
O Dr. Dog é aquela pequena banda que cresce no palco – tanto que sua reputação aumenta à medida em que mais fãs das gravações passam pela experiência de vê-los ao vivo, o que explica o fenômeno que é esse culto quase secreto à banda da Filadélfia. Live at a Flamingo Hotel será lançado no início do ano que vem e vamos torcer por duas coisas: para que o disco saia também em DVD (bem provável, a partir do trailer abaixo) e que alguém se disponha a trazê-los para o Brasil.

Começou esta semana o festival Novas Frequências, organizado pelo vizinho dOEsquema Chico Dub, que em quatro anos conseguiu consolidar o melhor evento de música avançada no Brasil – que, por incrível que pareça, acontece no Rio de Janeiro, deixando São Paulo na poeira. A edição deste ano reúne 33 artistas, se espalhou por vários lugares da capital fluminense – indo do Oi Futuro Ipanema à Casa Daros, do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto ao Audio Rebel e vai até o dia 14 deste mês. Bati um papo com o Chico sobre as dificuldades e o prazer de fazer um evento de música contemporânea em pleno balneário carioca (a programação completa dá pra ver no site oficial).
Antes a música de vanguarda era restrita a um gueto bem pequeno, mas com a internet esse conceito ganhou um público global – com players espalhados pelo mundo todo, em constante contato. Você já se considera parte dessa rede? Como o Novas Frequências é visto por essa comunidade?
Temos duas marquinhas na barra de logos da nossa comunicação visual que respondem à sua pergunta. Uma delas é a revista inglesa The Wire, sem dúvida a principal publicação do gênero no mundo todo, a Bíblia da música experimental. Ter a The Wire como media partner do Novas Frequências é uma espécie de prêmio, um puta respaldo que de alguma forma diz que estamos no caminho certo. Outra marquinha que me deixa muito orgulhoso e deveras animado com o futuro próximo é a marca de apoio do ICAS, sigla para International Cities of Advanced Sound. Somos o mais novo membro dessa rede que reúne alguns dos mais importantes festivais de culturas sonoras avançadas, música de vanguarda e artes relacionadas como o Mutek (Montreal, Canadá), Unsound (Cracóvia, Polônia), CTM (Berlim, Alemanha), Future Everything (Manchester, Inglaterra) e TodaysArt (Haia, Holanda). Estimular o diálogo, a troca de conhecimentos e o apoio mútuo entre organizações internacionais envolvidas com música e sons avançados são algumas das missões do ICAS.
Qual é a maior dificuldade em fazer uma curadoria de um evento dessa natureza?
São duas dificuldades relacionadas entre si: atrair o público e conquistar a atenção da mídia. Trabalhar com artistas desconhecidos do grande público é bem complicado! Muitas vezes o repórter quer escrever sobre o festival mas o editor veta a pauta por achar que “a programação do Novas Frequências é experimental demais para o seu público”. É claro que nunca iremos sair no Fantástico – e essa nem é a ideia, nunca foi -, mas na maioria dos casos tenho certeza que os editores acabam subestimando o público de uma maneira em geral. Conhecer coisas novas faz parte da natureza humana, não?
Sendo um recorte mais difícil, uma noite vazia não é necessariamente um noite fracassada. Como é lidar com essa contradição entre o sucesso comercial – para viabilizar um festival anual – e a dificuldade de atingir um público maior?
O festival passa hoje por um estágio muito complexo, mas ainda assim muito interessante de ser trabalhado. Muito desafiador. Que é o seguinte: como crescer? No ano passado vendemos todos os 6 dias no Oi Futuro Ipanema em 4 horas e muita gente ficou de fora. Ou seja, já existe uma demanda por espaços maiores. Só que o Rio de Janeiro é extremamente carente de palcos médios, espaços com boa infra para 300, 400 pessoas. Aqui é 8 ou 80, sabe? Ou é para 100 ou para acima de 1.000/ 1.500. Então o crescimento esse ano aconteceu de forma horizontal: muitos dias, 14 no total, para públicos que vão de 100 a 600 pessoas em vários lugares da cidade.
Mas é importante falar uma coisa. Não temos pressa para crescer, esse é um universo novo no Brasil que precisa ser trabalhado com muita calma, com muita estratégia. Queremos – e precisamos – formar público antes de dar saltos maiores. Só vamos crescer substancialmente se o mercado crescer: mais artistas locais, mais casas abertas a esse tipo de proposta sonora, mais interesse de iniciativas públicas e privadas, mais produtores, mais selos, mais jornalistas e veículos dispostos a cobrir essa cena e por aí vai.
Por outro lado, nos dá uma baita segurança ter tantos parceiros que acreditam no Novas Frequências e que de cara sacaram a importância do festival, principalmente a Oi, o Oi Futuro, o Governo do Rio de Janeiro e a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. São parceiros que cultivamos desde a primeira edição do Novas Frequências em 2011.
Você acha que essa música experimental terá um público ainda maior à medida em que o século passar? As pessoas estão ficando fartas da música pop?
As novas gerações são muito mais curiosas e exploradoras que as gerações passadas. Pra elas o conceito de nicho não existe. Tem um cara que trabalha com a gente que adora k-pop, saca tudo de indie e ama Sunn O))). A tendência por tanto não é as pessoas enjoarem do pop. A tendência é uma pequeníssima parcela desse público gigantesco estar mais aberto a ouvir e a descobrir novos sons e novas propostas.
Quais os seus maiores orgulhos na escalação deste ano?
De verdade mesmo? O maior orgulho é estar em 6 espaços da cidade – 8 contando com os espaços reservados para as oficinas – durante duas semanas com 33 artistas de 11 países. Sendo que dos 20 gringos, nenhum deles havia pisado em solo brasileiro antes.
Qual é o seu Novas Frequências dos sonhos? Um só com nomes vivos e outros com nomes que já morreram. Dá pra pensar nisso?
Prefiro não pensar em nomes que já morreram – para o Novas Frequências, o “passado” é muito menos interessante que o presente e que o futuro. Earth, Swans, Moritz Von Oswald Trio, Shackleton, Charlemagne Palestine, Pauline Oliveros, Lonnie Holley, The Caretaker e Chris Watson são nomes que sonho dia sim, dia sim.
E por que o festival não vem inteiro para São Paulo, já que você traz todo mundo até o Rio?
Levar o festival inteiro pra São Paulo nunca foi uma ideia, sabe? Porque se já é difícil levar dois ou três artistas para uma espécie de “showcase” ou “edição pocket”, imagina o festival inteiro… Existe um interesse muito grande do público paulistano pelo Novas Frequências, isso é fato. E diversos produtores locais independentes já tentaram levar artistas daqui do Rio pra SP. O que acontece é que o festival tem patrocínio no Rio, uma verba que precisa ser gasta aqui; para realizar o festival na cidade. Para acontecer aí de forma minimamente robusta, precisaríamos de outros parceiros, algo que infelizmente ainda não se concretizou. Já tive conversas com o Sesc (diversas unidades), com o MIS, com o CCSP e com as principais casas de shows alternativos de São Paulo. Mas por motivos de agenda, verba ou (falta de) interesse, as coisas nunca foram pra frente. Sigo tentando. Mas sozinho definitivamente não consigo levar o festival pra SP – ainda mais agora, que ele cresceu bastante.

Passei pelo Popload Festival nesse fim de semana e o festival funcionou direitinho. Mas o show que o Tame Impala fez na sexta-feira desequilibrou bastante do resto do evento – e foi algo inacreditável. Se na última visita da banda Kevin Parker ao Brasil, ele já estava bem mais seguro de si e completamente à vontade frente a um público que só havia visto uma vez, nesta nova apresentação ele estava em comunhão com a platéia. O conjunto está mais coeso e experimental do que das outras vezes que vi, improvisando em pequenas vinhetas ou deixando-se levar em longas jam sessions. Pegamos o finzinho da turnê do segundo disco da banda, Lonerism, agora resta esperar como virá a próxima encarnação da banda…
Arrumei um cantinho bom no alto do evento e consegui filmar quase tudo, dá uma sacada aí embaixo:

O Mancha veio oferecer dois pares de ingressos para dois dos shows que ele vai realizar nesse finde. O primeiro acontece hoje e é do grupo argentino Violetango e o outro é do clássico grupo indie de Ribeirão Preto Motormama, que se apresenta no domingo. Pra concorrer aos ingressos (um par pra cada show), basta escrever aí nos comentários porque você gosta de ver shows na casinha – ou se você nunca foi, o que você espera de lá. Não esqueça de indicar qual show que você quer ir e deixar um email para ser avisado, caso ganhar. Valendo!

Podem falar mal o quanto for dos Tears for Fears – o fato é que Roland Orzabal e Curt Smith sabem fazer uma canção pop. Especialmente em seu período mais fértil, no final dos anos 80, quando emplacaram músicas que todo mundo conhece de cor mesmo sem gostar. Seus hits foram dissecados em recente apresentação para o Spotify quando, tocando para uma pequena platéia, contaram as histórias por trás de seus grandes hits – inclusive que surrupiaram “Seeds of Love” de “I Am the Walrus”, dos Beatles.
Além do vídeo, eles também gravaram em áudio sua já conhecida versão para “Creep”, do Radiohead.

Cerimônias de premiação transmitidas para milhões de pessoas servem como termômetro para o mercado que gira em torno dos indicados e vencedores da noite. O American Music Awards, como muitos outros, é apenas isso: uma vitrine dos principais nomes que movimentam o mainstream no pop americano. Este vem passando por uma fase ótima, conseguindo reciclar-se e trazer novos nomes à baila que pouco se escoram em sonoridades do passado, buscando sua própria voz num tempo em que a internet é mais importante que o rádio para o mercado de música.
Alguns dos shows da edição de 2014 do prêmio, que aconteceu no último domingo dão uma amostra de como o mercado fonográfico está conseguindo recuperar o nível artístico que parecia perdido após o embate com a internet, há 15 anos – conseguindo fazer música pop com um mínimo de tutano. Essa dobradinha entre a Ariana Grande e o The Weeknd, desacelerando o hit “Problem”, é um ótimo exemplo disso:
Outro bom exemplo foi a apresentação de outro dos grandes hits do ano, “Fancy”, com a australiana Iggy Azalea, que chamoy sua parceira na faixa, a inglesa Charli XCX, para dar uma palhinha:
A norte-americana Taylor Swift, atual rainha do pop de seu país, cumpriu seu papel à risca:
E a neozelandesa Lorde, uma espécie de contraponto indie-nerd de Taylor, mostrou sua “Yellow Flicker Beat” pela primeira vez ao vivo:
Rolaram vários outros shows, mas esses quatro mostram que aos poucos o mercado parece ter voltado a entender que o que as pessoas querem ouvir é música. E é interessante notar que a presença feminina é cada vez mais a regra, virando a mesa do mercado em termos de gênero.

A banda nova-iorquina Real Estate, dona de um dos grandes discos de 2014 (Atlas, excelente), passou por São Paulo na semana passada e no repertório paulistano sacou um raro cover de Weezer (“No Other One”, do clássico Pinkerton), pegando o público de surpresa (procurei a música no YouTube, mas não achei). Para quem acompanha de perto não foi tão inusitado, pois no último show que eles fizeram nos EUA antes de vir para o país, na terça-feira, em Los Angeles, contaram com ninguém menos que o próprio Rivers Cuomo, o dono do Weezer, nos vocais do hit indie, que, marcha reduzida, tornou-se hipnótico.

Semana passada eu falei da inesperada volta do Ride e esqueci de falar aqui que eles, sim, confirmaram a turnê de volta entre maio e junho do ano que vem, dando um rolê pela Europa (incluindo no festival espanhol Primavera e no festival inglês Field Day) e tocando dois shows na América do Norte, um em Nova York e outro no Canadá. Pode ser que eles acrescentem algumas datas a essa tour, mas se você é desses indies fãzaços da banda e ainda não tiver comprado seu ingresso, corra, porque devem ter poucos sobrando a essa altura do campeonato. Eis as datas:
05/22 – Glasgow, UK @ Barrowland Ballroom
05/23 – Manchester, UK @ Albert Hall
05/24 – London, UK @ Roundhouse
05/26 – Amsterdam, NL @ Paradiso
05/27 – Paris, FR @ Olympia
05/29 – Barcelona, ES @ Primavera Sound Festival
06/02 – Toronto, ON @ DanForth Music Hall
06/04 – New York, NY @ Terminal 5
06/07 – London, UK – Field Day
Alguns ingressos ainda estão disponíveis, segundo o site da banda. Se existe alguma possibilidade de vir pra cá? Mínima, não conte com isso. Se o My Bloody Valentine que é bem mais importante e conhecido ainda não veio… Mas ia ser demais se eles viessem.

