O gótico, quem diria, começou com a bossa nova

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“Isso não é um mashup, isso é um manifesto!”, escreve Paulo Beto, o mentor do Anvil FX, na descrição do curto clipe “Bossa Morta (João Gilberto is Dead)”, que publicou nesta sexta-feira, ao sobrepor “Garota de Ipanema” na voz e violão de João Gilberto sobre a bateria, guitarra e efeitos que abrem o marco zero da estética gótica na música pop dos anos 80, a eterna “Bela Lugosi is Dead”, do Bauhaus. Não é uma coincidência, a bateria sincopada que dá o tom de toda a música e que transforma, naquele momento, a banda de Peter Murphy numa espécie de Joy Division com quadris, é nitidamente inspirada no andamento de uma das células rítmicas mais conhecidas da história de nossa música.

Isso é maravilhoso na música, sua influência inconsciente, que se esgueira e fica (tipo “Louie Louie”, que era um cha cha cha, mas isso é outro história).

Marcelo Dolabela, por Paulo Beto

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Aproveitando o show desta sexta-feira, pedi para o Paulo Beto, o mentor do Anvil Fx e amigo de Marcelo Dolabela, que será homenageado neste show, para que ele escrevesse sobre a importância do escritor e poeta, que morreu no mês passado:

Sou muito ruim de datas, mas foi ou em 2016 ou no início de 2017, que tive a felicidade de encontrar o Marcelo tomando uma cervejinha num bar em plena Avenida Paulista. Ele me viu e me gritou. Estava acompanhado de sua adorável Regina. Conversamos um pouco, mas foi rápido. Ele me disse que ia passar uns dias e trocamos contato pra nos ver mais e bater um pouco de perna em SP.

Acho q ele já sabia que eu tinha incorporado no meu repertório ao vivo uma versão de “Aqui Aqui” do Divergência Socialista. Eu disse que ele precisava conhecer a Bibiana Graeff, vocalista da minha banda, e uma noite acabou rolando. Ele se encantou bastante com ela, até porque ela já era bastante fã de sua poesia. Nesse período dele aqui, me mandou um email com duas poesias que ele havia escrito num tempo ocioso no hotel. Me enviou a seguinte mensagem:

“Paulo Beto

bom dia
quarta-feira, como estava livre, fiquei em casa.
ouvi várias vezes a demo-tape sua e da Biba.
ela está ótima.
de tanto ouvi-la, rabisquei estes dois esboços de letras.
se servirem, usem.

As lágrimas vermelhas de Olga B. (tanka # 2016A)

A cara desta fera é a usura

a peste desta festa infesta

a cura deste vício é a fúria

A besta saiu da floresta

a procura é o que nos resta

A cara desta fera é a usura

a peste desta festa infesta

a cura deste vício é a fúria

A besta saiu da floresta

a cultura é o que nos resta

A cara desta fera é a usura

a peste desta festa infesta

a cura deste vício é a fúria

A besta saiu da floresta

a loucura é o que nos resta

*

Louise Brooks voltou a sorrir

A máquina de tua maquiagem

o sexo: anexo? Convexo?

a brita que te faz tão bonita

na grata

greta

grita

grota

gruta

quem escuta tua imagem?

quem vê tua luta na paisagem?

quem lê tua bruta mensagem?”

Eu fiquei absolutamente chocado com a qualidade e conteúdo do material. E num email seguinte ele me disse:

“são duas, mas podem virar uma letra só.
o mote é o mesmo.
beleza (Louise Brooks) + verdade (Olga Benário) + realidade (Brasil-Hoje).
como disseram os românticos alemães: ‘a beleza é a única verdade / a verdade é a única beleza’.”

Fora esse texto ele me enviou livros e impressos e me incentivou a experimentar música com seus poemas.
Com grande amor à obra desse poeta fascinante, que com sua atitude/poema/punk fez minha cabeça explodir no único show que vi de sua banda em 1988 no DCE da UFJF de Juiz de Fora, e desde então Divergência se tornou pra mim uma influência fundamental.

Em sua carreira, Dolabela publicou mais de 30 livros. Entre eles, o ABZ do Rock Brasileiro, considerado a principal referência enciclopédica do rock nacional até a década de 2000. Ele ainda é o autor de Radicais e Adeus, América, que chegou a virar filme sob direção de Patricia Moran.

Estudioso, colecionador e influenciador de várias gerações da música underground de Belo Horizonte, Marcelo Dolabela fundou, em 1983, o Divergência Socialista, banda pilar da cena alternativa da capital mineira. A partir dela várias outras nasceram, dividindo os mesmos integrantes e ensaiando no mesmo espaço, como o Sexo Explícito, R Mutt, Ida e os Voltas, O grande Ah!, entre outras, e anos mais tarde o Pato Fu e o Tetine. “A gente meio que orbitava em torno do Marcelo. É mestre de muitos outros, de outras gerações”, publicou Ulhoa em uma rede social.

Em sua carreira como roteirista, assinou o texto do curta-metragem Uakti: Oficina Instrumental, do cineasta Rafael Conde, que faturou os prêmios de melhor filme e melhor montagem no Festival de Gramado de 1987. O artista também é responsável pelos roteiros dos filmes Arnaldo Batista: Maldito Popular Brasileiro e Adeus, América, ambos de Patrícia Moran.

Fará muita falta esse grande Mestre agredador e professor da arte inconformista, vanguardista e provocadora.
Seu conhecimento precisa ser perpetuado e difundido, porque durante décadas lá esteve ele acumulando, observando, ensinando e principalmente pensando muito a respeito do rock, do pop, da arte e da poesia.
Que se mantenha acesa a luz e o fogo de Marcelo Dolabela.

15 anos de Tatá Aeroplano: Zeroum

Zeroum

Indo do espasmo psicodélico pop do Frito Sampler ao clima intimista do lindo show com Bárbara Eugênia, Tatá Aeroplano faz sua terceira viagem aos seus 15 anos de carreira fonográfica reencontrando-se mais uma vez com seu compadre e ídolo Paulo Beto, um dos pilares da música eletrônica experimental paulistana, em mais um ataque dos sentidos provocado pelo Zeroum. A dupla promete aterrissar com seu disco voador em forma de pista de dança (ou seria o contrário?) transformando o palco do Centro da Terra em um cubo de eletricidade e groove, com iluminação do Paulinho Fluxus (quem sabe, sabe) – mais informações sobre a apresentação nesta segunda, dia 20 de março, aqui. Conversei mais uma vez com o Tatá sobre a trajetória do grupo ao show desta noite, além de também falarmos sobre a experiência que tem sido esta primeira temporada.

15 anos de Tatá Aeroplano: Como Tatá Aeroplano conheceu Paulo Beto
https://soundcloud.com/trabalhosujo/15-anos-de-tata-aeroplano-como-tata-aeroplano-conheceu-paulo-beto

15 anos de Tatá Aeroplano: Como Tatá Aeroplano entrou no Zeroum
https://soundcloud.com/trabalhosujo/15-anos-de-tata-aeroplano-como-tata-aeroplano-entrou-no-zeroum

15 anos de Tatá Aeroplano: Como está sendo a temporada no Centro da Terra até agora
https://soundcloud.com/trabalhosujo/15-anos-de-tata-aeroplano-como-esta-sendo-a-temporada-no-centro-da-terra-ate-agora

15 anos de Tatá Aeroplano: O que podemos esperar do show do Zeroum no Centro da Terra
https://soundcloud.com/trabalhosujo/15-anos-de-tata-aeroplano-o-que-podemos-esperar-do-show-do-zeroum-no-centro-da-terra

15 anos de Tatá Aeroplano

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O espaço cultural Centro da Terra me para fazer a curadoria de shows de música em suas premissas, aqui na região entre o Sumaré, Perdizes e Pompeia. Com shows realizados todas segundas-feiras, a temporada visa dissecar diferentes facetas ou mostrar outras personalidades de artistas estabelecidos em quatro shows por mês, cada um com a sua cara. O primeiro fruto da parceria é a temporada que comemora 15 anos da carreira do músico, cantor e compositor paulista Tatá Aeroplano. São quatro shows diferentes que mostram as diferentes caras do Tatá, que já é um dos principais nomes da cena independente brasileira.

Os shows acontecem todas segundas-feiras e serão divididos com diferentes formações e projetos – clássicos e novos – da carreira de Tatá. O primeiro show é o lançamento do disco Cosmic Damião, da dupla Frito Sampler, composta também por Julia Valiengo (dia 6 de março), seguido do show inédito ao lado de Bárbara Eugênia, mostrando o disco composto em dupla que será lançado no meio de 2017 (dia 13 de março). O terceiro show é uma apresentação do projeto Zeroum, ao lado do músico Paulo Beto (dia 20 de março) e encerrando com a apresentação do disco Step Psicodélico. Você pode comprar ingressos para cada um dos shows (aqui para o do Frito Sampler, aqui para o show com Bárbara Eugenia, aqui para o show do Zeroum e aqui para o show do Step Psicodélico) ou comprar para assistir aos quatro shows (aqui) e ter a experiência completa pagando menos. Mais informações no site do Centro da Terra.

Frito Sampler

Frito Sampler

O show do Frito Sampler com sua banda chamada Hippie Hunters é uma experiência musical_/visual como poucas na obra de Tatá. Mistura cinema, teatro, quadrinhos e contracultura numa performance ousada e dançante. O Frito Sampler é um personagem criado por Tatá Aeroplano, que sobe no palco acompanhado por Julia Valiengo (Trupe Chá de Boldo), Pedro Gongom (Gustavo Galo), Otávio Carvalho (Vitrola Sintética), Marcos Till (Tigre Dente de Sabre) e Moita Mattos (Porcas Borboletas). Com esse show, Tatá Aeroplano encarnando Frito Sampler, resgata as performances nonsense e marcantes que apresentava com a banda Jumbo Elektro. Ingressos aqui.

Frito Sampler – “Cosmic Damião”

Frito Sampler – “Aladins Bakunins”

Bárbara Eugênia & Tatá Aeroplano

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Em novembro de 2014 Tatá Aeroplano e Bárbara Eugênia passaram alguns dias na Fazenda Serrinha com o objetivo de compor material para um álbum inédito da dupla. Eles voltaram pra sampa cheios de músicas na bagagem e agora se preparam para registrar esse novo álbum com Bruno Buarque, Dustan Gallas e Junior Boca. Antes de entrar em estúdio, eles apresentam as novas canções em show intimista, dia 13 de março, no Centro da Terra. Ingressos aqui:

Bárbara Eugênia & Tatá Aeroplano – “Vida Ventureira”

Zeroum

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Zeroum é um projeto idealizado pelo mestre Paulo Beto, que também dirige as bandas Anvil Fx e Frame Circus e é um dos principais produtores musicais atuando no Brasil. Atualmente como duo, Tatá Aeroplano e Paulo Beto, Zeroum é uma experiência psicosônica rock/eletrônica inspirada na cena alemã dos anos 70, na cena No Wave de Nova York nos anos 80. O conceito do trabalho é baseado em estruturas simples que se sobrepõem formando desenhos complexos. Uma inflamada mistura de inspiração, improvisação e bases eletrônicas contagiantemente dançantes. Bases demolidoras com sons digitais e analógicos e vocais altamente insanos. A dupla entrou em estúdio recentemente e lançam o disco no segundo semestre. Ingressos aqui:

Zeroum ao vivo

Step Psicodélico

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Acompanhado de Dustan Gallas (Cidadão Instigado), Junior Boca (Otto), Bruno Buarque (Karina Buhr), Dj Marco (Criolo) e Julia Valiengo (Trupe Chá de Boldo), Tatá Aeroplano aterrissa cantando canções dançantes, alegres e envolvente, presentes no álbum Step Psicodélico, indicado como um dos melhores lançamentos de 2016 pela APCA. No repertório, além das músicas do novo disco, ele faz um passeio por seus dois discos anteriores com músicas emblemáticas como “Tudo Parado na City”, “Night Purpurina” e “Entregue A Dionísio”, entre outras. Nesse show Tatá resgata o espírito festivo e maluco beleza das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro! Ingressos aqui:

Tatá Aeroplano – “Step Psicodélico” (ao vivo no Cultura Livre)

Tatá Aeroplano – “Eu Inezito” (ao vivo no Cultura Livre)

Temporada 15 anos de Tatá Aeroplano
Local: Centro da Terra (rua Piracuama, 19, Sumaré)
Horário: 20h
Capacidade: 100 pessoas
Preço: R$30 Inteira
R$15 Meia

Damo Suzuki em São Paulo

E por falar em krautrock, lembrei de quando o Damo Suzuki – o mítico vocalista do Can, sem dúvida a banda mais importante da história do gênero – passou pelo Brasil, em 2005, no festival 4Hype, que rolou no Sesc Pompéia, e fui ver se tinha algum vídeo disso no YouTube.

E, para a minha surpresa, descobri não só que tinha, quanto eles tinham sido subidas no site pelo próprio Paulo Beto, o PB, que estava pilotando instrumentos eletrônicos no mesmo palco que Damo vociferava seus grunhidos zen. Além do PB, a banda montada para o festival era um mini quem-é-quem do rock experimental paulistano do começo do século 21, reunindo nomes como o Cacá do Objeto Amarelo, o Maurício Takara do Hurtmold, o Sérgio Ugeda do Diagonal, o Miguel Barella (que já passou por inúmeros projetos desde os anos 80), entre outros que não me recordo. O show foi tão hipnotizante quanto o do Hallogallo, mas ia para um nível de agressividade e força que não havia na apresentação do trio de Rother. Afinal, era quase uma big band.

Este mesmo evento ainda contou com apresentações do Wolf Eyes, do austríaco Fennesz, o escocês Kode9, DJ Dolores, Toni da Gatorra, Akira S. & As Garotas que Erraram, Tecno Show e Lívio Tratenberg e eu pude entrevistar e servir de intérprete dos quatro estrangeiros em bate-papos abertos ao público na tarde do dia da apresentação de cada um deles. O papo com o Damo foi especialmente legal porque aconteceu no mesmo dia do papo com o Steve Goodman, o Kode9, que além de ser um dos pioneiros na divulgação do dubstep no Reino Unido, também tem um trabalho como pesquisador e historiador de música contemporânea, e dono de gravadora. Em vez de fazer dois papos separados, juntamos Damo e Steve numa mesma conversa que fluiu para muito além da própria trajetória dos artistas e possíveis observações destes sobre a música experimental no mundo na época, e virou uma discussão boa abordando diferentes visões do que pode ser considerado música hoje em dia – indo para a raiz da definição de conceitos tão diferentes quanto estética, mercado e produção.

Os vídeos acima são curtos e só dão uma idéia do que aconteceu no Teatro do Sesc Pompéia naquele dia – transe coletivo que só poderia ser reproduzido na íntegra, não em pequenos trechos. E é nessas horas que eu lembro que o Sesc grava e arquiva bonitinho todos seus shows. Imagina a quantidade de pérola que os caras não têm guardado nesse baú…