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“In My Time of Dying” na despedida

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A última música que Chris Cornell tocou antes de morrer citava o clássico de despedida do Led Zeppelin – publiquei o vídeo lá no meu blog no UOL.

Não bastasse ter morrido enforcado exatamente no mesmo dia em que outro suicida do rock tirou sua vida (Ian Curtis, do Joy Division, se enforcou em 18 de maio de 1980), a surpreendente notícia morte de Chris Cornell, vocalista do Soundgarden, veio acompanhada de outra infeliz coincidência, quando ele incluiu trechos da letra do épico “In My Time of Dying”, do Led Zeppelin (cujo título pode ser traduzido como “Na Hora em Que Eu Morrer”) no meio da canção “Slaves and Bulldozers”, última canção que tocou com sua banda, no Fox Theatre, em Detroit, poucas horas antes de se matar. Assista ao vídeo filmado por alguém no público:

O trecho da letra do Led Zeppelin é mencionado a partir dos seis minutos e meio do vídeo – mas isso não queria dizer que ele teria anunciado sua morte, pois Cornell já havia citado “In My Time of Dying”, um clássico do rock pesado, em outras versões desta mesma música.

Outro fã gravou a íntegra do show e é desconcertante ver como Cornell estava bem no palco – nada indicava que aquela seria sua última apresentação ou que ele se mataria em algumas horas.

Eis o setlist deste último show:

“Ugly Truth”
“Hunted Down”
“Spoonman”
“Outshined”
“The Day I Tried to Live”
“My Wave”
“Burden in My Hand”
“Jesus Christ Pose”
“Rusty Cage”
“Slaves & Bulldozers”

Mogwai prestes a voltar

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Depois de lançar duas trilhas sonoras no ano passado, a primeira, chamada apenas Atomic, para o documentário da BBC Storyville – Atomic: Living in Dread and Promise e a segunda para o documentário de Leonardo Di Caprio sobre o aquecimento global Before the Flood (esta ao lado de nomes como Trent Reznor, Atticus Ross e Gustavo Santaolalla), o grupo de pós-rock escocês anuncia seu próximo álbum propriamente dito desde o disco Rave Tapes, de 2014. Every Country’s Sun, que o líder da banda, Stuart Braithwaite, classificou como um disco de recuperação. “Nós estamos vagamente nos recuperando do referendo escocês, da morte de David Bowie, do Brexit e de Trump”, disse ao anunciar o disco. “O disco foi composto numa época muito turbulenta e intensa, por isso talvez sinta que ele funciona como um escudo contra isso.” O álbum sai apenas em setembro (e já está em pré-venda no site da banda), mas o grupo já adiantou o primeiro single do disco, “Coolverine”.

O Baile do Brown

Fotos: Willian Alves (Divulgação)

Fotos: Willian Alves (Divulgação)

Mano Brown lança seu primeiro disco solo transformando uma casa de shows num epicentro da música negra brasileira – escrevi sobre o show no meu blog no UOL.

Carlos Dafé, Seu Jorge, Ed Motta, Max de Castro, Hyldon – um verdadeiro panteão da música negra brasileira desfilou no palco de Mano Brown em sua primeira apresentação solo, na sexta passada, no Citibank Hall. E eles não eram os únicos a circular pelo palco – o maior nome do rap nacional veio cercado de uma banda com mais de dez músicos, sem contar dançarinos. E, no centro de tudo, ele sorria.

Brown não conseguia disfarçar – nem tinha por quê. Ele estava ali vivendo seu sonho de infância, uma versão pós-moderna para os espetáculos do Earth Wind & Fire, uma versão maiúsculas dos antigos bailes black nas periferias e no centro de São Paulo. Uma banda da pesada, com naipe de metais, backing vocals, dois guitarristas, tecladista, baterista, baixista DJ e percussionista, puxando um funk clássico, que ia groove orgânico dos anos 70 ao suíngue sintético dos anos 80, aquele clima entre o início da disco music e sua implosão que Brown sublinha ao chamar seu disco solo de Boogie Naipe. É uma noite dedicada à dança, ao flerte, à alegria e ao prazer, bem longe da cara amarrada e do clima denso que Brown criou dentro dos Racionais MCs.

Os shows de abertura – de Rincon Sapiência e Rael – não trouxeram todo o público para o local, deixando transitável a pista da casa de shows. Mas bastou começar a espera pelo show principal que logo o lugar começou a ficar lotado – nunca vi tanta gente na enorme casa de shows da zona sul de São Paulo. As cortinas se abriram pouco mais de uma hora após o horário anunciado (meia-noite), o que foi praticamente pontual levando em conta os atrasos intermináveis característicos dos shows dos Racionais.

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Cortinas abertas, luzes passeando entre os músicos e o público e uma lotação de pessoas no palco também semelhante à multidão no palco dos shows dos Racionais. Mas ali não era a entourage dos rappers e sim uma big band que descia a lenha para o público se esbaldar. À frente da banda, o rapper e cantor Lino Crizz, principal parceiro de Brown nesta nova fase, funcionava como o maestro da banda: vestido na estica, cabelo e vocais impecáveis, Crizz funcionava como a liga entre a banda e o dono da festa, sob o néon colorido que reproduzia de forma gigantesca a capa gráfica do álbum.

Brown sorria, rimava e cantava. É nítida sua vontade de deixar a persona criada com o grupo de rap num segundo plano, mostrando que mais do que um rapper implacável, ele também pode cantar – e bem. Seguindo à risca a mesma ordem de músicas do disco, ele chamava aos palcos praticamente todos os convidados que tocaram nas faixas de Boogie Naipe.

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E, ao vivo, Boogie Naipe é um claro bailão, com direito a locutor anunciando atrações (interpretado por Wilson Simoninha), solos de instrumentos, números de dança e climas diferentes de música – da introspecção à festa, do romantismo à exaltação, nunca optando pelo confronto. É um momento de celebração que Brown sublinha para o mesmo público dos Racionais que a vida não é só desgraça, só tragédia, só problemas. É preciso saber se divertir.

E assim ele vai chamando os convidados um a um, seguindo a ordem do disco, até que em dado momento, ele os reúne todos ao redor de uma mesa de boteco, tomando uísque e falando sobre a vida. O alívio de Brown ao ver que, depois de muito tempo de expectativa, deu tudo certo é transparente. Depois que Lino Crizz e Ed Motta dividiram o vocal no improviso de “This Masquerade” de Leon Russell, depois que Seu Jorge reapareceu tocando uma flauta transversal e Max de Castro e Duani desfilavam suas guitarras lado a lado, ele sentou-se num banquinho e desabafou: “Uma hora dessas o script já foi pro saco”, riu. Não tinha problema. Não tinha marra. Essa era a grande marca da noite – era o show de Brown, não do Brown dos Racionais.

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E embora o público pedisse músicas do grupo de rap, Brown não fugiu do script. Terminou o show tirando o gorro que usou toda a noite numa pequena barbearia cenográfica instalada à esquerda do palco e se era para cantar músicas que não fossem de seu disco solo, preferiu “I Want You”, de Marvin Gaye. A extensão do show poderia ser reduzida pois em dados momento o excesso de virtuosismo dos músicos, o excesso de improviso dos convidados e as coreografias no palco se tornavam repetitivas – mas isso também é característica tanto dos bailes black quanto dos shows de funk dos anos 70 e das apresentações da discoteca no fim daquela década.

O principal era o claro momento de celebração da cultura negra brasileira, que sublinhava uma verdade importante: Mano Brown é o polo magnético e unânime de diferentes gêneros e gerações desta cultura. Talvez apenas Jorge Ben e alguns nomes da velha guarda do samba provoquem tanta comoção e reverência. E como foi bom ver que Brown soube conduzir esta energia sem fechar a cara, sorrindo.

Courtney Barnett 2017: “When’s it gonna change?”

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Nossa querida australiana Courtney Barnett registra uma de suas primeiras canções, “How to Boil an Egg”, para o clube de assinatura de singles Split Singles Club, uma parceria entre as gravadoras locais Milk! Records e Bedroom Suck. Courtney falou sobre sua nova/velha canção num post no Facebook: “Eu tocava essa música em palcos com microfone aberto e gravei esta versão recentemente quando estava enfurnada no mato gravando umas demos para meu próximo álbum. Seguindo a tradição das compilações da Milk! Records, como “Pickles from the Jar” ou “Three Packs a Day”, eu queria incluir uma canção minha no Split Singles Club que estava um tanto à esquerda do centro do disco. É um experimento de composição que realmente não pertence a nenhum outro lugar.”

Dá para assinar o clube de singles no site oficial deles.

Lana Del Rey 2017: “I’d trade it all…”

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Na última edição do festival Coachella, nossa querida Lana Del Rey saiu maravilhada do evento apenas para descobrir que o clima entre presidente norte-americano Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-il estava ficando pesado a ponto de ambos estarem com um dedo sobre o botão que dispararia mísseis nucleares entre os dois países. Ela admitiu em seguida, num post no Instagram, ter “sentimentos complexos” entre estar feliz num festival de música mesmo que à sombra de uma chuva nuclear em seu país – e mostrou um trecho da música que escreveu ao sair do festival:

E agora ela oficializa a canção – batizada de “Coachella – Woodstock In My Mind” -, lançando-a antes de seu novo disco.

Mas não sabemos ainda se a música faz parte ou não de Lust for Life.

O “sax” da Linha Amarela do metrô

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Não tem como não estranhar. Em vez de um aviso sonoro genérico e anódino que nos lembra de acordar do transe da mesmice para avisar qual é a próxima estação, a linha amarela do metrô de São Paulo sugere com um alerta sonoro que fica entre o inusitado e o infame:

Comentei outro dia que esse “sax” (que, como vemos, é um clarinete) que desperta risos e rancores nos passageiros que transitam entre o Butantã e o centro de São Paulo parece traduzir perfeitamente o inconsciente coletivo de 2017 – em que o que parecia tristeza renasce como exaustão. E se você, como a maioria das pessoas, cogitou a possibilidade de saber de quem foi a grande ideia de mudar esse alerta sonoro tradicional por esse bordão musical de humor involuntário, eis quem você procurava: