Trabalho Sujo - Home

Rage fake

Outra resenha pruma Bizz do ano passado…

***

Revelations – Audioslave

Lembro quando voltei de Cuba no começo deste ano, uma das notícias que se transmitia no circuito interno de TV do avião era sobre o show do Audioslave em Havana, na Plaza de La Revolución, que eu acabara de deixar para trás. Automaticamente me senti como se estivesse visitado o castelo medieval que pertencera a Jimmy Page e, antes dele, ao mago Alleister Crowley, imaginando quem poderia ser o substituto de Robert Plant caso Bonham tivesse sobrevivido às quarenta vódegas e o power trio quisesse continuar mais uma década, de novo vocalista.

Porque o Rage Against the Machine foi o Led Zeppelin de parte da minha adolescência (o da parte anterior foi, er, o próprio Led Zeppelin) – uma usina de força e de sonoridade angulosa, riffs que soavam como machadadas de ritmo no córtex, evocando os tribalismos primitivo, metaleiro, rapper e punk ao mesmo tempo. O fato de o vocalista ser um rapper em vez de um vocal “olímpico” (como o Tomate lembra de vozes à Dio, por exemplo) funcionava perfeitamente para aquele começo dos anos 90, pós-Beastie Boys e Public Enemy.

Mas com Chris Cornell nos vocais, algo derrapa – e feio. O som potente e agressivo da banda é jogado a um pântano grunge de soluções pop fáceis e toda modernidade irresistível do instrumental fica presa a uma espécie de tentativa de Dave Grohl via metal, um evil Peter Frampton que mal convence adoradores de bandas de casal (Jota Quest, Dave Matthews Band, Gram, Coldplay, Pearl Jam, Ludov e afins).

Revelations repete os mesmos erros (ou “acertos”, dependendo da sua definição de “bom gosto”) dos discos anteriores e mantêm-se na mesmice achatada dos vocais de Cornell – pretensamente ousados. A cada frase elétrica explicada pelo instrumental da banda espera-se a aparição gritalhona e funk metal de Zack de La Rocha. Mas em vez disso, vem o cantor da propaganda de cigarro, com aquele vocal emocionado e rasgado, aquele tipo de metaleiro poseur que pensávamos que Seattle havia ridicularizado de vez. Imagina o que o espírito do Crowley pensaria de um Led com, sei lá, Jon Bon Jovi nos vocais. Não é à toa que o Fidel até bambeou esse ano…

Mashup power

trip151.jpg

Coluneta na Trip deste mês

***

1 + 1 = 1!

Mais justaposições que habitavam apenas nosso subconsciente

“Don’t Fight It, Feel It” (Gameover’s Don’t Fight It Steal It Mix) – Primal Scream
Disco dominado por mashupeiros – tá lá o Team9, Fakeid, Go Home –, este Primalscreamremixed.com não existem nem mais no site que o batiza, mas anda flanando pelas redes de P2P do planeta. Consiste um retrabalho (por vezes noisy, outras cyberpunk) faixa-a-faixa no disco mais célebre do Primal Scream e, pra mim, o melhor disco dos anos 90, o Screamadelica. E nessa, Gameover funde uma das melhores faixas do disco com “Deeper Underground”, do Jamiroquai, e não só fica legal, como faz sentido! Neguinho sempre olha pros Warp e big beatters da vida e esquece de ver que até o pop mais tradicional foi diretamente influenciado pelo Primal Scream fase reive.

“Velvet Sugar” – Go Home Productions
Mark Vidler pega o piano martelado com batera e guitarra na introdução de “Waiting for My Man” do Velvet, deixa a voz de John Cale em “The Gift” narrar o comecinho da faixa, antes de deixar os Archies assumirem o vocal com “Sugar, Sugar” (“Aaahnn, honey-honey”, é, aquela da abertura daquela novela das seis que tinha um sujeito apelidado de Papagaio), o assovio de “Where’s Your Head At?” do Basement Jaxx e uns “yeah” tirado de algum disco de soul (ou de hard rock farofa?). Heresia? Total. Mas parece Jesus & Mary Chain, hahahaha…

“Hurts Like Teen Spirit” – DJ Dangerous Orange
A parte lenta do hit maior do Nirvana repetido ad eternum, enquanto entra Johnny Cash, grave, fúnebre, para abrir espaço, no refrão, para os vocais centrais de “Don’t Fear the Reaper”, do Blue Oÿster Cult, e algum beat de “Blue Monday”, do New Order. Uma salada daquelas improváveis, mas que aguçam o paladar auditivo ao colidir universos distintos – e ao mesmo tempo criando uma ambientação que faça sentido para os três grupos, country, hard rock, rock alternativo. Uma pérola.

Damn, Girl

Resenhinha do disco novo do Justin que saiu na Bizz de novembro

FutureSex/LoveSounds – Justin Timberlake
Ele vem sem muita conversa, sem muito explicar: “Faço o ‘sexy’ voltar/ Esses putos vêem como ataco/ Se a mina é a sua, melhor se cuidar/ Porque ela me quer e isso é fato”. O andar é robótico, o vocal assexuado, a letra ambígua – passiva e ativa, agressiva e submissa. Entra o produtor Timbaland na rima “Vem aqui/ Aqui atrás/ VIP” e Justin repete apenas “Go ahead, be gone with it”, ao acelerar a intensidade do encontro furtivo sobre um entrançado sintético de vozes, beats e timbres oitentistas que despe toda vulgaridade do R&B pós-Britney e veste-se impecável, na medida. “SexyBack” peita “Crazy” e “Steady as She Goes” pelo posto de single do ano com a marra conjunta do star-system dos anos 80: ombros de George Michael, falsete de Prince, língua de Madonna, pés de Michael Jackson. FutureSex/LoveSounds segue exatamente a mesma medida e separa a sensualidade da nudez, o sexo da cópula. Como os grandes registros sonoros deste 2006, o segundo de Justin não é pertence ao hip hop, à eletrônica ou ao R&B, e sim ao Pop com pê maiúsculo. Como a produção da dupla Neptunes do disco anterior antevia, o ex-N Sync é um artista do quilate de Eminem, só que troca a ironia e o humor cáustico pela classe e observações “maduras” e a putaria e a escrotidão pelo estilo e a finesse. Sem medo de dar certo, Justin reinventa-se melhor que Robbie Williams, Beyoncé, Ron Howard, Victoria Beckham, Ricky Martin, Macaulay Culkin ou qualquer outro astro juvenil que quis ser levado a sério depois da adolescência – seu único rival, ainda imbatível, é ninguém menos do Michael Jackson fase Quincy Jones. Sério candidato a disco do ano.

Vida Fodona #066: O primeiro de dois mil e sete

Pra começar o ano com os DOIS pés certos.

– “Magnificent Seven” – Clash
– “Pebble Beach” – Vince Guaraldi Trio
– “Verão Carioca” – Tim Maia
– “A Linha QUe Cerca o Mar” – Wado
– “It’s Summertime” – Flaming Lips
– “Higher than the Sun (7″ Mix)” – Primal Scream
– “Cool it Down” – Velvet Underground
– “Vitrine Viva” – Ira!
– “Near Wild Heaven” – R.E.M.
– “Middle of the Road” – Pretenders
– “Get Down Only” – Totom
– “ToxicSong” – Embriaguez de Sucesso
– “Hey Mr. Bichos” – João Brasil
– “Steppin’ Out” – Joe Jackson

Boraê.

Futuro preto

Essa entrou na Tesouros Perdidos daquela Bizz com o Lennon na capa.

blackfuture.jpg

Eu Sou o Rio – Black Future
Entre a “Copacabana” de Dick Farney e a “L.A.P.A.” de Marcelo D2 há um imenso abismo. Afinal, o Rio de Janeiro mutou-se formidavelmente em pouco mais de 40 anos: de Acapulco do Sul à Favelópole pró-Garotinho, há mais do que um amadurecimento cultural ou uma decadência de estilo, como visões rasas poderiam supor. Quando o governo federal fez as malas para o cerrado prometido de JK, deixou a antiga maior cidade do país perdida, em busca de uma Ipanema que existiu mais no saudosismo de atuais sexagenários do que de verdade.

Mas, enquanto a bossa nova e o turismo procuravam novas opções, o Rio foi reinventado pela necessidade da juventude local – é preciso se divertir, afinal. Na década de 80, Zé Carioca reencarnou em Evandro Mesquita, Fausto Fawcett documentava tudo e Hermano Vianna ajudava o DJ Marlboro a inventar o funk carioca. Quando os 90 começaram, o mapa da cidade já havia sido redesenhado – cabia a bandas como Planet Hemp, Funk Fuckers, Second Come, Piu-Piu e Sua Banda, Soutien Xiita, Gangrena Gasosa, Dash, Acabou La Tequila e PELVs divulgá-lo, ainda que via underground, para o resto do Brasil.

Mas antes disso, apareceu um pequeno caroço no pop rock carioca. O rock dos anos 80 começava a se paulistanizar (roupas pretas, penteados pra cima, teclados soturnos, baixo slap, vocal falado) e a sombra desta nuvem negra veio parar do outro lado da Dutra: era o Black Future.

O grupo teve vários formações mas era reduzido à dupla Satanésio e Tantão que, como seus pares paulistas, tentavam entender – em alguns casos, imitar – o que estava acontecendo na Inglaterra depois do punk. Diferente de seus pares paulistas, no entanto, tinham o suingue do samba e o sotaque carioca.

O que não facilitava as coisas – pelo contrário. O som é quase sempre ruidoso, hermético, quadrado, kraut. Doses cavalares de pós-punk (Joy Division e Pere Ubu na veia) com eletrônica naïf, funk torto e baixo pronunciado, berros de pânico e desespero (Artaud no talo), guitarras que grunhem, gemem, guincham. “Não existe mais magia”, urra Satanésio, “os deuses acabaram”. Acompanhando a banda, músicos que ajudam a compor um cânone do experimentalismo pop brasileiro naquela década: o guitarrista Edgard Scandurra, Edu K e Biba do De Falla, o jornalista Alex Antunes, o poeta Chacal, o titã Paulo Miklos e a produção de Thomas Pappon, do Fellini.

Seu único disco lançado – Eu Sou o Rio, de 88 – é um ET na discografia brasileira lançada pelas multinacionais no Brasil. Figuraria mais nobre e plausível no catálogo da Wop Bop, por exemplo, entre o Harry e o Vzyadoq Moe. É quase incrível que uma gravadora que não tivesse apenas interesse estético no disco pudesse ter lançado isso por aqui. Um feito heróico – que só existe em vinil.

No meio do caminho

Resenha do Gossip que eu fiz pra Void, que o Cardoso tá editando em Poa…

capa_void019.jpg

Standing in the Way of Control – The Gossip (Kill Rock Stars)
Entra no YouTube, digita “Standing” “Way” “Control” e “Gossip” e aperta o search. Um dos primeiros resultados é o clipe da música “Standing in the Way of Control”, cheque a descrição pra saber se é o clipe ou um show da banda Gossip, autora desta pérola. Escolha o clipe. Na hora em que o player embutido aparecer, clique pro pause virar play e espere a barra de carregamento completar, antes de começar a assistir – você não quer ser interrompido num momento desses. Solte e comece a ver um desenho animado toscaço e oitentista, que acompanha a surra de guitarras que abre a música (33 porradas, eu contei). Até que entra um baixo cavalgando o bicho disco music e aparece um baixista magrelo com uma máscara de ninja cobrindo o rosto, sobre um cromaqui igualmente tosco ao fundo. As imagens são péssimas (dentes escovados, um Yellow Submarine com a cara do Popeye, listras, a jarra do Ki-Suco), não há glamour nenhum. É quando entra o resto da banda: um baterista – que suspeito ser o mesmo cara que é o baixista –, um guitarrista metido a dândi (franja, bandana no pescoço, bleiser) e a vocalista, uma gordinha branquela com cara daquelas meninas que, tadinhas, foram muito zoadas do pré até a sétima série, quando elas começaram a andar com as meninas que ficaram gatas como escudo. Mas ela já entra cantando e com um vozeirão de fazer neguinho cair o queixo. Estamos em território punk-funk sim, mas invadindo a discoteca pela porta da frente e com um esquadrão antifake. É, os desenhos são feios, os caras são nerds, a mina é gorda – tudo apresentado sem pós-produção, After Effects ou botox. “Isso é a realidade”, parecem cantar, e completam, em uma única música, a lacuna entre a obra do Franz Ferdinand e “House of Jealous Lovers”, do Rapture. O refrão (essa frase de efeito emblemática – “Vivemos nossas vidas atrapalhando o controle”, mal-traduzindo) é cantado quando a surra de guitarras do início volta, atordoando a pista como um estrobo bate-estaca que deixa o colorido anterior preto e branco. Beth Ditto, a vocalista, se joga com tanta vontade que não nos faz desgrudar os olhos dela – sua voz flutua com a graça de uma diva soul e a fisgada de uma riot grrl. O disco segue o tom, mas a música, acima de tudo, causa sozinha. Uma das melhores do ano (em algum lugar entre “Crazy”, “Take Me Back to Your House”, “I Don’t Feel Like Dancing”, “Get Myself Into It” e “Steady as She Goes”), fácil.

Cult pop

Essa saiu na Simples do mês passado

***

Complexidade pop

Superproduções hollywoodianas provam que dar nó na cabeça do espectador com roteiros sofisticados e edições não-lineares não é privilégio do cinema alternativo e/ou independente. Pop também é feito para pensar.

Imagine um filme com uma edição não-linear em que o protagonista uma hora é uma pessoa e mais tarde é outra, que convive com personagens que passam o tempo todo se drogando e falando sobre teorias da conspiração. Este protagonista é um policial e um fora-da-lei ao mesmo tempo (suas personalidades divididas como um dilema moral), que usa um traje que permite que ele se disfarce usando pedaços de outras pessoas, que mudam constantemente. Não bastasse isso, imagine que a estética deste filme é um desenho animado concebido após cenas reais com atores de verdade e que seja baseado em um livro hermético de um papa da ficção científica.

Este filme existe e chama-se “A Scanner Darkly”, lançado no meio deste ano nos Estados Unidos e dirigido por Richard Linklater, um diretor versátil a ponto de filmar um dos filmes centrais no gênero DR (a dobradinha “Antes do Amanhecer/ Antes do Pôr do Sol” com Julie Delpy e Ethan Hawke, vista como um filme só, compete com “Maridos e Esposas” de Woody Allen e “Closer” de Mike Nichols neste quesito) e alguns dos melhores filmes de rock da história (“Jovens Loucos e Rebeldes”, “Escola do Rock” e “Suburbia”). Baseado no livro de mesmo nome do escritor Philip K. Dick, a descrição de “Scanner” no primeiro parágrafo, por mais densa e confusa que possa parecer, faz sentido, mesmo parecendo impossível ou “infilmável” ao primeiro contato.

Isso porque vivemos uma época em que os filmes tornaram-se mais densos e complexos à medida em que os anos foram passando – sem detrimento para o público. Muito pelo contrário: num mundo bombardeado por informação por todos os lados e cuja complexidade de relacionamento entre essas informações torna cada dia em nossa rotina uma busca sem fim num labirinto de sentido, o cinema que se apresenta desta forma torna-se uma espécie de jogo mental para o espectador, que se submete a tais desafios como uma forma de se divertir.

A lista começa no meio dos anos 80, com filmes independentes americanos repletos de personagens que, quando juntos, parecem revelar um único protagonista – o grupo. De “Faça a Coisa Certa” de Spike Lee a “sexo, mentiras e videotape” de Steven Soderbergh; passando por “Veludo Azul” (e, mais tarde, a série “Twin Peaks”) de David Lynch e “Repo Man” de Alex Cox, os filmes aos poucos vão perdendo seu centro de palco e dividindo a atenção entre coadjuvantes que entram mais no holofote. O diretor Robert Altman se reinventou nesta época, enfileirando filmes populosos como “Short Cuts”, “O Jogador” e “Pret-A-Porter”, estabelecendo um novo padrão para filmes que se tornariam clichês na década seguinte.

“Penso nisso como se fosse um novo tipo de microgênero: um filme que dá nó na nossa cabeça, idealizado especificamente para nos desorientar, para mexer com a gente”, escreve o jornalista norte-americano Steven Johnson em seu livro “Surpreendente!” (Ed. Campus), antes de começar a enumerar. “A lista inclui ‘Quero Ser John Malkovich’, ‘Pulp Fiction’, ‘Los Angeles – Cidade Proibida’, ‘Os Suspeitos’, ‘Amnésia’, ‘Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças’, ‘Corra Lola Corra’, ‘Os 12 Macacos’, ‘Adaptação’, ‘Magnólia’ e ‘Peixe Grande’”, continua, “talvez você deseje acrescentar ‘Matrix’ a esta lista, já que sua genialidade encontra-se astutamente em implantar a estrutura de dar nó na cabeça dentro de um filme de ação excessivamente caro”.

Johnson, autor de livros como “Emergência” (detalhando a semelhança da auto-organização de formigueiros, programas de computador, cidades e o cérebro humano) e “A Cultura da Interface” (sobre como a invenção do mouse criou um ambiente inteiramente novo para a criação), dedica ao cinema um capítulo inteiro de seu livro, que começou como uma pesquisa sobre a facilidade com que as crianças lidavam com situações complexas propostas pelos videogames. “Eu originalmente vendi ‘Surpreendente’ para o meu editor como um ensaio sobre como os jogos eletrônicos estão nos tornando mais espertos. Mas quando eu comecei a escrevê-lo, os EUA estavam no meio de uma polêmica sobre a queda dos níveis da televisão devido à transmissão do mamilo da Janet Jackson durante o Superbowl e eu tinha acabado de assistir com a minha mulher os DVDs de ‘24 Horas’, ‘Alias’ e ‘Six Feet Under’. Alguma coisa entre esses dois fatos me fez parar para pensar que a televisão nunca foi melhor do que hoje! E isso se tornou um argumento para a cultura pop como um todo, não apenas os videogames”.

No livro, ele vai além dos filmes alternativos e/ou independentes citados e pede para que comparemos filmes como “Procurando Nemo” ou “Senhor dos Anéis” com “Bambi” ou “Guerra nas Estrelas”, para percebermos que a complexidade não pertence apenas aos queridinhos da crítica – e também invade o terreno dos arrasa-quarteirões hollywoodianos. Mas Johnson centra o foco na primeira categoria. “Alguns destes filmes desafiam nossas mentes ao criar uma rede espessa de linhas de enredo que se cruzam; alguns são provocantes porque ocultam informações críticas do público; outros desafiam inventando novos esquemas temporais que invertem os relacionamentos tradicionais de causa e efeito; alguns filmes ainda desafiam quando deliberadamente camuflam a linha entre fato e ficção”, continua no livro, antes de ressaltar que, “a propósito, tudo isso faz parte das técnicas clássicas da velha cinematografia de vanguarda”.

“A maior parte destes filmes rendeu mais de 50 milhões de dólares apenas em ingressos de bilheteria e todos eles geraram dinheiros para seus criadores – apesar de sua dependência nos dispositivos de narração, que poderiam tê-los classificados como cinema de arte trinta anos atrás”, finaliza Johnson, mostrando na prática a velha máxima em que o que era novidade no passado torna-se regra no presente.

“Depois que eu parei para prestar atenção neste aspecto da cultura, ele parecia estar onde eu olhava”, continua na entrevista. “E isso tem continuado desde que o livro foi lançado, particularmente com o enorme sucesso de um programa como ‘Lost’, que realmente encarna tudo aquilo que eu escrevi”.

Passar o passado

E essa é a coluninha da Simples que tá na banca…

simples40.jpg

***

A verdade é que temos medo de assumir a responsabilidade. A maioria das pessoas prefere se refugiar em seu bunker online do que meter a mão na massa e fazer um mínimo. E isso dentro de um contexto coletivo em que o simples ato de criar solitariamente e comunicar esta criação para outros já é motivo para conexões improváveis e infinitas e novas possibilidades.

Mas não. Preferimos nos sentar em frente à tela e fingir que não é com a gente, e esperar que alguma solução venha em voz alta, cores agradáveis, slogan que nos impressione e preço, misturada com tanta notícia fabricada e entretenimento vazio que não conseguimos distinguir uma coisa da outra. Acostumados a pedir comida por telefone ou a apertar os botões do microondas, sequer nos levantamos para atender o interfone ou apagar a luz. Não importa se queimamos calorias em academias de ginástica, em LAN houses ou com uma vida sexual de fôlego atlético – somos cada vez mais preguiçosos e nos acostumamos a isso.

Veja o que está acontecendo com a indústria fonográfica, exemplo favorito. Virada do avesso pelo simples fato de uma série de inovações tecnológicas mexer com suas fundações básicas (que a música não pertence mais ao suporte – o disco), ela não está enfrentando sua principal ameaça de igual para igual. Todos aqueles que poderiam estar virando a mesa deste mercado estão apenas baixando música na internet ou comprando discos piratas, em vez de perceber a principal mudança e ir direto ao centro desta: hoje você não precisa de mais ninguém que te diga o que gostar ou não.

Mais do que isso, cada vez qualquer um pode fazer música. Se o “fazer música” já tinha sido nivelado por baixo pelo encadeamento rítmico entre a criação do rock’n’roll e a invenção do punk rock, o “qualquer um” vai ainda além ao pular da cultura do DJ para a geração laptop, que faz música com o mesmo prazer e afinco que qualquer jogador de videogame – mais do que “fazer sucesso” ou “estourar”, fazer música tem se tornado um desafio pessoal.

No entanto, baixamos gigas de MP3s como se soubéssemos, no fundo, que a farra da música grátis vai acabar e que logo tudo vai voltar a ser como era antes. Não vai. Mesmo que não façamos nada para mudar este cenário além de simplesmente não fazer nada, o mundo em que crescemos, de lojas de discos, astros do rock e pôsteres na parede simplesmente acabou. Consumimos artistas como meras grifes de atitude ou de sofisticação, rótulos que pregamos em nossas personalidades para agraciar nossos egos e exibir para amigos e desconhecidos.

Até quando? Até quando iremos apenas abaixar a cabeça e engolir o que estão nos mandando? Até quando iremos fazer apenas aquilo que esperam que façamos? As ferramentas estão à mão, o público é cada vez maior e mais ansioso (porque o público, na verdade, somos nós) e a insatisfação domina. Até quando vamos fingir que não é com a gente e que um dia, alguma coisa acontecerá e mudará tudo de uma vez – por bem ou por mal? Foi mal gente, mas o apocalipse redentor me parece a desculpa definitiva para não se fazer nada – religiões bem sabem disso, há milênios.

E se a indústria do disco já foi, Hollywood tá indo, a fábrica de celebridades rui em câmera lenta, o mercado de livros e as telecomunicações vem a seguir, seguidos de perto pelos jornais, a mídia como um todo, nossas noções de pedagogia e educação, a função do sexo, da religião, dos exércitos e dos esportes, a segregação entre Arte e Cultura, a execução do processo político e, finalmente, nossos valores econômicos. Um a um, iremos assistir a quedas de pilares que imaginávamos imbatíveis. E você prefere mudar de canal ou clicar num link do lado, para fingir que não irá participar disso tudo.

Porque você vai, querendo ou não. Resta saber se vai levar ou ser levado.

Depois eu falo mais disso.

Hail hail rock’n’roll

CriaturasFlamejantes.jpg

Já saiu o quarto volume da coleção Iê-iê-iê (o do Simon Reynolds, mais que recomendo) e eu esqueci de falar do terceiro, que eu traduzi. Criaturas Flamejantes, na real, é um capítulo chamado Loud Covenants do livro Country – The Twisted Roots of Rock’n’Roll, do mesmo Nick Tosches que escreveu A Última Casa de Ópio. O livreto, assim, pode ser entendido com uma peça em duas partes: na primeira, trata de como o termo e o gênero musical “rock’n’roll” é mais antigo do que pensamos e como ele é tão negro como branco desde sua origem, nos anos 30. Já a segunda parte deita-se sobre o quarteto de ouro da Sun Records (Elvis, Jerry Lee, Perkins e Cash) para destrinchar suas carreiras e seu legado – o legal é que o texto foi escrito no meio dos anos 70, quando Cash era um mero cantor country e nada mais, Jerry Lee era um reacionário e ponto final, a decadência de Elvis ainda era novidade e o homem dos sapatos de camurça azul era lembrado como integrante do panteão clássico. Vale deitar num sofá de megastore e ler a partir da página 60 e poucos e ler até o final – se você achar que valeu, compre e leia a parte 1 em casa.

Cinco Perguntas Simples: Ronaldo Lemos

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Acabou sim. O CD hoje já é uma tecnologia obsoleta. É uma mídia grande, com pouca capacidade de armazenamento. No entanto, ele ainda terá uma sobrevida, especialmente nos países em desenvolvimento, da mesma forma como cassetes e vídeo-cassetes ainda são usados na Índia e na África. Até mesmo as periferias brasileiras já usam o CD não para músicas, mas sim para arquivos de MP3, sem falar no uso de DVD-R. O futuro da distribuição musical é digital, o suporte só fará sentido em casos específicos.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
A tendência é a música se distanciar cada vez mais do conceito de mercadoria e se aproximar da idéia de um serviço. O iTunes hoje faz sucesso vendendo música como mercadoria. Mas o site de música que mais cresce no mundo hoje e já está em segundo lugar, chamado E-Music, já vende música mais como serviço: você paga uma taxa mensal e pode fazer um número específico de downloads. O serviço que todos os consumidores gostariam de ter é pagar uma taxa e poder fazer downloads ilimitados de música.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
A principal vantagem é que nada ainda está definido, novas instituições estão sendo criadas. O mais interessante é que a sociedade tem um papel importante a desempenhar nisso: a mídia colaborativa e a produção coletiva de conteúdo tem pela primeira vez a chance de ocupar o papel principal. É o caso da Wikipedia, que já é referência em inúmeros assuntos pesquisados no Google, obtendo mais destaque que sites da mídia tradicional como o New York Times e outros. Mas nada é fácil: está havendo uma reação violenta a essa transformação e a batalha está se travando no campo do direito. A lei está sendo mudada para preservar os modelos tradicionais de mídia.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
A lista é imensa. A música nunca esteve tão bem, em todas as áreas e sobretudo em termos de música experimental e de vanguarda. Dá para dizer que há uma efervescência em todos os nichos. Sou curador do Tim Festival e o principal problema nos últimos tempos é escolher: há tanta coisa boa e interessante que a cada ano torna-se mais difícil fazer as melhores escolhas. Veja o festival do ano passado: jamais uma banda tão nova quanto o Arcade Fire teria esgotado os ingressos tão rápido se as pessoas não tivessem conhecido a banda pela internet.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
A grande novidade da indústria musical é o fato de que o termo “indústria” está se modificando. Diria que hoje dá para falar ir além da idéia de “indústria” e falar em “comunidades”. Essas comunidades, que são totalmente fluidas, constroem ou mantêm nomes novos e antigos independentemente de um planejamento centralizado. Os exemplos são vários: das bandas Arctic Monkeys e Clap Your Hands Say Yeah, que surgiram na Internet, ao Einstuerzende Neubauten, que se mantêm através de um serviço de assinatura oferecido aos fãs através do site. Isso para não falar na emergência da produção cultural das periferias globais, ritmos como tecno-brega, kwaito, reggaeton, cumbia villera, que eu acho a coisa mais importante, chic e interessante que aconteceu desde o tropicalismo.

Ronaldo Lemos é o homem do Creative Commons no Brasil.