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Paranoia

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Quando lançou a música “Golden Facelift” no final de 2014, o coletivo canadense Broken Social Scene anunciou a nova/velha faixa (que havia sido gravada para o disco da banda de 2010) como uma espécie de exorcismo da barra pesada que foi 2014. Ouvindo apenas a música, ela não parece carregar o peso do ano passado – por isso eles lançaram, no calar do ano, o clipe para a música – e esse sim dá uma bela idéia do que foi o inferno astral coletivo que foi 2014.

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xfiles

Do mesmo jeito que Twin Peaks aos poucos ensaia sua inusitada volta para 2016, outra série dos anos 90 que foi crucial para tornar a paisagem televisiva mais interessante no século 21 também começa a cogitar sua volta. A Fox anunciou interesse em voltar a fazer novas temporadas de Prison Break, 24 Horas e… Arquivo X! Tanto o criador da série Chris Carter quanto seus dois protagonistas David Duchovny e Gillian Anderson são simpáticos à idéia – e recriar o universo de paranóia e conspiração do seriado original parece fazer ainda mais sentido no século 21. O problema é que tanto Anderson quanto Duchovny têm compromissos com a NBC (David estará num seriado que ainda irá ser lançado chamado Aquarius enquanto Gillian segue na segunda temporada de Hannibal) e os dois só poderiam voltar à Fox caso terminem suas obrigações contratuais. O que não é o caso de Chris Carter, que teve um projeto de série (The After) recentemente dispensado pela Amazon e está mais do que disposto a voltar àquele FBI que encobre contatos de seres humanos com alienígenas. Mas, pensando bem, não seria mais interessante criar novos agentes para voltar a fuçar nas pastas secretas que Mulder descobriu nos anos 90, requentando o tema com novos personagens? Talvez com pontas de Mulder e Scully em vez de simplesmente apelar para o revival? Imagina o Mulder apenas como fonte, só passando informações pela metade sobre casos que assistimos na primeira encarnação da série… Mas, por enquanto, só temos especulações. E torcida, claro.

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E a Amazon vem entrando com tudo no mundo das produções – e agora prepara-se para levar a maior das distopias de Philip K. Dick para o formato seriado. O Homem no Castelo Alto parte do pressuposto que os aliados perderam a Segunda Guerra Mundial e foram os Estados Unidos – e não a Alemanha – que foram divididos em dois, a metade Leste ficou com os nazistas e a metade oeste com o Japão. O livro usa esse cenário para falar de falsificação e autenticidade, já que um dos personagens é falsificador de relíquias norte-americanas da primeira metade do século 20, colecionadas por ávidos japoneses. É uma abordagem muito sutil sobre universos paralelos e realidades alternativas que usa o I Ching como fiel da balança. Algumas cenas da série já foram liberadas no canal do YouTube da loja online e o resultado é de deixar qualquer fã de ficção científica empolgado. Dá uma sacada:

Parece promissor…

stephenfry

O Kenzo Miura (valeu!) também traduziu o trecho que separei do textoYou must mock“, em que o ator inglês Stephen Fry comentou sobre o ataque à redação do jornal Charlie Hebdo:

“Eu me lembro que quando o Fatwa foi declarado contra Salman Rushdie, muitos escritores e colunistas britânicos – que definitivamente deveriam saber disso – disseram que “Os Versos Satânicos” ‘realmente não era tão bom assim’, e a implicação disso era que, desta forma, seria então um grande esforço se posicionar contra a sentença de morte declarada contra o seu autor. Na verdade, (não que isso importe, claro) “Os Versos Satânicos” é um dos grandes romances cômicos do pós-guerra. Um horrível absurdo similar foi espirrado recentemente sobre o tema do filme “A Entrevista” da Sony: ‘Oh, ele é realmente bastante pobre.’

O escritor (agora em grande parte esquecido), radialista e apologista cristão Malcolm Muggeridge destruiu seu legado como um homem sério e interessante em quinze absurdos minutos na televisão, quando ele languidamente descreveu “A Vida de Brian” de Monty Python como ‘de décima categoria’ , como se isso fosse um motivo para parar de exibí-lo. Uma desonestidade absurda. Ele queria impedir sua exibição porque ele sentiu-se “ofendido” por sua “blasfêmia” e então ofereceu o mesmo não-argumento como aquele elaborado por sua companheira e fundadora do Festival da Luz Mary Whitehouse, de memória hilariante: “Oh, eu não estou chocada, oh não. Na verdade, eu achei um pouco chato”. É claro que você achou, querida, e portanto, temos certamente de censurar este filme de imediato. Bah! Hoje em dia “A Vida de Brian” é frequentemente situada no topo de das listas de melhores comédias de todos os tempos e Muggeridge só pode ser razoavelmente lembrado por ser o agente do MI5 que interrogou PG Wodehouse e sua esposa em Paris de forma amável após a sua libertação, em 1944.

Então, que ninguém pense que, para defendermos qualquer obra de arte (ou filme, ou novela, ou desenho animado) contra a censura de qualquer tipo, quanto mais os horrores absurdos de quarta-feira 7 de janeiro, ele precise ser ‘de primeira categoria” (seja lá o que isso signifique ).

Não estamos todos cansados de ver aqueles que afirmam saber a resposta para a vida, a morte e a criação serem tão fudidamente emotivos sobre o seu conhecimento? Se eu soubesse a resposta para tudo, se eu acreditasse ter compreendido as vontades do autor do universo e tivesse o privilégio de entender o que acontece conosco depois da morte, a última coisa que eu seria é uma pessoa facilmente ofendida e na defensiva. ‘Tirem sarro de mim o quanto quiserem’, eu berraria. “Vá em frente, riam até não poder mais, pode me pintar em borrões toscos, ou fazer filmes tirando sarro. ‘Eles passam por mim como o vento ocioso que eu não percebo’.”

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cooper

Depois que David Lynch anunciou que iria voltar à cidade fictícia que criou no começo dos anos 90 numa continuação de Twin Peaks prevista para o ano que vem, as expectativas em relação à nova produção se voltaram principalmente para o elenco – especialmente para saber se Kyle MacLachlan retornaria ao papel do agente Cooper. A confirmação veio há pouco, quando o ator assegurou que voltará ao papel que lançou sua carreira. “Estou bem animado para voltar ao mundo estranho de Twin Peaks”, disse, “May the forest be with you!”.

zizek2015

O filósofo esloveno Slavoj Žižek também escreveu sobre o momento que vivemos após o ataque à redação do jornal Charlie Hebdo. Eis um trecho de seu texto:

“…O atentado ao Charlie Hebdo não foi um mero “acidente passageiro do horror”. Ele seguiu uma agenda religiosa e política precisa e foi como tal claramente parte de um padrão muito mais amplo. É claro que não devemos nos exaltar – se por isso compreendermos não sucumbir à islamofobia cega – mas devemos implacavelmente analisar este padrão.

O que é muito mais necessário que a demonização dos terroristas como fanáticos suicidas heroicos é um desmascaramento desse mito demoníaco. Muito tempo atrás, Friedrich Nietzsche percebeu como a civilização ocidental estava se movendo na direção do “último homem”, uma criatura apática com nenhuma grande paixão ou comprometimento. Incapaz de sonhar, cansado da vida, ele não assume nenhum risco, buscando apenas o conforto e a segurança, uma expressão de tolerância com os outros: “Um pouquinho de veneno de tempos em tempos: que garante sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para uma morte agradável. Eles têm seus pequenos prazeres de dia, e seus pequenos prazeres de noite, mas têm um zelo pela saúde. ‘Descobrimos a felicidade,’ dizem os últimos homens, e piscam.”

Pode efetivamente parecer que a cisão entre o Primeiro Mundo permissivo e a reação fundamentalista a ele passa mais ou menos nas linhas da oposição entre levar uma longa e gratificante vida cheia de riquezas materiais e culturais, e dedicar sua vida a alguma Causa transcendente. Não é esse o antagonismo entre o que Nietzsche denominava niilismo “passivo” e “ativo”? Nós no ocidente somos os “últimos homens” nietzschianos, imersos em prazeres cotidianos banais, enquanto os radicais muçulmanos estão prontos a arriscar tudo, comprometidos com a luta até sua própria autodestruição. O poema “The Second Comming” [O segundo advento], de William Butler Yeats parece perfeitamente resumir nosso predicamento atual: “Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores são cheios de intensidade apaixonada”. Esta é uma excelente descrição da atual cisão entre liberais anêmicos e fundamentalistas apaixonados. “Os melhores” não são mais capazes de se empenhar inteiramente, enquanto “os piores” se empenham em fanatismo racista, religioso e machista.

No entanto, será que os terroristas fundamentalistas realmente se encaixam nessa descrição? O que obviamente lhes carece é um elemento que é fácil identificar em todos os autênticos fundamentalistas, dos budistas tibetanos aos amish nos EUA: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença perante o modo de vida dos não-crentes. Se os ditos fundamentalistas de hoje realmente acreditam que encontraram seu caminho à Verdade, por que deveriam se sentir ameaçados por não-crentes, por que deveriam invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele só benevolentemente nota que a busca do hedonista pela felicidade é auto-derrotante. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas terroristas são profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não-crentes. Tem-se a sensação de que, ao lutar contra o outro pecador, eles estão lutando contra sua própria tentação.

É aqui que o diagnóstico de Yeats escapa ao atual predicamento: a intensidade apaixonada dos terroristas evidencia uma falta de verdadeira convicção. O quão frágil não tem de ser a crença de um muçulmano para que ele se sinta ameaçado por uma caricatura besta em um semanário satírico? O terror islâmico fundamentalista não é fundado na convicção dos terroristas de sua superioridade e em seu desejo de salvaguardar sua identidade cultural-religiosa diante da investida da civilização global consumista.

O problema com fundamentalistas não é que consideramos eles inferiores a nós, mas sim que eles próprios secretamente se consideram inferiores. É por isso que nossas reafirmações politicamente corretas condescendentes de que não sentimos superioridade alguma perante a eles só os fazem mais furiosos, alimentando seu ressentimento. O problema não é a diferença cultural (seu empenho em preservar sua identidade), mas o fato inverso de que os fundamentalistas já são como nós, que eles secretamente já internalizaram nossas normas e se medem a partir delas. Paradoxalmente, o que os fundamentalistas verdadeiramente carecem é precisamente uma dose daquela convicção verdadeiramente “racista” de sua própria superioridade.

A íntegra do texto já traduzida para o português foi publicada no blog da editora Boitempo.