single para daqui uns meses, uma canção romântica escrita por Rian, embora já tenham material para um disco. Sem poder fazer shows por conta da quarentena, vão se dedicar a divulgar o trabalho online. “Vamos fazer lives, que é o que se faz agora. Temos dois pequenos contratempos, um de quase 3 anos e outro de 9, mas vai dar certo. Eles são bonitinhos!”, brincam.

Foto: Carolina Amorim (Divulgação)

Foto: Carolina Amorim (Divulgação)

Há quatro anos, Ava Rocha e Negro Leo foram para Bogotá participar de uma residência artística com o grupo Los Toscos, formado por músicos locais que se juntam para gravar músicas nascidas nestas experiências. O casal chegou na capital colombiana na época da votação do plebiscito que decidia pelo acordo de paz entre o governo e as Farc – e o clima político daquele país acabou contagiando o encontro musical. Ava, que morou entre os 14 e os 20 anos naquela cidade, pode reencontrar suas raízes musicais e gravar duas canções que compôs em espanhol, a animada “Lloraré Llorarás” e a meditativa “Caminando sobre Huesos”, que compõe um single que ela lança nesta sexta. Ela antecipa as duas faixas em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo.

Foto: Bruna Valença (Divulgação)

Foto: Bruna Valença (Divulgação)

“Tou começando a enlouquecer, tou esquecendo de me amar, meu coração vai endurecer ou me entortar”, canta o refrão da primeira música que o pernambucano Tagore mostra de seu próximo disco, o sucessor do ótimo Pineal, de 2016. Cada vez mais psicodélico, Tagore Suassuna também teve sua programação de lançamento afetada pela pandemia, o que lhe fez antecipar a ordem dos lançamentos, mostrando “Drama”, que gravou ao lado dos Boogarins, como primeira amostra do novo álbum. “Nutríamos há algum tempo a vontade de lançar um feat.e com a crise que estamos atravessando, resolvemos antecipar e inverter um pouco a ordem dos lançamentos, priorizando essa parceria com os Boogarins, com quem temos uma longe relação de carinho e admiração mútua”, ele explica, falando da música que lança em primeira mão no Trabalho Sujo. O single chega às plataformas digitais nesta sexta, mas já pode ser ouvido abaixo.

O novo álbum, que chama-se Maya, deverá ser lançado apenas no segundo semestre e foi produzido por Pupillo Oliveira, que também toca bateria no disco, composta em parceria com o guitarrista da banda goiana, Dinho Almeida. “’Drama’ é um grito no espelho, um pedido de ajuda ao seu próprio reflexo, em busca de forças pra encarar as desventurar da existência, entre elas, os desamores”, continua.

“Iniciamos o processo de gravação em maio de 2018, em São Paulo, logo após participarmos do SXSW e Lollapalooza em sequência”, ele continua contando sobre o disco e fala sobre sua convivência com a quarentena. “”Estou num sítio em uma montanha chamada Taquaritinga do Norte, interior pernambucano. Trouxe todo meu equipamento e estou aproveitando pra registrar material novo e me aprofundar nos estudos de mixagem e masterização. Estamos planejando estratégias alternativas para o lançamento do disco, focando principalmente no suporte visual, com sessions acústicas, mais cruas, clipes e ilustrações.”

Chromatics

Os Chromatics entraram numa onda intensa de lançamentos ao completar três singles apresentados em quatro meses e ainda pegaram todo mundo de surpresa ao anunciar que o terceiro deles, “Teacher”, faz parte da retomada do álbum Dear Tommy, que vinha sendo anunciado desde 2015 e desapareceu do radar da banda quando seu líder, Johnny Jewel, destruiu todas as cópias do disco que seria lançado em 2017.

Com o lançamento do novo single (o terceiro de 2020 depois de “Toy” e “Famous Monsters“), o grupo não apenas anuncia a volta ao velho projeto, como mostra a nova ordem das faixas e um texto que seu autor escreveu para apresentar o disco (que mais confunde que explica, mas esse é o jeito deles):

“A maçã obscurecida na névoa é enigmática & aberta à interpretação do espectador. Estamos afundando no desconhecido ou ascendendo do além-túmulo? Uma maçã por dia mantém o médico afastado & música é o remédio. Nossos professores transferem conhecimento do bem & do mal. Desde o conto de fadas do sono sem fim da Branca de Neve até o Jardim do Éden no livro de Gênesis, a exposição é o agente da mudança. A música é uma linguagem comunicada pelo artista, mas definida pela exposição do próprio ouvinte ao som durante toda a vida. Não posso mudar meu passado, mas posso optar por interromper o ciclo & não passar a maçã envenenada minha filha me deu para comer.”

Pelo visto a capa disco permanece sendo a maçã citada no texto (da imagem abaix) e a ordem das músicas vem logo a seguir:

teacher-chromatics

“Fresh Blood”
“Glitter”
“Never Tell”
“Just Like You”
“She Says”
“The Moment”
“Time Rider”
“White Fences”
“Teacher”
“Between The Lines”
“Too Late”
“Dear Tommy”
“Melodrama”
“Ultra Vivid”
“Colorblind”
“Sometimes”
“Dream Sequence”
“Endless Sleep”

Veloce

O trio de jazz punk Atønito, liderado pelo saxofonista Cuca Ferreira do Bixiga 70 era uma das atrações, ao lado de Thiago França, da #SextaTrabalhoSujo desta semana, quando aproveitariam o show no Estúdio Bixiga para mostrar mais uma das músicas para seu próximo álbum, Aqui. A pesada “Veloce” chega em primeira mão no Trabalho Sujo mesmo em tempos de clausura, mostrando uma São Paulo pré-epidemia, de cabeça para baixo. “Direto do confinamento, fomos surpreendidos por nosso próprio planejamento pré-quarentena”, explica Cuca. “‘Veloce’ é uma música que fala sobre o excesso de trabalho, excesso de correria, excesso de competição, excesso de cada um por si, ‘excesso de excessos’ que a vida nos impõe, ou pelo menos impunha, até que o mundo desse esse freio de arrumacão que estamos vivendo agora. Como a gente vem fazendo com esse disco, convidamos um artista pra fazer o clipe, sem dar nenhum direcionamento”. Edu Marin é artista gráfico e fez as fotos e as obras que ilustram cada single do disco e foi chamado para dirigir o clipe, além assinar a capa do single (acima), retirada de uma série chamada Simulacros da Memória Imperfeita. A direção de arte é da Ciça Goes.

Aqui teoricamente seria lançado em junho, mas Cuca não sabe como ficam as coisas com a situação atual que vivemos. Mas não baixa a cabeça: “Vamos em frente, sem chororô, e na torcida pela consciência coletiva e pela cura!”

thiagopethit-romeo

O cantor e compositor paulistano Thiago Pethit aproveitou a quarentena para lançar uma versão remix para o hit “Romeo”, carro-chefe de seu disco de 2014, Rock’n’Roll Sugar Darling. A nova versão da música composta por ele e com Helio Flanders vem com novo título e como “Romeo+” apresenta-se com arranjo de cordas e metais assinado por Augusto Passos e Diogo Strauz, este último o produtor de seu disco mais recente, Mal dos trópicos – Queda e ascensão de Orfeu da Consolação, lançado no ano passado. O novo arranjo cita “All Mine”, clássico do grupo inglês Portishead, ao mesmo tempo em que Thiago consagra a citação a “Girassóis de Van Gogh”, música do rapper baiano Baco Exu do Blues que já vinha cantando em seus shows. Ficou ótimo.

fefel2020

Não sei quem é o John e quem é o Paul dos Boogarins, mas com o single Fefel 2020, o grupo lança seu baixista Raphel Vaz como terceiro compositor e vocalista da banda goiana. E não é que o prefeito leva jeito? Ele conta como se encontrou:

Em uma dessas turnês, que acabava em Portland, me presenteei com um pequeno violão de nylon que desse pra carregar por aí. Apesar da sua pequenez, o violão ficou em Austin por dois anos, já que a bagagem extra que eu teria que pagar era mais cara que o violão.

Um ano depois me veio “Tanta Coragem”, num quarto de hotel onde eu dormia com Markola, tour manager e amigo gringo. Gravei os acordes e balbuciei melodias. Nesse dia meu inglês falhou em uma conversa com Mark e coloquei na letra o que eu tentava dizer pra mim mesmo. Voltamos pra Austin pra gravar, dessa vez em estúdio, as primeiras sessões do que seria pro Sombrou Dúvida e essa demo ficou no meu computador por uns dias. O ócio do artista que cultivávamos lá me permitiu acabá-la.

Já em 2018, ano das últimas seções do SD, Benke foi convidado para uma espécie de residência artística por 10 dias em Berlin e de lá trouxe um presente para cada um dos Boogarins restantes. Discos de vinil para Ynaiã, um livro para Dinho e uma Kalimba de 4 notas para mim. Era a primeira viagem que ele fez sem a gente, da qual voltou visivelmente abalado. Ao me entregar o presente ele encomendou uma música. “Inocência” é a encomenda, um loop de 2 acordes do violão pequeno, onde a kalimba e a melodia fazem a função de separar as partes da música. Uma canção lúdica e singela.

Mostrei a música e meus amigos choraram muito, disseram que a banda não iria gravar aquela demo nunca. Benke me disse que tinha muitos planos pra me ajudar a realizar meu sonho, que é o sonho de ser importante. Este ano meus amigos acharam que era o meu ano, 2020, o ano em que faço 30 e meu cabelo cai.