O mestre norueguês da space disco Todd Terje continua fazendo charme em relação ao seu próximo disco, atualmente batizado de Numero Twomero (ainda é um nome de trabalho), continuação de sua excelente estreia It’s Album Time. Depois de lançar duas versões remixadas pelos chapas Prins Thomas e Four Tet da inédita “Jungelknugen“, ele agora ressuscita um hit dance escandinavo dos tempos em que ele ainda usava fraldas. “Maskindans”, que a dupla conterrânea Det Gylne Triangel emplacou no ano em que Terje completava seu primeiro ano de vida (1982), é ressuscitado em dois momentos, numa versão modernizada feita por Terje ao lado do vocalista original da dupla, Ola Ødegård…
…bem como remixada por outro compadre de Todd, Erol Alkan, que dá uma turbinada ainda mais retrô em sua versão.
Colaborações, eletrônico retrô… Terje pode estar dando dicas do rumo de seu próximo disco. O single de “Maskindans” pode ser comprado no site da Piccadilly Records. E se você não conhece a versão original, ei-la:
Não esqueci de falar do quadragésimo aniversário do primeiro filme da saga Guerra nas Estrelas, que aconteceu no final do mês passado – é que eu dei uma entrevista para o Nexo numa matéria especial feita pelo Camilo e escrevi um texto sobre os filmes que os fãs fizeram inspirados na série dentro do especial que o UOL fez sobre o aniversário do marco zero da franquia.
Bárbara Eugenia está nos finalmentes dos trabalhos de seu ótimo Frou Frou, lançado em 2015, e começa a despedir-se lentamente do disco – o último show do álbum em São Paulo aconteceu durante a Virada Cultural e ela tem passagens agendadas para Brasília, Porto Alegre e Florianópolis nos próximos meses – e depois dedicar-se ao disco Vida Ventureira, gravado ao lado de Tatá Aeroplano, que deve chegar às plataformas digitais no início de junho. E para marcar o fim desta fase, ela lança o clipe de “Só Quero Seu Amor”, dirigido por sua amiga Yera Dahora, que estreia com exclusividade aqui no Trabalho Sujo.
A partir deste mês retomamos no Centro Cultural São Paulo a série Concertos de Discos, idealizada pela diretora original da discoteca pública que hoje batiza a instituição, a pesquisadora Oneyda Alvarenga, em que pesquisadores e especialistas dissecam discos clássicos em audições comentadas. Como estamos nas comemorações dos 50 anos do ano de 1967 (dentro do projeto Invenção 67), iniciamos os trabalhos com oito aulas sobre oito discos essenciais lançados naquele ano – das estréias do Pink Floyd, Doors, Velvet Underground e Jimi Hendrix, a discos cruciais nas carreiras de Tom Jobim, Roberto Carlos, Aretha Franklin e dos Beatles. O time de especialistas reunidos é da pesada e as audições acontecem na própria Discoteca Oneyda Alvarenga, no CCSP, durante as terças e quintas de junho, gratuitamente, a partir das 18h30. Veja a programação completa deste primeiro mês abaixo (mais informações aqui):
Concertos de Discos
de 6 a 29/6 – terças e quintas – 18h30
O Invenção 67 ressuscita os célebres Concertos de Discos, que a primeira diretora da Discoteca do Centro Cultural São Paulo, Oneyda Alvarenga, ministrou entre 1938 e 1958. Os Concertos de Discos voltam focados em música popular e realizados na própria Discoteca Oneyda Alvarenga, convidando o público a uma audição comentada. Programe-se: as audições são limitadas a 30 pessoas. Todos os concertos começam pontualmente às 18h30.60min – livre – Discoteca Oneyda Alvarenga
grátis – sem necessidade de retirada de ingressosSgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
dia 6/6 – terça – 18h30
Pai e filho, Maurício Pereira (Os Mulheres Negras) e Tim Bernardes (O Terno) falam sobre o clássico dos Beatles: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.The Piper at the Gates of Dawn
dia 8/6 – quinta – 18h30
O crítico e músico Alex Antunes (Akira S, Shiva Las Vegas) trata do disco de estreia do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn.Wave e Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim
dia 13/6 – terça – 18h30
O músico e historiador Cacá Machado analisa os álbuns Wave, de Tom Jobim, e Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, parceria com Sinatra e Jobim que marcou a inserção da bossa nova no contexto internacional.The Doors
dia 15/6 – quinta – 18h30
O jornalista Jotabê Medeiros mergulha no álbum de estreia da banda The Doors, que juntou de modo dramático jazz, blues, lisergia e poesia.I Never Loved a Man the Way I Love You
dia 20/6 – terça – 18h30
Especialista em hip hop, soul e funk, a jornalista Mayra Maldjian analisa I Never Loved a Man the Way I Love You, turning point na carreira de Aretha Franklin – e do rythmn’n’blues.Are You Experienced?
dia 22/6 – quinta – 18h30
Músico e jornalista, Rodrigo Carneiro (Mickey Junkies) surfa em Are You Experienced?, disco em que estreou a banda Experience, de certo guitarrista canhoto chamado Jimi Hendrix.Em Ritmo de Aventura
dia 27/6 – terça – 18h30
Guitarrista e vocalista da banda Autoramas, Gabriel Thomaz entra Em Ritmo de Aventura para falar do clássico de Roberto Carlos.The Velvet Underground & Nico
dia 29/6 – quinta – 18h30
O jornalista e editor da revista Bravo!, Guilherme Werneck, trata de The Velvet Underground & Nico, o disco que lançou a banda de Lou Reed – e também as bases do punk.
Eis mais uma tradução de minha lavra, A Vingança dos Analógicos, que está saindo pela Editora Rocco. Seu autor, o jornalista canadense David Sax, traça paralelos entre a volta do vinil, os cadernos Moleskine, o resgate da película para filmes e fotografia e dos efeitos especiais sem computação gráfica, publicações impressas, a sala de aula, o comércio tradicional, os jogos de tabuleiro e outras manifestações aparentemente isoladas como parte de uma grande onda que busca alternativas à overdose digital que vivemos hoje. Um alívio para quem está de saco cheio dessa parafuso que gira em falso que se transformou nossa vida online. Mais informações aqui (a foto veio do Instagram da editora Rocco).
Thiago França dá início à sua invasão do Centro da Terra chamando o velho compadre Kiko Dinucci para tocar, de forma improvisada, a mística melodia Ngoloxi (cuja primeira versão pode ser baixada no site de Thiago, como todas suas obras), uma sequeência específica de notas que é repetida de várias formas e intensidades apenas com o saxofone e o violão. Thiago contou o conceito por trás de suas quatro segundas aqui outro dia e fala mais sobre a apresentação desta segunda, dia 6, e de sua amizade com Kiko no papo abaixo (mais informações sobre o primeiro espetáculo aqui).
Como você conheceu o Kiko Dinucci?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-voce-conheceu-o-kiko-dinucci
Como essa parceria evoluiu para o Metá Metá?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-essa-parceria-evoluiu-para-o-meta-meta
Fale um pouco sobre Ngoloxi, tema da primeira apresentação.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-fale-um-pouco-sobre-ngoloxi-tema-da-primeira-apresentacao
Vocês têm intenção de realizar novas gravações deste tema?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-voces-tem-intencao-de-realizar-novas-gravacoes-deste-tema
Lançado há quarenta anos, Exodus, de Bob Marley, foi fruto de um atentado e o primeiro disco político do reggae – escrevi sobre ele no meu blog no UOL.
“As pessoas que estão tentando piorar este mundo não tiram um dia de folga. Como é que eu vou tirar?”, respondeu Bob Marley quando o perguntaram como ele havia feito um show dois dias depois de sofrer um atentado que quase lhe tirou a vida – bem como de sua mulher, Rita Marley, e de seu empresário, Don Taylor. Bob Marley foi alvejado quando ensaiava com sua banda, os Wailers, em seu endereço jamaicano, no número 56 da rua Hope da cidade de Kingston, no dia 3 de dezembro de 1976, dois dias antes do festival Smile Jamaica, onde era a atração principal.
O festival, organizado pelo primeiro-ministro jamaicano Michael Manley, era uma tentativa de responder à guerra entre facções rivais que tirava vidas por toda antiga colônia britânica. Bob Marley, como o primeiro-ministro, era dos poucos jamaicanos proeminentes que preferia não tomar partido de nenhum lado e concordou em puxar um evento para tentar levantar a bandeira da paz entre seus conterrâneos. Quando vários homens armados invadiram o ensaio, Bob foi atingido logo abaixo do coração e no braço, sua mulher e vocalista de apoio Rita teve a cabeça atingida por outra bala e seu empresário Don levou cinco tiros no abdômen. Milagrosamente, todos sobreviveram ao atentado sem nenhuma sequela – tirando o projétil alojado no braço esquerdo de Marley, que subiu no palco do Smile Jamaica mesmo naquelas condições. O evento, conhecido até hoje como “Woodstock jamaicano”, reuniu 80 mil pessoas.
O atentado não marcou Marley apenas em termos de saúde. Foi o início de um processo de transformação artística, que o fez mudar de país e de atitude. Voou para Londres e passou os próximos seis meses no número 34 da rua Ridgmount Gardens, no bairro de Candem. Lá começou a entrar em contato com o ainda incipiente movimento punk londrino e começou a gestar seu disco mais político, a obra-prima Exodus, lançada exatamente há 40 anos, no dia 3 de junho de 1977.
A conexão de Bob Marley com o punk começou quando ele ouviu a versão que o Clash fez para o hoje clássico hino reggae de Junior Murvin, “Police and Thieves”. “Políciais e bandidos nas rua, assustando a nação com suas armas e munições”, cantavam tanto seu conterrâneo quanto a banda inglesa, o que lhe fez perceber que as referências comuns a ambas cenas iam além de estéticas ou artísticas: viviam num mundo confuso e tenso, o que levou Bob Marley a mudar radicalmente as letras de suas músicas. Uma de suas primeiras novas composições – “Punk Reggae Party”, que havia saído no lado B do single de “Jamming”, citava nominalmente o levante musical tanto no título quanto na letra, mencionando até algumas bandas: “New wave, new craze/The Jam, The Damned, The Clash/Wailers still be there/Dr Feelgood too”. Era o início da transformação do reggae em gênero político, cujas cores passaram a ter fortes significados sociais.
Essa é a principal contribuição de Bob Marley ao gênero que o tornou astro. Não foi ele quem inventou o reggae (este foi o produtor Leslie Kong, de quem Bob se aproximou logo que entendeu que aquela novidade sonora iria mudar os rumos da ilha onde nasceu e de sua própria carreira) bem como não foi seu primeiro popstar internacional (este foi Jimmy Cliff, impulsionado pelo sucesso da trilha sonora do filme The Harder They Come), mas Marley sintetizou uma série de outras qualidades que ajudaram a estética jamaicana dominar o mundo. Foi ele quem popularizou o rastafaranismo através do gênero (vertente religiosa que ligou para sempre o reggae aos dreadlocks e à maconha) e quem suavizou a produção originalmente crua daquela musicalidade para as massas (com a contribuição sagaz do produtor Chris Blackwell, da gravadora Island, que havia antevisto o gênero como o próximo rock’n’roll e tratando musicalmente Bob Marley como um astro de rock, tanto em termos de marketing quanto de gravação). Mas ao mudar a temática do gênero de contos do faroeste jamaicano para uma visão política holística e global, Bob Marley mudou a cara do gênero, sua própria importância como artista e a cultura popular do final do século passado.
Exodus – “o movimento do povo de Jah”, como cantava a faixa-título do disco – é um álbum tão perfeito que parece uma coletânea. Começa em silêncio absoluto e vai crescendo muito devagar, o que leva o ouvinte a aumentar o volume antes de ser contagiado pelo balanço sincopado da primeira faixa, “Natural Mystic” – “Há uma mística natural soprando no ar / Se você ouvir com atenção vai perceber”, cantava suavemente o mestre. O disco continuava como a urgente – embora sem nenhuma pressa – “So Much Things to Say”, passava pela tensa “Guiltiness”, tornava-se ainda mais pesado com “The Heathen” até terminar o lado A com os quase oito minutos de sua esplendorosa faixa-título. A carga política do disco, no entanto, era suavizada por um lado B dedicado apenas ao amor, que começava em “Jamming”, continuava em “Waiting in Vain”, seguia por “Turn Your Lights Down Low”, “Three Little Birds” para terminar com a antológica “One Love”, que emendava com uma versão de Bob Marley para “People Get Ready”, de Curtis Mayfield.
Foi uma sacada de gênio, ao dividir o álbum entre política e amor, Bob Marley deixava claro que sua política era a do amor e que uma coisa era indistinguível da outra, mesmo separando-as cada uma em um dos lados do disco. Uma visão que nasceu motivada por um atentado à sua vida, consolidada na capital do antigo império que havia colonizado a ilha em que havia nascido e envernizada com as cores do novíssimo movimento punk. Exodus é a obra-prima de Bob Marley – seu melhor e mais importante disco – e, em 1999, foi eleito pela revista Time como o melhor disco do século passado. Vamos acender as velas para parabenizar este disco por quatro décadas de eternidade musical – e saudar Bob Marley como um dos artistas mais importantes de nossa era. Tuff Gong, indeed.
Como parte do evento Invenção 67, Roberta Martinelli e Ricardo Alexandre discutem o mítico festival da Record em 1967 (aquele que revelou Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de consolidar as carreiras de Edu Lobo e Chico Buarque) este sábado, no CCSP. O debate acontece às 17h, logo após a exibição do filme Uma Noite em 67, de Ricardo Calil e Renato Terra (que foram convidados para participar do evento mas não tinham disponibilidade de agenda). Tanto a exibição do filme quanto o debate são gratuitos – e a lotação está sujeita à capacidade da Sala Paulo Emílio. Os ingressos estão disponíveis uma hora antes do evento – mais informações aqui.
Há cinquenta anos, os Beatles mudavam a cultura pop com seu magnífico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – escrevi sobre o disco clássico no meu blog no UOL.
Se houve um marco que determinou os rumos da cultura que vivemos hoje, este foi o disco que os Beatles lançaram há exatamente meio século, no dia primeiro de junho de 1967. Ao desvendar Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band para o resto do mundo, a banda do norte da Inglaterra que transformou-se no maior fenômeno das massas dos anos 60 reescreveu a história da civilização contemporânea a partir de um simples disco. O impacto do disco mais emblemático da história dos Beatles e da história da música gravada pode ser sentido até hoje e reverberará ainda por muitos anos.
Sua onipresença e unanimidade é tão recorrente que é fácil reduzi-lo como um trabalho menor ou superestimado. Mas nenhuma obra de arte na história da humanidade provocou tantas transformações e causou tanto furor e discussões quanto o oitavo disco da carreira dos Beatles. Vários outros acontecimentos históricos provocaram desdobramentos tão ou mais radicais do que este que é o álbum mais clássico da música moderna, mas nesta categoria entram eventos violentos, drásticos e complexos, como invenções tecnológicas, conceitos teóricos, guerras, conquistas esportivas, epidemias, tragédias e catástrofes naturais. Outras obras de arte tiveram um impacto tão duradouro ou revolucionário quanto este disco, mas nunca de forma tão simultânea e global. Até hoje, cinquenta anos depois de seu lançamento, gerações inteiras, contemporâneas dos Beatles ou não, lembram da revelação provocada pelo disco.
E não apenas de sua audição. Sgt. Pepper’s provocava o crítico, o especialista, o fã e o ouvinte para além do conjunto de suas treze canções. A transformação ia para além do próprio repertório e ia para o conceito artístico, a produção sonora, a embalagem gráfica, a apresentação visual. Diferentes desdobramentos – da evolução da cultura de massas do século vinte ao amadurecimento da ainda infante indústria fonográfica, passando pela consolidação do modernismo e ascensão da cultura pop ocidental – convergiam naquele único disco hoje mitológico.
Mas o mais impressionante é que não havia modelo de negócios, estratégia de marketing, conceitos intelectuais ou manifestos artísticos – tudo foi feito por quatro rapazes entre seus vinte e trinta anos que, fartos de serem tratados como produto de consumo, abandonaram a própria natureza do mercado em que estavam inseridos e a motivação básica que os uniu durante toda uma década (tocar música ao vivo) para conseguirem se reinventar artística e comercialmente. A transformação acontecia basicamente pelo fato de quatro filhos da classe operária de um antigo império colonizador em decadência começarem a agir como uma única mente, um único corpo. Talvez o melhor retrato desta nova fase do grupo foi o fato de que, depois de tirarem férias uns dos outros após anos se vendo diariamente de forma incessante, os quatro se reencontraram com a mesma transformação estética – todos estavam trajando bigodes que nunca haviam cogitado sem nem sequer terem combinado nada entre si.
Por um semestre, no início de 1967, eles embarcaram em uma viagem que começou de forma nostálgica e logo descambou para a alegoria. John Lennon e Paul McCartney, a força-motriz e principais compositores da banda, voltaram para sua cidade-natal em forma de canção e, cada um deles, escreveu uma música que lhes trazia de volta às suas respectivas infâncias – John voltava ao orfanato próximo da casa de sua tia Mimi, onde passou parte de sua infância, e Paul ao terminal de ônibus por onde transitava diariamente quando ia para a escola. Strawberry Field (sem o “s”) e Penny Lane eram lugares mundanos e sem charme, que foram transformados em monumentos às respectivas juventudes dos dois, que logo entrariam para a história como a dupla de compositores mais antológica da cultura popular recente. “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” fariam parte do novo disco de seu grupo, mas foram escolhidas para, no início daquele ano, serem lançadas como um compacto para mostrar o que os Beatles estavam aprontando no estúdio de Abbey Road. Um prefácio sensacional para uma obra-prima.
Não era pouca coisa. O single de duplo lado A parecia a continuação natural dos experimentos musicais e sonoros que o grupo vinha conduzindo a partir dos dois discos anteriores – Rubber Soul e Revolver, de 1965 e 1966, respectivamente -, mas agora parecia haver uma mesma temática, uma amarra conceitual. Ao mirar em sua Liverpool no ponto de partida do novo disco, os Beatles entenderam que era preciso transcender o formato LP – uma novidade mesmo ainda naqueles primeiros anos da música pop, um conceito que não tinha nem meio século de idade em 1967 – e transformar o álbum em um gesto artístico autoral.
A ideia original veio de Paul, a partir de um trocadilho infame durante um voo sobre o Atlântico. Viu o saleiro e pimenteiro dispostos próximos ao prato de comida e, brincando com as palavras, transformou “salt and pepper” (sal e pimenta) em um personagem fictício – Sargent Pepper -, maestro de uma banda inventada de um clube imaginário, o Clube dos Corações Solitários. A brincadeira evoluiu para um conceito ousado para a época, que aquele não era um disco dos Beatles e sim daquela banda enigmática. E foi vestindo roupas alheias – depois metamorfoseadas em fardas de uma fanfarra psicodélica – que os Beatles pularam num abismo de experimentações.
Logo estariam experimentando colagens sonoras e líricas, instrumentos alheios à música pop tradicional, drogas alucinógenas, temas distantes da alegria pueril dos primeiros dias, jogos de palavras, incursões geográficas, temporais e poéticas. Fugiam para o extremo oposto da beatlemania que havia lhes popularizado em todo o planeta, recriando o próprio universo de forma épica e, sem perceber, forçando o amadurecimento de toda sua geração e dando pistas para as gerações seguintes. Não fundaram a psicodelia, mas trouxeram-na para a pauta do dia, fundindo-a com seus recentes interesses por música erudita, alta cultura, pós-modernismo, música indiana, técnicas de gravação. Sob a batuta do produtor/professor George Martin, acompanhados de seus fiéis escudeiros George Harrison e Ringo Starr e a bordo de um estúdio que permitia apenas a gravação de míseros quatro canais simultâneos, John e Paul viraram a cultura do avesso, trazendo para fora todos seus ímpetos e instintos primários, mas envernizados pela curiosidade, pelo senso de exploração e de aventura e pelo salto no desconhecido.
A capa, hoje icônica, parecia traduzir todas as inquietações que o grupo sentia: era uma colagem ideológica de personalidades díspares – Oscar Wilde e Ghandi, Aleister Crowley e Shirley Temple, Mae West e Lawrece da Arábia, Bob Dylan e Karl Marx – que perfilavam-se a duas versões dos Beatles – uma retirada do museu de cera de Madame Tussauds (que parecia sinalizar que aqueles Beatles, em preto e branco, haviam ficado no passado) e outra multicolorida, sorridente e desafiadora. Aquela colagem visual conduzida por um dos grandes nomes da recente pop art, o inglês Peter Blake, traduzia tanto a ousadia comercial quanto a aventura estética encapsulada naquele disco, reforçada pelo fato de ser o primeiro álbum da história a vir com as letras impressas.
A quantidade de trunfos de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club é imensurável. Sem ele, a cultura perderia o impacto global e os Beatles não seriam uma das principais forças artísticas do mundo até hoje. Seu cinquentenário vem apenas reforçar sua importância, tanto em termos criativos quanto mercadológicos. Nenhuma outra obra de arte foi tão influente e transgressora em tão pouco tempo – nem antes, nem depois.