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Centro da Terra: Novembro de 2022

Chegando nos finalmentes do ano, eis a programação de música de novembro do Centro da Terra, último mês do ano em que usamos todas as segundas e terças do mês para fazer espetáculos únicos no já clássico teatro do Sumaré. Quem domina as segundas-feiras do mês é Ava Rocha, com sua temporada Femme Frame, em que desconstrói seu cancioneiro ao lado de convidados especialíssimos como Victoria dos Santos, Chicão, Negro Leo, entre outros. São quatro segundas-feiras sob os encantos da maga, que ainda realizará um workshop durante esta programação – semana que vem ela dá mais detalhes desta jornada. Na primeira terça-feira do mês quem pousa pela primeira vez no Centro da Terra é o Violeta de Outorno, clássico grupo psicodélico brasileiro, que visita canções compostas nos anos 90 com sua formação clássica: Fabio Golfetti, Angelo Pastorello e Claudio Souza. Na segunda terça, dia 8, é a vez da cantora e compositora Helô Ribeiro dissecar os descaminhos de seu primeiro disco solo, A Paisagem Zero, em que visita a obra de João Cabral de Melo Neto, e vai além. A terceira terça do mês é feriado, por isso jogamos a noite de música para a quarta-feira, dia 16, quando o cantor e compositor capixaba Juliano Gauche começa a mostrar o que será seu próximo disco, Tenho Acordado Dentro dos Sonhos, assumindo de vez a guitarra como instrumento condutor, em vez do violão. Na terça dia 22 é a vez do duo Marques Rodrigues, formado pelo trumpetista Amílcar Rodrigues e pelo baterista Guilherme Marques, de explorar possibilidades sonoras desta formação a partir do disco que lançaram no início deste ano, (I)Miscível. E encerrando o mês, recebemos o vocalista e fundador da banda baiana Maglore, que lançou o ótimo V, Teago Oliveira, que faz seu primeiro show solo depois da pandemia no dia 29. Os ingressos já estão à venda neste link. Curtiu?

Alan Moore é Lula

O bruxo Alan Moore escreveu uma extensa carta para os brasileiros explicando porque ele é a favor de Lula nesta eleição de 2022. Abaixo, a tradução que fiz para seu texto e a carta original, em inglês.

Caro Brasil,

Estamos gastando rapidamente nossas últimas chances de salvar o planeta e seus povos. Nosso mundo está mudando, mais rápido que jamais mudou e forçando-nos a adaptar mais rapidamente se iremos sobreviver. De uma sociedade caçadora-coletora à agricultura, da agricultura à indústria, da indústria ao que quer esteja tomando forma agora – esta nova condição para a qual não temos um nome ainda – a humanidade já se deparou com esses tipos de mudanças monumentais anteriormente, embora não com frequência. Estas transições não são causadas por forças políticas, mas pelos irrefreáveis movimentos da maré da história e da tecnologia, que é uma maré em que podemos guiar nossos veículos para nossa vantagem ou sermos naufragados por ela. A Terra está mudando, mudando pela necessidade de se tornar um lugar novo, e apenas nos resta mudar com ela ou então abrir mão para sempre da biosfera que nos sustenta. A maioria das pessoas, acredito, sabe disso em seus corações e pode sentir isso em seus estômagos.

E assim, ao longo dos últimos cinco anos e pouco, vimos através de todo o globo uma ressurreição feroz das ideias político-econômicas que exatamente nos levaram a essa situação obviamente desastrosa no princípio. A escancarada agressividade desse avanço da extrema-direita me parece tão à força, e ainda assim tão desconectada de qualquer realidade, que só pode ter nascida do desespero; o medo histérico sentido por aqueles que estão mais bem-posicionados nas estruturas de poder do velho mundo, e que sabem que o novo mundo pode, em última instância, não ter mais lugar para eles. Temendo suas próprias existências e pela existência de uma visão de mundo que os beneficia, eles entupiram o palco mundial nesta última meia-década com personagens de pantomima barulhentos, exagerados e grotescos, para os quais nenhum ato é tão corrupto ou desumano e nenhuma linha de argumentação é descaradamente absurda.

Desavergonhadamente monstruosos, eles têm perseguido minorias raciais e religiosas, ou seus povos originários, ou os pobres, ou as mulheres, ou pessoas de outras sexualidades, ou todos estes citados. Durante a pandemia ainda em andamento, eles colocaram seus posicionamentos políticos e suas doutrinas financeiras à frente da segurança de suas populações, presidindo centenas de milhares de mortes potencialmente desnecessárias; centenas de milhares de famílias e comunidades devastadas. Com suas nações em chamas ou inundadas ou em seca, eles insistiram que as mudanças climáticas eram um boato da esquerda para incomodar a indústria e rotularam ativistas ambientais e sociais como terroristas. Adotando o estilo circense-fascista do italiano Silvio Berlusconi, nós tivemos o perigoso teatro de insurreição de Donald Trump nos EUA, as desgraças arruinadoras de Boris Johnson e seus reservas no Reino (ainda) Unido. E, é claro, o Brasil tem Jair Bolsonaro.

Apesar de nós do Hemisfério Norte obviamente contribuirmos muito além da nossa cota de figuras políticas horrendas para a situação do mundo, não conheço ninguém com uma grama de consciência e compaixão que não se indigne com o que Bolsonaro, ao assumir o cargo na onda de Trump, fez com seu grande e lindo país, além do que ele continua a fazer com o nosso relativamente pequeno e ainda belo planeta. Assistimos com desespero enquanto, rezando pela mesmo hinário de sua inspiração norte-americana, Bolsonaro atacou os povos indígenas do Brasil, os seus homossexuais e os direitos de suas mulheres de fazer aborto de forma segura, alimentando um incontrolável incêndio de ódio como uma distração para suas agendas sociais e econômicas, enquanto ao mesmo tempo inundava sua cultura com armas. O vimos se gabar de seu jeito de lidar com a pandemia jorrando sua idiotice contra vacinas, e também observamos a expansão dos cemitérios improvisados; aquelas covas lado a lado no solo cinza com flores mortas e marcações de tinta trazendo gotas de cor.

Também vimos como ele respondeu à proposta de novas leis ambientais internacionais ao simplesmente aumentar a sua devastação suicida das florestas tropicais, asfixiando nossa atmosfera comum com a queima de florestas, desalojando ou matando pessoas que viveram nestas regiões por gerações, aparentemente em conluio ou fazendo vista grossa para o assassinato de jornalistas que investigavam a brutalidade dessa limpeza étnica. Uma respeitada revista científica britânica da qual sou assinante, New Scientist, recentemente descreveu as próximas eleições como potencialmente o ponto crítico sem volta na batalha de vida ou morte de nossa espécie contra a catástrofe climática que nós mesmos engenhamos. Dito de maneira simples, ou Jair Bolsonaro continua, lucrativamente, a satisfazer os interesses corporativos dos que o apoiam, ou nossos netos terão o que comer e respirar. É uma coisa ou outra.

Como anarquista, existem pouquíssimos líderes políticos que eu seria completamente capaz de tolerar, e ainda mais endossar, mas por tudo que soube e li a respeito, Luiz da Silva, Lula, parece ser um desses raros indivíduos. Suas políticas parecem ser justas, humanas e concretizáveis e, pelo que entendi, ele se comprometeu a reverter muitas das decisões desastrosas de Bolsonaro. Consertar o estrago destes últimos cinco anos certamente não será fácil nem barato, e da Silva poderá estar herdando um cenário político terrivelmente desfigurado. No mínimo, contudo, desta distância ele parece ser um candidato que reconhece que a humanidade está atravessando uma de suas pouco frequentes transformações sísmicas e percebe que precisamos mudar a forma como vivemos se quisermos continuar vivos. Ele me parece ser um político comprometido com o futuro, com seu trabalho honesto e com suas possibilidades justas e maravilhosas, e é melhor que a batida e devastadora agonia de morte de um passado insustentável.

A próxima eleição no Brasil se encontra equilibrada sobre o fio de uma navalha e, pelo que discuti acima, o mundo inteiro está à sua mercê. Se você alguma vez gostou de algum dos meus trabalhos ou sentiu alguma empatia pelas por suas tendências humanitárias, então, por favor, saia e vote por um futuro próprio para os seres humanos, por um mundo que seja mais que uma latrinas dourada para corporações e suas marionetes.

Vamos deixar as injustiças dos últimos cinco anos, ou talvez dos últimos cinco séculos, no passado.

Com amor e com confiança,
De seu amigo,

Alan Moore

Leia o original aqui.  

Eiras e Beiras: Dixculpa, Tava Dixtraída

Tô de olho no Eiras e Beiras há um tempo e chamei o septeto paulistano para reinventar seu próprio show em uma apresentação no Centro da Terra. Em Dixculpa, Tava Dixtraída – título de uma das músicas de seu primeiro e homônimo EP, o grupo formado por Alice Rocha e Nina Maia (vocais), Rafael Zammataro (baixo), Thalin Tavares (percussão), Vitor Park (bateria), Felipe “Enow” Serson (guitarra), e Edu Barco (teclado) viajam entre a nostalgia da MPB pós-tropicalista dos anos 70 com referências do pop moderno e do indie rock. Os ingressos já estão à venda neste link e o espetáculo começa pontualmente às 20h.

Conversando sobre HQ

Neste domingo, a partir das 16h, participo do II Festival Mario de Andrade – Literatura e Artes na Pauliceia 2022, dentro da programação que o Sesc 24 de Maio faz durante o evento. Na mesa HQ: uma pequena história dos quadrinhos para uso das novas gerações faço a mediação de um papo sobre a importância dos quadrinhos a partir do livro que o batiza, mais uma empreitada do professor Rogério de Campos para expandir esta disciplina que é mais antiga do que podemos imaginar, com a participação do grande Marcelo D’Salete, que contribui à discussão tanto como quadrinista (ele é autor de dois marcos do quadrinho nacional, Cumbe, de 2014, e Angola Janga, de 2017, cruciais para a questão da identidade negra no Brasil) quanto como mestre de história da arte. A atividade é gratuita e acontece na praça do térreo da unidade, que fica no Centro de São Paulo (mais informações aqui).

Ricardo Dias Gomes: Missão/Emoção

Radicado em Portugal desde 2017, o cantor, compositor e músico carioca Ricardo Dias Gomes volta ao Brasil por um breve período e aproveitou este deslocamento para mostrar algumas músicas novas em uma apresentação no Centro da Terra. Acompanhado de Gabriel “Bubu” Mayall e Bianca Godói, o guitarrista e baixista da banda Do Amor, que também passou pelo grupo que acompanhou Caetano Veloso em sua fase Cê, Dias Gomes mostra músicas de seus trabalhos solo bem como canções inéditas em uma apresentação única que também um convite à simplicidade, nestes tempos tão intensos que atravessamos. O espetáculo Missão/Emoção começa pontualmente às 20h desta terça-feira, dia 18, e os ingressos já podem ser comprados neste link.

Pedro Pastoriz no CCSP

Daqui a pouco, às 19h, Pedro Pastoriz finalmente lança ao vivo seu ótimo Pingue-Pongue com o Abismo, que foi lançado originalmente no longínquo 2020. Tenho feito a direção artística deste momento da carreira do ex-vocalista do Mustache e os Apaches, que começa a engrenar um novo momento de seu trabalho a partir desta terça-feira, quando apresenta este trabalho numa apresentação gratuita na mitológica Sala Adoniran Barbosa, no nosso querido CCSP. Quem vai?

Corpo Expandido: Imagem Sonora

Conheci a baiana Paula Cavalcante quando ela estava prestes a lançar seu primeiro EP no final do ano passado e de lá pra cá acompanhei a evolução de seu trabalho solo instrumental, Corpo Expandido, em que ela cria paisagens áridas e ambiências ambivalentes apenas com seu violão. Do lançamento de Entre Ruínas e Devaneios ao recente A Cor do Fim, ela foi descobrindo-se como autora musical ao mesmo tempo em que conciliava este novo trabalho com sua história na fotografia e é esse o ponto de partida do espetáculo que apresenta nesta terça-feira no Centro da Terra. Em Imagem Sonora ela apresenta seus transes instrumentais ao mesmo tempo em que explicita suas referências musicais, que vão de trilhas sonoras de filmes brasileiros ao free jazz. A apresentação começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Fernando Catatau: Frita

Convidado para assumir as segundas-feiras de outubro no Centro da Terra, o cantor, compositor e guitarrista Fernando Catatau inventou Frita – uma série de encontros com velhos e novos compadres e comadres através de apresentações ao vivo em que visita composições que ainda não saíram da gaveta, engrena novas parcerias e revisita velhas canções com novas roupagens. Nas próximas semanas, ele se encontra com Juçara Marçal, Edson Van Gogh, Jadsa, Mateus Fazeno Rock, Yma e Anna Vis em apresentações feitas para o palco do teatro do Sumaré – e a temporada começa nesta segunda, dia 10, com o encontro entre Catatau e Kiko Dinucci, numa noite que reúne dois dos maiores nomes da música brasileira contemporânea. Os ingressos podem ser comprados neste link e o espetáculo começa pontualmente às 20h.