“Existe uma cena incrível na música brasileira que não é acolhida pelos canais tradicionais e que acaba ocupando um espaço menor do que merece”, esse foi o ponto de partida do Coala Festival, que chega à sua terceira edição neste sábado (mais informações aqui), de acordo com um de seus criadores, o publicitário Gabriel Junqueira de Andrade. Dedicado essencialmente à música brasileira, o festival também tem a intenção de fazer a ponte entre a cena independente e o grande mercado, e depois de ter nomes como Criolo, Bixiga 70, Otto, Marcelo D2, Mustache e os Apaches, Selton, Tom Zé, O Terno, Trupe Chá de Boldo, Saulo Duarte e a Unidade, Charlie e Os Marretas e 5 a Seco agora reúne Céu, BaianaSystem, Karol Conká, Marcelo Camelo e Cícero juntos e Silva entre suas principais atrações.
“Eu vejo uma cena muito rica, muito plural, com diversas bandas incríveis, mas que ainda precisa amadurecer para conquistar seu devido espaço”, continua Gabriel. “As produções independentes estão cada vez mais profissionais, existem diversas iniciativas de marcas, produtores e das próprias bandas em todo o país, mas essa cena ainda não desperta a curiosidade de quem não tem uma ligação forte com música. O público, em sua maioria, é passivo; ele ouve/acompanha o que chega a seus ouvidos com frequência e falta um canal voltado para essa cena que consiga fazer isso; talvez nunca exista nos moldes que conhecemos hoje. Por outro lado, com a internet/redes sociais/plataformas de streaming, a dependência dos canais tradicionais diminuiu muito e hoje temos bandas que não tocam na rádio, que não vão no Faustão e que têm um público grande e lotam casas de show. A consciência de que para se manter e crescer você precisa trabalhar para criar um público é fundamental.” Para isso, essa edição do festival contou com a cocuradoria do jornalista e produtor Marcus Preto, que também é um ferrenho defensor da conquista deste espaço entre o mercado de massas e a cena de pequena escala. Também conversei com ele sobre as escolhas para a edição deste ano e como elas refletem o estado atual – um impasse, segundo Preto – da música brasileira.
Como foi pensada a curadoria deste ano?
Quando os meninos me convidaram pra fazer parte da curadoria, pensei que o festival precisava ter um show que só fosse acontecer ali. Algo inédito. Veio daí a ideia de juntar Cícero e Marcelo Camelo. Era bem o que eu imaginava: um encontro que, embora ainda não houvesse acontecido, parecesse absolutamente inevitável por ligar duas pontas. Cícero é um artista da nova geração que vem da linhagem Chico-Caetano-Camelo. O público dele gosta desses artistas. E, além do mais, a relação de ambos já existia. Camelo ajudou na feitura do segundo álbum do Cícero, Sábado, de 2013, dando ideias e tocando instrumentos. Mas eles nunca cantaram juntos, nem em estúdio. Acho que esse encontro acabou por se tornar o coração da edição 2016 do Coala, vamos ver como ele se dará na hora. Os outros shows seguiram o mesmo norte, com a canção no centro de tudo. O Silva, que eu acho um dos artistas mais promissores dessa geração, tem muito disso. Lila e Céu também. Mais para o final, como de costume, ficaram os dois shows mais dançantes, BaianaSystem e Karol Conká. Várias meninas no line up. Achei que deu a maior liga.
Como a escalação reflete a atual cena musical brasileira?
Ela reflete algumas das muitas cenas existentes atualmente no Brasil. Fui curador na Virada Cultural por dois anos. E, lá, ficou mais clara do que nunca pra mim a variedade de cenas interessantes, de caminhos de curadoria possíveis, de encadeamentos bonitos de shows. O que o Coala tem de mais precioso é esse foco no médio porte. Ele não é um festival de mainstream, não é um espaço que vá abrigar o show da Anitta, por exemplo – que é ótima, mas circula em outra esfera e pra outro perfil de público. O Coala é uma ponte entre esse lugar gigante da Anitta e a cena independente. Fazemos a festa em cima da ponte.
Como você avalia o atual estágio da cena independente brasileira?
De novo, são muitas as cenas independentes brasileiras. Sempre houve o pessoal do rock, por exemplo, que segue como uma cena que se sustenta sozinha, que se banca, mesmo invisível pra o resto do mundo. Há outras assim. Mas eu imagino, por nossas conversas anteriores, que, quando você fala em “cena independente brasileira”, esteja falando da cena que se criou a partir do final da década passada e começo dessa, seguindo de maneira muito particular o fluxo conceitual do que chamávamos antigamente de MPB.
Sobre essa cena específica – ela é a que mais me interessa, aliás -, posso dizer que estamos em um momento muito diferente daquele em que ela surgiu, há sete, seis, cinco anos. Àquela altura, o foco era criar uma cena interessante, fomentar uma – ou várias – estéticas, evidenciar artistas, mostrar que as minas e os manos dos 2000 também sabiam fazer música relevante. Tudo isso foi feito. Hoje, no entanto, o foco principal tem que ser outro: o público. Seduzir o cara que vai pagar seu ingresso é algo urgente pra que esse artista revela ali siga trabalhando.
Qualquer um que olhe a cena hoje entende que há muito talento espalhado nela. Mas talento é só 30% do que é necessário pra um artista, ou pra uma cena, seguir adiante. Já vi muita gente ultratalentosa morrer na praia, enrolada em questões estritamente musicais. E sinto que parte da cena de 2010 está se perdendo nisso, com medo ou vergonha de entender os mecanismos que a fariam se comunicar com mais gente. É preciso haver um pensamento mais estratégico. O artista tem que olhar pra o agora, pra o público do tempo presente, e não se perder fazendo música apenas pra o espelho.
Poucos artistas da cena 2010 conquistaram as duas coisas, relevância artística e público. Criolo é, de longe, o mais bem sucedido nisso. Marcelo Jeneci e Tulipa estão chegando perto. E Emicida, mais pela via do rap do que pelo que o Criolo tem de MPB – e atraiu todo mundo logo de cara. Do Rio, Clarice Falcão e Cícero também lotam shows relativamente grandes. Silva, vindo de Vitória, é outro que cresce em progressão geométrica. Quem mais? Pouca gente.
Esse espaço enorme entre o indie e o mainstream precisa ser ocupado de novo. O público adulto de classe média que ouvia de Tom Jobim a Tim Maia se desinteressou por música desde que a música deixou de ser feita pra eles. E migrou pro Netflix. Queremos esses caras de volta. Só quem ainda faz esse público sair da frente da TV são os veteranos: Caetano e Gil ainda lotam, Gal, Bethânia, Milton, Marisa Monte, Chico Buarque. Mas é interessante lembrar que, há 20 anos, uma artista então nova como a Adriana Calcanhotto no terceiro disco tinha o mesmo público que esses caras todos – inclusive porque quem se interessava pela música deles tinha tudo pra se interessar pela dela. É esse público que tem que ser conquistado pela cena dos 2010.
É esse espaço que o Colara veio ocupar. Temos que ir pra cima deles. E eu me incluo nisso não apenas como curador ou produtor musical, pois sei que, havendo uma cena forte, não é só a música que ganha, mas também o jornalismo – onde atuo -, o cinema, a fábrica de camisetas, o mercado de livros, todo mundo. Se a música não retomar contato com esse público médio, está com os dias contados.
Ah, vale lembrar que o mainstream continua ativo, mesmo com suas quedas: os sertanejos ainda fazem shows grandes, o axé continua sendo consumido etc. É uma cena que existe e sempre vai existir. E, falando nela, gosto muito dos casos da Tiê e do Tiago Iorc, que pularam do indie diretamente pro mainstreaim, tocando no rádio sem parar – no caso dela -, lotando casas gigantescas – no caso dele – e falando com o público da Anitta e da Sandy.
Por fim, não estou dizendo com isso que o indie tem que acabar. Nunca. Ele é e sempre será o melhor lugar pra quem está começando encontrar o melhor caminho. E também o único possível pra os artistas que fazem música mais experimental. É assim desde sempre. O mais importante é que cada artista entenda seu lugar nesse ecossistema e ocupe plenamente o próprio espaço, seja no indie, no mainstream ou ali, ao lado do Criolo, no lugar que precisa ser ocupado imediatamente por muitos outros artistas. Só assim a música volta a ter a importância que um dia teve na vida das pessoas.
Há quatro sem lançar disco novo, o clássico grupo de jazz contemporâneo paulistano Hurtmold volta à ativa este mês, quando lançam o disco que compuseram ao lado do multiinstrumentista Paulo Santos, um dos integrantes do mítico grupo instrumental mineiro Uakti. Curado, cuja capa você vê pela primeira vez aqui no Trabalho Sujo, será lançado em um show no dia 16 deste mês, às 21h, no teatro do Sesc Belenzinho.
“Os processos artísticos foram bem diferentes”, explica o guitarrista Mario Cappi, falando sobre o disco e a capa, que, como todas as capas do grupo, é de sua autoria. “Pra gravação do disco, nós já havíamos preestabelecido algumas coisas. O Hurtmold meio que se trancou numa sala de ensaio na Pompeia pra compor, houve um comportamento prévio. O Paulinho também, lá em BH, havia composto algumas coisas. Conversávamos bastante com ele por e-mail sobre estruturas, tempo, mudanças e aberturas… Tentamos não fechar as ideias totalmente antes da entrada em estúdio. Pra todo mundo, era clara a importância de um espaço pra criar simultâneo à gravação.”
“O lance com as ilustrações foi outro”, continua. “Eu comecei de maneira aleatória a desenhar enquanto estava nas minhas folgas durante as gravações. Nesses momentos, sempre havia alguém gravando ou escutando o que havia gravado. Quando percebi que existia um padrão nos traços, decidi seguir desenhando enquanto ouvia as gravações do dia. Ali no estúdio os traços traduziram, de certa forma, a intensidade e a estética que aquelas músicas possuem.”
“Olhando agora, meses depois, vejo que a sonoridade das músicas e as ilustrações continuam num diálogo interessante”, explica o guitarrista. “São imprevisíveis, insinuam várias possibilidades de compreensão. Estou trabalhando bastante com pinturas e ilustrações abstratas, portanto, essa arte é bem diferente das demais do Hurtmold. Mas acho isso bom, porque musicalmente esse disco também é diferente dos anteriores.”
O grupo apresentou algumas das músicas novas em seu show no festival Fora da Casinha, que aconteceu no mês passado. Consegui filmar todo o show, assista:
Mas o show do dia 16 é com o próprio Paulo Santos. Promete.
Escrevi lá no meu blog no UOL sobre como Seu Jorge reencarnará seu personagem do filme de Wes Anderson A Vida Marinha com Steve Zissou para fazer uma turnê pelos Estados Unidos e Canadá tocando David Bowie.
Sensacional essa apresentação dos Mutantes cantando “Caminhante Noturno” apenas como um trio, em 1969, no Teatro Villaret, em Lisboa, em Portugal.
Que tal mais um show da incrível turnê que o Radiohead tem feito esse ano? Esse aconteceu no festival Outside Lands, que rolou no Golden Gate Park, em São Francisco, nos EUA, no dia 6 deste mês.
Bem que podiam trazer os caras pro Brasil… Olha o setlist:
“Burn the Witch”
“Daydreaming”
“Ful Stop”
“2 + 2 = 5”
“Bodysnatchers”
“Climbing Up the Walls”
“Exit Music (for a Film)”
“Bloom”
“Lotus Flower”
“Pyramid Song”
“Identikit”
“The Numbers”
“The Gloaming”
“Weird Fishes/Arpeggi”
“Everything in Its Right Place”
“Idioteque”
“There There”
Bis
“Let Down”
“Present Tense”
“Nude”
“Paranoid Android”
“Karma Police”
No meio do show de despedida que o Pin Ups armou no final do ano passado, a banda paulistana percebeu que aquele não poderia ser sua última apresentação. “Último show… em São Paulo”, corrigiu a baixista Alê, já pensando nas outras cidades em que aquele show poderia se repetir. Com anos a mais de estrada, todos estavam tocando melhor do que no auge da banda, matar a saudade no palco traduziu-se como entrosamento quase cossanguíneo e eles estavam tocando emum equipamento (o do Sesc Pompeia) muito superior do que a grande maioria dos que tiveram que usar em sua carreira. Mas o principal motivo da indecisão sobre aquele ser o último show foi emocional: além da entrega da banda, o público – mais jovem do que eles esperavam – recebeu o ícone ancestral do indie brasileiro de braços abertos.
Aí o que seria o ponto final da banda evoluiu para alguns shows em cidades que o grupo já havia tocado, incorporando Adriano Cintra como quarto pin up no lugar da integrante original Eliane (que hoje mora na Inglaterra), mas logo eles estavam falando em compor músicas novas, em relançar os discos antigos digitalmente e em vinil e resolveram assumir que estavam de volta. Prevendo disco novo no início do ano que vem, o grupo está armando a volta em grande estilo ainda para esse semestre. Conversei com o guitarrista Zé Antônio sobre os próximos passos da banda renascida.
O fim e a volta
A entrada de Adriano
Indie Brasil: ontem e hoje
O relançamento da discografia
E a Eliane?
Shows?
Max de Castro resolveu celebrar a obra de Prince ao lado de uma das bandas do mestre púrpura – a New Power Generation que ele montou para acompanhá-lo no iníco dos anos 90 – e trouxe-a para o Brasil para um único show nessa sexta-feira no Cine Joia (mais informações aqui). No repertório, a banda irá privilegiar os hits do mestre que morreu este ano, inclusive músicas de outras fases de sua carreira. Tenho um par de ingressos para sortear aqui no Trabalho Sujo – para concorrer basta dizer que música do Prince você queria ver ao vivo e porque aí nos comentários, que até o fim desta quinta-feira escolho quem ganhou. E para sacar o clima da noite, o Max descolou um vídeo com um ensaio em que eles tocam “Musicology”, saca só:
Trupe mais importante da música popular brasileira se reúne com a formação original em show histórico – escrevi sobre ele no meu blog no UOL.
Dona de um dos melhores discos de 2016, a carioca Mahmundi apresenta-se no Sesc Pompeia no sábado (mais informações aqui) e descolou um par de ingressos pra cá – quem quiser concorrer é só sugerir nos comentários quem seria uma boa dupla para ela fazer uma colaboração futura. E se você não ouviu o disco dela ainda, faça-se esse favor:
A promoção foi encerrada no início deste sábado.
Mais uma edição de minha coluna Tudo Tanto na revista Caros Amigos que republico atrasado por aqui, esta é sobre o novo disco de João Donato, que pude ver ao vivo no começo do ano (e os vídeos vêm a seguir). A coluna saiu na edição de abril.
De volta à eletricidade
João Donato volta ao vigor de seus anos 70 com o disco Donato Elétrico
João Donato aceitou o convite de Ronaldo Evangelista para voltar à eletricidade. O jornalista – meu amigo pessoal, não preciso esconder isso – já vinha apontando sua transição do texto para o estúdio ao se propor o desafio de transformar seu projeto Goma Laca – em que artistas recriavam pérolas esquecidas da música brasileira que só foram registradas em compactos de 78 rotações – em um disco. Sua primeira produção reuniu nomes de peso como Karina Buhr, Lucas Santtana, Russo Passapusso e Juçara Marçal para recriar músicas com quase um século de idade. O próximo estágio seria produzir um disco de um único artista e aproveitou a aproximação com Donato para fazer sua estréia como produtor em grande estilo.
Foi um lento processo de convencimento, sem pressa nem pressão, bem ao estilo do velho músico. Donato é destes alicerces da música brasileira que poucos prestam a devida atenção – ele se adequa à expressão inglesa que o qualifica como um “musician’s musician”, um músico apreciado mais por outros músicos do que pelo grande público, não sem razão. Mestre da suavidade e do sossego, é uma das claras inspirações da bossa nova, tendo influenciado tanto João Gilberto quanto Tom Jobim quando estes ainda começavam suas carreiras. Depois teceu uma carreira paralela entre o Brasil e o exterior, levando a música brasileira embalada a uma latinidade própria sua, que foi desenvolvendo e curtindo com o passar dos anos.
O primeiro disco de inéditas de João Donato deste século começou com um acerto de contas com o passado, quando Ronaldo conseguiu uma boa desculpa para fazer o músico voltar aos instrumentos elétricos, essência de sua sequência de discos clássicos dos anos 1970. Descobriu que o disco Quem é Quem, lançado em 1973, não teve um show de lançamento de fato e resolveu aproveitar o aniversário do disco para finalmente lançá-lo. Para isso cercou-o dos músicos do grupo paulistano Bixiga 70 e convocou amigos do arranjador para subir ao palco – além do veterano compadre Marcos Valle, que produziu o disco original, também chamou as cantoras Tulipa Ruiz e Mariana Aydar para cantar os clássicos do disco do mestre, que incluem canções como “A Rã”, “Cala Boca Menino”, “Me Deixa”, “Amazonas” e “Cadê Jodel?” No ritmo de Donato, o show só foi acontecer no início de 2014, em duas apresentações emocionantes no Sesc Pinheiros.
Era o primeiro passo para uma impressionante aproximação entre o buda do groove brasileiro e a fina flor da nova música instrumental brasileira. Além de músicos do Bixiga, que incluem o baterista Décio 7, o baixista Marcelo Dworeck, os guitarristas Cris Scabello e Maurício Fleury (que também toca teclado no Bixiga mas preferiu não chegar perto do instrumento do mestre), o naipe de metais formado por Cuca Ferreira (sax e flautim), Daniel Nogueira (sax), Douglas Antunes (trombone) e Daniel Gralha (trompete) e os percussionistas Rômulo Nardes e Gustavo Cecci, o disco contou com outras presenças de peso, como o baterista Bruno Buarque (que tocava com a Céu e hoje toca com Anelis Assumpção), o saxofonista Anderson Quevedo, os percussionistas Mauro Refosco e Guilherme Kastrup (este idealizador do disco mais recente de Elza Soares, Mulher do Fim do Mundo), o guitarrista Gustavo Ruiz (irmão de Tulipa, que toca com ela), o trombonista Richard Fermino, o vibrafonista Beto Montag e o baixista Zé Nigro (que toca com Curumin) e um quarteto de cordas formado por Aramís Rocha, Robson Rocha, Daniel Pires e Renato de Sá, que em uma das músicas seguiu os arranjos de Marcelo Cabral, baixista que toca com Criolo e com o Metá Metá.
Chamado de Donato Elétrico, o disco foi gravado no ano passado no bunker do Bixiga, o estúdio Traquitana que sedia as sessões de alquimia musical do coletivo paulistano de groovezeira, localizado no bairro que batiza o grupo, mas só viu a luz do dia no início deste ano. É um inevitável reencontro de Donato não apenas com instrumentos que havia deixado de lado – teclados Rhodes, Farfisa, Clavinet e até um Moog – mas com uma espontaneidade que solta faíscas. Há a clara vibração de discos como A Bad Donato, Quem é Quem e o clássico Donato/Deodato, em que encontrou-se com outro monstro maestro brasileiro, Eumir Deodato. Mas ela tem uma luz mais clara que a daqueles discos, que são propriamente carregados. O novo disco não é parte de uma evolução natural de sua musicalidade como aconteceu nos anos 70 e sim um reencontro com uma essência jovem que talvez tivesse dada como perdida. Donato vinha tranquilamente apresentando-se ao lado de um baixista acústico e um baterista, quando muito chamando uma vocalista ao encontro, e de repente viu-se cercado de músicos com sangue nos olhos, secos para deitar e rolar ao lado do mestre. João, envolto em sua tradicional névoa branca, com seus bonés e tênis coloridos escancarava o sorriso nas apresentações ao vivo com o grupo de novos músicos, alheio aos seus mais de oitenta anos de idade.
Pude vê-lo em ação duas vezes nesta nova fase. Uma delas, no ano passado, tocando para pouquíssimos num palco menor daquele shopping center chamado Rock in Rio, pérolas aos porcos que esperavam na fila para cantar no karaokê de uma marca de refrigerante. Em outra, no lançamento do disco, toda a choperia do Sesc Pompeia lotada, reverenciava o encontro do mestre com os pupilos. Em ambas apresentações, em dado momento Donato levantava-se do banquinho de trás dos teclados e brincava com os botões dos sintetizadores, explorando efeitos, transformando melodia em ritmo, claramente divertindo-se e divertindo o público.











