
Uma das capas da edição Trip desta virada de ano é o ator, produtor e diretor Guilherme Fontes, que entrevistei para a seção Páginas Negras que abre a revista. 2015 é o ano que marca os 20 anos do projeto que consagrou a fama de Guilherme, que deixou de ser visto como um galá de novela para ir parar nas páginas de polícia como pária do cinema nacional, ao desviar milhões de reais que deveriam ser gastos na produção de seu filme Chatô – O Rei do Brasil, baseado na biografia do magnata brasileiro das comunicações do meio do século passado Assis Chateubriand. Na entrevista, dada no dia seguinte à decisão judicial que exigia que Fontes devolvesse mais de 80 milhões de reais aos cofres públicos, o ator diz estar tranquilo e que é vítima de uma conspiração por ter querido crescer demais no showbusiness brasileiro. Mas ele disse também que o filme está pronto e deve ser lançado em 2015, quando ele começa a provar que não deve nada a ninguém. Um trecho da entrevista pode ser lido no site da revista:
Que grande lição você tirou dessa história toda, da filmagem do Chatô?
Jamais faria um filme sem o dinheiro todo na conta. Foi meu único problema. O dinheiro tem que estar 100% na conta. A lei permite usar mesmo que você não tenha 100%, isso está errado. Sair pra captar é legal e você envolve outros personagens no processo. Por outro lado, você coloca pessoas que não têm nada a ver com o processo pra decidir sobre o negócio. Tudo bem que você precisa de anunciantes, mas não pode condicionar à existência desses patrocinadores a obra cultural do país. As pessoas já estão começando a usar dinheiro próprio e esquecendo do incentivo.O que podemos esperar do filme?
Estou encantado com o lançamento do Chatô. Acho que fizemos um grande trabalho. Como disse o Cacá Diegues, quando viu o material bruto: “É o último filme tropicalista do cinema brasileiro”. É uma grande homenagem ao cinema novo, ao modernismo, a tudo que admiro. Ao Fernando Morais pelo grande livro que escreveu. Não sei por que os figurões do cinema vieram me satanizar. Eu sou produtor pra brigar por mais espaços, mais empregos para a nossa classe. Fui até o fundo do poço por esse filme. Mas tinha mola lá embaixo. Valeu a pena.
O resto, só na edição impressa.

O ataque à redação do Charlie Hebdo também foi motivo para o jornalista e quadrinista Joe Sacco defender falar de limites quando o assunto é humor, neste comentário ácido feito para o Guardian. Se alguém se dispuser a traduzir, basta postar a tradução nos comentários que eu colo aqui.

A Fast Company desenterrou uma tese de 1989 apresentada ao Departamento de Estudos da Comunicação da Universidade de San Jose, nos EUA, em que uma certa Josephine Bao-Sun Chen estuda as diferentes formas que conversas terminam, para chegar à matriz acima, redesenhada pelo blog Know More, do Washington Post. Agora só falta alguém fazer uma versão em português. Alguém se habilita?

O ator inglês Stephen Fry esteve entre o milhão e meio de pessoas que se reuniu em Paris após o já histórico atentado à redação do jornal Charlie Hebdo. E antes de ir para a rua, escreveu o seguinte texto em seu blog, que republico em inglês (e se alguém se dispor a traduzir eu republico aqui):
I remember all those years ago when the fatwa was declared on Salman Rushdie, plenty of British writers and commentators who absolutely should have known better claimed that The Satanic Verses ‘really wasn’t that good’, the implication being that it was therefore hardly worth making a stand against the death sentence laid on its author. As it happens (not that it matters of course) … The Satanic Verses is one of the great post-war comic novels. Similar horrible nonsense was spouted recently by some on the subject of the Sony film The Interview. ‘Oh, it’s actually rather poor.’
The now largely forgotten writer, broadcaster and Christian apologist Malcolm Muggeridge destroyed his legacy as a serious and interesting man in fifteen footling minutes on television in which he languidly described Monty Python’s Life of Brian as ‘tenth rate’ … as if that were a reason to stop it being screened. Utterly disingenuous. He wanted to stop it being screened because he was ‘offended’ by its ‘blasphemy’ and so he offered the same non-argument as those advanced by his fellow Festival of Light founder Mary Whitehouse of hilarious memory: “Oh I’m not shocked, oh no. In fact I found it rather boring.” Of course you did darling, and therefore we must certainly censor it right away. Bah! These days Life of Brian regularly comes top in all time best comedy film polls and Muggeridge might only be warmly remembered for being the MI5 officer who debriefed in kindly manner P. G. Wodehouse and his wife in Paris after its liberation in 1944.
So let no one think that in order to be defended against censorship of any kind, let alone the terminal horrors of Wednesday 7th January, a work of art or a film or a novel or a cartoon need be ‘first rate’ (whatever that means).
And aren’t we all tired of those who claim to know the answer to life, death and the creation being so fucking sensitive about their knowledge? If I knew the answer to it all, if I thought I understood the wishes of the author of the universe and was privileged to understand what happens to us after death, the last thing I would be is all prickly and defensive. ‘Mock me all you like,’ I’d cry. ‘Go on, laugh your socks off, paint crude daubs, make mocking films. They pass me by as the idle wind which I respect not.’
Como sempre, vale ler a íntegra.

Se você não entendeu o cartum que Laerte fez em referência ao ataque criminoso ao jornal Charlie Hebdo, esta entrevista ao Morris Kachani (que, infelizmente, encerra seu ótimo blog de entrevistas na Folha) deixa tudo mais mastigado:
Você concorda com a colocação, de que o atentado ao Charles Hebdo foi o “11 de setembro da liberdade de expressão”?
Não gosto, acho tola e apressada. Acho que o que foi atacado não foi a liberdade de expressão. É uma tática para um jogo político mais complexo e perigoso. O jihadismo não tem a pretensão de controlar a liberdade de expressão na França. Este é um traço que vem desde a Comuna de Paris.Não houve ataque à liberdade de expressão?
Houve um ataque à liberdade de expressão, mas não é este o objetivo estratégico. Por que não atacam a direita anti-islâmica? Porque não interessa. Querem criar uma confusão que visa comprometer todo o sistema. Se atacassem só os fascistas seria uma espécie de limpeza, que até interessaria (risos). Mas o que os terroristas querem é movimentar a opinião massiva. Eles sabem que o sentimento xenófobo vai se exacerbar, e isso pode gerar políticas militaristas de intervenção no Oriente Médio – isso tudo interessa ao Estado Islâmico, um grupo que não está ligado à idéia de construir um Estado, está ligado em construir guerra.Por que os ataques contra o fascismo não acontecem?
É improdutivo dentro do ponto vista da tática de gerar o terror, a confusão é o que interessa, o irracionalismo. O que embasa o desejo terrorista não é uma construção racional de um coletivo árabe de uma liberdade de expressão, a ideia é outra, de propor uma ideia de guerra jihadista contra o mundo. É uma ideia louca, que é alimentada por Bushes da vida, Olavos de Carvalho da vida. Tentar construir a ideia de um choque de culturas, onde um precisa prevalecer dentro dessa lógica. ‘O que deve prevalecer é o nosso lado, precisamos destruir o outro’.Qual sua conclusão sobre o atentado ao Charlie Hebdo?
Não existe ainda, tenho procurado ligar os pontos. É aterrorizante o suficiente para abalar as convicções da gente. Agora quais convicções, não sei. De princípio tenho visto que nas exibições de força no facebook, as pessoas se aferram às posições delas e fazem trincheiras de onde atiram.
Tenho tentado entender fora da dor e do sentimento de perda, pois amava e admirava o CH, tento entender politicamente o que está acontecendo. Começam os ataques às mesquitas e restaurantes árabes, ou aos minimercados judaicos… Isso que vai gerar, é um padrão estimulado por grupos de direita que querem construir uma política de exclusão dentro da Europa.E sobre os acontecimentos de hoje?
A morte dos irmãos? Não tenho o que comentar, sério. Acho que continua em marcha o projeto de irracionalismo.Como assim?
11/9 salvou a vida do Bush, um político medíocre e desprestigiado que vinha de uma eleição contestada. Foi transformado em herói e abraçou as táticas militaristas e intervencionistas.Penso porque esses fdp fizeram isso. É que no final das contas o fundamentalismo e os grupos de ultra-direita xenófobos se alimentam. Foram feitos um para o outro. Haja entendimento real ou não, na prática a porra louquice atende ao clamor da porra louquice.
Mas não sei isso é coisa de malucos. Pode ser um jogo muito mais frio do que a gente pensa, e é isso que me aterroriza – ver que não é maluquice. Esse jogo frio pode envolver dinheiro, poder político e controle militar.
Consegue associar este atentado a um fato político da história brasileira?
No Brasil as pessoas foram presas, matou-se gente, pessoas ficaram acuadas. Mas a reação historicamente determinante à ocupação ditatorial se deu quando mataram um jornalista. Na mesma ocasião Manoel Fiel Filho, militante ativista operário foi morto. Todo mundo se comoveu mas não foi decisivo. Decisivo foi terem matado Vladimir Herzog, que era jornalista. Isso foi importantíssimo no jogo cultural que a ditadura estava tentando fazer naquele momento. Hoje sabemos que houve uma tentativa de golpe dentro do golpe, da linha dura, que foi frustrado porque eles foram mais longe do que podiam. Ao mesmo tempo podiam ir menos longe? A lógica deles é de montar canastra. Era o jeito que sabiam jogar.




