Robert Fripp, o líder do King Crimson, entregou-se aos devaneios de sua esposa, a cantora Toyah Willcox, e juntos os dois vêm passando a quarentena experimentando possibilidades no YouTube – mas neste Halloween chegaram ao ponto mais crítico até agora, quando misturaram uma versão apenas em que Fripp toca em sua Les Paul com o rosto e o braço coberto de tatuagens temporárias a clássica “Paranoid” do Black Sabbath enquanto Toyah, do outro lado de uma grade (seria uma cadeia ou um cofre?) canta a canção numa performance memorável.
Atualização: E olha essa versão para “Whole Lotta Love” (que no final vira “Kashmir”) e um chicote que eles fizeram no domingo…
Os dois vídeos são chamados de “Sunday Lockdown Lunch” – o almoço de domingo do enclausuramento e, pelo jeito, isso vai longe, hein… Tomara!
Milagre de eleição nos EUA! Enquanto não sabemos quem é o próximo presidente de lá, o partido democrata do estado de Wincosin conseguiu fazer com que Tim Curry, o mestre que interpreta o memorável Frank-N-Furter no clássico Rocky Horror Picture Show, reencarnasse em seu velho personagem na semana passada para uma recriação do filme inteiro via zoom. Embora não conte com a maior parte do elenco original (além de Curry, só compareceram Nell Campbell – a Columbia – e Barry Bostwick – o Brad), o grande feito desta releitura é tirar Curry da reclusão, uma vez que ele sofreu um derrame em 2012. Mas mesmo com as sequelas do ocorrido e esquecendo alguns trechos, ele ainda mantém o bom humor e a sagacidade, felizmente.
Além dos atores do elenco original, a recriação do clássico de 1975 ainda contou com novatos no elenco como Lance Bass, Rosario Dawson, Jason George, Seth Green, Jason Alexander, Colleen Ballinger, David Arquette e Taylor Schilling, além de apresentações musicais de Bob Weir, Peppermint, Dresdeb Dolls, entre outros.
Ao anunciar seu terceiro álbum o solo, o mestre John Carpenter, diretor de clássicos do cinema de terror, o faz com o o primeiro single, a assustadora “Weeping Ghost”, que trabalha dentro do território musical que o acompanha desde os anos 80, quando compunha as trilhas originais de filmes memoráveis, como O Enigma do Outro Mundo, Fuga de Nova York e They Live. Lost Themes III: Alive After Death será lançado em fevereiro pela mesma gravadora Sacred Bones com quem lançou duas faixas neste ano, “Skeleton” e “Unclean Spirit”, em agosto.
Como no disco anterior, Lost Themes II, de 2016, ele volta a trabalhar com o filho Cody Carpenter e seu afilhado Daniel Davies (que, por sua vez, é filho de David Davies, dos Kinks) – e o disco já está em pré-venda. No final de agosto, ele recebeu o prêmio pelo conjunto da obra no canadense Fantasia Film Festival e falou por uma hora sobre seu trabalho, além de confirmar seu envolvimento direto com o remake de O Enigma do Outro Mundo. Ele desconversou quando perguntaram se era uma continuação ou uma história anterior – só espero que ele possa compor a trilha para esta nova versão, imagina…
Mesmo durante a quarentena, a dupla Rakta, formada por Carla Boregas e Paula Rebellato, que agora conta com Maurício Takara como terceiro integrante, não fica parada elança música e clipe novos. O clipe da faixa-título de seu disco mais recente foi lançado no fim do mês passado e traz toda atmosfera tensa feminina, mística e aterradora do grupo, capturada com estilo pela diretora mexicana Michelle Garza Cervera.
Já o épico ambient “Rubro Êxtase”, com mais de dez minutos, foi lançado na semana passada para download pago, mas só agora elas abriram para a audição.
Vão bem, como sempre.
Dois dos filmes mais bem-sucedidos do ano passado – Bacurau e Parasita – reforçaram uma tendência cinematográfica recente de questionar o sistema a partir da realização que ele é composto por pessoas. São filmes como Nós, Sobre Facas e Segredos, Coringa, entre vários outros, que parecem despertar uma consciência das classes oprimidas ao mesmo tempo em que revêem o papel dos ricos nessa história. No Cine Ensaio desta semana, eu e André Graciotti nos aprofundamos nessa tendência recente para também lembrar a forma dúbia que milionários foram retratados na história do cinema.
Sem avisar ninguém, o grupo indie norte-americano Deerhoof lançou Love-Lore, um impressionante exercício em que enfileiram quarenta e três músicas alheias em trinta e cinco minutos, misturando versos, riffs, melodias, solos, grooves e efeitos sonoros ao superporem pedaços de clássicos do rock, hits new wave, temas de seriado, experimentos de vanguarda, hits pop, trilhas de filmes e obras eruditas, misturando Velvet Underground, Sun Ra, Caetano Veloso, Beach Boys, Baden Powell e Vinícius de Moraes, Police, Gary Numan, John Williams, Parliament, Silver Apples, Ennio Morricone, B-52’s, e muito mais. De tirar o fôlego – a bula com todos os nomes das músicas vem abaixo:
Ornette Coleman – “in All Languages”
J.d. Robb – “Excerpt from Spatial Serenade”
Voivod – “Macrosolutions to Megaproblems”
Earl Kim – “Earthlight”
Stu Phillips – “Knight Rider”
Raymond Scott – “Ohio Bell”
Mauricio Kagel – “Music for Renaissance Instruments”
Eddie Grant – “Electric Avenue”
Gary Numan – “Cars”
Karlheinz Stockhausen – “Kontakte”
The Beach Boys – “Wonderful”
Gerald Fried – “Star Trek: Balance of Terror”
Pauline Oliveros – “All Fours”
Paul Williams – “Rainbow Connection”
James Tenney – “for Ann (rising)”
Silver Apples – “Oscillations”
The Police – “Driven to Tears”
Kraftwerk – “We Are the Robots”
John Williams – “Close Encounters of the Third Kind”
Morton Feldman – “Patterns in a Chromatic Field”
Sun Ra – “They Dwell on Other Planes”
Parliament – “Unfunky Ufo”
Asha Puthli – “Space Talk”
Ennio Morricone – “Ottave Comandamento: Corri Veloce”
Milton Babbitt – “Homily for Snare Drum”
The B52s – “Song for a Future Generation”
Sofia Gubaidulina – “Mechanical Accordion”
Vinicius De Moraes & Baden Powell – “O Astronauta”
Dionne Warwick – “Do You Know the Way to San Jose?”
David Graeber – “of Flying Cars and the Declining Rate of Profit”
Derek Bailey – “Improvisation”
William Hanna & Hoyt Curtin – “The Jetsons”
Anthony Braxton – “C-m=b05”
Gyorgy Kurtag – “Shadows for Contrabass Solo”
Eric Siday – “The Perking Coffee Pot”
Igor Stravinsky – “Variations Aldous Huxley in Memoriam”
Caetano Veloso – “Pulsar”
Luigi Nono – “Uno Espressione”
Krzysztof Penderecki – “Threnody for the Victims of Hiroshima”
John Cage – “Empty Words”
George Brecht – “Drip Music”
The Velvet Underground – “All Tomorrow’s Parties”
Laurie Anderson – “Example #22”
A relativização dos valores morais que está acontecendo no mundo hoje reflete-se inevitavelmente no cinema, quando assistimos a filmes – e também séries e games – que buscam entender as motivações do antagonista ao mesmo tempo em que busca falhas éticas no protagonista. Sem distinguir bem e mal, a produção cinematográfica recente parece dissipar estas fronteiras à medida em que personagens outrora vilanescos ganham contornos de herói. Eu e André Graciotti discutimos esta tendência e nos perguntamos sobre como isso se reflete de volta na sociedade como um todo.
A tristeza é inerente aos nossos dias ou ela nos foi imposta como uma grande mensagem subliminar nas últimas décadas? Na nova edição do Altos Massa, eu e Pablo mergulhamos na transformação das metas de nossas vidas, falando sobre como a felicidade deixou de ser um horizonte possível para abrir espaço para sua negação como regra e assim lembramos dos tempos da hiperinflação, falamos da diferença entre gerações, da descoberta da internet, da cultura do cancelamento e outros assuntos de alguma forma correlatos a essa sensação melancólica que atravessa nossos dias.
A notícia não é nova, já que a reedição dos dez volumes que compõem a clássica graphic novel From Hell, em que Alan Moore e Eddie Campbell tentam decifrar o enigma de Jack o Estripador enquanto a Inglaterra vitoriana prepara-se para entrar no século, começou quando a série original completou 20 anos, em 2018. Seria apenas mais uma reencarnação editorial de outro clássico dos quadrinhos não fosse o pequeno detalhe desta edição ter… cores. A surpreendente notícia nos remete à infame versão colorizada de Casablanca que foi lançada no final dos anos 90, mas há um diferencial crucial: quem coloriu os quadrinhos foi o próprio Campbell, seu ilustrador original, que prefere inclusive se referir à nova versão como “colorida” em vez de “colorizada”, como a própria editora Top Shelf chama a versão na capa do volume que reúne as dez edições num só tomo, este sim lançado no mês passado.
Campbell aproveitou para corrigir defeitos que lhe incomodavam, nada que mudasse substancialmente para o leitor e que mais mexiam com seu perfeccionismo. Mas por mais que a versão colorida não seja tão ofensiva quanto parece conceitualmente, ela perde o tom sombrio e pesado que atravessa as páginas da versão original – em que manchas de sangue viram borrões pretos de nanquim. Dá para ver algumas páginas abaixo, mas este equivalente visual de uma versão do diretor não chegou a me comover… Embora não seja, felizmente, uma heresia como este notícia fazia parecer.
Dá pra comprar o volume completo deste From Hell colorido no site da editora Top Shelf.
A princípio parece só um amontoado de palavras: “Lixo quiche rixa husky pixe risco rímel rumo rouge haxixe concha jaca cacho Reykijavik Vaporub mirra marreta mojito lixa lesma caixote”, cospe Tulipa Ruiz por cima de um groove tenso e quadrado, eletrônico e funky ao mesmo tempo em que soa pesado e raivoso, conduzido por seu irmão, o produtor Gustavo Ruiz, e Rica Amabis, metade da dupla de produção Instituto. Mas superpostas às imagens conduzidas por Alexandre Orion, que mistura diferentes facetas do nosso apocalipse diário em doses nada sutis de justaposição, o projeto Cactu, que os quatro mostraram no final da quarta temporada do projeto Palavras Cruzadas, ganha uma forte carga política, bem como pede este bizarro 2020. Criado a partir do convite do curador Marcio Debellian, os quatro criaram o show para duas únicas apresentações em 2015, no Rio de Janeiro, mas existia a intenção de ir além. Ressuscitado pela quarentena, o novo grupo começa a se mostrar a partir desta segunda, quando o primeiro single, “Chorume”, chega às plataformas digitais. O quarteto deve lançar outro single ainda este ano e o disco fechado fica para o início de 2021.















