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Noites Trabalho Sujo | 14.10.2017

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Os fluidos frios e as emoções cinzentas vão se dissipando com a distância do inverno e o verão começa a se anunciar a partir deste fim de semana, quando voltamos uma hora no relógio para que o sol se ponha mais tarde. Está começando a época mais feliz e quente do ano, quando o experimento mensal realizado no centro da maior metrópole da América do Sul passa a sintonizar vibrações naturalmente efusivas, tornando mais fácil e envolvente as condições de temperatura e pressão adequadas para elevar o bom astral. Com a formação completa, depois de uma viagem encantadora do estudioso Luiz Pattoli pelo hemisfério norte, o centro de experiências Noites Trabalho Sujo volta a inflamar cérebros e quadris com sua mistura corrosiva de memórias resgatadas do passado e registros contemporâneos de culturas distintas, superpondo sensações e causando justaposições de finas camadas de deleite e prazer no auditório azul. Do outro lado do andar das delícias, a dupla de exploradores sônicos Carlos Costa e Juli Baldi entregam-se, primeiro sozinhos e depois lado a lado, às múltiplas interpretações de sentimentos musicais apresentados sequencialmente, sempre hipnotizando o público voluntário rumo a zonas alheias de conforto. Os convidados só poderão adentrar no recinto após o envio de seus nomes para o correio eletrônico noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h deste sábado.

Noites Trabalho Sujo @ Trackers
Sabado, 14 de outubro de 2017
A partir das 23h45
No som: Alexandre Matias, Danilo Cabral e Luiz Pattoli (Noites Trabalho Sujo), Carlos Costa e Juli Baldi.
Trackers: R. Dom José de Barros, 337, Centro, São Paulo
Entrada: R$ 40, só com nome na lista pelo email noitestrabalhosujo@gmail.com. Aniversariantes da semana não pagam para entrar (avise quando enviar o nome no email, por favor). Os cem primeiros a chegar pagam R$ 25.

Tudo Tanto #33: Você samba de que lado?

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Escrevi sobre a onipresença do samba, este fator de unificação nacional, na minha coluna Tudo Tanto na edição de julho da revista Caros Amigos.

Você samba de que lado?
Cem anos depois, o gênero que ajudou a disfarçar o racismo brasileiro e a unificar o país como nação sobrevive à espreita

Alexandre Matias

Essa cena: “Por volta das nove da noite, cerca de 150 homens, funcionários da prefeitura municipal, municiados de marretas, alavancas e pé de cabra, obedeceram à voz de comando e arremeteram contra o alvo. O bruxulear dos archotes usados para iluminar a operação militar conferia maior dramaticidade à cena. Uma multidão, contida ao largo pelo contingente armado, assistia à distância, como um espetáculo sinistro, a destruição madrugada adentro. O elemento surpresa impediu possíveis reações organizadas por parte dos desalojados. Em meio à barulhenta penumbra, homens, mulheres e crianças, antes encafuados nos desvãos dos pequenos imóveis, corriam atônitos pelas ruelas tentando salvar um ou outro pertence tido como mais valioso: colchões, alguns poucos móveis, trouxas de roupa, tralhas de cozinha. Na manhã seguinte, no entanto, sob o sol do verão carioca, foi possível constatar o tamanho do estrago: nada escapara à demolição. Resto, no local, apenas uma montanha poeirenta de entulho.

‘Foi um espetáculo bonito’, definiu um dos jornais de maior circulação à época, O Paiz. ‘A impressão moral daquele feito era como se aos golpes ruidosos, em vez de rolarem pedras, rolassem crenças, ruíssem tradições’, analisou o matutino. Outra publicação, O Tempo, foi mais explícita: ‘Metemos uma lança em África, espostejando a Cabeça de Porco’. A imprensa foi unânime em glorificar a ‘medida civilizatória’ imposta à paisagem da cidade pelo primeiro prefeito da história do Rio de Janeiro, Cândido Barata Ribeiro, médico e intelectual baixinho, magricela e míope, de testa larga e barbas longas, um dos nomes mais proeminentes do movimento republicano brasileiro.

Essa cena aconteceu no dia 26 de janeiro de 1893 e foi recriada pelo escritor cearense Lira Neto, biógrafo de Getúlio Vargas e do Padre Cícero em dois grandes épicos (os três volumes de Getúlio e o tomo único Padre Cícero – Poder, Fé e Gueera no Sertão), como um dos momentos iniciais de seu novo desafio, contar “a história do samba moderno urbano”. O livro Uma História do Samba – As Origens foi publicado no início do ano pela Companhia das Letras (editora dos outros livros do autor) é o início de uma nova trilogia, que pretende mostrar como o gênero, que antes ser estilo musical era sinônimo de festa, barulho e confusão no final do século 19, firmou-se entre a elite e as classes populares brasileiras, saiu do submundo onde era tratado como fora da lei e tornou-se popular a ponto de se tornar um fator de unificação nacional.

Lira Neto na verdade joga uma lupa sobre o tal “mistério do samba”, iluminado pelo antropólogo Hermano Vianna no livro de mesmo nome, lançado em 1995 pela editora carioca Jorge Zahar. Neste volume, Hermano parte de um “noite de violão” em 1926 que reuniu, sob o mesmo teto, os sociólogos Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda (ambos já matutando ideias que paririam os dois livros que os tornam clássicos da cultura brasileira, respectivamente Casa Grande e Senzala, de 1933, e Raízes do Brasil, de 1933), o músico Heitor Villa-Lobos e os sambistas Pixinguinha, Patrício Teixeira e Donga. “O encontro”, título do primeiro capítulo da publicação, é o ponto de partida para entender como o samba deixou de ser criminoso e maldito para se tornar aceito, amado e entrado na textura da noção de nacionalidade brasileira.

Pois o samba era vil, visto como sendo de mau gosto, chulo, fora da lei – “eufemismos” dados para o ponto central da questão: o samba era negro. A recente abolição dos escravos obrigou a elite brasileira a conviver com os ex-escravos sem a hierarquia do regime escravocrata e a solução para continuar esta ascendência era enquadrá-lo em outra lei – a da vadiagem. Sambistas eram negros, negros eram sambistas: o samba, portanto, era diagnóstico de que algo não estava bem – para a elite, essencialmente racista.

A cena descrita no início do texto não é apenas pesada – ela é atual. Fora a iluminação policial (embora lanternas no escuro deem tanta dramaticidade quanto archotes), a destruição do enorme cortiço conhecido como Cabeça de Porco ou Pequena África no Rio de Janeiro é das inúmeras “reintegrações de posse”, neologismo orwelliano para aplacar o impacto real da situação, em que famílias inteiras veem seus lares sendo devastados pela truculenta força militar para que abram-se alas para o progresso. Quantos morros, favelas e quebradas não sucumbiram a esse trator racista durante todo o século passado – até hoje?

Mas impressiona mesmo a reação aberta contra as origens africanas de uma nova cultura popular. Vianna descreve a chamada “belle époque carioca, período no qual muitos autores identificavam uma total separação entre a cultura das elites e a cultura popular no Rio de Janeiro”, em seu Mistério do Samba. “Essa é, por exemplo, a opinião de Jeffrey Needell, para quem na belle époque ‘tropical’, que vai de 1898 a 1914, a tendência dominante era de ‘pôr um fim ao Brasil antigo, ao Brasil ‘africano’, que ameaçava suas pretensões à sofisticação, apesar de se tratar de uma África bem familiar à elite’ (Needell, 1993: 77). Essa também é a opinião de Mônica Velloso, que escreve em As Tradições Populares na Belle Époque Carioca: ‘o endeusamento do modelo civilizatório parisiense é concomitante ao desprestígio das nossas tradições (…) Mais do que nunca, a cultura popular é identificada com negativismo, na medida em que não compactuaria com os valores da modernidade’ (Velloso, 1988: 8/9). E continua: ‘Nos salões da moda, nos cafés e conferências literárias, a referência ao nativo atinge o máximo de desqualificação’ (Velloso, 1988: 17).”

Um país racista que disfarçou seu racismo glorificando uma música (e uma cultura) antes tida como pobre e negra. O racismo brasileiro não pode ser dito – afinal, todos sambam.

E mais de um século depois o samba persiste, seja como trilha sonora de comercial de cerveja, no palco globa do carnaval e em nichos como o novo disco de Criolo (Espiral de Ilusão, dedicado ao gênero), no novo de Rodrigo Campos (Sambas do Absurdo, ao lado de Juçara Marçal e Gui Amabis), o heróico reconhecimento póstumo de Almir Guineto na Folha de S. Paulo (descrito pelo Bernardo Oliveira, do selo Quintavant) ou na celebração dos vinte anos do disco Afrociberdelia, da Nação Zumbi, que repete insistente a pergunta sobre “de que lado você samba?”. Ele sobrevive matreiro, à espreita, pronto para chegar. E sempre chega.

My Bloody Valentine em vinil

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Uma das partes da minibiografia que Kevin Shields mandou para o festival da Islândia em que irá fazer um show no fim do ano se concretizou: os dois primeiros discos do My Bloody Valentine estão sendo relançados em vinil remasterizados analogicamente e relançados com capa dupla no início do ano que vem e já podem ser pré-reservados no site da banda. Resta saber se a segunda parte da biografia (que o grupo estaria prestes a lançar um disco de inéditas no ano que vem) é verdade. Imagina…

Noites Trabalho Sujo Clube #002

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Mais uma edição semanal das Noites Trabalho Sujo, na ávida tarefa de retomar a sexta-feira de volta. Mais uma vez no Plu-Bar, desta vez não precisa mandar nome pra lista. Mais informações aqui.

Noites Trabalho Sujo Clube #002
13 de outubro de 2017
No som: Alexandre Matias e Danilo Cabral
Plu Bar. Rua Araújo, 155.
23h45
R$ 30
Entrada sujeita à lotação da casa – chegue cedo 😉

Baile Novo de outubro!

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A Espetacular Charanga do França comanda mais uma edição da festa gratuita para dançar a dois no CCSP – o Baile Novo acontece mensalmente sempre numa sexta-feira e todos estão convidados para bailar, a partir das 18h30. E como o Thiago é do Metá Metá, este Baile é parte da programação do Bicho de Quatro Cabeças, que ocorre durante todo o mês de outubro, reunindo as bandas Metá Metá, Instituto, Rakta e Hurtmold. Mais informações no evento do Facebook.

Eminem x Trump

eminem-trump

Na terça passada, durante os BET Awards, Eminem desceu um cacete verbal em Donald Trump – e além de destruí-lo de todos os pontos de vista, ainda apontou o dedo para os próprios fãs, falando que se eles tiverem dúvida entre escolher entre Trump e Eminem, é melhor ir para o lado de Trump logo.

Publico a transcrição abaixo, se alguém traduzir, publico a tradução, é só colar nos comentários:

“It’s the calm before the storm right here
Wait, how was I gonna start this off?
I forgot… oh, yeah
That’s an awfully hot coffee pot
Should I drop it on Donald Trump? Probably not
But that’s all I got ‘til I come up with a solid plot
Got a plan and now I gotta hatch it
Like a damn Apache with a tomahawk
Imma walk inside a mosque on Ramadan
And say a prayer that every time Melania talks
She gets a mou… Ahh, Imma stop
But we better give Obama props
‘Cause what we got in office now’s a kamikaze
That’ll probably cause a nuclear holocaust
And while the drama pops
And he waits for shit to quiet down, he’ll just gas his plane up and fly around ‘til the bombing stops
Intensities heightened, tensions are risin’
Trump, when it comes to giving a shit, you’re stingy as I am
Except when it comes to having the balls to go against me, you hide ‘em
‘Cause you don’t got the fucking nuts like an empty asylum
Racism’s the only thing he’s fantastic for
‘Cause that’s how he gets his fucking rocks off and he’s orange
Yeah, sick tan
That’s why he wants us to disband
‘Cause he cannot withstand
The fact we’re not afraid of Trump
Fuck walkin’ on egg shells, I came to stomp
That’s why he keeps screamin’ ‘Drain the swamp’
‘Cause he’s in quicksand
It’s like we take a step forwards, then backwards
But this is his form of distraction
Plus, he gets an enormous reaction
When he attacks the NFL so we focus on that
Instead of talking Puerto Rico or gun reform for Nevada
All these horrible tragedies and he’s bored and would rather
Cause a Twitter storm with the Packers
Then says he wants to lower our taxes
Then who’s gonna pay for his extravagant trips
Back and forth with his fam to his golf resorts and his mansions?
Same shit that he tormented Hillary for and he slandered
Then does it more
From his endorsement of Bannon
Support for the Klansmen
Tiki torches in hand for the soldier that’s black
And comes home from Iraq
And is still told to go back to Africa
Fork and a dagger in this racist 94-year-old grandpa
Who keeps ignoring our past historical, deplorable factors
Now if you’re a black athlete, you’re a spoiled little brat for
Tryina use your platform or your stature
To try to give those a voice who don’t have one
He says, ‘You’re spittin’ in the face of vets who fought for us, you bastards!’
Unless you’re a POW who’s tortured and battered
‘Cause to him you’re zeros
‘Cause he don’t like his war heroes captured
That’s not disrespecting the military
Fuckk that! This is for Colin, ball up a fist!
And keep that shit balled like Donald the bitch!
‘He’s gonna get rid of all immigrants!’
‘He’s gonna build that thang up taller than this!’
Well, if he does build it, I hope it’s rock solid with bricks
‘Cause like him in politics, I’m using all of his tricks
‘Cause I’m throwin’ that piece of shit against the wall ‘til it sticks
And any fan of mine who’s a supporter of his
I’m drawing in the sand a line: you’re either for or against
And if you can’t decide who you like more and you’re split
On who you should stand beside, I’ll do it for you with this:
Fuck you!
The rest of America stand up
We love our military, and we love our country
But we fucking hate Trump”

Por que ninguém faz isso no Brasil?

Kalouv e a psicodelia digital

kalouv

Às vésperas de participar da edição deste ano do festival Coquetel Molotov, quando recebem Benke Teixeira dos Boogarins como convidado, o grupo instrumental Kalouv prepara o lançamento do disco Elã, que vem sendo revelado pouco a pouco – primeiro o grupo revelou a faixa “Pedra Bruta”, a faixa de abertura que conta com a participação de Sofia Freire, e agora, em primeira mão no Trabalho Sujo, revelam o clipe de “Moo Moo”, deixando bem clara sua inclinação para gêneros instrumentais modernos como chillwave e vaporwave, para além do instrumental psicodélico-jazzístico característico do grupo, já em seu terceiro disco.

“A estética vaporwave influenciou bastante, tanto na escolha por Rollinos para fazer o clipe, como na composição da música”, explica o guitarrista Túlio Albuquerque, falando sobre o diretor do clipe, Gabriel Rolim. “Durante as turnês do ano passado escutamos bastante o Floral Shoppe do Macintosh Plus. No projeto, a Vektroid faz a desconstrução de canções clássicas dos anos 80. Isso acabou nos aproximando tanto das faixas originais como das versões vaporwave. A vibe de músicas como ‘Tar Baby’ da Sade e ‘You Need a Hero’ do Pages foram o ponto de partida no desenvolvimento do ‘Moo Moo’. Isso está presente na escolha dos timbres, como o teclado de ‘vozes’ no começo, as guitarras com chorus e reverb, os delays da bateria, até a escolha de adicionar as partes cantadas. Um caminho bem diferente do que já fizemos até aqui.”

Mas a psicodelia digital não veio só dessa onda retrô moderna. “‘Moo Moo’ também é uma homenagem às trilhas e jogos de videogame”, continua o guitarrista. “Crescemos jogando e até hoje isso é muito presente nas nossas vidas. Então podemos dizer que a faixa acabou tendo pequenos traços de várias épocas de Game Music. Seja de clássicos como a ‘Aquatic Ambience’ de Donkey Kong Country e ‘Slow Moon’ de Streets of Rage 2, até coisas mais recentes como as trilhas de Faster Than Light, Machinarium, Dungeon of the Endless, Hotline Miami e FEZ. Isso se estendeu pra o clipe, que brinca com imagens de jogos do Super Nintendo, como Harvest Moon, Earthbound e Chronno Trigger.”

O grupo se empolgou tanto que até criou uma playlist com as músicas de videogame que o inspiraram nessa nova fase.

Papisa: Tempo Espaço Ritual

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Rita Oliva vem pouco a pouco assumindo a personalidade Papisa, que assumiu desde que se lançou em carreira solo, no final do ano passado, depois de sair das bandas Cabana Café e Parati. A nova persona a conecta com o sagrado feminino e eu a convidei para realizar um show único dentro da programação do Segundamente, no Centro da Terra, no final deste mês. Ela aproveitou o iminente início do verão para transformar seu espetáculo em um ritual feminino, com a presença das instrumentistas Laura Wrona (voz, percussão e efeitos), Luna França (teclado e voz), Sílvia Tape (teclado e voz) e Larissa Conforto (percussão). Falei com ela sobre esta nova fase, inaugurada como o espetáculo Tempo Espaço Ritual, que acontece no dia 30 de outubro de 2017, no Centro da Terra.

O que é Papisa?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/papisa-tempo-espaco-ritual-o-que-e-papisa

É uma personagem?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/papisa-tempo-espaco-ritual-e-uma-personagem

Fale sobre o conceito de Tempo Espaço Ritual.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/papisa-tempo-espaco-ritual-fale-sobre-o-conceito-de-tempo-espaco-ritual

Quem te acompanha nesse processo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/papisa-tempo-espaco-ritual-quem-te-acompanha-nesse-processo

Qual é o papel do espetáculo na nova fase da sua carreira?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/papisa-tempo-espaco-ritual-qual-e-o-papel-do-espetaculo-na-nova-fase-da-sua-carreira

Fale sobre o significado da data para Tempo Espaço Ritual.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/papisa-tempo-espaco-ritual-fale-sobre-o-significado-da-data-para-tempo-espaco-ritual

Como você acha que este espetáculo influencia sua carreira daqui para frente?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/papisa-tempo-espaco-ritual-como-este-espetaculo-influencia-sua-carreira-daqui-para-frente