E o Radiohead voltou ao topo do festival inglês Glastonbury vinte anos após ter tocado na mesma posição pela primeira vez na história do evento com um showzaço que pode ser ouvido na íntegra na BBC (a partir do trigésimo minuto, quando a transmissão da rádio dedica-se ao show, registrado ao vivo). As câmeras da BBC também registraram parte do show no vídeo abaixo, que infelizmente começa lá pela metade do show (a partir de “Idioteque”). Se alguém encontrar uma versão na íntegra em vídeo manda o link aí…
Watch live video from GlastonburyFestival on www.twitch.tv
Olha o setlist, que maravilha:
“Daydreaming”
“Lucky”
“Ful Stop”
“Airbag”
“5 Step”
“Myxomatosis”
“Exit Music (For A Film)”
“Pyramid Song”
“Everything In It’s Right Place”
“Let Down”
“Bloom”
“Weird Fishes/Arpeggi”
“Idioteque”
“You And Whose Army?”
“There There”
“Bodysnatchers”
“Street Spirit”
Primeiro bis
“No Surprises”
“Nude”
“2+2=5”
“Paranoid Android”
“Fake Plastic Trees”
Segundo bis
“Lotus Flower”
“Creep”
“Karma Police”
Que banda! Que show!
Chego em Brasília neste fim de semana para conferir a edição anual do festival PicNik, uma festa que cresceu, virou mercado, já se espalhou por outras cidades e agora faz um dos festivais mais legais da minha terrinha. A edição deste fim de semana tem Mustache e os Apaches, Bixiga 70, O Terno, Tagore, Ava Rocha, Firefriend, Blank Tapes, Glue Trip e outros tantos. De graça, na Torre de TV, sábado e domingo – mais informações aqui.
Gabriela Deputski lança seu ótimo Cosmos, o primeiro disco da banda que lidera, nesta quinta-feira, de graça, no Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui). O detalhe é que nesta apresentação a formação inclui a Larissa Conforto, do Ventre, na bateria… Vai ser demais!
Na segunda etapa de sua temporada no Centro da Terra, Thiago França firma-se entre duas baterias em busca do limite entre a percussão e a melodia ao lado de dois músicos quentes – Sérgio Machado e Mariá Portugal. O inusitado trio explora fronteiras sonoras imprevisíveis em mais uma hora de improviso sem rédeas neste pequeno trio de sopro e ritmo, em mais uma de suas incursões que só depois sabemos o que acontecerá. Conversei com o músico sobre esta segunda segunda-feira de junho e há mais informações sobre o encontro aqui.
Você já tocou acompanhado apenas de bateria? A ideia é explorar o lado percussivo do sax?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-voce-ja-tocou-so-com-bateria-a-ideia-explorar-o-lado-percussivo
E como duas baterias ao mesmo tempo, é a primeira vez?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-e-como-duas-baterias-ao-mesmo-tempo-e-a-primeira-vez
Conte como conheceu o Sergito e a Mariá. É a primeira vez que você improvisa com eles?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-conheceu-o-sergito-e-a-maria-e-a-primeira-vez-com-eles
A banda instrumental mais contagiante de São Paulo, o Bixiga 70 parte pro confronto e lança o primeiro single de seu próximo álbum, batizado, sem papas na língua, de “Primeiramente”. E a mensagem não fala apenas do presidente postiço do Brasil, bem como toda situação política em todo o planeta, como dá pra ver no clipe que a banda também lançou:
Abaixo, um papo que tive com o Décio 7, baterista da banda, que também comentou sobre o clima que deu origem a este single:
Por que começar a mostrar o disco novo com “Primeiramente”?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/bixiga-70-2017-por-que-comecar-a-mostrar-o-disco-novo-com-primeiramente
É um disco mais politizado? O que dá pra adiantar sobre o disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/bixiga-70-2017-e-um-disco-mais-politizado-o-que-da-pra-adiantar-sobre-o-disco
O Bixiga sempre teve preocupações políticas, mesmo sendo uma banda instrumental.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/bixiga-70-2017-o-bixiga-sempre-teve-preocupacoes-politicas-mesmo-sendo-uma-banda-instrumental
E a hipsterizacao do bairro do Bixiga, como vocês vêem isso?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/bixiga-70-2017-e-a-hipsterizacao-do-bairro-do-bixiga-como-voces-veem-isso
A música brasileira está voltando a protestar?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/bixiga-70-2017-a-musica-brasileira-esta-voltando-a-protestar
Convidei a Espetacular Charanga do Thiago França para animar o Baile Novo, que bolei em parceria com a curadoria de dança do CCSP – um baile de salão aberto em plena Adoniran Barbosa, todo mês, e de graça! Mais informações aqui.
Em mais uma parceria fechada pelo Centro Cultural São Paulo, entregamos o porão e a Sala Adoniran Barbosa nesta quinta-feira para um dos palcos mais incríveis do Red Bull Music Academy Festival, que toma conta da cidade esta semana por vários lugares. As atrações no CCSP hoje vão de Arto Lindsay ao Chinese Cookie Poets, Tantão, Objeto Amarelo, entre outros – mas o centro da noite é a colaboração entre as Rakta e as Mercenárias. Ainda tem ingressos pra quem quiser embarcar nessa – mais informações aqui.
Thiago França não para! Um dos músicos mais prolíficos da nova geração, o saxofonista aceitou meu convite e assume o timão das incursões musicais das segundas-feiras do mês de junho. São quatro viagens sem rumo definido, mote da programação do espetáculo Depois A Gente Vê. Na primeira segunda, dia 5, ele se une ao velho comparsa Kiko Dinucci em torno de um mesmo tema melódico, mas sem rédeas estruturais além da sequência de notas. No dia 12, ele é acompanhado de dois bateristas pesos pesados, Sérgio Machado e Mariá Portugal. Na terceira segunda, dia 19, é uma noite elétrica ao lado de Beto Montag e Guilherme Granado. A residência chega ao final no dia 26, quando ele rege a Orquestra Instantânea de Sopros – traga o seu instrumento também. São quatro apresentações que podem ir da catarse à introspecção, do delírio à concentração, das profundezas marítmas da música à estratosfera do som. Só há um consenso: depois a gente vê. Os ingressos já estão à venda aqui.
Como você concebeu cada noite a partir de cada elemento?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-por-que-quatro-elementos
Há uma liga musical ou conceitual que amarra todas as noites?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-ha-uma-liga-musical-ou-conceitual-que-amarra-todas-as-noites
A escolha dos elementos também determina o sentimento da noite?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-a-escolha-dos-elementos-tambem-determina-o-sentimento-da-noite
Como o improviso musical funciona dentro de um tema conceitual?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-o-improviso-musical-funciona-dentro-de-um-tema-conceitual
Você tem intenção de dar continuidade a este projeto?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-voce-tem-intencao-de-dar-continuidade-a-este-projeto
O show acontece nesta quinta-feira, de graça, às 21h, e faz parte das atividades do evento Invenção 67 (mais informações aqui). Abaixo, um trechinho descontraído de um dos ensaios:
Mais uma coluna minha na revista Caros Amigos, esta da edição de abril deste ano, quando falei sobre o primeiro show que Lô Borges fez de seu primeiro disco solo, 45 anos depois. E, claro, os vídeos que fiz desta apresentação.
De volta à estrada
Lô Borges retoma seu mítico “disco do tênis” ao vivo, 45 anos após seu lançamento
O pequeno Salomão tinha dez anos de idade quando, ao subir pelas escadas do pequeno prédio onde morava com sua família, ouviu um timbre de voz que ecoava pelas paredes acompanhado por um violão sutil e rebuscado. Correu em direção àquele som, encantado pelo puro poder da música e viu Milton, alguns anos mais velho, tocando sozinho em um quarto na casa de seus pais. Aquele encontro mudaria a história da cultura no Brasil.
Era um encontro inevitável. Milton era amigo do irmão mais velho de Salomão, Márcio, e juntos eles eram alguns dos poucos jovens em Belo Horizonte que eram igualmente apaixonados pela bossa nova brasileira e pelos Beatles. Um grupo de amigos – Fernando, Ronaldo, Wagner, Toninho e tantos outros que o tempo esqueceu – que se descobriam músicos por sua paixão pela música. O próprio Lô, apelido familiar de Salomão, tocava com uma banda cover de Beatles ainda no início dos anos 60, ao lado de outro menino chamado Beto. O grupo The Beavers era uma sensação pop local por ser formado por pré-adolescentes que faziam os intrincados vocais de John, Paul e George com perfeição. Mas os Beavers eram de uma geração anterior à dos amigos de Milton, embora este tivesse desenvolvido uma afeição pelo menino, sempre perguntando por ele quando não o encontrava na casa da família.
Até que um dia o encontrou na porta do prédio em que haviam se conhecido e, como Marcio não havia chegado, Milton convidou Lô para esperar por seu irmão juntos em um bar ali perto. Pediu uma batida de cachaça com limão e um guaraná para o irmão do amigo, mas ficou surpreso quando o menino, então com 17 anos, disse preferir uma caipirinha como a do amigo. Foi quando Milton percebeu que o irmão de Marcio já não era um menino. Que pôs-se a lamentar, dizendo que sentia-se excluído do grupo de amigos do irmão, que tinham os mesmos interesses que ele, mas que o tratavam de forma menor, como se não fizesse parte da turma. Milton o ouviu atentamente e, fascinado, percebeu o quanto havia perdido por não ter conversado antes com Lô. Seguiram falando sobre música até o prédio onde tinham se encontrado, subiram no apartamento dos Borges e começaram a brincar com voz e violão. A delicada jam session que os dois improvisaram de olhos fechados depois seria batizada de “Clube da Esquina Nº2”, no álbum que lançaram coletivamente com os amigos dois anos depois.
Àquela época Milton já era um artista estabelecido. Deixara Belo Horizonte para conquistar o Rio de Janeiro e sempre voltava para a capital mineira para reencontrar os amigos. Até o final dos anos 70, seu nome, Milton Nascimento, já tinha ultrapassado a fase inicial da carreira musical ao gravar discos com o Tamba Trio (logo sua estreia) e Eumir Deodato (no exterior, a convite do mesmo), tendo composto uma de suas obras-primas, “Travessia”, e sendo requisitado por diferentes intérpretes por composições inéditas.
Mas a volta a Belo Horizonte o fazia retomar contato com seu amor inicial, o contato com a música puramente pelo sentimento, longe das amarras do mercado fonográfico, que até então estava a seu favor. Mas sentia-se melhor no grupo de amigos que aos poucos tomava as calçadas da esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza. O pessoal se reunia na rua e tocava violão até alta noite, apresentando composições próprias e músicas alheias, clássicos daquela geração, Beatles e Chico Buarque, um pé no Brasil e outro no mundo. Foi quando Milton decidiu capturar aquela atmosfera em disco e, quando a gravadora pediu um novo disco, ele decidiu fazê-lo com aquela turma de sua cidade. Especificamente com Lô Borges, que tinha apenas 17 anos e com quem tinha uma afinidade mágica, uma amizade intensa que criaria canções eternas.
Lô tinha dois desafios antes de aceitar o convite: convencer os pais e o exército, pois havia sido convocado para servir as forças armadas às vésperas de passar para a maioridade. Peitou ambos e foi para o Rio. Lá chegando, Milton e Lô se instalaram em uma casa em Niterói, na praia de Piratininga, e Lô, marinheiro de primeira viagem no showbusiness, dezenove anos recém-completos e visto como uma exigência inusitada de um nome em ascensão na música brasileira, pediu para não ir só e convocou o amigo Beto para ajudá-lo na viagem. Na casa de praia, os três compunham de uma forma peculiar: Lô compunha suas músicas em um quarto, Milton no outro e Beto Guedes indo de um cômodo a outro para sugerir harmonias, melodias, solos, instrumentações. As canções surgiam quase naturalmente e então eram entregues aos letristas que pairavam ao redor daquele grupo: Fernando Brant, Márcio Borges, Ronaldo Bastos. Dali iam para os músicos, que rearrajavam as canções entre a música brasileira pós-bossa nova, o jazz, o rock psicodélico, a música caipira, o folk e uma sensação quase barroca, de esmero e cuidado, característica da musicalidade mineira. Além dos músicos da turma de Belo Horizonte que eventualmente iam para Niterói ou que já moravam no Rio – como Wagner Tiso, Nelson ngelo, Toninho Horta, Tavito, Robertinho Silva – até a músicos estabelecidos – como Eumir Deodato, Alaíde Costa e Paulo Moura. Tudo regido por Milton, o veterano da turma, o maestro daquele clube.
O disco Clube da Esquina surgiu a partir do encontro de Milton e Lô e trazia para o país parte da sonoridade pop que tomava conta do mundo: folk rock, rock progressivo, jazz funk e rock psicodélico caminhavam lado a lado de canções bucólicas, devaneios lisérgicos, sonoridades pastoris e ecos latinos. Como o clube que o originara – que de clube não tinha nada, afinal era uma esquina a céu aberto – aquele disco duplo (que, por pouco, não foi o primeiro disco duplo da história da música brasileira, perdendo para o clássico ao vivo de Gal Costa, Fa-Tal, lançado meses antes) era um convite ao encontro, uma obra aberta que chamava o ouvinte para dentro de um mundo imaginário, emotivo e sentimental. Tão amplo quanto sua concepção, um dos primeiros discos brasileiros a creditar todos os músicos envolvidos em sua ficha técnica e em que músicos não ficavam restritos aos instrumentos que lhes foram delimitados. Todo mundo toca um pouco de tudo e até hoje há controvérsias sobre quem toca o quê em que faixa.
Lançado no início de 1972, o grupo impulsionou também a carreira do novo parceiro de Milton. A gravadora sem pestanejar pediu um disco solo para Lô que, da mesma forma, topou. Clube da Esquina havia sido um sucesso e o jovem músico despertava interesses e curiosidade. O único problema: ao gravar suas principais composições até aquela idade em seu primeiro registro fonográfico – o Clube, dividido com Milton – Lô havia esgotado seu repertório. Sem músicas novas, entrou em um processo de composição, arranjo e gravação quase industrial. Acordava, escrevia uma música, passava para o irmão que colocava a letra à tarde e, à noite, encontravam-se no estúdio, tentando colocar a canção de pé. Foi um processo convulsivo de composição, uma jam session em câmera lenta que reuniu quase todos os músicos que participaram do Clube da Esquina para firmar um disco composto por músicas curtíssimas que formavam uma colcha de retalhos psicodélicos sem par na história da música brasileira.
O disco ficou pronto e aquilo era o fim para Lô. Viu um horizonte tenso em que havia que compor músicas na marra para lançar mais um novo disco num futuro próximo e a sensação de que sua carreira musical poderia se tornar apenas aquilo lhe causou preocupação. Quando cogitaram colocar sua foto na capa do disco, que foi batizado apenas com seu nome, ele sugeriu que tirassem uma foto de seu par de tênis gasto. Era um código interno para avisar que estava pendurando as chuteiras e que iria colocar o pé na estrada. Para compor era preciso viver – e Lô desistiu da carreira fonográfica para viajar de carona pelo Brasil. Por cinco anos viveu como hippie, cruzando o país da Bahia ao Rio Grande do Sul, dormindo em comunidades, tocando música – e compondo sem parar. Quando resolveu parar, já tinha experiência e material para compor vários discos, como fez, a partir de seu segundo álbum solo, Via Láctea, lançado em 1979, retomando sua carreira musical profissional.
Mas seu disco de estreia – conhecido pela capa por “disco do tênis” – havia ficado intacto no passado. Depois de lançado no mercado, não teve show, não teve campanha de lançamento, ficou esquecido com o tempo. Até 2017. Ao completar 45 anos, Lô reuniu uma banda de jovens músicos para recriar seu clássico disco no palco pela primeira vez. Como a duração do álbum é curta (pouco mais de meia hora), foram incluídos no repertório músicas que Lô gravou para o primeiro Clube da Esquina, transformando o show – que foi lançado em janeiro em São Paulo e deve percorrer o país durante o ano – em uma celebração àquele mítico 1972.










