
E a minha coluna no Link dessa semana foi sobre a morte de Aaron Swartz (que a Tati entrevistou pra uma capa do Link em abril do ano passado…

Swartz não se contentava com uma vida confortável
O ativista seguiu seus ideais e não o mercado
Como acontece com quase tudo online, o trecho do clássico poema beat Grito (Howl, em inglês), de Allen Ginsberg, virou piada há algum tempo. A épica constatação que “vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura” ganhou um tom jocoso feito para ridicularizar uma das principais obsessões profissionais deste século digital: “Vi as melhores mentes da minha geração pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios”.
Parece só uma piada, mas não é exagero: há muita, mas muita, gente talentosa que, devido às preocupações do mercado, se vê obrigada a deixar suas melhores qualidades em segundo plano para queimar neurônios para fazer com que as pessoas curtam posts no Facebook, deem RT em tweets, cliquem em banners ou para que façam galerias de fotos para que os usuários fiquem mais tempo online. Palavras como “engajamento”, “monetização”, “publieditorial” e “multiplataforma” (além de termos em inglês “buzz”, “app”, “newsfeed”, “e-commerce”, “startup”, “brainstorm”) causam urticária em pessoas que gostariam de estar fazendo outras coisas, mas se veem presas à obrigação de gerar audiência para uma marca.
O norte-americano Aaron Swartz, que nasceu em 1986, preferiu o outro caminho. Gênio da programação, o rapaz de 26 anos que cometeu suicídio há dez dias pode ser considerado não apenas um dos desbravadores da web que habitamos hoje, mas um de seus principais arquitetos. Ainda adolescente, trabalhou com nomes como o criador da World Wide Web Tim Berners-Lee (em um projeto de web semântica, a tão esperada web 3.0) e com o advogado Lawrence Lessig (Aaron o ajudou a traduzir a lógica das licenças livres do mundo do direito para a linguagem técnica dos computadores). Mas não bastou estar nos ombros dos gigantes. Foi além.
Não tinha nem 20 anos quando criou o web.py, framework para desenvolvimento web na linguagem Python que não só foi a base da criação de um dos primeiros sites sociais do mundo, o FriendFeed, como mais tarde serviu tanto para a criação do Facebook quanto para os vários projetos de rede social do Google. Ajudou a criar o Reddit, uma das redes sociais mais importantes e ativas da última década, cuja relevância e importância crescem a cada ano – não por acaso Barack Obama ofereceu-se para ser sabatinado na rede social, na campanha para a reeleição no ano passado. Aaron também era um dos principais articuladores do ativismo digital do século, escrevendo artigos e defendendo causas sempre à favor da liberdade de expressão e da internet aberta.
O tom grave de sua morte parece piorar o cenário descrito na paródia do poema do início do texto. Aaron poderia se juntar aos muitos geninhos que preferiram o conforto do emprego seguro e da vida corporativa e hoje estaria vivo, talvez ganhando muito dinheiro, mas inquietado. Preferiu seguir seu coração e todos nós ganhamos com isso.
Os mais cínicos dirão que ir atrás do próprio sonho foi o que determinou o fim de sua vida – um argumento ridículo. O motivo pelo qual Aaron tirou a própria vida não é claro, embora tudo indique que tenha a ver com o processo que o Massachusetts Institute of Technology (MIT) movia contra ele. Um processo que, se fosse considerado culpado, poderia colocá-lo na cadeia por até 50 anos.
Aaron era a favor da difusão livre da informação e hackeou o Jstor, um banco de dados de teses científicas, para mostrar que este conhecimento deveria estar na rua, ao alcance de todos. A ironia desta situação vem do caso que Aaron só virou programador porque, aos 11 anos, descobriu que o próprio MIT oferecia cursos gratuitos online.
Claro que ele aprenderia a programar de outra forma – mas, ao hackear o Jstor, não tenho dúvida de que ele queria aumentar a possibilidade de que mais pessoas como ele pudessem seguir seus sonhos – e não ficar pensando em como fazer os outros clicarem em anúncios.
Eis a resenha que fiz para o Django Livre, no site da Galileu:

Um clássico de Quentin Tarantino
O que torna um filme clássico? O momento em que ele é lançado, se ele consegue registrar as inquietações de seu tempo a ponto de entrar para a história como um espelho daquele momento. Grandes atuações. Uma fotografia impecável. Uma direção segura. Cenas que, apenas com o casamento de som e imagem, conseguem sintetizar sentimentos da cabeça do autor para a do espectador. Grandes frases. Bom ritmo. Boa narrativa.
E quais são as características que tornam um filme de Quentin Tarantino um filme de Quentin Tarantino? Uma metralhadora de referências. Grandes atuações. Diálogos longos com descrições detalhadas. Cenas de tortura física e psicológica. Vilões maus de verdade. Protagonistas dispostos a acertar contas. Bom ritmo. Grandes frases. Narrativa entrecortada.
Desde que o século 21 começou que Tarantino tenta transcender seu próprio cinema, aquele com as bases lançadas durante os anos 90. Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown ficavam naquela zona cinzenta dos filmes policiais de baixo orçamento dos anos 70, que une os blaxploitation aos primeiros Scorsese e aos melhores filmes de Sam Peckinpah e, graças ao tempero de citações e referências pop de seu diretor, transformava todo este gênero considerado B no território dos novos clássicos.
Mas os anos 90 acabaram e Tarantino quis sair de seus anos 70 e dos Estados Unidos, abraçando uma carreira internacionalista. Com os dois volumes de Kill Bill visitou o Japão e o cinema asiático e Bastardos Inglórios passava-se na França para causar o encontro explosivos da elite do nazismo alemão com mercenários judeus do exército americano tentando se passar por italianos de araque. Entre os dois, visitou o cinema de drive-in dos anos 50 no bilhete duplo Grindhouse, codirigido com o comparsa Robert Rodriguez. E agora, com Django Livre, rebobina seu filme um século e meio no passado.
E se seus filmes anteriores apenas aspiravam a transcendência rumo a um cinema clássico (quase sempre esbarrando na caricatura, seja no gesto em que Pai Mei ajeitava sua barba em Kill Bill ou na gargalhada que a tela do cinema dava na sessão fatal do final de Bastardos Inglórios), em Django Livre ele deixa a caricatura em segundo plano. Tarantino está mais interessado em celebrar o western como um dos principais gêneros narrativos norte-americanos do que em fazer sua habitual graça com filmes antigos, músicas desenterradas ou listar produtos de consumo.
Por um lado, isso é um tanto complicado, uma vez que o filme se passa no meio do século 19 e as referências pop da época são praticamente nulas – afinal, não existia cultura pop então. Por outro, é a deixa para Tarantino exibir seu extenso leque de samples cinematográficos, empilhando referências de filmes antigos e que caíram no esquecimento ao mesmo tempo em que aponta para referências que não são propriamente pop. Cita a mitologia germânica, a Ku Klux Klan avant la lettre, a então recente consciência humanista europeia e chega ao extremo de acenar para Laranja Mecânica do Kubrick (veja o desconforto na cena em que tocam Beethoven). E, claro, superpõe cenas que se passam em uma época com músicas de outra – e este contraste acentua-se ainda mais quando a época no caso é o século retrasado.
Mas não é o clássico Tarantino que torna Django Livre clássico, e sim sua aspiração ao grande cinema. Como os irmãos Coen em Onde os Fracos Não Tem Vez, Tarantino aproveita sua incursão pelo velho oeste para filmar cenas que fazem mais sentido na tela do cinema, por maior que seja a tela da TV em sua casa. A cena em que o escravo Django (Jamie Foxx, atuação irrepreensível) e seu dono Dr. King Schultz (Christoph Watz, repetindo o papel de Bastardos Inglórios, só de outro ponto de vista) firmam parceria e atravessam as montanhas rochosas no inverno, ao som de “I Got a Name” de Jim Croce, ao mesmo tempo brinca com a ideia de road movie antes mesmo das estradas existirem, também dedica-se com esmero de documentarista e fotógrafo à paisagem natural dos Estados Unidos.
O glacê deste épico é uma saga de vingança, e nela o tempero Tarantino é carregado – e maniqueísta. Com poucos minutos de filme, ele já mostra que os caipiras do sul dos EUA não são apenas os vilões do filme como quando, ao morrer, espatifam-se feito personagens de desenho animado, causando riso. Já os escravos ganham a aura de protagonista não apenas personificada na busca de Django pela liberdade e por sua esposa, Broomhilde, no sul daquele país, mas também por serem vítimas de violência gratuita e gráfica, em diversos momentos, humilhantes e tétricos. A cena em que o escravo D’Artagnan é cobrado por não ter feito o que deveria fazer é revoltante – e Tarantino a torna assim de propósito, justamente repulsiva para nos lembrar que estas cenas aconteciam com nossos ancestrais recentes, quatro gerações para trás. Brancos rindo e se divertindo enquanto negros viram a cara, calados, para evitar a dor e a tristeza.
É quando surge dois dos principais personagens e das grandes atuações do filme, quando somos apresentado ao desprezível Calvin Candie (Leonardo diCaprio, genial) e seu escravo particular Stephen (Samuel L. Jackson, irreconhecível). Os dois dão aulas de dramaturgia à medida em que encarnam seres desprezíveis, opostos diretos aos personagens de Foxx e Waltz. Ao contrapor dois vilões e dois mocinhos sem dividi-los por raça, Tarantino dá seu xeque final à pseudopolêmica racista relacionada ao filme. O filme sublinha sim o holocausto da escravidão, mas lembra que bondade ou maldade independe de cor da pele.
E depois de nos provar isso com atuações e diálogos brilhantes, ele deixa o couro comer em tiroteios que não devem em nada às carnificinas em massa de Kill Bill. Django é um filme ousado, assustador, tenso e provocador, ao mesmo tempo em que não perde o bom humor e pode até provocar gargalhadas.

Que música é essa? Como assim, que espécie de dance music estamos ouvindo? Afrika Bambaataa ergueu a primeira ponte entre a música eletrônica quando sampleou o Kraftwerk em “Planet Rock”, mas essa conexão seguiu firme e forte e desde o início do século ganhou bases sólidas e amplo financiamento da indústrias – o casamento do Daft Punk com Kanye West ou as inúmeras participações especiais nos hits de David Guetta mostram o vulto que esta conexão atingiu nos últimos anos. Aí vem Nicki Minaj, sobrevoa esta ponte sobre uma espaçonave (“mais chapada que uma feladaputa”), abduz todos os formatos que podem ser utilizados nesta conexão – eurodance, trance, hip hop, italo house, electropop – e os empilha numa canção caricata e exagerada, que canta sobre como se acabar numa pista de dança. Se fosse necessário inventar um gênero para “Starships” poderia ser algo próximo a WTF music (isso sem precisar ver o clipe, que é ainda mais retardado). Feizmente não é preciso, resta apenas deixar o cérebro derreter sobre os quadris.

“Todo mundo tem um segredo” – e o de 2012 foi a ascensão dos Chromatics e da obra de Johnny Jewel, que ganhou proeminência à medida em que o ano foi passando. Primeiro veio a trilha sonora do filme Drive, seguida de perto por um misterioso segundo disco da banda, uma série de mixtapes, remixes e versões, a trilha do desfile da Chanel e o anúncio do volume 2 da coletânea que deu origem à cena, After Dark. Inevitavelmente, a obra central deste movimento é o álbum Kill for Love, que, apesar do tom soturno que apresenta logo de cara (uma versão shoegaze para “Into the Black”, de Neil Young), mostra suas garras na faixa-título: hipnótica, etérea, barulhenta, doce – um encontro às cegas entre o Cocteau Twins e o Jesus & Mary Chain dando estranhamente certo.

Timbres jurássicos de um passado sintético colidem com a fragilidade de um vocal quase indie, quase tímido, quase oriental, que se desfaz zen por sobre uma base insistente e caricata, um mashup de realidades que poderia ser criado por algum autor cyberpunk ainda nos anos 80. Grimes se comporta como a irmã caçula do LCD Soundsystem, mas ao mesmo tempo, parece sempre ter existido como um holograma no computador. Uma das artistas que melhor resumiram o hipsterismo catastrofista de 2012, em “Oblivion” ela soa otimista e pronta para recomeçar.

Enquanto Frank Ocean ganhou 2012 por expandir seu universo sonoro para além do hip hop, abraçando diferentes camadas da black music num disco ao mesmo tempo sensível e maduro, Kendrick Lamar aproveitou sua primeira incursão na primeira divisão da indústria fonográfica para transformar seu Good Kid, m.A.A.d. City no grande disco de rap do ano. Ao mesmo tempo em que resolve contar seus dramas da juventude (o título do álbum se refere à sua chegada em Compton, berço do gangsta rap no sul de Los Angeles, além de conter uma sigla para “my angry adolescence divided”), resolve assumir sua maturidade, tanto nos beats mais sossegados quanto no flow manhoso, quase falado. E o grande momento do disco é sem dúvida a irresistível “Bitch Don’t Kill My Vibe”, tão californiana quanto Dr. Dre e 2Pac Shakur, mas transformando a arrogância em desprezo, atitude resumida numa frase inusitada em uma música de hip hop: “Às vezes preciso ficar só”.

“Pés não falhem agora” – eis o primeiro salto, o momento em que Lana Del Rey, agora com contrato, turnê e cachês, resolve ampliar seu espectro e deixar de ser a Jessica Rabbit do YouTube. Para isso, ela começou 2012 com a faixa que batizava seu disco de estréia, dando, a partir do título, operático e dramático, a noção da amplitude que gostaria de percorrer por 2012 e além, numa música existencialista e dramática, trágica e cética – o clipe superpõe um mundano acidente de carro a um trono cercado por tigres e funciona como um trampolim para Lana ir ainda mais longe.

A expectativa em relação ao segundo disco do Xx pode ter estragado seu impacto – quando a bela “Angels” deu as caras pela primeira vez, já anunciada como a primeira faixa do novo disco, esperava-se um vôo ainda mais ousado que o do primeiro disco, levando as texturas dubstep que davam o tom da banda – junto com o R&B noventista e a dinâmica vocal indie – para um novo patamar. Coexist, no entanto, frustrou as melhores esperança e mostrou-se um disco apenas correto, quase uma sobra de músicas que não puderam entrar no álbum de estréia. A exceção ficou por conta da tensa e bucólica Tides, que realmente leva a fórmula criada pelo grupo inglês para outro nível.

O dedilhado no violão de Steve Marion ganha outras dimensões impressionistas graças ao acréscimo de texturas plácidas e sons ambiente, enquanto a letra, que apenas arrasta o título da canção num canto emocionado sem pender para a euforia ou para a introspecção, evoca a única coisa que importa numa paixão.

No meio do ano, a impenetrável dupla sueca JJ lançou um EP de verão – High Summer – e logo no início, o reggae pálido e esquivo “10” colocava em xeque relações artificiais, revoluções televisionadas, remixes feitos por amigos e conversas sem sentido – numa crítica hippie e triste não propriamente ao novo século digital, mas como suas qualidades são distorcidas pela maioria das pessoas.