Mr. Catra foi o mais perto que cheguei de Tim Maia – e tinha essa sensação sempre que o encontrava. Um coração gigante, uma capacidade imbatível de se tornar o centro de qualquer roda de conversa, um senso de humor único, contando histórias escabrosas, inacreditáveis e surreais e as temperando com gargalhadas cavernosas e fumos ótimos. Mas esta personalidade ficava em segundo plano quando pegava o microfone na mão e se transformava em um semideus da música, transmutando qualquer show em uma celebração rítmica que nos levava a todos os centros de negritude de nosso imaginário – Kingston, Salvador, Nova Orleans, Luanda e, claro, o Rio de Janeiro. Um funkeiro que cantava – e encantava – com um timbre de feiticeiro velho, nos revelando lendas e histórias ancestrais em forma de crônicas cariocas seja ao lado de um DJ, de uma banda ou de outros MCs. Nunca sairá da minha memória uma noite na Casa da Matriz ao lado dos Digitaldubs (creio que no verão de 2004), em que as paredes suavam, a névoa branca ocupava pequeno espaço entre as cabeças e o teto, o grave fazia o chão tremer e ele disparava causos e palavras de ordem como um profeta tentando organizar o apocalipse. A notícia de sua passagem é mais uma dessas tragédias deste fatídico 2018, mas também talvez seja a oportunidade de se debruçar na obra em aberto deste que mestrão que, mesmo antes de sua morte, já era um dos maiores nomes da cultura urbana brasileira deste século. Vai na paz.
Beck – “Sexx Laws”
Courtney Barnett – “I’m Not Your Mother, I’m Not Your Bitch”
Gang of Four – “Not Great Men”
Smack – “Onde Li”
Letrux – “Coisa Banho de Mar”
Garotas Suecas – “Pode Acontecer”
Arcade Fire – “Porno”
Daft Punk – “Fragments of Time”
Divine Fits – “Would That Not Be Nice”
Gilberto Gil – “Toda Menina Baiana (Tahira Edit)”
Poolside – “Harvest Moon”
Clash – “Guns of Brixton”
Strokes – “Welcome to Japan”
Jimi Hendrix Experience – “Still Raining, Still Dreaming”
Sambanzo – “Capadócia”
Talking Heads – “Cross-Eyed and Painless”
Prince – “When Doves Cry”
Enquanto o frio polar teima e se estender até o fim do inverno, a primavera surge no horizonte com esquentando nossa perspectiva de dias melhores – e as máquinas de boas vibrações das Noites Trabalho Sujo seguem quentes para espalhar alto astral usando frequências sonoras. Mais uma vez dividimos a noite com a equipe do laboratório de bons sons do Scream & Yell, liderada pelo doutor Marcelo Costa, que chamou Bruno Dias, Bruno Capelas, Janaína Azevedo, Tiago Trigo e Tiago Aguiar para mexer com corações e quadris na pista preta da Trackers. Já do outro lado, na pista azul, vamos de formação completa de Noites Trabalho Sujo, comigo, Danilo Cabral e Luiz Pattoli estremecendo pernas e mentes com canções tatuadas em nosso imaginário coletivo. Tudo para disseminar os bons ventos e espantar o frio da alma que assola o planeta. Vamos lá? Só não esqueça de que a entrada na festa só acontece mediante o envio dos nomes dos convivas para o email noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h deste sábado. Vai ser épico!
Noites Trabalho Sujo @ Trackers
Sábado, 8 de setembro de 2018
A partir das 23h45
No som: Alexandre Matias, Luiz Pattoli e Danilo Cabral (Noites Trabalho Sujo), Marcelo Costa, Bruno Dias, Bruno Capelas, Janaína Azevedo, Tiago Trigo e Tiago Aguiar (Scream & Yell)
Trackers: R. Dom José de Barros, 337, Centro, São Paulo
Entrada: R$ 30, só com nome na lista pelo email noitestrabalhosujo@gmail.com. Aniversariantes da semana não pagam para entrar (avise quando enviar o nome no email, por favor), bem como os 30 primeiros a chegar na festa.
Mais um dia de Professor Duprat no Sesc Pompéia – depois de uma estreia empolgante, vamos ao segundo dia. E, abaixo, a matéria que o programa Metrópolis, da TV Cultura, fez em um dos ensaios do espetáculo.
A cantora baiana lança seu ótimo Mansa Fúria nesta quinta-feira, a partir das 21h, no Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui). Infelizmente vou perder porque vou estar no Professor Duprat.
“É o começo de algo sólido. Nosso primeiro disco de fato. A idéia de Fundação vem desse conceito de erguer algo a partir de uma estrutura firme”, explica a banda paulistana E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante sobre o título de seu novo disco, Fundação, em entrevista por email. Formado por Lucas Theodoro (guitarra, synth e programações), Luccas Villela (baixo e guitarra), Luden Viana (guitarra e synth), e Rafael Jonke (bateria e MPD), o EATNMPTD está prestes a lançar seu novo álbum, no próximo dia 14, e antecipa tanto a capa (acima) quanto um curta sobre as gravações do disco (abaixo) em primeira mão para o Trabalho Sujo.
“Não seguimos um conceito, as ideias foram propostas e construídas de forma natural durante nossos ensaios. São músicas em que todos exploramos mais os ritmos e novas sonoridades, até trocando de instrumentos, saindo de uma zona de conforto do que se espera de um quarteto de baixo, guitarras e bateria”, explicam coletivamente, sem dizer quem responde qual pergunta. O grupo existe há cinco anos e já lançou alguns EPs, mas desde o início de 2016 não lançou mais nada, adiando o lançamento de seu primeiro álbum por mais de dois anos. “Na maior parte desse tempo entre um lançamento e outro nós tivemos um grande período em que mais fizemos shows, rodamos por festivais e novas cidades no Brasil. E quando achamos que havia chegado a hora, nos concentramos em produzir novas músicas, experimentar e fazer algo novo. Ao mesmo tempo que o disco tem uma sonoridade diferente, é uma mudança natural considerando todo esse processo e tempo que tivemos acumulando e absorvendo novas inspirações.”
Lucas Theodoro, Luden Viana, Rafael Jonke e Luccas Villela (foto: Larissa Zaidan)
A espera valeu à pena. Fugindo do guarda-chuva genérico chamado pós-rock, a banda vai para além da sonoridade épica, esparsas e barulhenta que a fez ganhar fama no circuito independente brasileiro. “Só tivemos vontade de entregar uma nova proposta sonora. O pós-rock de uma certa forma ainda está la, é perceptível, mas quisemos sair da fórmula mais notória do estilo, formar algo que fale por nós, pela nossa vivência musical, e consequentemente isso veio naturalmente nas composições”, explicam. O resultado pode ser conferido nas duas músicas que o grupo já lançou, “Daiane” e “Como Aquilo Que Não Se Repete”.
“Fundação se deu por conta de um processo muito específico e novo para nós. Pela primeira vez tivemos a oportunidade de ensaiar mais regularmente em um espaço nosso. Ter todos nossos equipamentos sempre montados em uma mesma sala e não ter restrição de horário foi um privilégio muito grande e afetou diretamente esse processo. Foram seis meses criando em um ambiente que nos deixou mais livres para experimentar estruturas de música, testar novas formas de compor e incorporar momentos espontâneos que acabaram por virar músicas inteiras. No final das contas, esse processo todo influenciou o resultado final muito mais do que referências musicais pontuais”, continuam. O disco foi gravado em duas fases, a primeira num estúdio em Araraquara e o restante na casa do guitarrista Lucas Theodoro. A produção ficou a cargo de Gabriel Arbex. “A escolha desses lugares foi para preservar uma relação mais íntima com o processo. O Sunrise (em Araraquara) tem uma estrutura de casa mesmo. Nós dormimos lá todos os dias, cozinhamos, fizemos churrasco… É um processo bem imersivo estar em outra cidade. Em São Paulo no tempo em que ficamos no Theodoro também teve um clima diferente de poder parar pra fazer um café, sentar no quintal pra conversar, etc. Enfim, o processo foi todo um pouco mais leve e pessoal/humano nesse sentido.”
Além de novas sonoridades, os quatro testaram novos instrumentos. “Quase todos gravamos synth e o disco tem baterias eletrônicas, sequencer, congas, músicas com várias guitarras…”, prosseguem. “A participação mesmo foi a de Vini Rodrigues, de apenas 20 anos, que gravou saxofone em uma das faixas. O Arbex não chegou a tocar nenhum instrumento no disco, mas adicionou muitas camadas na hora da mixagem que abriram bastante o ambiente sonoro do disco.”
Há inclusive uma faixa com vocais (“Se a resposta gera dúvida, então não é a solução”, que também contém vocais do produtor e de Fernando Dotta, capo da gravadora do grupo, a Balaclava), mas seguem firmes como uma banda instrumental, o que está longe de ser uma questão para a banda. “Desde o começo sempre nos adaptamos muito bem nos ambientes pelos quais passamos, inclusive, sempre estivemos muito mais em meio a bandas não-instrumentais, o que foi positivo para o nosso desenvolvimento por não estarmos completamente atrelados a apenas um nicho. Hoje, cinco anos após o início da banda, seguimos com a mesma mentalidade, que é a que não segrega, e sim ajuda a somar na cena em que estamos inseridos. Além de tudo, é importante ter noção que temos muito privilégio por sermos uma banda que está localizada em São Paulo.”
Rodrigo Brandão está mudando de pele de novo. Depois de reconhecido como VJ do saudoso Yo! MTV Raps e ter conseguido se transformar no MC Gorila Urbano à frente do também saudoso Mamelo Soundsystem, ele agora assume o próprio nome ao lançar seu primeiro disco solo, expandindo as fronteiras de seu canto falado para além do hip hop. É um processo que ele vem maturando há uma década a partir de uma série de colaborações que tem feito com alguns broders do Hurtmold e outros nomes de peso como Del The Funky Homosapien, Mike Ladd, Prince Paul, Lúcio Maia, Naná Vasconcelos, entre outros, em projetos como Ekundayo, Zulumbi, 3rd World Vision e Brookzill.
No entanto, o recém-lançado Outros Barato, produzido por Thiago França, é o primeiro disco que assina com seu próprio nome – e que mostra que partiu para o spoken word como uma continuação de seu trabalho como MC de hip hop. No novo disco, ele juntou bambas como Guizado, Rodrigo Carneiro, Richard Ribeiro, Tulipa Ruiz, Victor Vieira-Branco, Marcelo Cabral, Thomas Rohrer, Pupillo, Juçara Marçal e os suspeitos de sempre do Hutmold (Maurício Takara, Marcos Gerez, Rogério Martins e Guilherme Granado) para três sessões de descarrego verbal e instrumental. Conversei com ele sobre este seu disco de estreia, lançado quase décadas depois de sua estreia no mundo fonográfico.
Como surgiu a idéia de Outros Barato?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-como-surgiu-a-ideia-de-outros-barato
Como você começou a se envolver com o canto falado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-como-voce-comecou-a-se-envolver-com-o-canto-falado
Fale sobre as sessões que deram origem ao disco.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-fale-sobre-as-sessoes-que-deram-origem-ao-disco
O quanto o disco foi improvisado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-o-quanto-o-disco-foi-improvisado
Como surgiu o título do disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-como-surgiu-o-titulo-do-disco
Você definia os temas que ia falar a partir dos convidados?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-voce-definia-os-temas-que-ia-falar-a-partir-dos-convidados
Como serão os shows deste disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-como-serao-os-shows-deste-disco
Como você vê a cena de spoken word no Brasil?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-como-voce-ve-a-cena-de-spoken-word-no-brasil
Teve alguém que você quis registrar que não conseguiu?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-teve-alguem-que-voce-quis-registrar-que-nao-conseguiu
O que mais você anda fazendo desde que o Mamelo acabou?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rodrigo-brandao-2018-o-que-mais-voce-anda-fazendo-desde-que-o-mamelo-acabou
Tássia Reis é MC mas começou dançando e canta muito – e começa a explorar novas possibilidades de sua musicalidade na temporada que assume nas terças-feiras de setembro no Centro da Terra. Chamada de Estive Pensando, ela aproveita a série de quatro shows para mergulhar em uma transição de carreira que vai muito além da preparação de um próximo disco. Estabelecida como rapper tanto em carreira solo quanto no grupo Rimas e Melodias, ela quer reinventar sua apresentação para além dos limites que já conhece de espetáculo – e com isso, se reinventar. Conversei com ela sobre o que ela esteve pensando para esta nova fase de sua carreira.
O que significa esta temporada em sua carreira?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/tassia-reis-o-que-significa-esta-temporada-em-sua-carreira
Como você pensou na formação que vai trazer para o palco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/tassia-reis-como-voce-pensou-na-formacao-que-vai-trazer-para-o-palco
Os shows vão mudar de um dia para o outro?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/tassia-reis-os-shows-vao-mudar-de-um-dia-para-o-outro
Sobre o que você “esteve pensando”? Como chegou neste título?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/tassia-reis-sobre-o-que-voce-esteve-pensando-como-chegou-neste-titulo
É um show de rap?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/tassia-reis-e-um-show-de-rap
Fazer um show pensado para um teatro é uma novidade em sua carreira?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/tassia-reis-fazer-um-show-pensado-para-um-teatro-e-uma-novidade-em-sua-carreira
Consegue sintetizar o que você quer com esta temporada?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/tassia-reis-consegue-sintetizar-o-que-voce-quer-com-esta-temporada
Suspiria, de 1977, é um clássico do horror mundial especialmente por ter consolidado a estética saturada e macabra do italiano Dario Argento no subgênero que ficou conhecido como “giallo” (amarelo, em italiano) e que começou a ser explorado em seu filme anterior, Profondo Rosso. Mas sua trilha sonora, composta pelo grupo de rock progressivo italiano Goblin, também é um marco não apenas no cinema de horror bem como na discografia da música pop de seu tempo – a obra mais concisa e autoconsciente de uma grande banda semidesconhecida e uma das melhores trilhas sonoras compostas por uma banda de rock. Por isso que Thom Yorke medrou ao ser convidado para fazer a trilha para o remake do clássico.
“Foi um processo estranho desde o início. Quando os produtores vieram me procurar, eu pensei que eles tinham enlouquecido, porque eu nunca tinha feito uma trilha sonora antes. E Suspiria é destas trilhas sonoras lendárias. Levei alguns meses para contemplar a ideia”, contou na sessão de estreia mundial do filme, no festival de Veneza, em entrevista à revista Hollywood Reporter.
“Era um destes momentos em sua vida que você quer fugir, mas que sabe que se você se arrependerá se fizer isso. Eu assisti ao filme original algumas vezes e eu o amei porque era daquela época, uma trilha sonora incrivelmente intensa”, continuou. “Obviamente Goblin e Dario trabalharam muito próximos quando o fizeram juntos. Mas era uma coisa daquela época e eu não poderia fazer referência a isso. Não havia sentido, a não ser que eu achei interessante a repetição de temas, o tempo todo. Parte da sua mente diz: ‘por favor, não quero ouvir mais isso’. E isso era muito bom. Há uma forma de repetição na música que pode hipnotizar. Eu ficava repetindo para mim mesmo que era uma forma de fazer feitiços.”
Yorke também contou que teve a participação do diretor italiano responsável pelo remake, Luca Guadagnino (o mesmo de Me Chame Pelo Seu Nome) e que foi influenciado pela música da época, inclusive o rock alemão. “Foi uma forma realmente cool de imersão em uma área que eu normalmente não iria sem permissões”. O filme será lançado mundialmente no início de novembro e Yorke já liberou uma primeira canção, a doce e tensa “Suspirium”.
Abaixo, o trailer da nova versão e a aterradora trilha sonora original: