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A parte do Luneta Mágica

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O produtor e amigo Carlos Eduardo Miranda já tinha cantado a bola sobre o Luneta Mágica, quinteto psicodélico de Manaus, antes de ser chamado pela banda para produzir seu novo material. “O melhor é que eles conhecem muito de música, é impressionante, e não só do tipo de som que eles fazem”, explica o produtor, que assinou o novo single da banda, “Parte”, lançado em primeira mão no Trabalho Sujo. Os vocais em falsete derretidos por sobre camadas de guitarras lisérgicas parece ir atrás da tendência psicodélica inaugurada no Brasil pelos Boogarins, mas a banda vai para além. Formado por Daniel Freire (baixo e vocais), Eron Oliveira (bateria), Pablo Araújo (vocais e guitarra), Victor Neves (synth e programações) e Erick Omena (guitarra), o grupo é uma das bandas brasileiras que irão tocar no próximo Lollapalooza e deve começar a gravar o próximo álbum em 2018.

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Tulipa 2017: “A tecnologia mais de ponta é o ser humano”

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Encontrei com os irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz na véspera do lançamento de seu novo disco, batizado apenas como Tu, e eles ainda estavam decidindo questões de última hora. Tulipa me mostrava a capa recém-mudada do disco (“sem as bolinhas”, dizia lembrando da versão anterior) enquanto Gustavo se orgulhava da contracapa que havia acabado de ser fechada, bem como o lançamento físico do disco. Entendo errado e pergunto se havia entrado uma versão de “Físico”, um dos carros-chefes do disco mais recente, Dancê, de última hora no disco, mas eles falavam do lançamento em CD. “Ia ser só digital, mas as pessoas começaram a pedir o CD, então a gente resolveu fazer CD”, emenda a cantora. Me espanto com o “só digital” e eles entendem na hora: “Não, vinil a gente sempre vai querer fazer”, respondem quase juntos e rindo, concordando.

Os dois são uma unidade de trabalho, que dividiu-se em duas metades por questões práticas: uma delas expande-se protagonista, a outra retrai-se coadjuvante. Mas são o mesmo ser, a divisão é natural: Tulipa foi para os holofotes e Gustavo manteve-se coautor, músico e, principalmente, produtor. A união torna-se evidente a partir do próprio conceito do novo disco, que apesar de ser batizado a partir do apelido de Tulipa, também fala da parceria ao ser nomeado como o pronome da segunda pessoa e também com a sonoridade de dois, em inglês.

Tu é um disco a dois, apenas de voz e violão. “Ia ser um disco de releituras com as minhas zonas de conforto, mas o processo levou a gente pra outro lugar”, explica Tulipa, que conta que este formato em dupla com o irmão no violão vem sendo testado desde o início de suas apresentações, antes do lançamento de seu primeiro disco, em 2010. “Principalmente quando íamos para o exterior”, completa Gustavo.

“No ano passado a gente fez bastante esse formato, que eu chamo de ‘nude'”, conta Tulipa, a partir de variações da banda que a acompanhou no lançamento de seu terceiro disco, Dancê, de 2015. “Tínhamos três formatos, o full, com a metaleira, o redux, só com a banda, e o nude. E a gente começou a fazer muito show nesse formato e as músicas foram ficando diferentes, maduras ao mesmo tempo em que elas voltavam a ser como elas já tinham sido, voltando pra sua essência, que era quando compúnhamos a dois. Ficamos com a vontade de gravar esse disco, tirar uma foto desse momento.”

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“Nossa intenção era gravar isso no México, que a gente tem ido com frequência, e lançar um disco ao vivo num teatro”, continua Gustavo. Mas um terceiro elemento entrou na equação e ajudou a mexer no destino daquele disco, que ainda era uma ideia.

“Desde quando fazíamos esse formato na época do Efêmera (seu primeiro disco), o Stepháne (San Juan, cantor, compositor e percussionista) falou que queria gravar a gente daquele jeito. Ele sempre esteve muito próximo da gente nos três discos, dando pitacos inclusive além da música, na arte. E ele sempre nos lembrava que esse formato era muito forte e aos poucos íamos percebendo isso, que ele tem uma força que chega mais perto do que com a banda, nas letras, na melodia”, lembra a cantora. “Daí o encontramos esse ano e ele está numa ponte Rio de Janeiro-Nova York porque agora ele é percussionista da banda do Bernard Purdie (um dos bateristas de James Brown) e ele tá nesse trânsito, terminando o disco dele com o Scotty Hard (produtor nova-iorquino que já trabalhou com a Nação Zumbi e Mamelo Sound Sytem). E, durante um almoço ele nos falou sobre isso e falou sobre gravar nesse formato, da conexão com o Scotty e, de repente, ‘por que a gente não grava nós três?'”

Os irmãos assentiram na hora – e estamos falando de agosto deste ano, três meses atrás. “Eu só começo a pensar em disco novo depois que acaba a turnê”, lembra Tulipa, explicando que a turnê do Dancê ainda tem shows marcados pra fevereiro do ano que vem. “E de repente aconteceu isso de um disco novo aparecer enquanto o outro disco ainda não tinha acabado. E no ano que vem eu quero gravar disco com banda de novo, por isso se a gente não gravasse aquilo ali, na hora, o momento ia passar. Era um negócio 1-2-3 e já, grava agora, lança agora. Porque depois pode ser que nem faça mais sentido.” Ela também gostou de ter anunciado um disco de surpresa, sem criar expectativas ou publicar foto que é o primeiro dia de gravação. “Isso parece que faz as pessoas cansarem do disco antes de ele sair. Eu mesmo canso!”

Mas o disco acabou ganhando outros contornos. “Achei que fosse ser um disco intermediário, um projeto intermediário só de releituras entre dois discos de inéditas, mas aos poucos ele foi ganhando corpo de quarto disco”, explica, enquanto lembra que, na semana anterior à ida para Nova York, ela e Gustavo compuseram cinco novas músicas. “Elas surgiram ainda aqui, na semana que a gente ia viajar” e lembra como compuseram a música em espanhol “Terrorista del Amor” durante um paad-thai oferecido por Ava Rocha em sua casa, que contou com a presença de Saulo Duarte e da fotógrafa Paola Alfamor.

“A gente tinha um monte de música a mais que íamos gravar, mas elas foram caindo. E também culpa desse 2017 transformador e difícil, que pautou muito a gente e ajudou a definir os critérios pra entender quais músicas que estariam no disco. Por conta desse momento difícil e conservador eu sabia que tinha que cantar ‘Pedrinho’ e ‘Desinibida’ de novo, que aliás são as mesmas pessoas, só que em corpos diferentes. Eu preciso me cercar desses personagens, ter eles do meu lado. A mesma coisa ‘Dois Cafés’ e ‘Algo Maior’, que têm coisas que a gente precisa dizer novamente.”

Esta última, gravada com o Metá Metá no finzinho de Dancê, nunca foi tocada ao vivo, à exceção de uma única apresentação, no Loki Bicho, quando os irmãos tocavam neste formato. “A Juçara (Marçal, do Metá Metá) estava lá e eu chamei ela na hora. E foi tão bonito, eu tava com dúvida na letra, postei a letra no Instagram e todo mundo cantou junto. Ela é uma espécie de mantra que é importante repetir, repetir, repetir…”

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A entrada de Stepháne no novo disco, gravado no estúdio de Scotty no Brooklyn nova-iorquino, foi crucial para enxugar ainda mais as gravações. “É um disco falso simples”, continua Tulipa. “Ele só tem uma voz, sem coro, e eu adoro cantar coro. Ele só tem um violão. É muita síntese. A gente criou uma série de regras e ficou meio assustado, mas ficou assim, desse jeito, e o Stepháne foi muito importante nisso, pra me fazer achar uma voz, um jeito mais flat de cantar”. Só há overdubs de percussão em todo o disco e a única participação externa do disco é a de Adan Jodorowsky, filho do mago cineasta Alejandro, que Tulipa conheceu em duas oportunidades no México, num festival de literatura e outro de cinema, sempre recebendo homenagens pelo pai. Ao gravar em espanhol, ela queria entrar no idioma com um anfitrião nativo, para não parecer intrometida, e a sugestão do nome de Adan também surgiu às vésperas da gravação. E ao conectar Adan a uma música composta com Ava, ela não deixa de notar a conexão entre os pais cineastas, ambos românticos idealistas de outra época – “terroristas del amor”, afinal.

“O disco também vem de uma necessidade de fazer as coisas de um jeito mais simples. Precisei fazer um disco olho no olho, com o máximo de verdade e amor. A gente tá cansado, o colesterol tá alto nas hipernarrativas de tudo, as produções são todas megalomaníacas, e a linguagem, que é o básico, sempre fica por último”, continua a cantora. “Tu vem dessa necessidade de, no simples, ser muito legal. Nossa tecnologia mais de ponta é o humano”.

Tu já tem shows agendados para esse ano no Rio de Janeiro (dia 21 de novembro no Teatro Net), em São Lourenço (cidade mineira onde os dois foram criados, dia 8 de dezembro, em praça pública) e em São Paulo (no Sesc Pinheiros, dias 9 e 10 de dezembro) e no ano que vem em Salvador (no Teatro Castro Alves, dia 26 de janeiro) e no Psicodália (festival em Rio Negrinho, Santa Catarina, dia 13 de fevereiro).

A volta do Superchunk!

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E não eram só singles: o Superchunk terminou de gravar um novo álbum, o primeiro desde I Hate Music, de 2013, e acaba de anunciar seu lançamento para fevereiro de 2018. O disco chama-se What a Time to Be Alive e o grupo decano do underground norte-americano o apresentou lançando a faixa-título, com tons tão políticos quanto as faixas que vieram gravando esporadicamente nos últimos anos.

Eles nem parecem que envelheceram. Será que alguém os traz para o Brasil mais uma vez?

Matéria-Prima e Projetonave no CCSP

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Duas entidades do novo rap brasileiro se encontram nesta quinta-feira na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo: de um lado o bardo do rap mineiro que já passou pelo Quinto Andar e Subsolo e agora chega à sua carreira solo, do outro o ótimo grupo instrumental paulistano Projetonave, a banda do Manos e Minas que já acompanhou grandes nomes da black music brasileira. O encontro acontece no lançamento do disco 2 Atos, produzido por Gui Amabis, a partir das 21h (mais informações aqui).

Lucio Maia caribenho

Enquanto a Nação Zumbi prepara-se para o lançamento de seu Radiola NZ (o grupo acaba de revelar o primeiro single, uma versão para “Refazenda” de Gilberto Gil), seu guitarrista Lucio Maia começa mais um projeto paralelo, desta vez voltado para a música latino-americana, especificamente caribenha, com referências musicais como Celia Cruz, Tito Puente e Willie Bobo. Lucio Maia começou a rascunhar o Quarteto Los 5 ainda com o baterista Tom Rocha, no Recife, mas o trouxe para São Paulo reunindo um time que conta com Mauricio Fleury (Bixiga 70) nos teclados, Fábio Sá no baixo, Felipe Roseno na percussão e Hugo Carranca (Otto) na bateria. Ainda no início de seus trabalhos, o grupo instrumental faz sua primeira apresentação na quinta-feira da semana que vem, no Sesc 24 de Maio (mais informações aqui). Conversei com o guitarrista sobre os rumos desta nova empreitada, que deve começar as gravações de um primeiro disco no início de 2018.

Como surgiu o Quarteto Los 5?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-como-surgiu-o-quarteto-los-5

Como chegaram a esse nome?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-como-chegaram-a-esse-nome

Quais são as referências que vocês trazem para o grupo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-quais-sao-as-referencias-que-voces-trazem-para-o-grupo

A ideia é ser um projeto paralelo ou é algo pontual, com duração limitada?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-a-ideia-e-ser-um-projeto-paralelo-ou-e-algo-pontual-com-duracao-limitada

Vocês têm planos de gravar disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-voces-tem-planos-de-gravar-disco

Como vai ser este primeiro show? Algum convidado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-como-vai-ser-este-primeiro-show-algum-convidado

Chromeo 2017: “That’s why I keep pressin’ ya…”

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O Chromeo está de volta e anunciou seu próximo disco, Head Over Heels, com o balanço suave do single “Juice”, em que eles mostram que as pernas que sempre ostentaram em seus discos anteriores na verdade eram suas.

O disco ainda não tem data de lançamento – e é o primeiro que a dupla canadense lança desde White Women, de 2014.

Vida Fodona #560: Novembro vai ser mais tranquilo

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Começando as comemorações dos 22 anos do Trabalho Sujo.

Flora Mattos – “Perdendo o Juízo”
Tommy James & The Shondells – “I Think We`re Alone Now”
Rakta – “Memória do Futuro”
Baco Exu do Blues – “Te Amo, Desgraça”
Letrux – “Coisa Banho de Mar”
Smith – “Baby It’s You”
Boogarins – “Camadas”
Tiê + Luan Santana – “Duvido”
Lorde – “In the Air”
Spoon – “WhisperI’lllistentohearit”
War on Drugs – “Strangest Thing”
Rimas + Melodias – “Origens”
Alexandre Basa + Lurdez da Luz – “Liri Sista”
A Tribe Called Quest – “We the People”
Tulipa Ruiz – “Game”
Beta Band – “Dry the Rain”
Ventures – “Walk Don’t Run”
Cream – “Lawdy Mama”

A volta do Me & the Plant

Quatro anos depois de seu primeiro disco, o grupo Me & the Plant, projeto pessoal do multiinstrumentista carioca Vitor Patalano, ganha corpo e proposta. Seu Mithras Lab, mostrado em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, é um álbum duplo conceitual que Patalano dividiu em duas metades. “Um disco com uma temática mística (Mithras), e outro com temática científica (Lab), dois temas aparentemente antagônicos, mas na verdade interdependentes”, explica. “Esse álbum foi meu instrumento de reconciliação entre esses dois universos, porque a música cria atalhos para o absoluto. Na antiguidade, o mesmo homem era capaz de ser tocado pela ciência e pelo misticismo, como Pitágoras, que intuía a música a partir da matemática, e vice-versa. Mas com o tempo o homem se especializou, se polarizou e hoje vejo uma tendência de reunião destes polos, uma catedral e um acelerador de partículas são templos distintos para a adoração dos mesmos deuses, sejam eles sagrados ou pagãos. Em ambos os casos, estamos erguendo uma obra para tentar amplificar nossa pequenez.”

Ainda são canções criadas ao redor do violão, mas que tomam rumos mais ambiciosos, épicos e elétricos que o disco anterior, The Romantic Journeys of Pollen, produzido pelo Kassin, que fez o grupo ser parte da safra de artistas que reuni quando fui curador do Prata da Casa do Sesc Pompeia em 2012. Vitor fala compara a dinâmica musical com a dualidade proposta no disco. “Pra gente, o palco é um local de cerimônia e o estúdio é um laboratório. E nós experimentamos bastante. Fiz muitas demos. Sampleei. Ressampleei. O álbum tem desde um violoncelo com cordas de tripa de carneiro até música programática generativa. Tratei as demos como hipóteses, que ia testando, corrigindo, melhorando. Depois das demos prontas as músicas foram todas regravadas, agora já com a participação dos músicos. e foram muitos colaboradores, em especial o Daniel Ganjaman e o Kassin, mentor da banda desde o início.”

Além dos já citados, Mithras Lab também reúne uma banda de músicos reunidos a partir da nova base de Vitor, em São Paulo (ao contrário do disco de estreia, gravado com outros cariocas). “A nova formação da banda, além do Rocco Bidlovski na bateria, e do Beto Montag no vibraphone, que já tocavam no Me & the Plant, conta com Regis Damasceno, na guitarra e violão, Meno Del Picchia no baixo e três backing vocals, Ana Cigarra, Claudia Noemi e Luana Jones. Houve mais tempo para produção, e isto se reflete no show.”

Tempo é a chave para o novo disco, que Vitor compara ao vegetal que batiza o projeto. “O tempo das plantas é diferente. Vejo a arte como uma semente, que precisa de um terreno propício, de cuidado, depuração, de exposição às intempéries, às estações, ao tempo. O mundo dos homens, tecnológico, de dados processados em milissegundos, está posto para atender às urgências do mercado, mas a floresta não tem pressa. A melhor forma de o artista independente resistir nesse ecossistema de inteligências artificiais é oferecer sua capacidade de contemplação: sua natureza. E entre a contemplação e seus frutos, vai tempo.”

O grupo mostra o novo trabalho nessa sexta-feira, no Sesc Vila Mariana (mais informações aqui), e o show segue a linha da apresentação do grupo no festival catalão Primavera Sound este ano. “Foi bonito. Me and the Plant florindo no Primavera teve um forte apelo simbólico para a banda”, lembra Vitor. “Foi ótimo poder manter contato e dividir o palco com outros artistas brasileiros e do resto do mundo, e se sentir fazendo parte de um movimento.”

Araçá Azul via Damon & Naomi

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A dupla Damon Krukowski e Naomi Yang, que formava o Galaxie 500 ao lado de Dean Wareham, acaba de lançar o disco ao vivo Everything Quieter Than Everything Else composto por gravações que fizeram na capital japonesa Tóquio em 2005 e 2008 e a faixa que encerra o álbum é uma versão para o lamento “Araçá Azul”, do disco experimental de mesmo nome lançado por Caetano Veloso em 1973, que mistura-se com uma resposta que a dupla fez para a música do baiano, chamada “The Earth is Blue”.

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