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Centro do Rock 2017: Test Big Band

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O evento concebido para diagnosticar o atual rock brasileiro, o Centro do Rock começa nessa terça no Centro Cultural São Paulo, com um show de graça da Test Big Band (mais informações aqui) e segue até o final do mês com filmes, audição comentada, shows e debates sobre o tema. A programação completa você encontra no site do CCSP. Abaixo, o texto que escrevi para o catálogo da atividade, falando das transformações no gênero e o que está acontecendo no país.

Novo rock brasileiro

O renovado Centro do Rock reúne novos artistas de diferentes vertentes estéticas e culturais que encaixam dentro do elástico parâmetro do gênero

O impacto do rock desde sua criação vem da transgressão, da subversão, do desafio ao status quo e da intensidade emocional de misturar realidades e expectativas. A ambiguidade sexual, a revolta política, a mistura de raças e nacionalidades e o culto à personalidade transformavam o que poderia ser apenas um novo gênero musical – com raízes idênticas em realidades distintas (o blues e o country, as duas metades que até hoje simbolizam os Estados Unidos) – em uma febre global. Baixo, guitarra e bateria equilibrando frases elétricas e refrões em forma de hino fizeram esta novidade norte-americana se espalhar pelo planeta à medida em que a adolescência ganhava voz pela primeira vez na história.

Mas ao tornar-se clássico, o gênero passou a cultuar símbolos e uma mitologia que aos poucos engessou suas principais qualidades apenas para firmar seus holofotes apenas no ego dos artistas. Logo o astro do rock era mais importante que sua mensagem e aos poucos as premissas que tornaram o gênero musical em transformação comportamental foi envelhecendo com seus primeiros protagonistas, que perderam o viço da juventude e tudo – de bom e de ruim – que o rock tinha relacionado àquela faixa etária. Aos poucos a música eletrônica, o hip hop e uma nova vanguarda foram suprindo aquela necessidade de extravasão que antes era proporcionada pelo gênero. O rock foi se transformando em algo reacionário, reativo e eminentemente conservador – autocelebratório e machista, indulgente e preconceituoso, intolerante e caricato. Até o indie rock – versão alternativa para esse rock dito clássico – repete tais erros.

Este retrato, no entanto, é impreciso. Talvez pelo excesso de atenção em alguns dos grandes vendedores de discos do passado, o gênero passe por esse envelhecimento grotesco, mas ele não mostra as transformações que eventualmente estão sendo propostas por artistas mais novos. Temos novas gerações desconstruindo o formato estabelecido entre os anos 60, 70 e 80 e reinventando um rock que muitas vezes transcende gêneros e outras desafiam as expectativas.

Não é diferente no Brasil. Presente em dois dos principais momentos de popularidade da música no país – nos anos 60 da Jovem Guarda de Roberto Carlos e do Tropicalismo de Gil e Caetano e nos anos 80 da safra estabelecida a partir do primeiro Rock in Rio -, o rock é a porta de entrada para a maioria dos músicos do país no mercado e no cenário artístico. Nomes que depois se estabeleceram na chamada MPB e até na axé music e no sertanejo deram seus primeiros passos na carreira fazendo versões de clássicos em bandas de salão, botecos sem glamour ou em casas de show minúsculas que insistem em sua existência pela pura perseverança.

Ao mesmo tempo, as novas tecnologias permitiram que a comunicação entre grupos diferentes de artistas pudesse criar uma cena musical que não necessariamente pertença a um bairro, uma cidade, um estado ou uma região do país, fazendo artistas de diferentes faixas etárias e locais de origem pudessem se reconhecer umas nas outras à medida em que passeavam por festivais e excursões pelo país. Este reconhecimento estético vem criando uma nova geração de rock que, por culpa de outro efeito das novas tecnologias (a pulverização da informação em micronichos), já pode ser considerada uma nova safra de rock com características próprias. Como cada um destes artistas vem trilhando seu caminho particular, não há uma sensação de movimento ou de transformação coletiva que era característica do gênero em outras épocas.

Mas é uma ilusão. Essa transformação está acontecendo, novos rumos estão sendo trilhados e aos poucos o rock vem recuperando suas características de contestação, de subversão e de protesto. É essa a força-motriz da transformação do antigo Sintonia do Rock, que o Centro Cultural São Paulo realiza desde os anos 90, em Centro do Rock. Um novo espaço para reinventarmos esta nova cena coletivamente, reunindo artistas de diferentes tendências e vertentes estéticas (do indie ao metal, do glam ao experimental, do hardcore ao noise) que se encaixem nesta casa da mãe Joana chamada rock’n’roll. Afinal, o Hard Rock Café é só um shopping center

Uma luz no túnel de Twin Peaks

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David Lynch está tentando nos mostrar alguma coisa no meio de algo aparentemente abstrato e sem sentido neste episódio 8 da nova temporada de Twin Peaks – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

Se você está acompanhando a terceira temporada de Twin Peaks e já chegou ao oitavo episódio, deve estar em algum ponto entre três diferentes reações: ou está maravilhado com o feito de David Lynch e como ele pode reverberar não apenas na história da série, mas na obra do diretor e na história da arte desse século (onde estou) ou está revoltado com o fato da história principal ter sido abandonada para entrar em elocubrações sobre acontecimentos remotos que parecem não ter nenhum vínculo com a história ou está coçando a cabeça até agora perguntando o que diabos aconteceu e como é que a série vai continuar daqui pra frente. Se você não chegou neste episódio, hora de virar os olhos e correr para fechar a aba do navegador, porque lá vem um monte de spoiler sobre a série até agora para refletir sobre o que realmente aconteceu nesse mítico oitavo episódio e quais as próximas fronteiras a serem exploradas por David Lynch.

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A boa notícia é que o episódio passado não foi completamente descolado da estranha realidade envolvendo o assassinato de Laura Palmer e da cidadezinha no noroeste americano onde seu corpo foi encontrado envolto em plástico. Got a Light?, o oitavo episódio da terceira temporada do seriado, funcionou como uma espécie de história de origem de uma tensão que agora parece ser a principal motivação por trás de tudo que assistimos sobre a série até aqui. A introdução do capítulo, com o inesperado assassinato da versão maligna do agente Cooper (vivido, claro, por Kyle MacLachlan), um estranho ritual sobrenatural que parece extrair a essência do espírito Bob de dentro do agente e aparição da atração musical do episódio, o Nine Inch Nails, logo no começo, parecia antecipar mais uma hora de sustos e estranhamentos típicos da nova temporada da série. Mas de repente algo completamente inusitado aconteceu.

Arte. Arte em estado bruto, pura arte. Vendida como um episódio de um seriado.

A série volta no tempo e, em preto e branco, assiste à explosão da primeira bomba atômica da história. Uma lenta e deslumbrante imagem fotografada com uma luz tão gloriosa quanto a primeira vez que Lynch filma Nova York no primeiro episódio da nova temporada. Sob as tensas cordas de “Lamento pelas Vítimas de Hiroshima”, do compositor polonês Krysztof Penderecki, Lynch aproxima-se cada vez mais do centro da explosão em forma de cogumelo até que a câmera perca-se na luz da explosão.

E assistimos a uma vídeo-instalação em que Lynch nos força a mergulhar em uma espécie de descanso de tela de computador com defeito, a luz fragmentada em uma nuvem de pontos que se espalham pela tela, manchas disformes que misturam tons de cores de uma forma nunca vista em uma transmissão televisiva. Um mergulho ao coração de uma explosão que ao mesmo tempo é um big bang, o início de algo completamente novo. Estamos dentro do átomo, vendo-o sendo espatifado por dentro, assistindo às estruturas sendo dissolvidas de dentro para fora. O que Lynch parece insinuar é que a diferença entre a explosão atômica e o começo do universo é só uma questão de escala. Mas esteticamente são momentos idênticos. São artes plásticas em movimento – ou como o próprio Lynch frisa, plásticas não: elétricas. As sucessões de borrões que se intercalam por minutos desafiam a paciência do espectador como qualquer cena de qualquer filme do diretor, só que sem cenários, atores, diálogos. Ele segue testando nosso limite de submissão fazendo algo que nunca foi feito em uma mídia com esse alcance. É inevitável comparações com o 2001 de Kubrick e o Árvore da Vida de Malick, filmes que tentaram traduzir esse momento em luz e som.

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Ainda sem cores, assistimos a uma sequência de caráter completamente onírico, mostrando um ser de feições indefinidas (mas que lembra o ser que entrou pelo portal em Nova York, no primeiro episódio) vomitando uma gosma amorfa cheia de ovos e casulos. Um deles captura o próprio Bob, entidade maligna responsável pelo assassinato de Laura Palmer. A imagem do ator Frank Silva (morto em 1995) no meio daquela gosma parece apontar que aquele é o seu momento de origem. Algo aconteceu no tecido de nossa realidade com a explosão da primeira bomba atômica que libertou toda aquela maldade.

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Bob, no universo de Twin Peaks, não tem uma definição precisa: não sabemos se ele é uma espécie de demônio que instiga o lado ruim dos humanos, escravizando-os em sua dor e sofrimento, ou se ele é a própria maldade inerente a todos nós, desperta por motivos improváveis. Mas o que este novo episódio parece indicar é que Bob é um tipo específico de ruindade que nasceu com a explosão da primeira bomba atômica. Talvez uma metáfora para mostrar como a humanidade se desumanizou ao cogitar a possibilidade de pulverizar cidades inteiras. Como diria o físico J. Robert Oppenheimer, um dos responsáveis pela criação da bomba, ao observar o estrago de sua invenção, citando o Bhagavad Gita indiano: “Agora eu me torno a morte, o destruidor de mundos.”

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Desafiando qualquer resquício de lógica, o episódio continua com imagens de uma loja de conveniência em um posto de gasolina com diferentes tons de luz e sombra, numa imagem em movimento que remete à estética clássica norte-americana mas de um ponto de vista sombrio, obscuro. Ao mesmo tempo em que foca e desfoca o estabelcimento comercial, o vemos sendo cercado e populado por pessoas indistinguíveis, que entram e saem da loja com a mesma velocidade abrupta de cortes e movimentos de edição que a sequência distribui. São vários minutos desta sequência também em preto e branco que parece não ter pé nem cabeça, mas está atrelada umbilicalmente à mitologia da série.

De repente o seriado nos leva para uma fortaleza blindada no meio do oceano roxo que conhecemos no terceiro episódio e num longo travelling a câmera nos leva para uma sala de estar em seu interior onde uma mulher peculiar está sentada escutando música, até que um alarme dispara. Surge então o mesmo gigante que deu as dicas para o Agente Cooper no início da temporada – ele desliga o alarme e assiste à cena da explosão nuclear e da criação de Bob por uma tela.

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Os dois – que ficamos sabendo pelos créditos no final do episódio que se chamam, respectivamente, Señorita Dido e sete pontos de interrogação – isso mesmo, “???????” – trocam olhares e demonstram preocupação com o que acabaram de assistir. É quando o gigante começa a levitar e, no ar, sua cabeça passa a expelir uma luz dourada. Esta luz se concentra em uma bola de energia que, entregue à Señorita Dido, releva o rosto de Laura Palmer. Dido beija a esfera e a lança em um estranho aparelho de tubos dourados – por outra tela, vemos que a esfera está indo em direção ao nosso planeta, especificamente rumo aos Estados Unidos.

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Corta para 1956 e assistimos a um ovo sendo chocado na areia. A cena também é filmada em preto e branco e mostra o nascimento de um ser que parece um anfíbio e um inseto ao mesmo tempo, com patas de sapo e asas de mariposa. O estranho animal desaparece no horizonte quando assistimos a um garoto adolescente conduzir sua colega de escola de volta para a casa. É uma sequência captura a atmosfera estética da cultura norte-americana clássica do pós-guerra. Sua essência está na inocente cena em que o jovem casal dá o primeiro beijo, carregada de uma candura que desapareceu de nosso planeta. A partir dessa cena acompanhamos um estranho sujeito de pele oleosa e pintada de preto que se dirige às pessoas de forma agressiva ao perguntar, com um cigarro apagado na boca, o nome do episódio (“tem fogo?”). Primeiro ele interroga a um casal dentro de um carro, que sai em fuga assustado.

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Depois ele segue em direção a um emissora de rádio, se dirige à recepcionista com a mesma pergunta, antes de espatifar seu crânio apenas com uma das mãos. Entra no estúdio onde está o apresentador da rádio e o imobiiza da mesma forma. Mas antes de matá-lo, tira o disco que está tocando, empunha o microfone e, com o cigarro ainda pendurado na boca, repete:

“Isso é a água
E isso é o poço.
Beba tudo e desça.
Os cavalos são os brancos dos olhos
E a escuridão por dentro.”

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Esse verso é repetido de forma agressiva por repetidas vezes e alcança os ouvintes do rádio, colocando-os um a um para dormir, hipnotizados – inclusive a garota que deu o beijo há poucos minutos. Ela cai na cama deitada de lado e, enquanto ouve aquela estranha oração, recebe a visita da estranha rã-cigarra que vimos sair de seu ovo nos instantes anteriores. De olhos fechados, ela abre a boca apenas para que o bicho bizarro entre inteiro dentro dela. O episódio termina com a cena da menina dormindo, nos deixando pasmos com o que acabamos de assistir.

E não estou falando apenas de um animal mitológico entrando na boca de uma adolescente dormindo.

Todo o oitavo episódio da terceira temporada de Twin Peaks é de ficar boquiaberto. Primeiro por sua beleza estética e aula de cinema – Lynch esmerilha toda sua técnica como o mestre que é, mas sem precisar ater-se a cenas tradicionais, com personagens, diálogos e cenários. Tais cenas evocam diferentes genealogias artísticas que são caras ao cineasta, como o surrealismo, o hiperrealismo, o cinema comercial dos anos 50, pintores como Edward Hopper e Francis Bacon, cineastas como Luís Buñuel, Charles Laughton e Kenneth Anger. Toda a sequência que acontece após a aparição do Nine Inch Nails – quando o episódio passa das cores ao preto e branco – poderia ser um média metragem de horror e ficção científica do pós-guerra, quando os filmes não precisavam explicar o motivo central de suas existências, apenas enfileirando cenas fantásticas e surreais para delírio de uma plateia pasma. E casualmente costura diferentes referências de suas obras – a rodovia vira uma estrada vicinal fazendo referência à Estrada Perdida logo no início do episódio, o teatro onde o gigante assiste à explosão nuclear é o mesmo Club Silencio do Cidade dos Sonhos e todo o episódio é a obra mais próxima que o cineasta já fez de seu primeiro filme, o bizarro Eraserhead.

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Mas por trás daquelas imagens aparentemente dispersas, há o cerne de toda a história de Twin Peaks, que juntas pontas de diferentes histórias da mesma forma que o sétimo episódio havia feito na semana anterior. Se antes havíamos visto a versão má do agente Cooper reencontrar a mítica personagem Diane apenas para depois negociar sua fuga da prisão, vimos o reaparecimento das páginas desaparecidas do diário de Laura Palmer e assistimos ao letárgico Dougie viver seu momento mais próximo da versão boa do agente Cooper, neste episódio mais recente tivemos conexões sendo finalmente ativadas – mas num plano metafísico. E a chave para estes momentos são estes estranhos personagens que haviam aparecido duas vezes na nova temporada causando um desconforto sobrenatural até mesmo para os níveis de Twin Peaks – e que no oitavo episódio finalmente ganham nome (na cena dos créditos finais, cada vez mais funcional para a narrativa da série). Os Woodsmen – os homens da floresta.

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São eles quem aparecem logo que o personagem Ray Monroe (vivido por George Griffith) mata a versão má do agente Cooper de surpresa e começam a causar a lenta náusea audiovisual do início do episódio. São oito personagens cujas imagens se sobrepõem num efeito especial barato, seus corpos translúcidos dançando ao redor do cadáver de Cooper para o horror de seu assassino. Três deles caem sobre o corpo e passam a mexer em suas entranhas, sujando-o ainda mais de sangue, principalmente no rosto. O tempo e o espaço parecem se diluírem naquele momento e nós ficamos tão horrorizados com aquela cena quanto o próprio Ray. Até que os Woodsmen extraem um objeto redondo de dentro do corpo de Cooper – e nele conseguimos ver o rosto de Bob.

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São os Woodsmen que também entram e saem da loja de conveniência na sequência menos narrativa de todo o episódio. Mas o que parece completamente aleatório e arbitrário tem explicação específica no filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Laura Palmer: Fire Walk With Me) que David Lynch dirigiu logo após o cancelamento da série original em 1991. Completamente diferente do tom da série, Fire Walk With Me explora o lado mais sobrenatural e violento de Twin Peaks e foi rechaçado em seu lançamento por fãs e críticos – foi vaiado em Cannes e mais de uma vez referido como o pior filme já feito.

No entanto, é dele que saem as primeiras referências à loja de conveniência e aos Woodsmen na série. Especificamente quando nos encontramos com o agente Philip Jeffreys, vivido por David Bowie. Desaparecido após investigar um crime parecido com o assassinato de Laura Palmer, Jeffreys volta a aparecer nas dependências do FBI exatamente como o agente Cooper havia previsto em um sonho. Ele surge vestindo a mesma roupa com que foi visto pela última vez quando desapareceu dois anos antes na Argentina e fala que esteve no “andar acima da loja de conveniência”. Quando ele descreve esta cena para Cooper, para o agente Albert Rosenfeld (vivido por Miguel Ferrer), para Gordon Cole (o agente do FBI interpretado pelo próprio David Lynch), a cena desfoca para este ambiente estranho em que o Homem do Outro Lugar (também conhecido como o anão que fala de trás pra frente) e o espírito de Bob estão sentados frente a frente em uma mesa.

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As duas cenas – da volta de Jeffreys e da reunião no andar de cima da loja – são mais longa na versão original do filme, que David Lynch publicou depois na série de cenas Missing Pieces, anos depois do original. Primeiro, a da volta do personagem de David Bowie:

Depois, a do andar de cima da loja de conveniência:

Ao seu redor, pessoas que são creditadas como sendo os Woodsmen daquele filme. Eles nada fazem, apenas assistem ao diálogo entre Bob e o anão, que menciona a conexão entre dois mundos, o anel que Laura Palmer usava quando tinha morrido, a cor de uma mesa de fórmica e “garmanbozia” – o nome que estes espíritos dão à dor e ao sofrimento humanos, que eles comem como se fosse um alimento (materializado na forma de creme de milho).

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O andar acima da loja de conveniência é uma versão menos glamourizada do Black Lodge, o ambiente de cortinas vermelhas e chão em ziguezague que tornou-se uma das assinaturas visuais da série. Nota-se, no entanto, que a loja de conveniência que vimos no oitavo episódio da terceira temporada não tem um andar de cima. É como se a cena do oitavo episódio fosse uma alegoria para a própria criação do Black Lodge.

Do mesmo jeito que outras duas cenas foram alegorias para a criação de dois outros personagens: Bob surge vomitado pelo experimento, entidade maligna que, aparentemente, conseguiu entrar em nosso plano material a partir da explosão da primeira bomba atômica. A reação à sua criação leva à criação de Laura Palmer – ou ao menos de sua força espiritual, que é enviada para a terra como um antídoto à criação de Bob. É como se ela tivesse sido criada para ser sacrificada – uma espécie de isca para atrair o mal e expô-lo, uma versão feminina, vitimizada e sobrenatural de um Jesus Cristo de Twin Peaks.

E, finalmente, temos os Woodsmen no momento em que a estranha criatura consegue sair da casca de seu ovo em 1956. É como se eles tivessem sido acionados para dar força para este ser, de forma que ele conseguisse encontrar seu hospedeiro mais facilmente a partir do mantra recitado pela rádio por um dos Woodsman. Mas que bicho é esse? Que ovo é esse? Ele é a essência de Laura Palmer ou um dos milhares de ovos que foram vomitados junto com o ovo de Bob? E a menina que engole o sapo com asas? Ela tem a idade para ser a mãe de Laura Palmer, Sarah, mas porque a essência de Laura teria a forma de um bicho tão estranho?

Depois de todos acontecimentos épicos deste episódio, uma coisa fica clara: tudo que aconteceu em Twin Peaks no final dos anos 80 é o desdobramento de um embate muito maior, que começou no momento em que o ser humano detonou a primeira bomba atômica. É como se o experimento físico tivesse um desdobramento sobrenatural, provocando um impacto metafísico que pode ter aberto fissuras em nossa realidade, dando espaço para a entrada de um novo tipo de maldade, que não conhecíamos até então. Física enquanto satanismo, ocultimo que se mistura com ciência. O assassinato de Laura Palmer não é uma morte aleatória nem apenas mais uma das mortes provocadas por um espírito do mal – e sim o duelo final entre duas forças ocultas em nosso plano material.

Os Woodsmen parecem ser a chave deste processo, mas não temos a menor ideia de quem são essas pessoas, como elas foram criadas, como elas interagem com os seres humanos e a serviço de quem elas estão. E o Agente Cooper parece ter acordado livre da presença nefasta de Bob.

Mas são poucas pistas do que pode vir a acontecer nos próximos dez episódios. A principal delas é a de que o agente Philip Jeffreys – que sabemos, graças a Fire Walk With Me, que ele pode viajar no tempo e no espaço – pode estar por trás de tudo isso, o que pode provocar outro grande momento da série nos próximos episódios: a aparição de David Bowie depois de sua morte. A presença de Jeffreys vem sendo mais que insinuada desde que a série voltou e Lynch filmou a nova temporada durante o período em que Bowie anunciou seu último disco, alguns meses antes de sua morte. Se lembrarmos que Lynch já pode contar, nesta terceira temporada, com a presença além-túmulo de atores da série original que morreram durante a produção desta nova safra de episódios (como as aparições da Log Lady vivida por Catherine Coulson, que morreu em 2015, e do Will “Doc” Hayward vivido por Warren Frost, que morreu no início deste ano) e que o último disco de David Bowie foi sobre sua própria morte, não é de se estranhar que o popstar inglês tenha conseguido uma brecha na agenda do final de sua vida para retornar a um personagem tão emblemático mesmo após sua morte.

E isso é só um detalhe na história toda. Além das questões que vinham sendo sugeridas até o sétimo episódio, o oitavo muda novamente as regras do jogo de uma forma brusca. Depois deste episódio, David Lynch estabeleceu que quaisquer tentativas de tentar prever o que pode acontecer nos próximos capítulos pode ser frustrada num instante. No nono episódio, que chega ao Netflix brasileiro nesta segunda-feira, podemos voltar à narrativa original de Twin Peaks, ao Black Logde, ao plano sobrenatural do oceano roxo, às tentativas do agente Cooper de sair de Doogie – ou podemos ir para um lado completamente novo e improvável da história, que não nos havia sido revelado até então. De novo.

Mais uma vez, Lynch pede para que deixemos o sentido de lado e que apenas curtamos a viagem. É o que importa.

A chegada de Mawu

Foto: Pérola Lopes (Divulgação)

Foto: Pérola Lopes (Divulgação)

Projeto de Eduardo Camargo (ao centro na foto acima), o grupo Mawu é um mergulho no sincretismo cultural brasileiro. Livre de gêneros e formatos pré-estabelecidos, ele também é um experimento de gestão de carreira artística, mais um passo que o selo Risco vem dando rumo a uma autonomia comercial e artística de suas empreitadas. A diferença é que eles invertem o processo: em vez de pensar em alternativas comerciais para emplacar um artista, buscam reforçar características autorais para depois ver como isso funciona em termos de mercado. Tem dado certo – foi assim que consolidaram a carreira d’O Terno, vêm moldando a carreira de Luiza Lian e agora permitem que Eduardo parta para essa experimentação artística, cujo primeiro disco, Chamamento, foi lançado na semana passada. E agora eles lançam o primeiro clipe do projeto aqui no Trabalho Sujo. Conversei também com o Eduardo sobre a forma como ele moldou este trabalho, cujo show de lançamento acontece nesta sexta-feira, na Casa do Mancha (mais informações aqui).

Como surgiu o Mawu?
A banda surgiu de um convite. O Guilherme Jesus Toledo, um dos donos do selo Risco e amigo meu de longa data, perguntou para mim quando eu iria participar do selo com alguma história minha. Eu disse que não tinha feita nada por falta de dinheiro. Ele disse então, que era para a eu fazer algo mesmo assim, que a gente daria um jeito para que a coisa rolasse. Eu topei na hora. Foi assim.

É uma banda ou um projeto?

Eu não sei dizer ainda, pois é algo muito novo que está em construção. A dinâmica atual esta sendo mais centralizada em mim. Eu trago as músicas e dou uma direcionada no arranjo mais em termos estéticos do que musicais. O resto e criação coletiva. Mas por agora só. Minha intenção ao longo prazo é que o Mawu seja um espaço para escoar músicas de outras pessoas. Seja um espaço para abarcar uma forma de tocar, compor etc. Que a gente possa tocar do nosso jeito uma música que a gente acha que tem haver com o Mawu. E formar um repertório coletivo. Fazer esse trabalho de interprete também.

Como você reuniu os músicos para tocar neste disco?
Guilherme Giraldi e Charles Tixier são músicos que eu conheço e toco quase há 10 anos. Junto com a Luiza Lian temos uma banda de jazz chama Nuage Jazz, que crescemos tocando na noite paulistana. Igor Caracas conheci na produção de um álbum que trabalhei como co-produtor da banda Holger. Gostei tanto dele que depois fui fazer aula de percussão com ele. O Chicão, foi indicação do Guilherme Giraldi já que precisamos de um elemento no teclado eu não tinhamos. Ele foi a pessoa que gravou, mas infelizmente não esta mais na banda. Quem toca todas as teclas hoje é o Mauricio Orsolini.

De onde vem o nome da banda?
Eu estava com muita dificuldade de decidir qual seria o nome da banda, depois que gravamos. No inicio tinha certeza que esse nome viria, que o vento ia me trazer. Mas nada veio. E o tempo estava passando, e precisávamos de um nome. Até o Guilherme Giraldi deu a sugestão de eu ir procurar esse nome de uma outra forma. Decidi pedir ajuda para uma amiga, Sandra de Xadantã, uma mãe de santo de um terreiro que sou amigo das pessoas que tocam o lugar. Depois de muita conversa, de ela ouvir o CD comigo, e com a ajuda do búzios nos chegamos em algum nomes e dentro deles estava MAWU. Gostei em especial dele. Ela disse que tudo bem usar. Fomos nele.

E como é o show?
No show tocamos músicas do CD com arranjos diferentes. Além disso fazemos músicas novas que não foram gravadas. No mesma divisão que está no CD. As instrumentais são de minha autoria. As canções compus com meu parceiro Kike Toledo, sambista que eu tive o prazer de produzir seu primeiro álbum. O show de estréia sexta agora na Casa do Mancha, vai contar com a participação do Kike Toledo e Victoria Saavedra nos vocais, e na percussão Abuhl Junior e Eder “O” Rocha.

O novo Homem-Aranha parece um comercial da Marvel

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Homem-Aranha: De Volta para Casa insiste em mostrar que faz parte do cânone da Marvel no cinema e não empolga – escrevi sobre o filme no meu blog no UOL.

Baixe sua expectativa. O novo filme do Homem Aranha – De Volta ao Lar – é um bom filme, mas não é nem o melhor filme de super-herói do ano, nem o melhor filme com um personagem da Marvel do ano (Logan e o segundo Guardiões das Galáxias seguem à frente). Mas ele peca justamente por sustentar-se nesses dois pilares, quando deveria ser algo a mais. Como o próprio personagem era. Ele está longe de ser o filme de John Hughes de Kevin Feige, uma alusão ao espírito juvenil que mistura nostalgia e cinismo de filmes como Curtindo a Vida Adoidado, O Clube dos Cinco ou Gatinhas e Gatões que parecia antecipar esta terceira vinda do herói. Mesmo citando literalmente Ferris Bueller em determinada cena, De Volta ao Lar não é um filme sobre adolescentes ou sobre a adolescência – o que é a essência do personagem Peter Parker.

Em vez disso, o filme prefere escorar-se no Universo Cinematográfico Marvel fazendo parecer que era aquilo que faltava às encarnações anteriores do Aranha. De Volta ao Lar, que é um filme da Sony como as versões anteriores do herói, mas que agora pode usufruir do universo da Marvel, é uma enorme propaganda dos outros filmes do estúdio concorrente, mostrando como o personagem se encaixa naquele novo universo. O vilão surge a partir dos acontecimentos do primeiro Vingadores. Os próprios Vingadores já entraram no inconsciente coletivo das pessoas. E aí aparece o Homem de Ferro. E olhamos pra cima, oh, a torre dos Vingadores. É o Capitão América naquele televisão? Constantemente somos lembrados que aquele filme está dentro do universo da Marvel e que tudo vai se interligando aos poucos, mas são referências tão artificiais que cansam.

Como a relação entre Tony Stark e Peter Parker. Nos quadrinhos, o Homem de Ferro e o Homem Aranha não são propriamente amigos – vivem soltando farpas um no outro quando têm de lutar juntos -, mas o vínculo estabelecido entre os heróis também é bastante forçado – e paternalista. É como se, sem a tecnologia Stark, o Homem Aranha nunca existisse. E embora seu novo uniforme renda boas piadas e situações, ele praticamente extingue o sentido aranha, um dos principais superpoderes de Peter Parker. Em dado momento, parece que a relação entre Stark e Parker é uma metáfora da relação entre a Marvel e a Sony, quando o estúdio bem sucedido entrega parte de seu arsenal para o estúdio que não consegue fazer seus filmes de herói irem tão bem: “Toma, eu deixo você brincar.”

Mas o que diferenciava o Homem Aranha dos heróis tradicionais, quando surgiu há cinquenta anos, é que ele tinha um cotidiano adolescente típico de seus leitores. E essa parecia a grande promessa do novo filme (principalmente porque seu título original – Homecoming – está ligado ao baile de formatura do segundo grau e não a nenhuma volta ao lar). Mas toda a adolescência de Peter Parker é coadjuvante ao fato de que ele quer ser um super-herói, quer lutar contra o crime e fazer o bem. Mais de um terço do filme é dedicado a falar sobre seus colegas de classe, do hilário Ned (Jacob Batalon) à paixonite Liz (Laura Harrier), passando pela ácida Michelle (Zendaya) e pelo mala Flash (Tony Revolori), mas o protagonista mal interage com o grupo, que funciona mais como um acessório para provar que ele tem uma turma na escola do que como uma turma de fato. Em outras palavras, ele nem funciona como um filme de adolescentes dos anos 80 nem como um filme adolescente deste século (Harry Potter, Jogos Vorazes, Divergente), em que os coadjuvantes ajudam a reforçar a personalidade do protagonista.

Não é culpa de Tom Holland. O ator que faz o Homem Aranha faz o seu melhor para parecer um adolescente maravilhado com a possibilidade de ser um herói. É realmente o melhor Homem Aranha do cinema. Mas talvez tenha uma ingenuidade e entusiasmo exagerados, que me lembrou um Mickey em carne e osso ou uma espécie moderna de Tintin, me fazendo sentir falta das piadas, até as ruins, do personagem original. É um personagem bem construído (e graças a deus não precisamos mais assistir à cena da picada da aranha), mas sem humor, sem malícia, sem picardia. Consigo imaginar ele abaixando a cabeça e falando “sim senhor” para um J.J. Jameson num filme futuro.

Mais uma vez: o filme não é ruim. Michael Keaton surpreende como o melhor vilão em um filme da Marvel desde o Loki de Tom Hiddleston, há várias pontas e participações especiais bem vindas (da incrível Tia May de Marisa Tomei às aparições inesperadas de Martin Starr, Hannibal Buress, Gwyneth Paltrow, Donald Glover, Bookem Woodbine ou Chris Evans) e as cenas de ação… funcionam. Elas não forçam a barra nem constrangem, mas não chegam a empolgar. São bem feitas, bem dirigidas e bem previsíveis.

Como todo o filme. Não há grandes surpresas e apenas alguns momentos inspiram sorrisos. De Volta pra Casa expõe os filmes de super-herói como uma enorme propaganda de si próprios e funciona como um prequel indesejado, um trailer longo (demais) para o próximo filme, que, aí sim, veremos o Homem Aranha completo – dizem. Mas vamos esperar até lá? É o que o estúdio espera.

Funhouse (2002-2017), por Rick Levy

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A Funhouse vai fechar e é inevitável que isso signifique o fim de uma era. Uma era em que a noite de São Paulo era mais ingênua, mais ortodoxa e mais carente de espaços, quando o sobrado da Bela Cintra começou a redefinir a paisagem noturna da região da rua Augusta (mais tarde conhecida como Baixo Augusta) e da própria cidade de São Paulo. Foi a Funhouse que abriu o caminho percorrido depois pelo Vegas, Beco, Sarajevo, Astronete, Milo, Studio SP, Volt, Inferno e reestabeleceu a linguagem rock junto à fauna daquela região. Tenho lembranças difusas do auge da casa pois o período 2003-2005 coincidiu com o fim do meu primeiro casamento e meu retorno de Saturno, mas tenho boas lembranças de vários shows que assisti e discotecagens que dei na pista xadrez da casa, a mais recente delas há pouco tempo, quando me chamaram para tocar em uma Funhell na nova encarnação. Mas em vez de confiar na minha memória, preferi chamar uma autoridade em ambos assuntos (lembranças e Funhouse), para falar da transformação causada à cidade com a fundação da casa, que fecha as portas com várias festas especiais no mês de julho. É com enorme satisfação que publico o texto que pedi para o Rick Levy, o eterno host da casa, escrever sobre suas memórias do início da Funhouse:

Rick Levy no ano de abertura da Funhouse, 2002 (arquivo pessoal)

Rick Levy no ano de abertura da Funhouse, 2002 (arquivo pessoal)

Até final de julho de 2002 eu era host às sextas num restaurante no Itaim onde aconteciam as festas da Indie Records e aos sábados, no Sound, no DJ Club. Coincidentemente, saí dos dois lugares na mesma semana. No meu primeiro final de semana livre fui ao Matrix, mas antes passei no Rabo de Saia porque uns amigos ex-frequentadores da Sound faziam uma festa lá. Era a galera do Volume 1, que nasceu como um fórum de internet e logo depois virou selo distribuidor de várias bandas indies paulistanas.

Um dos promoters dessa festa – o Marcello Cass – me disse que a partir de agosto iam mudar de lugar. Migrariam para um lugar novo na Bela Cintra, toda sexta-feira, com banda. A festa se chamaria R.Evolution e queriam que eu fosse o host. Aceitei na hora.

Mais tarde fui para o Matrix e lá encontrei a Alessandra Ricci, que fazia uma festa no Orbital até seu fechamento, poucos meses antes. Me disse que começaria uma festa nova todos os sábado num lugar na Bela Cintra que estava reformando para abrir em agosto e me convidou para ser o host. Achei maravilhoso porque na mesma noite fui convidado para ser o host das duas noites fixas de uma casa que ainda não havia sido aberta: a Funhouse.

No dia 22 de agosto de 2002, a Funhouse abriu oficialmente para o público. Só tinham essas duas festas no começo: R.Evolution as sextas-feiras, com o Marcelo Cass, Fabio Angelini e Marcelo Marr como promoters, Henrique Muccillo como DJ residente fixo, mais bandas e DJs convidados diferentes a cada semana, com público que logo nas primeiras semanas já dava pra perceber que faria das sextas as noites mais cheias e animadas da Funhouse: era toda a galera do fórum Volume 1, gente que aos sábados ia no DJ Club, uma galera indie super animada que a princípio ia mais para dançar, embora gostasse da ideia de assistir um show e não tinha problema algum com isso; e aos sábado, a Delicious, com a Ale Ricci, o Fabio Otubo e o Maurício Galdieri como promoters e DJs fixos mais DJs convidados e bandas que se revezavam. O público da Delicious era basicamente órfãos do Orbital, mais rockers do que os da R.Evolution e já acostumados com o combo discotecagem e show. Mas independente disso, a casa já lotou logo na primeira semana. Já dava pra perceber que tinha nascido pro sucesso. Mas quando inaugurou, a Funhouse só tinha essas duas festas.

Rick Levy no segundo andar da Funhouse, em 2003 (arquivo pessoal)

Rick Levy no segundo andar da Funhouse, em 2003 (arquivo pessoal)

A primeira noite foi uma zona! Faltou troco, faltou cigarro para vender! No começo era tudo novidade, até para os donos, que eu só fui conhecer pessoalmente nessa noite inauguração. Eram três jornalistas meio que recém-saídos da ECA-USP. Um deles tinha acabado de voltar de um período meio que longo de trabalho em NY, não queria mais ser jornalista e resolveu abrir um bar. Chamou uma amiga e um amigo de faculdade e na cara e coragem resolveram tocar o projeto. Se não me engano, a primeira ideia era que a Funhouse fosse no Itaim, que estava meio que na moda ter bar descolado lá. Ainda bem que a sócia alertou que o Itaim era ~ descolado demais ~ para um bar alternativo como queriam que fosse.

Não existia nada ali naquela área do Baixo Augusta. Na verdade, nem o termo Baixo Augusta existia em 2002. O bar mais similar em termos de rock underground já funcionando e perto da Funhouse na época era o Outs, e mesmo assim era na Augusta e lá embaixo. Não existia Geni, Vegas, Exquisito, Beco, Blitz, nada. A Bela Cintra era escura e erma. A Funhouse foi a primeira casa a levar movimento para aquele trecho da rua. Exatamente na frente da Funhouse era ponto de prostituição. Na primeira noite eu já fiz amizade com três das várias meninas que trabalhavam por ali. Achei que elas iam reclamar, mas depois até agradeceram, porque com o movimento a rua deixou de ser abandonada e perigosa.

Na primeira noite também foi quando eu conheci o Lima, que viria a ser meu parceiro e melhor amigo de trabalho forever & ever. Ele era o segurança que ficava na porta revistando quem entrasse. Ele foi parar lá porque o irmão de um dos sócios o conhecia ele de um estacionamento em Carapicuíba, onde o Lima trabalhava como manobrista. Lima me contou que nunca tinha ido pra região da Paulista, que quando desceu no Metrô Consolação ficou até meio zonzo com tanto movimento. Mas logo nos primeiros dias de trabalho nós criamos uma sintonia de trabalho absurda! Na forma como eu olhava pra ele ou ele pra mim já dava pra saber se tinha algo de anormal para acontecer ali na porta. Muito do sucesso da porta se deve a essa cumplicidade.

Lima, Focka e Rick Levy, em 2004 (arquivo pessoal)

Lima, Focka e Rick Levy, em 2004 (arquivo pessoal)

Semanas depois da inauguração a casa começou a abrir aos domingos também, mas sem banda nem promoter: um dos donos era o DJ e chamava algum amigo para tocar também. Abria mais cedo, sem cobrar entrada, por isso nem tinha host.

No final de setembro estreou a Strike as quintas feiras. O Tchelo e o Focka eram os DJs e promoters. Eles vinham de noites no Borracharia e na Torre, por isso a Strike era a festa menos indie e mais rock da Funhouse até então. As bandas da Strike eram mais rockers, o público era mais rocker. No começo era outra pessoa a hostess da Strike, eu só virei host dela em abril de 2003. Como era às quintas, começava mais cedo, acho que as 21h, e no começo – para incentivar a encher logo – mulher com flyer pagava 1,00 se entrasse antes das 23h. Mas nem por isso terminava cedo: muitas vezes acabava por volta das 6 da manhã, igual as festas do final de semana. Foi na Strike que surgiu a ideia das pessoas receberem pirulito logo na entrada: ainda com as hostess antes de mim, o Tchelo comprava pirulitos que deixam a língua azul e pedia para elas distribuírem. Quando eu assumi a porta da Strike, os frequentadores já estavam superacostumados a receberem pirulito. Como nessa época os públicos das festas já começavam a se mesclar, perguntavam porque só na quinta era que tinha pirulito. Então os promoters da Delicious resolveram fazer o mesmo aos sábados, mas com pirulitos em formato de coração, e logo depois os da R.Evolution aderiram tbm e isso acabou virando uma marca registrada da Funhouse.

Já nome e email da pessoa eu pegava desde meu primeiro dia. Anotava à mão num caderno (que depois eu trazia para casa para digitalizar todos os emails para que as pessoas pudessem receber o email com a programação da casa nas semanas seguintes), e na comanda junto com o preço: homem sempre mais caro do que mulher (hoje a gente para e pensa: que coisa mais horrível era essa distinção, mas na época era super comum). Para uma casa fisicamente pequena, entrar de graça é superinviável, então para os frequentadores habituès homens o jeito que consegui deles terem algum desconto era eu fazendo comanda com nome de mulher. Mas eu fazia questão de colocar um nome glamouroso ou não-comum. Então no final da noite sempre tinha comanda com nome de Abigail, Perola, Lourdes, Teodora…

Assim, com menos de um ano, o pequeno sobradinho da região obscura da cidade e onde cabiam menos de 200 pessoas passou a ter três festas rock por semana com sucesso e casa cheia sempre. Depois é que vieram as primeiras que não eram de rock: quarta era a noite da Pop Corn, festa de hip hop, black & soul dos DJs MZK e Alemão. Doutor Aílton era o host. Era muito maravilhosa essa noite. As poucas vezes que eu fui, me diverti muito! E durante uma época, às terças, tinha uma festa que eu não lembro o nome mas era feita pela galera do ZéMaria, uma banda do Espírito Santo que estava morando em São Paulo.

Eu fico triste pelo fechamento, claro. Tudo o que eu conquistei nos últimos 15 anos eu devo a Funhouse, direta ou indiretamente. Mas não é uma tristeza pela perda, mas sim por saber que ela não estará mais lá, formando o caráter músico-underground da galera dos 20 e poucos anos. Porque na grande maioria, esse sempre foi o público-alvo da Funhouse. Conheço muita gente que começou a ouvir rock alternativo indo na Funhouse logo que começou a sair na noite, aos 18 anos.

Aliás se tem uma coisa que me deixa um pouco puto é ouvir de um povo que ia na Funhouse no comecinho relcamar: “ahhh, mas a Funhouse mudou, agora só vai molecada…” Gente, a Funhouse sempre foi pras pessoas de 18 aos 25, mais ou menos. A Funhouse iria fazer 15 anos. Se você ia com 20 em 2002, agora vc tem 35, quem mudou foi você, que tá 15 anos mais velho, não a Funhouse. A galera dos 20 e pouco ainda vai e ainda se diverte lá.

Então triste eu fico, mas a Funhouse cumpriu muito bem o seu dever. E por 15 anos!

Thundercat no Brasil!

thundercat

O Sesc não atualizou seu site oficial com a programação do Jazz na Fábrica, que acontece no mês que vem no Sesc Pompeia, mas é fato: o músico Thundercat, conhecido por apresentar-se ao lado de Kendrick Lamar e Flying Lotus, vem apresentar seu ótimo Drunk, lançado este ano, no palco da choperia nos dias 17 e 18 de agosto, com ingressos a 60 reais. Os ingressos para o Jazz na Fábrica (que ainda terá a presença de nomes como os trompetistas Eddie Allen e Roy Hargrove, da Globe Unity Orchestra alemã, do saxofonista sul-africano Abdullah Ibrahim, da etíope Debo Band, da tecladista Annette Peacock e do grande Hermeto Paschoal, entre outros).

Contrapedal no CCSP

contrapedal

O festival uruguaio Contrapedal baixa neste fim de semana em São Paulo e toma conta do CCSP no sábado e no domingo, reunindo atrações musicais, mostra audiovisual, exposições e outras atividades que integram criadores de toda a América Latina. E tanto a feira de criadores quanto a gastronômica leva a assinatura do Jardim Secreto. Mais informações sobre o festival, que é de graça, no site do evento ou na página do Facebook deles.

Noites Trabalho Sujo | 8.7.2017

nts-julho-2017

Mais uma vez as baixas temperaturas assolam a maior cidade do ocidente no hemisfério sul e nosso experimento psíquico-intrínseco tem suas ondas orgônicas desviadas também para o aquecimento térmico dos voluntários, que ainda poderão desfrutar do mítico quentão produzido por nosso discreto xamã Julião Barata, que perfuma a noite com o aroma característico do inverno brasileiro. E para nosso ritual místico-científico trabalhar em alta voltagem, convocamos mais uma vez a presença dos pesquisadores do laboratório da terapia do grito primal Scream & Yell para conduzir as atividades no auditório preto. Lá, o pós-doutorado em práticas coletivas Marcelo Costa arregimenta experimentos conduzidos pelas duplas Bruno Dias e Tiago Agostini, Bruno Capelas e Ana Clara Matta e Renato Moikano e Natália Julio, além do trabalho de Tiago Trigo e de sua própria apresentação. O volume de energias concentradas também encontra outro polo no auditório azul, onde o centro de pesquisas Noites Trabalho Sujo mais uma vez apresenta-se com a formação completa e os trio sócio-cientista formado por Alexandre Matias, Luiz Pattoli e Danilo Cabral dispara espasmos cerebrais de boas vibrações a partir da reproduções de fonogramas sonoros de diferentes procedências. A transformação acontece, como sempre, quinze minutos antes da virada do sábado para o domingo e prossegue até o próximo raiar do sol, na torre de concreto em frente ao Largo do Payssandu. A presença exige que envie-se o nome para o correio eletrônico noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h do dia do experimento, caso contrário não é possível entrar no recinto.

Noites Trabalho Sujo @ Trackers
Sabado, 8 de julho de 2017
A partir das 23h45
No som: Alexandre Matias, Luiz Pattoli e Danilo Cabral (Noites Trabalho Sujo), Bruno Dias, Tiago Agostini, Ana Clara Matta, Bruno Capelas, Natalia Julio, Renato Moikano, Tiago Trigo e Marcelo Costa (Scream & Yell).
Trackers: R. Dom José de Barros, 337, Centro, São Paulo
Entrada: R$ 40, só com nome na lista pelo email noitestrabalhosujo@gmail.com. Aniversariantes da semana não pagam para entrar (avise quando enviar o nome no email, por favor). Os cem primeiros a chegar pagam R$ 25. O preço da entrada deve ser pago em dinheiro, toda a consumação na casa é feita com cartões. Chegue cedo para evitar filas.

Cut Copy 2017: “Midnight’s crazy when you’re down…”

cutcopy2017

O grupo australiano Cut Copy, sem lançar discos desde o ótimo Free Your Mind, de 2013, ressurgiu com um single sem fazer o menor alarde ou dizer se é parte de um próximo lançamento. O que importa é que “Airborne” é irresistível e se sustenta por si só, matando a saudade do clima de pista de dança oitentista celebrado pelo grupo ao mesmo tempo que aponta para um rumo disco music que pode render bem na mão dos quatro, se trabalhado mais extensivamente.