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Não sabemos muito sobre o próximo disco de Weyes Blood, fora o fato de que ele já está pronto e que encerra uma trilogia inaugurada com o deslumbrante Titanic Rising (de 2019) e que seguiu com o calor emocional de And in the Darkness, Hearts Aglow (de 2022). Não sabemos de título, se há participações, data de lançamento, se sairá este ano ou no próximo, mas a própria Natalie Mering adiantou duas pistas gigantes ao apresentar-se no festival de música erudita inglês BBC Proms ao lado da orquestra de Jules Buckley no célebre Royal Albert Hall e mostrou duas músicas novíssimas: a balada folk “Good Lovers” e “Modern Dreams”, que apesar de começar triunfante, torna-se melancólica do meio para o fim, Ambas são da mesma natureza romântica das canções dos dois discos anteriores de Mering, embora cada uma carregue seu próprio universo musical – e estas versões, que podem ser ouvidas abaixo, foram gravadas com a orquestra com quem ela tocou na semana passada e não necessariamente vão soar assim no disco.

Ouça as duas abaixo: Continue

Corre pro estádio do Palmeiras que o Jamiroquai voltou pro Brasil depois de quinze anos sem pisar por aqui – e como nunca tinha visto um show dos caras, lá estava debaixo da chuva vê-los puxar um bailão daqueles que, mesmo com o mesmíssimo repertório de todos os shows (incluindo apenas “High Times”, que não tocavam desde 2018), não deixou ninguém parado. A empolgação da banda segue precisa, com músicos esmerilhando seus instrumentos (em especial o tecladista Matt Johnson e o baixista Paul Turner, todos da segunda fase da banda, além do percussionista brasileiro Fabio de Oliveira, que entrou no ano passado e teve seu momento “terrinha” por sugestão dos companheiros de grupo) e esticando cada música vários minutos além da duração original, mas o holofote obviamente cai sobre o vocalista Jay Kay que conta com os mesmos pique, disposição e elasticidade do início de carreira – além da voz intacta, trocas de figurino e dancinhas que contagiavam o público, ele ainda autografou várias capas de discos entregue pelos fãs (inclusive enquanto cantava!). O foco da banda ficou em seu disco de 1996 (Traveling Without Moving), passando por números dos discos de 2001 (A Funk Odyssey) e 2005 (Dynamite), além de passagens por músicas únicas do disco Synkronized e The Return of the Space Cowboy. Antes de encerrar o show – sem bis – com um versão mais sossegada de “Virtual Insanity”, o vocalista aproveitou o momento para falar sobre a crise política que o mundo atravessa hoje, comentando sobre como a canção parece ser mais sobre os dias atuais do que sobre a época em que foi escrita, no meio dos anos 90. Mas o mesmo pode ser dito sobre a própria banda, que fez todo mundo se esbaldar de dançar e, mesmo que o estádio estivesse longe de estar cheio, a empolgação era a regra.

#jamiroquai #nubankparque #trabalhosujo2026shows 216

Tom Zé é patrimônio nacional. Não importa que o gênio quase nonagenário esqueça trechos das próprias letras, confunda a própria banda, arraste-se em longos devaneios sem rumo, esqueça-se onde está ou queira ir embora pra casa antes da hora. Seu valor pra nossa cultura é inestimável justamente por isso: ele nunca se conformou, nunca se ajoelhou pra quem paga a conta, nunca fez concessões, nem se autocensurou por motivo algum. Sempre fez o que e como quis e, como todos que embarcam nessa aventura no Brasil, pagou um preço por isso. Mas mesmo assim sua energia vital é emblemática e está no palco, um de seus principais lares e centro de comunhão com o público. E assim ele esteve em sua apresentação no Auditório Simon Bolívar do Memorial da América Latina neste domingo, dentro do palco paralelo do festival Coala, que acontecia lá fora e, justamente por isso, demorou para encher, com o público entrando até a metade do show. Acompanhado da banda que o segue desde a volta da pandemia (o guitarrista Daniel Maia, a tecladista e vocalista Cristina Carneiro, o baixista Felipe Alves, o baterista Fábio Alves e a vocalista Andreia Dias), ele seguiu o roteiro até o que seria a metade do show, quando anunciou que iria embora e retornou algumas vezes à pitoresca canção que compôs em homenagem ao marsupial que batiza o evento de MPB (diferente da música que fez recentemente sobre a Casa de Francisca, que celebra o local), antes de passar por seus inevitáveis hits – “Tô”, “Hein”, “Menina Amanhã de Manhã” e “Augusta, Angélica e Consolação” – e desandar a conversar sobre qualquer coisa com os dois lados da plateia do auditório. E o público foi entregue ao Tom Zé bruto, sem filtros, intenso e autêntico como poucos artistas brasileiros conseguem ser – e é um privilégio gigantesco poder vê-lo assim, às vésperas de completar 90 anos. Não existe ninguém como Tom Zé.

#tomze #auditoriosimonbolivar #memorialdaamericalatina #trabalhosujo2026shows 215

O Violeta de Outono voltou mais uma vez ao palco do Sesc Pompeia e a seu disco de estreia ao mesmo tempo, quando, neste sábado, o trio revisitou, com sua formação clássica, o disco homônimo desta banda única na história do rock progressivo. Nascido numa época em que o gênero estava fora de moda, o grupo liderado pelo guitarrista e vocalista Fabio Golfetti absorvia influências do pós-punk dos anos 80 e da psicodelia dos anos 60 numa época em que o gênero musical mais ouvido no Brasil era docilmente chamado de pop rock. O Violeta surgiu quando a cena musical paulistana começou a responder ao rock ensolarado, adolescente, risonho e praiano que começou a ser feito no Rio de Janeiro no início dos anos 80. O trio – cuja formação no show era a clássica com o baixista Angelo Pastorello e o baterista Claudio Souza, além de contar com o filho de Fabio, Gabriel Golfetti nos teclados e vocais em algumas músicas – surgiu ao mesmo tempo em que bandas como RPM, Titãs, Ira!, Ultraje a Rigor e toda a geração que nasceu em discos da Baratos Afins e trouxe elementos inexistentes no rock daquele período, como o pessimismo, a sensação de fim de mundo, o ar noturno e guitarras pesadas, ecoando artistas ingleses da mesma época. E assim o Violeta trouxe mais uma vez para o palco do Sesc Pompeia sua psicodelia melancólica, com solos de guitarra melífluos e dramáticos, letras introspectivas e existencialistas, baixos cavalgados e bateria metronômica. Para expandir a duração do show para além da meia hora do disco original, o grupo de Golfetti optou por versões de músicas alheias, tocando pela primeira vez ao vivo a versão que fizeram para a música “Jesus Come Back to Earth” de Arnaldo Baptista e duas músicas do primeiro disco do Pink Floyd, “Chapter 24” (que entrará em um disco inglês feito em tributo ao fundador do grupo, Syd Barrett) e “Astronome Domine”, que encerrou a apresentação no final do bis – além de tocar sua já clássica versão para “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles, que encerra o álbum e encerrou a primeira parte do show. Que banda!

#violetadeoutono #sescpompeia #trabalhosujo2026shows 214

O Inferninho Trabalho Sujo desta sexta-feira começou com um pé no pós-punk e outro na eletrônica, quando Leo Stroka trouxe seu Real No Ficción pela primeira vez para o palco da festa, que aconteceu no Picles. O clima gótico apocalíptico tiinha timbres sintéticos oitentista e um excelente jogo de guitarras, quando João Manoel e Rapha Carapia traziam referências de rock progressivo nos anos 80, noise, punk-funk e rock lisérgico, uma mistura aparentemente contraditória que funcionava de forma impressionante, deixando aquele clima dark wave perfeito para as canções ao mesmo tempo lúgubres e dançantes de Leo, que disparava bases eletrônicas enquanto cantava com seu vocal grave e distorcido, tudo sobre a bateria precisa de João Pedro Dentello.

Depois foi a vez de GG di Martino fazer seu show de despedida do Brasil, trazendo suas referências sessentistas e setentistas com um rock enxuto e de forte influência nova-iorquina, que passeava pela Factory de Andy Warhol, o Max’s Kansas City e ao CBGB’s, ecoando glam rock, protopunk e punk clássico, com o vocalista deixando sua verve classuda à flor da pele, enquanto era acompanhado por dois integrantes da apresentação anterior, com o Raphael Carapia deixando sua guitarra sessentista abraçar as referências de Detroit (como Stooges, MC5 e Alice Cooper – os dois primeiros citados literalmente durante a apresentação), enquanto João Manoel, guitarrista do Real No Ficcion, assumia a bateria com a pressão rock exigida por aquele tipo de apresentação, que ainda contava com a presença sutil mas decisiva da baixista Fernanda Minillo. “Ouçam Velvet Underground!”, disse GG ao final da apresentação, como um último conselho antes de sair do Brasil.

#inferninhotrabalhosujo #ggmartino #realnoficcion #picles #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2026shows 212 e 213

Começando setembro com mais um Inferninho Trabalho Sujo à vista, desta vez no Picles, quando reúno, na próxima sexta, dia 11 de setembro, a nova banda do GG Martino – sua No Wall Noise Band – e o projeto Real No Ficción, ambos trabalhando rock pesado, pós-punk e dance music na mesma medida, enquanto eu e a Bamboloki mais uma vez nos reencontramos praquele set desmedido que há tempo não fazíamos. Quem pegar o ingresso online e chegar antes das 21h30 não paga pra entrar. Vamos nessa!

Dois dos principais hypes das cenas musicais paulistana e carioca se encontraram nesta quinta-feira na Casa Natura Musical, quando o Vera Fischer Era Clubber dividiu a noite com o Nigéria Futebol Clube. O trio de Itaquaquecetuba abriu os trabalhos em seu modo freestyle e em vez de trazer o rastro pós-punk de seu disco de estreia ou os devaneios jazzísticos de seu próximo álbum, preferiu transformar sua apresentação em instalação performática usando a música mais como fio condutor do que fim em si mesma. Assim abriram a noite para vários compadres e camaradas, que se espalharam do palco para o público durante um longo improviso instrumental que resvalava tanto no lado mais rock e punk do grupo quanto em seus devaneios psicodélicos, mas sem distinguir uma canção da outra ou um gênero do outro. Quem nunca tinha visto a banda não deve ter entendido nada (e esse parecia ser o propósito), mas seu público embarcou na viagem e em vários momentos abriram rodas de dança no meio do público.

Depois do caos do Nigéria foi a vez do quarteto carioca Vera Fischer Era Clubber despedir-se de seu primeiro disco – chamado apenas Veras I -, que, confesso, não me bateu. Mas é muito comum, especialmente em discos de estreia, que o resultado fonográfico não alcance o impacto do show e esta foi minha principal motivação para ir a esta apresentação. E valeu demais. Ao vivo, os Veras têm muito mais impacto sonoro do que em disco, sem contar o carisma irrefreável de sua frontwoman Crystal Duarte, metralhadora verborrágica que, mesmo à distância, parece enfiar o dedo na cara de cada presente, de tanta intensidade. Ao seu lado, a baixista Malu é um colosso pós-punk e carrega o volume do grupo como uma Peter Hook em transe, com baixos cavalares, sempre acompanhada das texturas oitentistas dos teclados e synths de Vick Luz e dos beats insanos de Pek0, trazendo a coesão de uma banda de rock para um projeto eletrônico que, à primeira audição, parece brincadeira, mas que no palco torna-se uma terapia catártica para toda uma geração – e por mais que Crystal seja o epicentro deste magnetismo, ela vem sobre os ombros instrumentais de suas três colegas de banda. Às vésperas do lançamento do segundo disco, chamado, curto e grosso, de Veras II (à la Led Zeppelin), o conjunto tem tudo para surfar uma onda ainda maior que a do primeiro lançamento. Tomara que tenham conseguido capturar este impacto ao vivo neste segundo volume.

#nigeriafutebolclube #verafischereraclubber #casanaturamusical #trabalhosujo2026shows 210 e 211

Como parte do final da programação do BBC Proms – festival de música erudita organizado pela rádio estatal inglesa durante o verão -, o maestro inglês Jules Buckley e sua orquestra (que já tocou com Florence + The Machine, St. Vincent e outros artistas pop) voltaram à programação do evento nesta terça-feira, convidando nossa querida Natalie Mering – a Weyes Blood – para fazer uma apresentação conjunta, em que a cantora norte-americana levou suas composições – incluindo inéditas de seu próximo álbum – ao patamar orquestral. E ficou de chorar, ouça abaixo: Continue

Prazer e gozo

E corre pra Casa de Francisca pra pegar o aniversário de 69 anos da maga Alzira E, comemorados numa festa inacreditável em que seu repertório foi revisto por algumas de suas pessoas mais queridas, com a própria Alzira assistindo tudo na frente do palco. A festa começou com “Nosso Presente” cantada por Gustavo Galo, que já deixou a banda que acompanharia os outros intérpretes (Chicão Montorfona e a cozinha da banda Corte da própria Alzira, com o bixiga 70 Marcelo Dworecki no baixo e Fernando Thomaz na bateria), em ponto de bala. Depois a filha de Alzira Luz Marina subiu com Lucinha Turnbull para tocar “Já Sei” com o próprio Galo, Curumin hipnotizou o público esticando as vogais de “Beijos Longos”, Tulipa e Gustavo Ruiz continuaram apimentados com “Ladainha”, Negro Leo seguiu com “Itamar É”. O clima familiar ficou ainda mais intenso à entrada irmã Tetê Espíndola, que veio arrasando com “Rio Vermelho”, a filha Iara Rennó, que subiu com Ava Rocha para cantar “Mulher O Suficiente” e a noite ainda teve participações do filho Joy Espíndola, Peri Pane e chegou ao ápice quando o saxofonista Cuca Oliveira e o trompetista Daniel Gralha subiram ao palco com a própria Alzira e seu baixo elétrico, fechando a formação de sua banda Corte, para tocar uma música inédita, a composição mais recente feita pela aniversariante, que estava esfuziante com a noite. Dali pra frente, o Corte seguiu incendiando tudo com direito a todo mundo subindo no palco numa grande catarse ao final, sublinhada pela fala da própria Alzira ao final: “Pra mim é só prazer e gozo”. Evoé!

#alzirae #casadefrancisca #trabalhosujo2026shows 209

O Gueersh mostrou que é uma das principais novas bandas brasileiras nesta terça-feira no Centro da Terra, quando, no espetáculo Coletivas Mãos, apresentou na íntegra seu próximo álbum, Macarrão de Guerrilha, que deve ser lançado ainda neste mês. Tocando entre tecidos presos no teto do palco em que imagens misturadas em retroprojetores cobriam a banda fluminense, a banda começou a noite com seus cinco integrantes ao piano, cada um tocando um acorde por vez, criando uma linha melódica que foi aos poucos sendo distorcida pelo produtor do disco, o guitarrista Eduardo Manso, convidado desta apresentação, que, num synth, levava aquela melodia repetitiva para outras galáxias, funcionando como uma boa amostra do que veríamos a seguir. E assim, Lívia Gomes (voz e sintetizadores), David Dinucci (guitarra), Guilherme Paz (guitarra, voz, percussão, violão, sintetizador), Thomaz Alves (baixo) e Igor Arruda (bateria) passearam pelas seis faixas do novo disco, esticando-as em improvisos sônicos entre a microfonia, o groove motorik, a canção, riffs desconstruídos de guitarras e distorções eletrônicas, sempre com a sombra do Velvet Underground pairando sobre o palco. De tirar o fôlego!

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