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Rumo ao Maranhão

br135

Parto hoje para São Luís, participar da quinta edição do festival BR135, que conta com Liniker, DuSouto, Nação Zumbi, High Vibes Sound System, Lei Di Dai, Venga Venga e Strobo, entre outros (mais informações aqui). Depois eu conto como foi.

Entre os 3%

A atriz Bianca Comparato em 3%

A atriz Bianca Comparato em 3%

Conversei com o elenco e a produção da primeira série brasileira produzida pelo Netflix lá no meu blog no UOL.

“Tem um lado meu que acha uma pena, obviamente, tudo isso que está acontecendo no Brasil”, lamenta a atriz Bianca Comparato quando pergunto se ela acha que há algum paralelo entre 3%, a primeira série que o serviço de vídeos Netflix produz no Brasil, e o momento político brasieiro atual. “Mas tem um outro lado meu, que é mais otimista, que acha que é um processo de amadurecimento, que estamos podendo olhar para nós mesmos pela primeira vez, de verdade, sem ingenuidade. E esse embate faz parte. É uma pena o sofrimento que isso causa pra tanta gente. E a série fala muito disso, do sofrimento de quem não consegue. E quem disse quem é bom o suficiente? Quem definiu isso?”

A série, que estreia sua primeira temporada de uma vez só na próxima sexta-feira, dia 25, chega falando sério. O visual, a direção e as atuações instigam o espectador como qualquer outro seriado Netflix – e isso parece vir da fusão de experiências tanto da equipe quanto do elenco. A mistura veteranos como João Miguel, Zezé Motta e a própria Bianca Comparato com novatos desconhecidos (Michel Gomes, Vaneza Oliveira e Rodolfo Valente) foi dirigida pelo uruguaio César Charlone, ex-sócio de Fernando Meirelles e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Mas a premissa da série e sua narrativa foi desenvolvida e dirigida por seus criadores originais. “Sou um showrunner de uma ideia alheia”, brinca o diretor uruguaio, que envolveu-se com a produção do seriado anos depois que seu criador, Pedro Aguilera, o estreasse no YouTube (assista aos três primeiros episódios da versão original aqui). Charlone entrou mais como um coordenador e supervisor, ajudando Aguilera e os três diretores originais, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi, a encontrar o rumo que queriam para o seriado, cujos oito primeiros episódios chegam de uma só vez.

Falada em português, a série de ficção científica se passa em um futuro próximo em que o Brasil divide-se em duas castas: grande parte da população mora numa região referida como Continente e quando completam vinte anos de idade têm a oportunidade de passar para onde reside uma elite financeira num lugar conhecido como Mar Alto, que abriga os 3% da população que batiza o seriado. Acompanhamos, portanto, um grupo de jovens que passa justamente pelo processo de seleção, uma série de jogos, entrevistas e atividades que vão definir quem pode passar para o outro lado. É uma alegoria que funciona como uma crítica à ditadura econômica mundial – e um de seus principais critérios de seleção, a chamada “meritocracia”. “Este tema faz parte da nossa sociedade e a gente tem mais ferramentas pra falar sobre isso e pra entender isso agora. São boas pra série também”, explica Aguilera.

“Quando o Pedro (Aguilera, criador e roteirista de 3%) pensou nisso lá atrás, ele havia se inspirado no vestibular, embora ele não quisesse falar diretamente de vestibular”, continua Bianca. “A gente amadureceu muito essa ideia. Mantemos essa angústia juvenil, mas tem uma coisa mais política envolvida. Fala de uma sociedade onde, por mérito, você consegue as coisas e se você não for bom o suficiente acabou a vida pra você. Isso fala muito pra nossa sociedade, não só pra jovens. Se você for parar pra pensar, economicamente, não são nem 3% que detém a riqueza do Brasil – nem do mundo.”

“A ideia começou lá em 2009 e a inspiração vem de livros como Admirável Mundo Novo e 1984 – eu não conhecia Jogos Vorazes”, explica Pedro. Bianca já tinha assistido aos filmes: “Acho a Jennifer Lawrence ótima. Vi os filmes da série Divergente e fiquei muito feliz com a quantidade de ator bom fazendo esse tipo de filme.” Mas Charlone desconversa quando compara-se 3% com estes filmes recentes: “A gente não vai competir com um produto desses. A nossa riqueza é a brasilidade”, explica, sublinhando que quis refletir uma brasilidade diferente daquela que vendemos. “Gosto daquela coisa que, quando alguma coisa não funciona, vem alguém e dá uma porrada. Ou daquela sensação que sempre acontece em qualquer país do mundo quando você chega no aeroporto, mas quando chega no Brasil sempre tem alguém que fala ‘tinha que ser no Brasil…”‘, explica o diretor, às gargalhadas.

O diretor César Charlone

O diretor César Charlone

Essa brasilidade, marca visual das produções de Charlone, foi perseguida com um olho no futuro e outro no presente. “Gosto de dar muita ênfase em sotaques diferentes”, explica, enfatizando também que não quis entregar uma história de bandeja para o público. “O Brasil tem essa fissura dos produtores com a bilheteria, essa coisa com a comédia, que querer agradar o público”, continua o uruguaio, explicando que o tom pessimista da série o atraiu. “Isso abre um horizonte muito legal pra novas gerações contarem histórias”, continua.

Mas a frieza distópica da versão original ganhou pluralidade e cores no novo seriado. “O tom original era muito sério, frio, policialesco”, lembra Aguilera, ao comentar as mudanças sofridas na série durante estes anos, que ainda “tem elementos muito parecidos, mas outros muito diferentes. Mas a angústia dos jovens, que é a essência, ainda tá lá.” “É uma série essencialmente brasileira”, completa Bianca. “Tem uma sujeira, cores, elementos rústicos. É futuro e é Brasil.”

Estive no set de gravação de 3% e além dessa brasilidade era possível notar a clara naturalidade nas atuações, sem afetações no texto ou diálogos que pudessem deixá-la caricata, claro reflexo da forma como Charlone gosta de deixar os atores, filmando-os livremente, quase em tom documental. Ele anima-se com o formato das séries, que diz ser “o grande acontecimento audiovisual deste século.” “Eu sou assíduo frequentador da Santa Ifigênia e sempre vejo o pessoal vendendo DVDs piratas de filmes… Agora vendem séries”, conta, mencionando Sopranos e Mad Men como referências básicas inclusive para o cinema atual. Pedro também tem suas séries favoritas – House of Cards, The Wire, Breaking Bad -, que podem não se refletir na temática de 3% mas que estão presentes na forma como ele gostaria de segurar o espectador.

Bianca cita outro seriado do Netflix como referência. “Black Mirror é uma experiência forte pra gente no 3%”, continua a atriz. “É um futuro que é palpável, não é, sei lá… como o filme Prometheus… Black Mirror tem isso, tem uma coisa que tá mais pra frente, mas as primeiras cenas você nem entende em que época se passa…” Ela concorda quando menciono que a ficção científica tem esse papel de metáfora para entender a realidade atual. “Um dos motivos de eu topar fazer a série foi esse. A série é um alerta. Se a gente não parar, a gente vai chegar nisso. É uma catástrofe econômica. E não é só sobre o Brasil, é sobre um modelo econômico mundial, os poucos que têm, os muitos que não têm.”

Traduzindo Leonard Cohen

leonard-cohen

O publicitário paranaense Diego Zerwes dedicou um blog inteirinho à tradução da obra de Leonard Cohen, que faleceu no início deste mês. Além de todas as músicas de sua discografia traduzidas e organizadas por álbum, ele ainda reuniu – e traduziu – outros textos de Cohen que encontrou por aí. Um senhor trabalho. Como amostra, deixo sua tradução para uma de suas maiores canções, o hino “Anthem” (desculpem), de onde saiu um de seus versos mais fortes, que fecha a canção:

Anthem

The birds they sang
at the break of day
Start again
I heard them say
Don’t dwell on what
has passed away
or what is yet to be.

Ah the wars they will
be fought again
The holy dove
She will be caught again
bought and sold
and bought again
the dove is never free.

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack in everything
That’s how the light gets in.

We asked for signs
the signs were sent:
the birth betrayed
the marriage spent
Yeah the widowhood
of every government —
signs for all to see.

I can’t run no more
with that lawless crowd
while the killers in high places
say their prayers out loud.
But they’ve summoned, they’ve summoned up
a thundercloud
and they’re going to hear from me.

Ring the bells that still can ring …

You can add up the parts
but you won’t have the sum
You can strike up the march,
there is no drum
Every heart, every heart
to love will come
but like a refugee.

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That’s how the light gets in.

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That’s how the light gets in.
That’s how the light gets in.
That’s how the light gets in.

Hino

Os pássaros cantam
no raiar do dia
Cantam de novo
e os ouço dizer
Não viva naquilo
que já passou
ou no porvir.

As guerras serão
lutadas de novo
A pomba sagrada
será enclausurada de novo
comprada e vendida
e comprada de novo
a pomba nunca está livre

Soem os sinos que ainda podem soar
Esqueça sua oferenda divina
Em tudo há uma fenda
e é por ela que a luz entra.

Solicitamos sinais
os sinais foram enviados:
o nascimento traído
o extenuado casamento
Sim, a viúva
de cada governo –
sinais para todos verem.

Não consigo mais correr
com essa multidão desregrada
enquanto assassinos, em posições privilegiadas
fazem suas orações em voz alta
Mas eles clamaram, clamaram
por uma nuvem tempestuosa
e eles ouvirão de mim.

Soem os sinos que ainda podem soar…

Você pode adicionar os pedaços
mas não terá a soma
Você pode iniciar a marcha,
não há a batida que guia
Cada coração, cada coração
ao amor irá chegar,
como um refúgio, porém.

Soem os sinos que ainda podem soar
Esqueça sua oferenda divina
Em tudo há uma fenda
e é por ela que a luz entra.

Soem os sinos que ainda podem soar
Esqueça sua oferenda divina
Em tudo há uma fenda
e é por ela que a luz entra.
e é por ela que a luz entra.
e é por ela que a luz entra.

Dica do André Marx (valeu!).

Como foi a terceira edição do Spotify Talks

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Mais uma edição incrível do Spotify Talks, sobre o papel da mulher na música brasileira, que eu apenas fiz a curadoria e deixei a mediação na mão da querida Kátia Lessa, que segurou bonito a discussão. Tivemos um contratempo em relação à presença da Ludmilla, que teve um problema de saúde e não pode vir, e foi substituída pela ótima Iza, que conheci no dia do evento. Ela, Negra Li e Daniela Mercury deram uma aula sobre postura feminina, conforme contou o Guga no Update or Die e você pode conferir na íntegra abaixo.

A outra música do Daft Punk com o Weeknd

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“Starboy”, faixa-título do novo álbum do canadense Abel Tesfaye, não é a única colaboração dele – que conhecemos como The Weeknd – com a dupla francesa Daft Punk. “I Feel It Coming” segue o clima easy listening da faixa anterior e funciona enquanto está sendo tocada, embora seja completamente esquecível. A impressão que dá é que quando os robôs franceses colaboram com outros artistas, eles não dão tudo de si, deixando só um gostinho de sua própria musicalidade.

Starboy também conta com a faixa “Party Monster”, que teria sido escrita em parceria com Lana Del Rey. Mas esta só tem um trechinho:

Seu disco sai ainda esta semana.

Adrian Belew em São Paulo!

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Um dos guitar heros mais polivalentes da história do rock – tocou com King Crimson, David Bowie, Talking Heads, Frank Zappa e Nine Inch Nails -, Adrian Belew apresenta-se em São Paulo neste domingo, no Carioca Club (mais informações aqui), com seu Adrian Belew Power Trio, em que toca ao lado dos irmãos Eric (bateria) e Julie (baixo) Slick. Virtuosismo torto, instrumental cabeça – prepare-se para uma pedrada.

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E a casa de shows que a Natura vai abrir em São Paulo?

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O Julio antecipou no Estadão: o Natura Musical, braço da empresa de cosméticos que fomenta a produção musical brasileira há mais de uma década, vai abrir uma casa de shows de médio porte em São Paulo. A Casa Natura Musical é uma parceria do projeto com os empresários Paulinho Rosa (do Canto da Ema) e Edgard Radesca (do Bourbon) e a cantora Vanessa da Mata. A nova casa fica na Rua Artur de Azevedo, 2134, em Pinheiros (quase com a Faria Lima, pertinho do Z Carniceria, do Largo da Batata e do metrô Faria Lima) e deve ser inaugurada no início do ano que vem. Estas imagens, cedidas pela Natura, são apenas ilustrativas, mas dá pra ter uma ideia da abordagem da casa, que pode receber entre 500 pessoas sentadas e 1000 de pé.

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E se você achava que essa região de Pinheiros tava hypada… Espera agora.

Spotify Talks #3: O poder feminino da música

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A terceira edição do Spotify Talks, série de debates sobre música que sou curador, acontece nesta terça-feira (com transmissão ao vivo através da página do Facebook do Update or Die) e desta vez vamos falar do poder feminino na música, reunindo três mulheres incríveis: Daniela Mercury, Negra Li e Ludmilla. A mediação também muda de gênero pois homem é coadjuvante nesta história e cedo meu lugar à querida Kátia Lessa. Vai ser demais.

25 anos de Bandwagonesque

bandwagonesque

Escrevi sobre o clássico power pop do Teenage Fanclub, que está completando um quarto de século lá no meu blog no UOL.

Já faz tempo que 1991 vem sendo celebrado como um ano mágico para a música pop, ao enfileirar discos que não apenas estabeleceram novas carreiras como mudaram o cenário musical da última década do século passado. Uma sequência de obras que tornam aquele ano tão emblemático quanto outros clássicos, como 1967, 1969, 1972 ou 1977. Eu mesmo já escrevi aqui sobre os 25 anos de BloodSugarSexMagik, Screamadelica, Nevermind e Loveless – sem contar outros discos cruciais como o Blue Lines do Massive Attack, o Adventures Beyond the Ultraworld do Orb, Out of Time do R.E.M., The Low End Theory do A Tribe Called Quest e a tríade de transição dos três maiores grupos do rock brasileiro dos anos 80 (V do Legião Urbana, Os Grãos do Paralamas do Sucesso e Tudo Ao Mesmo Tempo Agora dos Titãs), além dos sucessos comerciais do Metallica (o disco preto), Guns N’Roses (os dois volumes de Use Your Illusion) e Pearl Jam (Ten) e dos discos de estreia dos Smashing Pumpkins (Gish) e Blur (Leisure). O conjunto destes álbuns mostra um cenário pop fragmentado, multifacetado e completamente díspare comparado ao de anos anteriores, mas um disco lançado naquele mesmo ano lembrava que a base de tudo aquilo, a fundação daquele universo que agora expandia-se para o thrash, o indie, o grunge, a ambient house, o trip hop, o rock alternativo, era a canção. Este disco chama-se Bandwagonesque e é o terceiro disco da banda escocesa Teenage Fanclub, que há exatos 25 anos ganhava o mundo ao ser lançado pela gravadora norte-americana Geffen.

É muito comum acharmos que invenções que nos precederam sempre estiveram ali. Como para a minha geração parece estranho pensar em um mundo sem televisão e para uma geração mais nova parece estranho imaginar como seria o mundo sem internet, muitos sequer cogitam a possibilidade de um mundo sem canções. Pois aconteceu – e não faz muito tempo. Apesar da música ser uma das primeiras expressões culturais do ser humano – ainda na idade da pedra -, a canção – esta estrutura musical que compreende introdução, estrofe, refrão, estrofe, refrão, eventual solo instrumental, estrofe, refrão e conclusão – é uma invenção da virada do século dezenove para o vinte, como a fotografia, o disco, o cinema, o carro e o avião.

Sempre entoamos melodias, cantarolamos frases e repetimos refrões, mas foi a noção de linha de montagem do século passado que forjou esse formato que hoje tomamos como eterno. Antes da possibilidade de gravar-se música, não havia uma limitação de tempo que determinasse os poucos minutos que resumem uma canção. Bardos medievais puxavam épicos que não pareciam não ter fim, saraus domésticos atravessavam a noite emendando letras e músicas umas às outras, concertos e óperas podiam durar horas, o canto de pergunta e resposta das plantações agrícolas duravam o tempo da jornada de trabalho. Foi preciso uma inovação tecnológica – o fonógrafo – para que se estabelecesse que a breve duração delimitada por uma restrição técnica poderia ser o início de um novo formato. A canção surgiu como uma necessidade mercadológica para alavancar um novo mercado: se a música erudita não cabia nos primeiros suportes para a música, era preciso inventar um novo padrão. A canção é fruto do encontro do teatro de revista com a música popular e surge no início do século vinte como uma versão musical do conto ou da crônica.

À medida em que o século passava vimos a ascensão de verdadeiros ourives do formato. É uma lista imensa e traduz o espírito de época de todo o século: de Irving Berlin à dupla Morrissey e Marr, passando por Bob Dylan, Noel Rosa, Buddy Holly, Bob Marley, Luiz Gonzaga, Lou Reed, Carole King, Caetano Veloso, Lennon e McCartney, David Bowie, Burt Bacharach, Chico Buarque, Serge Gainsbourg, Gilberto Gil, Nick Drake, Page e Plant, Chuck Berry, Brian Wilson, Rita Lee, os irmãos Gershwin – e a lista continua. A maioria da produção musical do século passado foi construída firme sobre o formato canção, mesmo que gêneros mais instrumentais (como jazz e a música eletrônica) ou mais agressivos (como o heavy metal, o punk e o hip hop) tenham abertos novas possibilidades para além deste formato, criando a base para a música deste século.

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Embora conhecido como uma banda essencialmente cancioneira, o Teenage Fanclub não começou como tal. Seu primeiro disco, A Catholic Education, de 1990, era um disco mais pesado, improvisado e ruidoso do que qualquer outro trabalho da banda, mais próximo à sonoridade caótica do início dos anos 90, à exceção da faixa de abertura, o hino “Everything Flows”. O segundo disco, The King, foi lançado às pressas para cumprir o contrato com a gravadora norte-americana Matador e liberá-los para assinar com a Geffen, que à época queria estabelecer-se como o lar do rock daquela nova década, assinando com o Nirvana, o Sonic Youth, os Stone Roses e os Guns N’Roses. Seu terceiro disco, Bandwagonesque, virava o jogo e mostrava uma nova cara para a banda, em que a canção era o vernáculo principal.

As grandes influências neste sentido são a base do pop britânico (os Beatles) e seus pares californianos (Beach Boys e Byrds), mas principalmente o influente e obscuro grupo norte-americano Big Star, fundado por Alex Chilton e Chris Bell no início dos anos 70, e pelos solos de guitarra lacrimosos do canadense Neil Young. O quarteto formado por Norman Blake e Raymond McGinley (vocais e guitarras), Gerard Love (vocais e baixo) e Brendan O’Hare (bateria) dedicava as dozes músicas à lapidação de canções pop perfeitas, envoltas em doses homeopáticas de microfonia e ironia (como a que levava batizar a própria banda de Fã Clube Adolescente ou a colocar um saco de dinheiro na capa de um disco cheio de canções de amor).

A incrível sequência de canções começa com a descrição de uma garota que “usa jeans onde quer que vá” e que disse “que vai comprar uns discos do Status Quo” numa música cujo refrão canta apaixonadamente que “não quis te machucar” – em uma música chamada “The Concept” que parece resumir o que aquele disco pretendia. Pelo resto de Bandwagonesque, somos apresentados à canções compostas principalmente – e em separado – por Norman e Gerard – a radiante “What You Do to Me”, a fugaz “Star Sign”, a apaixonada “Metal Baby”, a setentista “Pet Rock”, a acústica “Guiding Star”. Mas há também momentos melancólicos do disco, alguns deles assinados pelos outros músicos da banda, como “I Don’t Know” é de Raymond e “Sidewinder” (que Brendan compôs com Gerard), além de, claro, da chorosa “Alcoholiday”, de Norman, outro grande momento do disco. Bandwagonesque termina com a instrumental quase irônica “Is This Music?”, em que solos e riffs de guitarra soam como se estivessem tocando num rádio-despertador que interrompe o sono no fim da madrugada.

Coberto de riffs memoráveis e refrões pegajosos, Bandwagonesque levou a banda a um patamar de sucesso nunca imaginado por eles, chegando a ganhar o título de “disco do ano” de acordo com a revista norte-americana Spin, uma das principais vozes do pop da época (deixando Nevermind, Screamadelica e Out of Time fora do páreo). Mas aquele sucesso não era para o Teenage Fanclub. O disco seguinte, o azarão Thirteen, mudou o tom de sua abordagem em relações a canções e matou a possibilidade de continuar fazendo sucesso nos EUA. De volta ao Reino Unido, lançaram dois outros discos perfeitos (Grand Prix e Songs from Nothern England) no auge do britpop, atingindo a estatura que gostariam que a banda tivesse.

Sem pretensões mercadológicas, planos de negócios, shows em estádios ou discos de diamante, o Teenage Fanclub conseguiu sintetizar a essência da canção pop em um disco ousado por sua despretensão e marcante por sua simplicidade. Doce e direto, Bandwagonesque sobrevive não apenas como um registro do início do fim da era da canção ou como souvenir nostálgico daquele período, mas como um disco de música pop deveria soar, por definição. Essencialmente humano.

Quando os Beastie Boys se encontraram com o Daft Punk

beastiedaft

O produtor canadense Coins juntou instrumentais do Daft Punk com vocais dos Beastie Boys num disco de mashup daqueles… Saca só:

Não tenho como não lembrar daquele Tim Festival que trouxe as duas bandas para o Brasil pela última vez… há dez anos!