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Paranoia

Quando Charli XCX despediu-se do verão Brat no final do festival de Coachella do ano passado, ela não estava apenas colocando o ponto final em seu bem sucedido experimento pop de 2024, como também estava esticando-o como reticências para um novo momento para o disco. O momento em si (er…) era o próprio filme The Moment, que estreia no próximo dia 30 nas telas do hemisfério norte, pseudodocumentário feito no meio da turnê do infame disco verde-limão que lida com a dor e a delícia de se cumprir uma agenda intensa quando se chega um ponto alto do showbusiness (que inclui, mais infâmia de piada interna, documentários sobre turnês gigantescas). O documentário começou a ser revelado ali, quando, no telão, ela duvidava sobre o fim do verão Brat e, no som, ouvíamos um remix de “I Love It”, hit da dupla sueca Icona Pop que colocou Charli no mapa mundial da dance music em 2012, que dá ênfase em dois versos da canção: “Eu amo” e “eu não me importo”. Foi revelado no ano passado que o remix era, na verdade, uma faixa inédita do produtor e broder de Charli, A.G. Cook, que assina a trilha sonora do documentário e batizou aquele último suspiro de Brat de “Dread” (nojo), sintetizando o lado pesado da fama multimilionária que quase nunca é mencionado por seus protagonistas. Na semana passada, Cook lançou mais uma música da mesma trilha, um IDM pesadíssimo chamado “Offscreen”, o que indica que Brat seguirá vivo por mais alguns meses mesmo que Charli esteja mais ocupada com sua carreira nos cinemas – e siga dando aulas de como lidar com o mondo pop na terceira década do século 21.

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Nesta quarta-feira, o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo dá início à Mostra Todd Haynes, que, com curadoria de Carol Almeida e Camila Macedo, reúne 23 obras, entre filmes dirigidos por Haynes e outros que dialogam com sua obra. Entre os filmes do homenageado estão seus primeiríssimos filmes, como O Suicídio (de 1978) e Assassinos: um filme sobre Rimbaud (de 1985), Carol, Dottie Leva Palmadas, Longe do Paraíso, os inacreditáveis Mal do Século e Não Estou Lá (sobre Bob Dylan), O Preço da Verdade, Veneno, Segredos de um Escândalo, Sem Fôlego, Velvet Goldmine e o documentário que ele fez sobre o Velvet Underground. Além dos filmes de Haynes, a mostra ainda reúne títulos como Uma mulher Sob Influência de John Cassavetes, O Medo Devora a Alma de Fassbinder, Jollies da Sadie Benning e Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles de Chantal Akerman, entre outros. A programação completa está no site do CCBB.

“A próxima música é provavelmente uma das principais canções. E não quero demorar muito esta noite, mas escrevi esta canção como uma ode à possibilidade americana… Tanto ao belo mas imperfeito país que somos, quanto ao país que poderíamos ser. Agora, exatamente agora, estamos vivendo tempos incrivelmente críticos. Os Estados Unidos, ideais e valores que o representam nos últimos 250 anos, estão sendo testados como nunca antes nos tempos modernos. Esses valores e ideais nunca estiveram tão ameaçados quanto agora. Então, enquanto nos reunimos esta noite nesta bela demonstração de amor, cuidado, consideração e comunidade, se você acredita na democracia, na liberdade; se acredita que a verdade ainda importa e que ainda vale a pena falar em seu nome e lutar por ela; se você acredita no poder da lei e que ninguém está acima dela; se você se opõe às tropas federais fortemente armadas e mascaradas que invadem cidades americanas usando táticas da Gestapo contra nossos colegas cidadãos; se você acredita que não merece ser assassinado por exercer seu direito americano de protestar; então mande uma mensagem para esse presidente. E como disse o prefeito daquela cidade, o ICE deveria vazar de Mineápolis. Então, esta é pra você e pela memória de Renee Good, mãe de três filhos e cidadã americana”. Assim Bruce Springsteen apresentou sua “The Promised Land” em sua aparição surpresa no Light Of Day Winter Festival, evento que acontece há anos em sua cidade-natal Nova Jérsei, nos EUA, bradando contra o regime de milícia que tem baixado no dia-a-dia daquele país. Esse tipo de protesto ainda segue tímido devido à decadência tétrica que Trump vem conduzindo seu país, mas deve tornar-se cada vez mais frequente se o clima continuar pesando cada vez mais…

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Fear of the Pix?!

E essa operação da PF pra prender cambista milionário dos próximos shows do Iron Maiden que foi batizada de Fear of the Pix? Convenhamos que eles pegaram leve com esse trocadilho e deixaram passar variações com o maior hit do grupo inglês.

PIX PIX PIX THE NUMBER OF THE BEAST

ou

THE NUMBER OF THE PIX

Mas dá pra pensar em inúmeros outros: Pix of Mind, Run to the Pix, The Pix of the Ancient Mariner, Running Pix, Wasted Pix… Qual mais?

O festival Cecília Viva, que aconteceria no fim deste mês em Ilhabela, infelizmente não irá mais acontecer por questões entre a produção e o local onde o evento seria realizado. Uma pena, pois além de reunir um elenco de peso (misturando, entre outros. Rakta, Metá Metá, Bazuros e Azymuth) também mantinha vivo o nome da Associação Cecília Cultura e explorava possibilidades ao vivo para além das casas de show tradicionais de São Paulo.

Morreu o sujeito que inventou que todos os mistérios da civilização que ainda não tinham explicação só teriam uma única resposta possível: alienígenas. Autor do best-seller Eram os Deuses Astronautas?, este ex-garçom criou uma pseudeoarqueologia alternativa que se espalhou por dezenas de livros (e depois filmes e programas de TV) e explicava diferentes civilizações humanas como cobaias de experimentos extraterrestres, gerando todo uma nova safra de escritores, cineastas e teóricos dedicados ao tema. Um picareta bem sucedido, entrou no imaginário do século 20 como um dos principais autores de teorias da conspiração que não era tratado apenas como um maluco mal intencionado – e ganhou muito dinheiro com isso.

Bad Bunny começou a perna sul-americana de sua turnê essa semana e já mostrou a que veio na primeira apresentação no Chile quando, nesta sexta-feira, no mesmo Estádio Nacional de Santiago que viu a ditadura chilena assassinar Victor Jara, pôs um de seus músicos para tocar uma versão instrumental para “El Derecho de Vivir en Paz” do próprio Jara. Emocionante — e dá o tom de sua vinda ao continente num momento crucial para nós.

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É oficial: o novo Godzilla já tem data marcada pra chegar aos cinemas. Será lançado no Japão no dia 3 de novembro (o dia do monstro, em homenagem à data original do lançamento do primeiríssima filme, de 1954) e três dias depois nos Estados Unidos (embora não haja data confirmada para o lançamento no Brasil). Godzilla Minus Zero é a continuação do excelente Godzilla Minus One, dirigido por Takashi Yamazaki em 2023, que talvez seja o melhor filme de monstro já feito.

Desde que o Belas Artes assumiu a curadoria de filmes do Frei Caneca, a programação daquele cinema melhorou horrores, como é o caso dessa mostra Davids, que reúne dois #janeirocapri do primeiro escalão em filmes que trazem Bowie no elenco e Lynch na direção. A seleta deste último tá melhor que a do primeiro (podia ter Furyo, O Grande Truque, Labirinto, Zoolander e até o documentário Moonage Daydream) e podiam trazer o ponto de encontro dos dois (o soberbo e aterrador Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer), mas não tô reclamando — olha essa sequência de filmes, afinal… A mostra também acontece no Rio de Janeiro, no Belas Artes Botafogo.

Nenhum diretor personifica tão bem a ideia da cinefilia para além da indústria do que o húngaro Bela Tarr, que morreu nesta terça-feira. Autor com letra maiúscula, nunca fez concessões para o cinema como indústria ou comércio e dirigiu filmes épicos e lentos, sem ação ou espetáculo, sem preocupar-se com narrativas tradicionais ou métricas estabelecidas. Colocava moral, ética e existencialismo no mesmo patamar da grande arte, fazendo filmes que eram essencialmente políticos e humanísticos ao mesmo tempo em que negava-se a facilitar a obra para o espectador, convidando-o mais a experimentar suas peças audiovisuais do que a entendê-las. Trabalhava com atores não-profissionais, filmava cenas longas e por vezes improvisadas, sempre esticando-a por minutos lentos e contemplativos, quase sempre num preto e branco de alto contratantes, sempre abordando temas pesados e difíceis, como a decadência da humanidade, o fim da utopia política, o fracasso da modernidade, a repetição, a dificuldade em se comunicar e ser compreendido como centro do caos social que tornou-se a sociedade, sempre com tons de desilusão e desesperança. Entre seus clássicos estão filmes como Danação (1988), Sátántangó (com suas lendárias sete horas de duração, 1994), meu favorito Harmonias de Werckmeister (2000) e O Cavalo de Turim (2011). Um diretor único, incomparável e seminal, que deixa nosso plano numa época que parece ter abandonado as características que ele exigia de seu público: a atenção, a paciência, a imersão filosófica e a disposição psicológica. Um mestre.