
Só falta a confirmação oficial, mas tudo indica que o Cure fechou sua passagem pela América do Sul com direito a dois shows no Brasil em abril. Assim, as datas da banda de Robert Smith (que promete shows com mais de três horas) pelo nosso continente ficam assim:
4 – Rio de Janeiro, HSBC Arena
6 – São Paulo, Morumbi
9 – Assunção, Jockey Club
12 – Buenos Aires, River Plate
14 – Santiago, Estádio Nacional
17 – Lima, Estádio Nacional
19 – Bogotá, Parque Simon Bolivar
Teoricamente os ingressos começam a ser vendidos já no mês que vem. Alguém anima acompamhar a banda em turnê?
E aí, já decidiu se vai viajar pra gringa ainda nesse semestre?

As duas opções parecem semelhantes, mas vale ver nas letrinhas miúdas…

E na trilha sonora do documentário Cure For Pain – The Mark Sandman Story (veja o trailer abaixo) a faixa “Brazil” traz uma canção cantada em português em que ele fala sobre o nosso país e o que aprendeu no Rio de Janeiro. Ele foi líder do Morphine, uma das bandas mais foda dos anos 90 (embora completamente alheia à cena barulhenta da época), que contava com um saxofonista (que muitas vezes tocava dois saxes ao mesmo tempo), um baterista e o próprio Sandman, balbuciando palavras com sua voz grave enquanto tocava um baixo com duas cordas. “Low rock”, rotulava o próprio grupo, que só terminou porque Sandman sofreu um ataque cardíaco fulminante em pleno palco durante um show em Roma, em julho de 1999. Uma das histórias mais peculiares daquela época.
Dica do Bela.

A faixa que apresentou o trabalho solo deste hipster sudanês (guitarrista no Brooklyn nova-iorquino, já tocou com Of Montreal, Caribou, Yeasayer e Born Ruffians) ainda é seu principal trunfo – um delírio sossegado e groovy, com molhos afro, funk 70, indie e chillwave, esperando o Toro y Moi na ponta de lá da ponte que ele iniciou no EP Freaking Out.
(E nesta versão ao vivo abaixo, então…)

A expectativa em relação ao segundo disco do Xx pode ter estragado seu impacto – quando a bela “Angels” deu as caras pela primeira vez, já anunciada como a primeira faixa do novo disco, esperava-se um vôo ainda mais ousado que o do primeiro disco, levando as texturas dubstep que davam o tom da banda – junto com o R&B noventista e a dinâmica vocal indie – para um novo patamar. Coexist, no entanto, frustrou as melhores esperança e mostrou-se um disco apenas correto, quase uma sobra de músicas que não puderam entrar no álbum de estréia. A exceção ficou por conta da tensa e bucólica Tides, que realmente leva a fórmula criada pelo grupo inglês para outro nível.

Uma música de Jorge du Peixe liberta de vez Céu ao final de seu terceiro disco, mostrando que a viagem andarilha pelo deserto que se dispôs em seu Caravana Sereia Bloom tem um inevitável lado pernambucano – que, em vez de bater os tambores do mangue beat, prefere deslizar pelo calor da paquera.

A inesperada volta de Bobby Womack trouxe a ainda mais inusitada parceria com Lana Del Rey, em “Dayglo Reflection”. E o blue beat que transforma a canção num híbrido de soul elemental com balada dubstep funciona como cenário tanto para a introspecção gospel do vocal emotivo do velho Bobby como para o tom gélido e fatal do timbre da jovem Lana. O resultado, que soa indigesto à primeira vista, torna-se um envolvente lamento que transcende idade, gênero, raça.
(E com o Damon Albarn acompanhando então… A música entra a partir dos quatro minutos no vídeo abaixo.)

A outra música que o Blur lançou em 2012 (além de “The Puritan“) alia duas qualidades da banda a uma de seu líder, Damon Albarn. Ela entra no rol de baladas sobre o cotidiano, lentas incursões introspectivas criadas ao piano que talvez sejam melhores que os hits instantâneos que a própria banda nos faz puxar pela memória, além do papel de cronista londrino, que descreve ruas, bairros, estradas, pessoas naquela obrigação de registrar uma história que não aparece nas manchetes de jornais – justamente por ser mais comezinha e fútil, corriqueira e mundana. Amarrando duas tradições do Blur à própria plural carreira solo, Damon Albarn prefere deixar sua primeira banda como principal veículo de comunicação com seu público, no mesmo ano em que lançou uma ópera sobre um conselheiro real do século 17 e um disco com o Flea e o Tony Allen (o trio que compôs minha música favorita de 2011). Não por acaso o Blur – que está longe do fim – foi uma das principais atrações durante os jogos olímpicos deste ano, realizados em Londres. E “Under the Westway” ainda tem a aceitação da maturidade, a consciência do reduto que é o saudosismo, uma melancolia inglesa rara (principalmente em tempos em que o pop da ilha é composto por dubstep, rockinhos de pista e bandas velhas voltando a todo minuto) que só encontra eco em extremos, como o do Xx ou o do Radiohead. Aqui, o sentimento é trivial como uma música que toca no rádio – algo que também é cada vez mais raro, ainda mais vindo de uma banda de rock.
Não há como não admirar a redescoberta da música africana que vem acontecendo no centro da música paulistana atual, reunindo talentos e novas celebridades ao redor da pluralidade polirrítmica e da harmonia tranversal da musicalidade do continente negro. É graças a esse não tão súbito interesse por diferentes aspectos de uma arte continental que personalidades como Kiko Dinucci (um dos maiores guitarristas do Brasil atualmente), Thiago França, Marcelo Cabral, Samba Sam e Wellington Moreira podem se encontrar em um projeto como o Sambanzo, nome que batiza o grupo (e que grupo!) liderado pelo sax endiabrado de Thiago. Mas “Capadócia” tem algo que transcende a Etiópia que dá nome ao álbum, o continente e vai encontrar parentesco na new wave dos Talking Heads, justamente em seu período caribenho, entre Fear of Music e o clássico show em Roma, em 1980. Culpa de Kiko, indie em pele de tribalista, que sabe muito bem o ponto em que o pós-punk converge com todo tipo de ritmo. E a cozinha, cubista e espacial, acompanha tudo de perto, escolhendo pontualmente os silêncios da faixa. Um clássico instantâneo.
Quem achava que o Bonde do Rolê nem chegaria ao segundo disco (como eu), deve ter se espantado (como me espantei) quando ouviu a versão anglófona do trio curitibano para “Baby Doll de Nylon”, do Robertinho do Recife. Contando com o auxílio luxuoso dos Poolside (grande nome deste ano) e de Caetano Veloso, verteram o xaveco pernambucano em um carimbó indie praiano, “Baby Don’t Deny It” faz muito sentido em um planeta que fica mais quente a cada segundo e dentro do bem sucedido TropicalBacanal, um disco que dá uma sobrevida improvável à existência do Bonde.

