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Marquee Moon, 40 anos

Mítico disco do Television, Marquee Moon continua como um segredo escondido quatro décadas após seu lançamento, completas nesta terça-feira. Escrevi sobre o disco no meu blog no UOL.

Há 40 anos, o Television encerrava uma era e iniciava outra com seu clássico Marquee Moon

Entre os anos 60 e 70, a maior cidade dos Estados Unidos havia se tornado o inferno na terra. A especulação imobiliária, uma crise fiscal inédita e o braço dado dos políticos com as grandes corporações haviam sacrificado vizinhanças inteiras, transformando Nova York em uma cidade violenta e destruída. Um antro decadente que empilhava seus pobres nas periferias e transformava o metrô num centro nervoso da insegurança que espalhava-se por suas ruas, abandonadas pelo poder público – “Bem-vindo à cidade do medo”, dizia um panfleto que recepcionava os turistas da época. Era o cenário que inspiraria distopias como os filmes Fuga de Nova York, Blade Runner e Warriors – Guerreiros da Noite e daria origem a movimentos culturais que redefiniriam a cultura ocidental do final do século passado, como o hip hop, a cultura gay e, claro, o punk rock. Mas no coração deste último, especificamente na espelunca que viu nascer o movimento urbano que salvou o rock da autoindulgência, havia um palácio de luz que unia toda a importância do rock até o meio dos anos 70 transformando-se em um farol para a criatividade de artistas nas décadas seguintes. Estas qualidades tornaram-no uma das obras mais importantes da história da música popular, embora Marquee Moon, o disco de estreia da banda Television, lançado há exatos 40 anos, seja passado de geração em geração como um segredo bem guardado.

Mas não há segredo algum. Num álbum esplendoroso com parcas oito canções somando menos de cinquenta minutos, Tom Verlaine conduz seu pequeno exército de instrumentistas reunindo lições aprendidas no jazz experimental, no folk e no rock clássico que abririam o rumo para artistas que redefiniriam a música nos anos seguintes a partir da grande transformação provocada pelo punk. Não é exagero dizer que Marquee Moon é o primeiro disco de rock alternativo, aquele que cogita uma nova relação com a música produzida a partir do casamento de guitarras, baixo e bateria com o ímpeto adolescente de se fazer percebido. O disco de 1977 não apenas consolida o arquétipo da banda nova-iorquina que reúne predecessores como o Velvet Underground, os Modern Lovers e os New York Dolls, contemporâneos como Patti Smith e os Talking Heads e sucessores como o Sonic Youth e os Strokes. Ele também abre possibilidades novas e improváveis para um gênero musical entusiasmado com o próprio virtuosismo que fucionariam como alicercespara carreiras inteiras de grupos como Joy Division, R.E.M., Pixies, Echo & the Bunnymen, Wilco e Radiohead.

Foi Tom Verlaine que descobriu o CBGB’s. Thomas Miller era um moleque de Nova Jérsei que havia se mudado para Nova York para reinventar-se como artista seguindo os passos de Dylan dez anos antes – trocando, como Dylan, seu sobrenome original por o de um escritor clássico, o poeta simbolista francês Paul Verlaine. Sua formação musical havia começado no jazz quando era aprendera a tocar saxofone quando era criança, mas foi “19th Nervous Breakdown” dos Rolling Stones que o fez abraçar a guitarra elétrica. Músico dedicado, Verlaine vinha na contramão do gênero que ajudaria a colocar no mapa. Sua principal ligação com o punk clássico não era musical e sim autoral – foi sua convicção em tocar do jeito que queria que o levou a bater na porta do bar de Hilly Kristal, um bar de motoqueiros que só tocava rock tradicional, pedindo para que lhe cedesse o palco para sua nova banda.

O Television era a segunda versão da banda que Verlaine havia fundado com seu conterrâneo Richard Meyers, com quem havia fugido para Nova York. Como Tom, Richard mudara seu sobrenome para Hell e em Nova York começaram a tocar como Neon Boys, ao lado do baterista Billy Ficca, que conheceram na cidade. Tom queria um segundo guitarrista para alternar solos de guitarra, enquanto Hell segurava um baixo tão impreciso e sem compromisso como a personalidade que reinventava com seu novo sobrenome. Foi Hell o primeiro daquela turma a usar roupas rasgadas, pendurar alfinetes, medalhas e broches aleatórios em casacos do exército com furos de bala, coturnos com solas descolando, calças jeans remendadas. Seu visual é a assumida inspiração do inglês Malcolm McLaren – que à época tentava recriar o New York Dolls atrelando-o ao imaginário comunista – para a cara não apenas do Sex Pistols mas de todo o punk inglês. Depois de tentar nomes como o futuro Dee Dee Ramone e Chris Stein (que formaria o Blondie em seguida) para a vaga de segundo guitarrista, Tom encontrou seu músico em Richard Lloyd, amigo da banda que viu a primeira formação dos Neon Boys surgir.

A obsessão da banda em tocar bem a colocou em ensaios contínuos que duravam até seis horas todos os dias da semana à exceção do domingo. Foi esta necessidade de tocar que levou Verlaine ao CBGB’s, um bar cujos gêneros musicais apreciados – country, bluegrass e blues – eram representados em sua sigla de batismo. A banda não queria apenas fazer um show e sim um lugar em que pudessem tocar com frequência para treinar. Quando apresentaram-se pela primeira vez em março de 1974, o grupo já havia construído uma reputação no underground nova-iorquino a ponto de levar os habitués de casas noturnas como o Max’s Kansas City e do Mercers Arts Center a visitar aquele novo lugar no East Village. A terceira apresentação do Television, em abril, trouxe Patti Smith e Lenny Kaye pela primeira vez ao local, onde tocariam a primeira vez com o Patti Smtih Group meses depois. Depois era a vez dos Ramones, dos Stilletos que mais tarde se tornariam o Blondie e dos Talking Heads. Estava formada a base do punk nova-iorquino, que, a partir de 1975, começaria a materializar-se em disco – primeiro veio o seminal Horses de Patti Smith no final daquele ano, seguido do explosivo primeiro dos Ramones, no ano seguinte.

O Television, no entanto, demoraria para sair do papel. A perseverança da banda rumo a uma musicalidade exímia havia transformado o show do grupo em um transe absoluto movido por guitarras. Verlaine e Lloyd alternavam-se nos papéis de guitarristas base e solo e reinventavam aos poucos o papel do instrumento na história do rock. Assim solos de guitarra não eram meras exibições de virtuosismo nem demonstrações de força. Havia uma dramaticidade parente do blues e do folk nos solos dos dois guitarristas, mas que traziam aquele sentimento para a cidade grande, para a noite em uma metrópole. Achados e perdidos ao mesmo tempo, o cruzamento daquelas duas guitarras bebiam da escola dos Rolling Stones, de Jimi Hendrix, do Pink Floyd e do Grateful Dead ao mesmo tempo em que enveredavam pelos altos improvisos de jazzistas como Miles Davis, Albert Ayler e Ornette Coleman. A obsessão pela técnica fez Verlaine expulsar Hell, cada vez mais problemático, da banda e em seu lugar veio Fred Smith, que havia acabado de formar o Blondie, mas que era fã de ir em todos os shows do Television.

A demora em lançar o primeiro disco não era descaso das gravadoras e sim capricho de Verlaine. A banda foi cortejada ainda em 1974 pela gravadora inglesa Island, que colocou-os no estúdio com Brian Eno, que produziu “Friction”, “Venus”, “Prove It” e “Marquee Moon”, mas o guitarrista não ficou satisfeito com o som da produção, considerando-o frio. A gravadora Arista tentou contratar a banda no ano seguinte, mas só em 1976 que o grupo assinaria o contrato para seu primeiro disco, desta vez com a Elektra. A gravadora atendeu a exigência de Verlaine para produzir seu primeiro disco, mesmo nunca tendo produzido nenhum outro disco na vida, e deixou-o contratar o engenheiro de som que quisesse. Verlaine e Lloyd escolheram Andy Johns, que já havia trabalhado com o Humble Pie, o Free, Jethro Tull e o Led Zeppelin, especificamente pelo som de guitarras que havia tirado no disco Goat’s Head Soup, dos Rolling Stones.

Gravado em setembro de 1976 nos estúdios A&R em Nova York, Marquee Moon não demorou para ser concluído, mesmo com a banda tendo tempo à vontade para passar no estúdio. Mas o grupo estava tão afiado devido a anos de shows e ensaios ininterruptos que algumas músicas, inclusive a emblemática faixa-título, com seus solos magistrais e mais de dez minutos de duração, foram gravadas ao vivo, sem superpor instrumentos ou refazer determinadas partes. O próprio Billy Ficca achou que estivessem apenas ensaiando a canção quando a gravaram, que o co-produtor Johns tentou regravar – mas Verlaine não deixou.

O disco foi lançado no dia 7 de fevereiro de 1977 com a banda estampando a capa com uma foto tirada por Robert Mapplethorpe. Mas a imagem foi manipulada posteriormente numa máquina de Xerox, quando Richard Lloyd levou a foto para fazer cópias e espalhá-las pela cidade. As cópias originalmente seriam em preto e branco, mas o operador tirou uma versão colorida e Lloyd gostou do resultado artificial das tonalidades. Pediu para o garoto tirar mais cópias enquanto mexia nos controles da máquina de olhos fechados. Entre as várias fotos de cores saturadas uma delas foi parar na capa do disco.

A capa parece contradizer o conteúdo. Marquee Moon é uma viagem romântica e beat por uma cidade decadente, Verlaine contrapondo seus solos com vocais quase falados, por vezes gritados, pouco cantados, que descreviam “olhos como telescópios” e uma “Broadway medieval”, como se os prédios espelhados fossem paredões geológicos de uma nova era, fria e quase robótica, essencialmente desumana. Verlaine age como o bardo desta nova era, arauto de uma transformação brutal mas comodista, violenta a ponto de não provocar reação. As guitarras costuram uma paisagem vertiginosa como as torres do então recém-inaugurado World Trade Center, obelisco gêmeo de uma nova era faraônica, mas cheias de detalhes barrocos e ornamentos mouriscos, como plantas que atravessam o concreto.

E do moquifo que deu origem ao punk, do sovaco elétrico da boemia nova-iorquina, surgia um disco épico e heróico, mas ao mesmo tempo introspectivo e existencialista, que questionava não apenas o niilismo da cidade que viu aquele novo movimento cultural nascer mas também o próprio papel do rock nesta nova fase. Consciente de sua importância, Marquee Moon é o divisor de águas que encerra a fase clássica do rock e abre o novo testamento pós-punk, mas sem precisar tripudiar ou negar o passado. E mesmo assim segue à miúda, em segredo, quase como um código que vai sendo transferido de geração em geração.

Stranger Things 2!

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Novo trailer do seriado Stranger Things, exibido no comercial da transmissão da final de futebol americano nos EUA, traz novidades sobre o mundo invertido e anuncia data de estreia – falei mais disso lá no meu blog no UOL.

Com um trailer com meio minuto de duração exibido nos comerciais da final do campeonato de futebol americano nos EUA neste domingo, a série Stranger Things deu pistas importantes sobre sua segunda temporada. Olha só:

Eleven está de volta, o mundo invertido está ainda mais presente, há um novo monstro e as fantasias de Caça-Fantasmas usadas pelos meninos têm uma explicação: a nova temporada será disponibilizada na íntegra no Dia das Bruxas deste ano, dia 31 de outubro. É sintomático principalmente pelo fato da série ter inventado a fantasia de Halloween mais popular do ano passado – justamente a da personagem vivida pela atriz Millie Bobby Brown.

“Who you gonna call?”

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A primeira imagem divulgada da segunda temporada de Stranger Things chama os Caça-Fantasmas à ativa – falei mais sobre isso no meu blog no UOL.

Depois de muito mistério finalmente teremos mais pistas sobre a segunda temporada de Stranger Things neste domingo, quando acontece a final do campeonato de futebol americano, o famoso Super Bowl. A transmissão é conhecida pois vários comerciais de TV ganham atenção global pelo simples fato de que este jogo é um dos programas de TV mais assistidos nos EUA.

E a imagem acima, trazida em primeira mão pela Entertainment Weekly, mostra parte do elenco infantil – o Mike de Finn Wolfhard, o Dustin de Gaten Matarazzo e o Lucas de Caleb McLaughlin (Lucas) – vestidos com o uniforme dos Caça-Fantasmas em uma festa de Halloween da escola. A imagem mexe tanto com as referências aos anos 80 que ajudaram a impulsionar a fama do seriado quanto resume a primeira temporada ao transformá-los nos caçadores de fantasmas de uma pequena cidade do interior dos EUA. Mas a fantasia não é gratuita, repare ao fundo: é dia das bruxas.

O pouco que se sabe sobre a nova temporada do seriado produzido e escrito pelos irmãos Duffer é que ele terá uma cara de continuação, como se fosse a sequência de um filme, e se passará em 1984, um ano após os incidentes da primeira temporada. No elenco duas presenças mais conhecidas de outros papéis também estão entre os atores por terem feito sucesso também nos anos 80: Paul Reiser é mais conhecido como o marido da série Mad About You, sucesso nos 90, mas também atuou no filme Aliens, dirigido por James Cameron. Já Sean Astin é mais reconhecido por viver Samwise Gamgee nos filmes O Senhor dos Anéis mas também é o jovem Mikey Walsh, dos Goonies.

Sobre a história da nova safra de episódios, o produtor Shawn Levy já deu declarações falando que a nova temporada ser “maior e mais sombria”. E esta semana ele também anunciou o que pode ser um dos slogans da nova série, algo como “o Demogorgon foi destruído mas o mal não foi”.

“Humoristas são como detetives da moral”

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O YouTuber norte-americano Evan Puschak, dono do canal NerdWriter, analisa, usando Louis C.K. como ponto de partida, a forma que comediantes agem na área cinzenta da moral justamente para testar seus limites – se arriscando em nome da sociedade.

Muito bom.

Tudo Tanto #26: Satélite 061

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Continuando o resgates das minhas colunas da Caros Amigos para o Trabalho Sujo, segue o texto que escrevi para a edição de dezembro do ano passado sobre o festival brasiliense Satélite 061, que reuniu Elza Soares e Gal Costa debaixo da mítica torre de TV da capital do país.

Duas estrelas sob a Torre
Festival brasiliense Satélite 061 superou os problemas de produção com dois shows históricos de Elza Soares e Gal Costa

“Vida dura de quem trabalha acreditando na arte independente e que faz na raça mesmo”, ri Marta Carvalho, presidenta da Ossos do Ofício, associação multicultural que realiza o festival Satélite 061, a cuja quinta edição pude comparecer no final do mês de setembro, em Brasília. Ela ri quando peço para que ela conte a história de que ouvi falar, sobre como ela conseguiu pagar os artistas que se apresentaram em seu festival dois anos antes. “No ano de 2014, o festival contava somente com um pequeno patrocínio da Petrobras e para que acontecesse eu tinha que utilizar verba da Secretaria de Cultura para estruturas e cachês artísticos”, conta.

“Logo após o festival, o governo contingenciou as verbas para cultura inclusive vetando os pagamentos de eventos já executados. Sem opção, me uni a vários artistas do movimento cultural do Distrito Federal e fi zemos um plano radical: entramos na Secretaria de Fazenda do DF e nos acorrentamos. Só sairíamos de lá após termos as datas concretas da liberação dos recursos. Foi difícil, mas necessário para que pudéssemos honrar com os nossos compromissos.”

O festival também passou por maus bocados na edição deste ano, quando uma improvável tempestade no início da primavera – época em que não chove em Brasília –, danificou o equipamento no primeiro dia, atrasando a programação. “Com o atraso, tivemos que cancelar o show do BaianaSystem, mas que já marcamos nova data para acontecer. Será dia 18 de novembro, no Museu da República, dentro da programação do Festival Favela Sounds, que eu contribuo com a direção artística”, explica Marta. A queda do BaianaSystem da programação foi um baque num elenco maravilhoso.

O festival, que reunia várias bandas da cidade, entre grupos de rap, bandas de rock e sambistas, tinha escalado uma seleção de artistas que fazia a ponte entre a tradicional música brasileira e a atual música independente moderna, fazendo um contraponto ao outro grande festival da cidade, o Porão do Rock, por não se basear no rock como gênero-base. Assim, tínhamos o veterano Di Melo ao lado do novato Fióti, o irmão de Emicida, que agora lança sua carreira como soulman (com direito a participação do irmão como percussionista e vocalista de apoio ele só foi rimar em “África Nossa”, versão para o hino da diva caboverdiana Cesária Évora). O rock dos Autoramas – que agora é um quarteto – e o rap / R&B de Drik Barbosa. O free jazz elétrico do trumpetista Guizado e a MPB teatral de As Bahias e a Cozinha Mineira.

O raggatech samba-reggae do BaianaSystem seria a liga perfeita para misturar estes diferentes gêneros ancestrais e modernos, principalmente pelo fato do grupo estar lançando um dos melhores discos deste ano, o elétrico Duas Cidades. Mas as duas maiores estrelas do festival foram dois monstros sagrados de nossa música popular, duas divas de histórias díspares que vivem momentos semelhantes nesta segunda década do século 21.
“Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas”

Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas. As duas tiveram um ótimo 2015 quando, cercadas de novos músicos, fizeram álbuns ousados para suas carreiras: Elza Soares cercou-se da nova vanguarda paulistana (Rômulo Froes, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Celso Sim, José Miguel Wisnik, Thiago França, Douglas Germano, os metais do Bixiga 70 – todos sob a batuta do percussionista Guilherme Kastrup) para lançar o poderoso Mulher do Fim do Mundo, talvez o disco brasileiro mais importante desta década.

Gal fez seu Estratosférica um oposto solar, diurno e carioca do disco paulista de Elza, reunindo composições de Céu, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Lirinha, Alberto Continentino, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes e Caetano Veloso, sob a produção de Kassin e Moreno Veloso. Elza trouxe seu espetáculo pleno, inclusive o cenário de Anna Turra que a coloca central, num trono, cantando a íntegra de seu disco intenso, além de músicas clássicas de seu repertório, como “A Carne” e “Malandro”. Gal foi intimista e, em vez da apresentação de seu novo disco, preferiu desfi lar seu rosário de clássicos ao lado do músico Guilherme Monteiro, no espetáculo Espelho D’Água. É uma sequência de clássicos sem par na música brasileira – “Baby”, “Vaca Profana”, “Tigresa”, “Negro Amor”, “Coração Vagabundo”, “Passarinho”, “Folhetim”, “Sua Estupidez”, “Meu Nome é Gal”, “Dom de Iludir”, “Tuareg” – todas entre a guitarra e o violão e voz intacta da cantora, que completava 71 anos (“54”, brincou) naquele mesmo 26 de setembro.

O público, entregue à sua majestade, não acreditava no que assistia e cantou parabéns para a baiana no palco mais de uma vez. Satisfeita com o resultado da quinta edição do festival, que mesmo com o tropeço do sábado conseguiu reunir 50 mil pessoas aos pés da monumental Torre de TV de Brasília, um dos cartões postais da cidade, a organizadora Marta nem acredita o quanto já conseguiu neste tempo, mas esquiva-se da modéstia. “Esse ano eu fui bem além e vi que é possível ir cada vez mais”, comemora, cravando a sexta edição do festival para o ano que vem, sonhando com dois grandes nomes: o rapper ganês Blitz The Ambassador e o cantor Ney Matogrosso. “Afi nal sonhar não me custa nada”, conclui, rindo.

Tudo Tanto #25: Casa do Mancha

CasadoMancha

Hora de trazer algumas das minhas colunas mais recentes publicadas na revista Caros Amigos pra cá – e começo com o texto que escrevi na edição de novembro sobre o festival Fora da Casinha, realizado pelo Mancha, e a importância de sua Casinha para a cena independente brasileira.

Começa com uma pessoa
A Casa do Mancha se consagra como um dos principais palcos independentes do Brasil e já está dando passos largos para o futuro

Tudo começa com uma pessoa. Alguém que tem uma ideia e chama alguns amigos para colocá-la em prática. A execução atrai mais gente e aos poucos um senso comunitário vai surgindo ao redor daquela primeira ideia da primeira pessoa, e a partir daí tudo pode acontecer. Empresas, ideologias, fi losofi as, países, manifestações, seitas, passeatas, partidos, greves, cultos, impérios, religiões e movimentos artísticos começaram assim, num misto dúbio de modéstia com a ambição de que uma pessoa com uma ideia pode mudar tudo.

Mancha é uma destas pessoas. De cabelo comprido e barba por fazer, mais baixo que alto, mais escuro que claro (daí o apelido), camiseta de banda, tênis, às vezes boné e bermuda, outras, camisa de flanela e jeans. Ele não é muito diferente dos milhares de skatistas ou integrantes de bandas que nascem em São Paulo como mato. Nativo do interior do interior do estado – uma cidade chamada Castilho –, quase na divisa com o Mato Grosso do Sul, ele viu a cena independente brasileira crescer durante os anos 1990 à distância e quando chegou a São Paulo, quis dar sua modesta contribuição a essa história.

Sem o complexo de épico característico destas decisões, Mancha simplesmente botou a mão na massa. Não criou um selo, nem uma banda, muito menos dirigiu clipes ou organizou um festival. Ele só abriu sua casa para receber bandas e novos artistas e aos poucos a transformou em um dos palcos mais importantes da cidade. Lógico que isso não aconteceu como num passe de mágica. Foi um processo lento de quase dez anos que acompanhou o renascer de uma cena paulistana, ao mesmo tempo em que o transformava em um de seus agentes mais ativos. O segredo foi a chave de seu tamanho.

O nome de seu estabelecimento – Casa do Mancha – deixava clara a dimensão de sua proposta. Era uma banda tocando em uma sala de estar de uma casa na Vila Madalena. A princípio, bandas do tamanho de uma sala de estar, tocando como se estivessem fazendo o primeiro show de suas vidas. Algumas estavam. Outras não. Mas se sentiam tão à vontade como se estivessem tocando para amigos em sua própria sala de estar. E a maioria estava.

A Casa do Mancha virou uma segunda casa para muitos fãs da música produzida às próprias custas na cidade. O caráter doméstico era fundamental para essa referência. Não havia distância entre banda e público – nem na altura do palco, que fica no chão, nem de áreas separadas. Os artistas sempre ficam no meio do público, conversando e bebendo antes e depois dos shows; e muitas vezes são o público – além daquele mesmo público, por inspiração ou osmose, acabar também virando artista. E por mais que o tempo amadurecesse a Casinha – como é conhecida por seus frequentadores – para que ela recebesse atrações de maior porte e até internacionais, elas não descaracterizaram a proposta original.

E além de casa de shows, a Casinha também funciona como incubadora musical, sala de ensaio e até estúdio. Bandas como Holger e Maglore trabalharam seus discos por lá, antes de ir para gravar em um estúdio bancado por uma gravadora. Outros artistas, como Juliana Perdigão e Gui Amabis, usaram o espaço para talhar melhor apresentações ao vivo, e outros ainda como Bárbara Eugênia, Rock Rocket e Stela Campos, gravaram seus discos ali mesmo.

A comunidade que continuava se formando ao redor da Casinha, no entanto, não parava de crescer e cada vez mais fi cou comum, não apenas lotações esgotadas de shows – com o público se aglomerando do lado de fora –, como shows duplos na mesma noite, alguns até improvisados. O caráter caseiro da noite facilita a retirada do público da primeira sessão para a entrada de um novo público, que chegava mais tarde.

Mas como crescer continuando do mesmo tamanho? Mancha até cogitou ir para um estabelecimento maior em outro momento, mas preferiu expandir suas fronteiras mantendo sua base intacta.

Primeiro, levou o nome da Casa para fora da casa em festas e depois em um festival. O Fora da Casinha foi materializado como uma edição comemorativa dos oito anos da Casinha longe do ponto original, como seu nome deixava claro. Realizado primeiro no Centro Cultural Rio Verde, em 2015, ele teve sua segunda edição realizada este ano na Unibes Cultural, indo de dois para três palcos simultâneos. Em duas edições, Mancha pode reunir artistas como Juliana Perdigão, Carne Doce, Dustan Gallas, Gui Amabis, Jaloo, Maglore, Maurício Pereira, Anelis Assumpção, Twinpine(s), Ventre, Stela Campos, Cidadão Instigado, Soundscapes, O Terno, Supercordas, Kiko Dinucci, Hurtmold, Luiza Lian, As Bahias e a Cozinha Mineira e Boogarins. Cobrando barato a entrada e sem contar com nenhum patrocínio.

O Fora da Casinha é o começo de uma expansão da Casa do Mancha para outras capitais. Depois de fazer o palco da Casa do Mancha no festival goiano Bananada, um dos principais do País, Mancha quer levar a curadoria de um palco para outros festivais indies pelo Brasil a partir do ano que vem, como o paraense Se Rasgum, o pernambucano Coquetel Molotov, o paulista Contato e o potiguar DoSol. “O Fora da Casinha é o irmão mais novo”, brinca Mancha, usando a idade do festival para justifi car sua modéstia. Não precisa. Sozinho, ele ajudou a cena paulistana – e, em seguida, a brasileira – a se erguer com uma autoestima intacta, mesmo quando quase não há rádios que toquem este tipo de música, os cadernos de cultura de jornais viraram agendas culturais comerciais, que as grandes gravadoras ignorem estes novos artistas ou que a mídia tradicional sequer perceba sua existência. Para o segundo semestre de 2017, ele planeja a terceira edição do Fora da Casinha e outra coisa para comemorar seus dez anos em atividade – mas ele nem tem ideia do que quer fazer ainda. Ou tem e prefere não falar… E sim fazer.

Chico vive!

chicoscience

Vinte anos após sua morte, o legado de Chico Science está mais vivo do que nunca. Escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

“Modernizar o passado é uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui?
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enchem a imaginação de domínio
São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade
Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi!
Antônio Conselheiro!
Todos os Panteras Negras
Lampião, sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”

Não importa o que poderia ter acontecido com Chico Science se ele não tivesse morrido vinte anos atrás no trágico acidente daquele 2 de fevereiro, um dia de domingo, entre Olinda e Recife. Todas as hipóteses cogitadas são meros exercícios de imaginação e o personagem criado por Francisco França para sublinhar sua mensagem poderia seguir destinos bem diferentes, como cada um de nós, independentemente de sua vontade. O que importa é o que Chico Science fez enquanto esteve vivo, sua marca emblemática nos rumos da música – e da cultura – brasileira desde que entrou no imaginário mental do Brasil. Ele hoje é mais importante do que nunca.

Pois vivemos num mundo – e num país – antevisto por Chico em sua versão brasileira do cyberpunk. O movimento de ficção científica criado pelos escritores William Gibson e Bruce Sterling nos anos 80 cogitava um futuro próximo completamente distante do futuro Jetsons imaginado pela geração anterior. A crise ambiental, a superpopulação, as megalópoles e, claro, a presença do computador e da internet como sistema nervoso de um planeta decadente, tornava a aurora do século 21 sombria e aquela distopia unia obras que adubaram o inconsciente coletivo vindo de diferentes artistas em diferentes mídias – do Akira de Katsuhiro Otomo ao Blade Runner de Ridley Scott, passando pelo Tron da Disney, o Incal de Jodorowsky e o Robocop de Paul Verhoeven -, criava uma realidade totalitária e alienante como a que vivemos hoje. Uma mistura do 1984 de George Orwell com o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley embebedida pela internet e por dispositivos de vigilância portáteis (nossos celulares).

O mangue beat, criado no Recife por Chico Science, sua Nação Zumbi, e pelo Mundo Livre S/A de Fred Zero Quatro, trazia este futuro para o sol de rachar da linha do Equador. O cyberpunk era urbano, sombrio, meio gótico, meio romântico (impossível não notar a semelhança entre o movimento musical liderado pelo Duran Duran – o New Romantic – com o marco-zero do cyberpunk – Neuromancer). O mangue beat era diurno, à praia, pés na areia – e na lama -, o horizonte é o mar. Ao criar um personagem que funcionava como um narrador daquele novo universo, Chico Science conectava a distopia cyberpunk ao terceiro-mundismo sonoro que une o reggae ao bhangra, o raï ao hip hop. Plugava o Brasil à aldeia global de Marshall McLuhan antes mesmo da ascensão da web – e pela cultura da favela global, de países subdesenvolvidos.

Conheci Chico um pouco antes de ele tornar-se um nome nacional, quando a importância do movimento que puxava a partir do Recife ganhava reconhecimento em todo o país, mas ainda nas entranhas, no meio independente que outrora conhecíamos como underground. Estava começando minha carreira no jornalismo quando pude entrevistá-lo pouco antes do lançamento de seu primeiro CD, lançado pela Sony. A gravadora havia o contratado ao lado de sua Nação Zumbi sem nem entender direito o que estava acontecendo e a prova disso é que a primeira vez que os encontrei foi no camarim da boate Pachá, em Campinas, quando o grupo pernambucano foi escalado para abrir o show da banda de eurodance Culture Beat, cujo hit robótico e sem alma “Mr. Vain” era o extremo oposto do groove vivo, intenso e de protesto puxado por Chico. A banda divertia-se com o choque dos extremos, enquanto Chico ficava tentando entender quem era o público que estava assistindo àqueles dois shows tão diferentes.

Era uma característica que pude perceber nele das outras vezes que nos encontramos – ele sempre estava tentando entender algo que não entendia. Buscava o contexto, tornava-se aluno. Gostava de conversar e de contar histórias, mas, diferente da maioria dos artistas, também gostava de ouvi-las. Arregalava os olhos e arqueava as sobrancelhas, concordando com a conversa enquanto ouvia.

Depois botava aquilo tudo pra fora. Ao colocar os óculos escuros, tirar a camisa, botar o chapéu e abrir o sorriso de lado, Chico virava o arquetípico mangue boy, criava o b-boy nordestino cujo semblante hoje é tão forte quanto os de Bob Marley, Che Guevara e Raul Seixas – um personagem que certamente foi influenciado pelos de Angeli, repare. A partir deste púlpito, narrava sagas de vida e morte pelo sertão, crônicas violentas nas favelas, dias de preguiça na praia. E aos poucos redesenhava um país de contrastes, que já havia sido desenhado pelos modernistas nos anos 20 e pelos tropicalistas dos anos 60. Repensava a Casa Grande e a Senzala com um satélite na cabeça, contextualizava globalmente os tristes trópicos.

Chico viu, há mais de vinte anos, o país que vivemos hoje. As caricaturas dos contrastes, a truculência no traquejo social, a violência sob a superfície fanfarrona, o sorriso aberto que fecha-se num segundo em uma carranca. Suas letras são alegorias que usam arquétipos e ícones estabelecidos para falar sério em frases de efeito cujo significado vai além do mero slogan. É só prestar atenção. “Há fronteiras nos jardins da razão”, “em cada morro uma história diferente que a polícia mata gente inocente”, “cerebral, é assim que tem que ser”, “o de cima sobe e o debaixo desce”, “no caminho é que se vê a praia melhor pra ficar”, “é o povo na arte, é arte no povo e não o povo na arte de quem faz arte com o povo”.

Líder de uma banda de protesto para dançar, Chico Science foi ele mesmo a antena cravada no mangue, no caso, o Brasil. O impacto de sua breve passagem por nossas vidas não deve ser lembrado apenas com tristeza ou saudade, mas pela importância e força representadas nos poucos anos que viveu conosco durante os anos 90. Sua influência é presente, contínua. Chico está vivo.

Quarenta minutos de Boogarins em quatro músicas

boogarins-desvio-onirico

Eis o falado EP ao vivo Desvio Onírico, que reúne quatro faixas dos Boogarins tocadas ao vivo em quatro cidades diferentes, Nova York, Vancouver, Lisboa e Austin. Prepare-se para derreter…

E assim o grupo ganha tempo para maturar ainda mais seu terceiro disco.