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Cê vê…

E então o nada virou-se do avesso

MÓRRATA!

Ouviram o Caetano novo? Chatopracaralho, com todas as letras juntas, pra enfatizar a chatice (tem umas três músicas boas [mais pra mazomenos, é verdade] – “Musa Híbrida”, “Deusa Urbana” e “Homem”), mas consegue barrar o do Chico – e não só em monotonia. Uma pena, porque depois de uma década e meia como artista cover (inclusive de si mesmo), era pra lançar um disco ao menos OK. Mas Cê não sai do meio do caminho, parece sempre uma tentativa de ser experimental e pop ao mesmo tempo, mas sempre com cara de tentativa, de disco de rascunhos – e a fissura por sexo e rock (que talvez seja o tema do disco) enche mais o saco do que a superposição de vocais, os riffs secos ou os crescendos à Lou Reed.

“Odeio” são umas duas músicas do Wire juntas com um vocal que parece ter saído de outra música (mashup?); “Rocks” é tipo “Não Enche” pra ver se ele descola moral com alguma fã de Strokes (“Você foi mó rata comigo” pode se tornar uma frase de verão, mas é meio vergonha alheia – um sentimento que eu nem curto que exista); “Outro” até poderia ser uma música boa, se não tentasse ser um krautrock (parece Tony da Gatorra! – o que diz muito sobre o disco); “Porquê?” parece uma piada, sério, tipo o Costinha imitando um João Gilberto de Portugal; “Não Me Arrependo” soa como se o Barão Vermelho tentasse soar como o Yo La Tengo ou como se o Rádio Táxi gravasse uma música do Loaded, do Velvet. E por aí vai…

É o “disco indie” de Caê? Em sonoridade, sim. Em espírito, nunca. O disco pouco evoca o sentimento de vitória do derrotado que alinha Velvet, Johnattan Richman, Jesus & Mary Chain, Nirvana, o britpop e Strokes neste mesmo cânone, batizado com a corruptela em inglês para “independente” (a falada “O Herói” chega perto, mas não engata – quer dizer, engata uma gemedeira que convida o ouvinte a desistir do disco). Caetano desfoca o sentimento de seu instrumental para transformá-lo em objeto de estudo, e assim Cê se tornar um monumento parado a uma vanguarda de jardim de infância, mais interessada em chocar pela complexidade do que fazer algum sentido. Sim, é um disco parente de Velô, talvez o fundo do poço da mediocridade intelectual (pra usar um termo da moda) caetânica – um disco com as hediondas “Shy Moon”, “Pulsar” e “Podres Poderes” (procurem pra ver como é deprê) e de onde só se salva “Nine Out of Ten” (como me lembrou o Werneck).

Nada contra o Caetano, nada mesmo. Acho um saco essa ladainha de que ele é o vilão da MPB, que ele é o responsável por boa parte da merda que toca no rádio, que ele puxa as cordinhas do sistema. Isso é chororô de ex-metaleiro, fã de Ramones que não ouve música brasileira por complexo psicológico (os pais ouviam) disfarçado de preconceito. Acho o sujeito fodão quando exercita seu verdadeiro métier – fazer música – e um Jabor quando é chamado para palpitar sobre tudo. Mas é bom crítico de música – suas one-liners sobre as atrações do Tim Festival – que correm nos corredores quase como uma lenda característica do evento – talvez sejam a melhor cobertura dos shows. Mas ele era bem melhor quando era hippie despolitizado e menos fernandohenriquecardoso – não é qualquer um que tem pelo menos umas 20 músicas no imaginário brasileiro, e músicas muito boas.

Vai ver é essa estridência polemicista, que parece ter se arrefecido à saída de Paula Lavigne de cena (dava pra imaginar ela lendo o jornal e comentando em voz alta com ele “Cê não vai deixar esse cara falar isso de você, né?”). Cê não é um disco ruim e ponto. Ele tenta ser bom, tateia num universo que não lhe pertence e se esforça para ser novo. Mas é confuso e está perdido num emaranhado de referências dispostas quase ao acaso. Possível sintoma de seu exílio autoral, em que preferiu passar a última década e meia entre autores americanos, latinos, italianos e Jorge Mautner. Resta saber se ele quer voltar atrás ou seguir em frente. Se escolher a segunda opção, pode ser melhor. Mas se ficar na primeira… Güenta caixa, ao vivo, acústico e outras tranqueiras de artista em fim de carreira.

Espero que não.

Perdidos no espaço

Ontem na Funhouse, hoje no Milo. Começo as 23h, vou até o show dos Space Invaders (o último?), depois o Dago assume por uma horinha e meia e depois nós entramos naquele famoso duelo em que “quem ganha é a pista”, como diz o Gui.

Segue o servicinho:

Peligro no Milo
Show : Space Invaders R$10,00
[Pouso Alegre; experimental / math-rock]
DJs: Alexandre Matias + Centro Cultural Batidão
Rua Minas Gerais 203a Higienópolis

Todos meus amigos

Mão do céu/ Pé do chão

Se tiver de bobeira hoje, tem um programinha classe A. Vou discotecar antes do Vanguart nessa quarta, ali na Funhouse (faz tanto tempo que eu não vou por lá, desde que as festas da Trombador acabaram…). A banda, de Cuiabá, faz merecer os elogios que tão rasgando aí – os vi em Belém e recomendo (embora a descrição “Radiohead alt.folk com um jovem Dylan nos vocais” só faça sentido quando você vê os caras ao vivo). Baixa “Semáforo” e vê se você não está cantando a música hoje à noite…

Rock Together
Vanguart
Rua Bela Cintra, 567
R$ 10,00
23h – A banda toca à 1h
Consolação, São Paulo-SP, 01415-000
Telefones: (11) 3259-3793 / 7109-7144

Cola lá.

“Qual que é essa mesmo?”

10 do Guab

Integrante do coletivo Reco:Head, Gustavo Abreu participa da banda Labo, mas é mais conhecido como Guab (a contração das duas primeiras letras de seus nomes) e é um dos DJs mais pop de São Paulo -que diga sua festa Mixtape, que acontece todo sábado no Milo Garage, cuja fila se estende longamente até as três da madruga. Guab dá a letra de seu atual set.

“Atoms for Peace on a Doom’s Night” – Thom Yorke + Azzido da Bass
“Depois + Over and Over” – Druques + Hot Chip
“Banquet for Jo” – The Streets + Bloc Party
“Chuva Negra + Cara Valente” – Hurtmold + Maria Rita
“Rock And Roll Rat” – Beatles + The Walkmen
“Yeah, Vai Passar” – Chico Buarque + LCD Sound System
“We Travel The Space Ways Rmx” – Guab + Guilherme Granado
“Keep On Rocking In The Free World, Sugar Kane” – Neil Young + Sonic Youth
“Deceptacon Reptilia” – Le Tigre + Strokes
“Charles Jr. + Vivão Vivendo + Abrindo O Coração Para Uma Cadela Chapada” – Racionais Mcs + Jorge Ben + Mundo Livre S/A

O feitiço da repetição está sobre você

O Ronaldo tava comentando que havia comentado com alguém como esse ano tá bom de singles – algo que eu já tinha comentado por aqui (não lembro) e com o Miranda, o Dago, o Bruno e o Luciano. Poucos discos inteiramente bons, mas no quesito música, vários. Seria a vitória do formato canção graças a uma mãozinha do MP3? É cedo pra arriscar.

Enquanto isso, outra jóia de 2006: “Over and Over”, do Hot Chip.

Laid back,
Laid back,
Laid back we’ll give you play back.
Laid back,
Laid back,
Laid back I’ll give you play back.
Over and over and over and over and over,
Like a monkey with a minuture symbol,
The joy or repetition really is in you.
Under and under and under and under and under,
The spell of repetition really is on you,
And when I feel this way I really am with you.

Laid back,
Laid back,
Laid back We’ll give you play back.
Over and over and over and over and over,
Like a monkey with a minature symbol,
The joy of repetition really is in you,
Under and under and under and under and under,
The spell of repetition really is on you,
And when you look this way I really am with you.

I started thinking what you wanted him to you (hell you)
I got to thinking and I knew just what to do (hell you)
I started thinking what you wanted him to do (hell you hell you hell you)

K-i-s-s-i-n-g-s-e-x-c-a-s-i-o-p-o-k-e-k-i-s-s-i-n-g-s-e-x-c-a-s-i-o-p-o-k-e-
K-i-s-s-i-n-g-s-e-x-c-a-s-i-o-p-o-k-e-c-u-n-t-a–s-s-b-u-m–s-e-x-n-o-w-
K-i-s-s-i-n-g-s-e-x-c-a-s-i-o-p-o-k-e-y-o-u-m-e-i

Play back

Há pouco mais de um ano, saiu numoutra Bizz…

Moby, Espaço das Américas, São Paulo – 20 de setembro de 2006

Filas, preço do ingresso, cambistas, pilastras, acústica ruim, política, desorganização, segurança truculenta… Muito se falou sobre a passagem de Moby pelo Brasil em setembro, quando se apresentou duas vezes em São Paulo: a primeira em um hotel com formato de fatia de melancia e outra num galpão do bairro Barra Funda, com ingressos variando entre R$ 140 e R$ 300. Mas pouco se falou sobre música.

Talvez porque não houvesse muito o que falar. Desde que sua pontualidade vegan exigiu começar o segundo show, que aconteceu no Espaço das Américas, nas mesmas 23 horas anunciadas na programação, a apresentação soou profissa e eficaz como um relógio, mas sem um mínimo de calor emocional, pelo menos que viesse do palco. É claro que a música de Moby é muito maior do que o show apenas correto que trouxe ao Brasil – e foi o reconhecimento de seus hits pelo público responsável pela pequena fresta de entusiasmo que se viu naquela terça-feira fria.

O produtor passa boa parte do tempo com uma guitarra pendurada no corpo, cuspindo riffs e tentando solar como se estivesse num show de rock. Mas prestenção: atrás dele tem uma tecladista que tocou “Fur Elise” (a música do caminhão de gás) em versão pseudo-dance, ao seu lado um baterista com permissão para solar (em pleno século XXI, vê se pode!); à frente um guitarrista de verdade e uma cantora virtuose negra. Todos solam, todos dão o sangue e todos conseguem – cada um por vez – empolgar o público. Menos o distante Moby que, como band-leader, não conseguiu grande coisa. Talvez ao protestar contra a Guerra do Iraque e exigir dedos em riste para uma foto em “homenagem” ao presidente norte-americano Bush (qual o endereço do fotolog dele?) foram os poucos momentos em que se comunicou diretamente com o público.

E não foi por falta de tentativa. Fora a boa obviedade de seus hits, Moby teve idéias infelizes e sem-noção, como tocar covers de clássicos do rock como “Sweet Child’O Mine” dos Guns’N’Roses (anunciada como “uma versão samba-jazz” que de samba-jazz não tinha nada – parecia uma versão piorada da versão do Luna), “Break on Through” do Doors e “Creep” do Radiohead. Ainda teimou em tocar uma música do Sepultura, para constrangimento geral da nação.

O lance é que Moby é compositor, e não maestro, embora seu nerd interior ache que seja. Pior: a auto-imagem que ele faz de si é a de popstar, o roqueiro trintão comandando um dos braços da indústria de entretenimento. E por melhores que sejam os músicos, carisma não é algo que se consegue fácil. E Moby, por mais simpático que tente ser, não tem carisma.

O mesmo não pode ser dito sobre suas músicas. Pequenas sinfonias pós-disco, elas fundem cordas de teclado, soul music, beats sintéticos e letras contemplativas, e provocam suspiros coletivos, ondas de urros e mãos jogadas para cima em hits como “Porcelain”, “Why Does My Heart Feel So Bad?”, “Find My Baby”. Além dos sucessos, ele ainda lembrou do tempo em que era um nome importante para a música de pista – bem antes de ser um major player do showbusiness – tocando seus próprios clássicos como “Go!” e “Feeling So Real”. Suas músicas são o cerne da noite, o motivo de quase 5 mil pessoas assistirem a um show pelos telões, porque não dava pra ver o palco direito. E nem parecem ter saído da cabeça daquele carequinha pagando de roqueiro.

E, de repente, não é mais um show de música eletrônica, e sim um evento de pop rock. Dinossauro por opção, o show de Moby faz lembrar dos medalhões do rock’n’roll durante os anos 80, quando Phil Collins, Pink Floyd, Sting e Dire Straits, por mais diferentes entre si na origem, pareciam soar parte de uma mesma tendência musical. Mecânico, correto, inerte – sem alma. Eu não sei ele chegou a vende-la, mas pelo preço do ingresso…

Video Game Boy

Outra resenha de uma Bizz no ano passado.

Artificial – Free U.S.A.
A primeira vez que Kassin trouxe seu GameBoy a público foi na festa de aniversário do site Urbe, em 2003, quando, escudado pelo compadre Berna Ceppas, transformou a pequena pistinha do Zero Zero no Rio em um pesadelo IDM Atari anti-Guerra do Iraque. De lá pra cá, a brincadeira tomou tento, ganhou nome, centralizou-se no próprio produtor e optou pelo groove. Mas a tensão robótica e retrô continua dando o tom do projeto que, mesmo quando apela para o eletro-suingue branco lo-fi (em beckismos princeanos como “Time to Change”, “Nurse”, “Feel Like Makin'”, “Dirty Disco” e a vampiros lesbos “Let’s Make”), ainda mantém o clima de paranóia digital que o videogame portátil craqueado carrega nos circuitos (mesmo quando descamba pro dada – em “Pa Pa Pa” e “Joy”). Timbres Devo convivem com teclados Casiotone e beats oitentistas rachados por distorção como pedaços de um muro Tetris destruídos pela bolinha do Arcanoid. O clima político daquela primeira apresentação, no entanto, se mantém, do título do disco a faixas como “My Sound Will Kill You” e “Palestina”.