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Sobre a música preta no Brasil

A aula nem havia começado e Bernardo Oliveira já erguia as sobrancelhas ao olhar para o material que havia preparado enquanto os alunos entravam na sala: “Matias, não vai dar tempo!”, dizia antes de começar as três horas sem intervalo que havia preparado sobre música negra brasileira dentro do curso História Crítica da Música Brasileira, que estou coordenando no Sesc Pinheiros. Não deu, mas deu: Bernardo nos conduziu rumo a jornada que comparava as culturas de diferentes povos africanos e seu impacto em nossa história – e não apenas cultural. Falando sobre ciência, técnica e tecnologia, mostrou tradições que atravessam séculos mesmo vivendo sob violenta opressão e mostrando como elas moldam o próprio conceito de identidade cultural brasileira. E tome doses pesadas de Clementina de Jesus com audições de rituais de celebração de exu por todo o país, citações de José Ramos Tinhorão, o verdadeiro modernismo do Estácio de Sá, o papel político dos terreiros das tias que abrigavam o samba carioca, loas tecida às transformações em Mario de Andrade e como o termo “funk” está sendo descartado para explicitar a raiz africana deste gênero urbano brasileiro, sendo referido atualmente como “macumbinha”. Bernardo poderia falar mais ainda o dobro de tempo porque assunto e eloquência não faltavam, mas conseguiu condensar as principais problemáticas relacionadas à música negra brasileira, principalmente no que diz respeito ao que pode ser considerado brasileiro ou não. “Racionais é música negra brasileira? Eu acho que é, tem gente que acha que não é”, provocou.

Conjunção de forças

Não estava programado, mas encerrar a segunda aula do curso História Crítica da Música Brasileira, que estou fazendo no Sesc Pinheiros, com um show gratuito do Metá Metá convidando Jards Macalé dentro do festival Mario de Andrade (organizado pela Biblioteca Municipal que carrega o nome do escritor e pensador paulista) no Paço das Artes, no Centro de São Paulo, deu um tempero especial para o sábado frio de São Paulo. E a experiência não é só pessoal, uma vez que tanto Bernardo Oliveira (que deu a aula deste sábado) e Rodrigo Caçapa (que dará a aula no próximo e estava como ouvinte na aula passada) também concluíram essa jornada comigo, como alguns alunos que pude reencontrar entre o público. O show pecou pelo som baixo – nada justifica terem colocado as caixas de PA rente ao chão e não apontadas para o público -, mas a química entre o trio paulistano e o mestre carioca é irresistível. O Metá Metá começou a apresentação sozinho, enfileirando seus hits irresistíveis, todos recebidos pelo público como bênçãos coletivas: “Oyá”, “São Jorge”, “Orunmilá”, “Atotô”, “Cobra Rasteira” e “Vias de Fato”, esta última cantada baixinho pelo público e ganhando sua condição de reza. Depois o trio chamou o velho Macau para o palco, que logo depois assumiu o show sozinho puxando hinos como “Soluços” e “Vapor Barato”, esta tocada ao lado do sax de Thiago França. Kiko Dinucci e Juçara Marçal voltaram ao palco para acompanhar o compadre em outros clássicos, como “Pano pra Manga”, a nova “Coração Bifurcado”, a imortal “Negra Melodia”, composta com Waly Salomão (te dedico, Juliana Vettore), e “Let’s Play That”, que o Metá já toca em seu repertório habitual. Os quatro não resistiram ao clamor do público e voltaram para o bis cantando “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, que transformou o local numa missa sobre a vitória da luz sobre as trevas. Ave música!

Assista aqui:  

Mulheres na produção musical

Em mais uma matéria que fiz para a revista da UBC, conversei com Jadsa, Josyara e Anelis Assumpção sobre uma mudança no mercado de música e no processo criativo da música brasileira deste início de século que é a ascensão de mulheres ao cargo de produtora musical, território dominado pelas três a partir de diferentes experiências pessoais. Leia abaixo:  

E essa joia da Suzy Clue?

Nascida na Albânia e criada em Nova York desde os oito anos de idade, a cantora e compositora Suzy Clue surge no horizonte com um single perfeito lançado nessa sexta-feira 13: “Remember Me” lida com questões amorosas mal resolvidas e pergunta se a pessoa para quem a canção foi feita ainda “guarda minhas fotos em seu telefone?”. Mas o que chama atenção mesmo, além da doçura e candura do vocal de sua autora, é como a canção vai crescendo do que parece ser apenas uma balada metal dos anos 80 para tornar-se um colosso ruidoso entre o indie rock, o emocore e o shoegaze, ecoando referências clássicas dos anos 90 e 00, empilhadas pelo produtor Dan Carey da gravadora Speedy Underground, que também trabalhou com Fontaines D.C., Kae Tempest e Wet Leg . Uma joia – e é só seu primeiro single. Ouça abaixo:  

Rudolph Isley (1939-2023)

Tristeza saber da morte de mais um irmão Isley, Rudolph, fundador de um dos grupos mais importantes de música negra norte-americana do século passado. A princípio formado por Rudolph e seus três irmãos – O’Kelly, mais velho, que faleceu em 1986, Ronald, agora único remanescente da formação original, e Vernon, que morreu ainda nos anos 50 -, os Isley Brothers foram um dos primeiros grupos a aproximar a soul music, o doo-wop e o gospel do novíssimo rock’n’roll nos anos 50, compondo algumas dos primeiros hits do novo gênero, como “Shout” e “Twist and Shout”, duas faixas que ganharam sobrevida na década seguinte ao serem incluídas no repertório dos Beatles, em especial a última, que encerrava o primeiro disco dos quatro de Liverpool e tornou-se um de seus baluartes. Atravessaram os anos 60 com um certo Jimi Hendrix como guitarrista e assinaram com a gravadora Motown, onde emplacaram a eterna “This Old Heart of Mine (Is Weak for You)”. Ao sair da gravadora em 1968, começaram a fazer a transição da soul music para outro novo gênero, o funk, emplacando o hit “It’s Your Thing” ao mesmo tempo em que abriam espaço para os dois irmãos mais novos, Ernie e Marvin e o cunhado Chris, que ajudaram o novo sexteto a garantir seu lugar da década de 70, com os sucessos “That Lady”, “Summer Breeze”, “Pop That Thang”, “Fight the Power” e “For the Love of You”, garantindo seu lugar na história do pop do século passado. Rudolph. que faleceu aos 84 anos, deixou o grupo no final dos anos 80, quando abraçou a vida de cantor na igreja como pastor, enquanto o grupo seguiu na ativa até hoje, com apenas dois outros sobreviventes, Ronald e Ernie (Chris Jasper saiu nos anos 80 e Marvin morreu em 2010). Rudolph morreu dormindo.

A ficção científica de Arnaldo Baptista

Eis a capa do primeiro livro de ficção do eterno mutante Arnaldo Baptista, antecipada em primeira mão para o Trabalho Sujo. ““Eu achei que ficou um apanhado de nebulosas, condensadas num aglomerado, transmitindo uma notícia do que eu queria fazer, que seria uma melhora em função de olhar para o futuro”, explica Arnaldo sobre o design da capa de Ficções Completas, que a editora Grafatório lança no início de dezembro, e que já está em pré-venda em seu site. “Os furinhos na capa do livro são aglomerados de estrelas, né. Adorei a ideia, ficou bem egípcia. E tem ainda a linguagem binária”, conclui o músico, que reúne neste livro três longos contos de ficção científica: O Abrigo, The Moonshiners e Rebelde Entre os Rebeldes, este último o único que já foi publicado. Resta saber para onde a imaginação de Arnaldo viaja quando fala de alienígenas, espaço sideral e questões filosóficas levantadas por este gênero literário: ““O livro fala de retrospecto, evolução e todas as coisas que estão mudando nos últimos tempos”, completa Arnaldo. Veja a capa abaixo:  

Entre o ritmo e o verbo

Quando Nath Calan me explicou a ideia que estava propondo para a primeira das duas apresentações no Centro da Terra seria um concerto de música cênica, apresentando obras que a aproximaram desta escola musical, mencionou os trabalhos que equiparavam timbres de percussão com fonemas, gestos com unidades de ritmo e como isso misturava-se com textos, que também apresentaria enquanto desdobrava em seus instrumentos de percussão: um vibrafone, uma percuteria, uma bateria e o próprio corpo. Mas o impacto dos dez primeiros minutos, quando quase em silêncio, atravessou as duas obras que a trouxeram para este universo (“Silence”, do músico e cineasta belga Thierry de Mey, que gritava sem som que “o silêncio deve ser”, e “?Corporael”, do trombonista e compositor francês Vinko Globokar) e suspendeu até a respiração de todos os presentes, que embarcaram em sua proposta num arrebatamento cênico promovido apenas por uma artista e seu próprio corpo, numa apresentação que estava entre a performance e as artes cênicas, mas transpirava música. E dali em diante, Nath estava com o jogo ganho, percorrendo outros momentos igualmente mágicos, como “Toucher”, também de Globokar, em que um texto da peça Vida de Galileu, de Bertolt Brecht, era lido em francês enquanto cada um de seus fonemas era associado a um timbre respectivo entre os muitos tambores à sua mão. Ao vibrafone, percutiu “A Última Curva”, de Martin Herraiz, para depois percorrer o texto “Lisboa Revisitada”, de Fernando Pessoa, acompanhado do solo de bateria escrito por Moisés Bernardes, voltar ao vibrafone para mostrar sua “Um Pouco de Stela”, escrita a partir de textos de Stela do Patrocínio, e mostrar um texto que leu num livro infantil para seu filho e que transformou-se em “Terra”, tocada enquanto percutia uma cabaça e batia em garrafas e formões pendurados à sua frente. E encerrou a apresentação com dois momentos pessoais. Primeiro ao musicar o texto “Subalternidades do Atlântico Sul”, escrito por seu companheiro Danislau TB (também integrante do Porcas Borboletas, que está voltando!), e depois ao mostrar seu próprio texto musicado em percussão, “Falo”, que puxou mais uma vez à bateria. Uma noite mágica.

Assista aqui:  

Nath Calan: Música Cênica do Princípio ao Fim + As Canções Que Toquei Por Aí

Enorme satisfação de materializar no palco do Centro da Terra não apenas uma, mas duas apresentações solo da sensacional percussionista e baterista Nath Calan, que dividiu seu convite em duas noites distintas. Na primeira delas, neste dia 10, ela mostra sua desenvoltura na área que domina, a percussão cênica, apresentando um concerto que também funciona como um bê-a-bá para quem quiser entender como este tipo de instrumento conversa com o palco do teatro na noite que batizou de Música Cênica do Princípio Ao Fim. Na próxima terça, dia 17, ela abraça sua alma pop ao cantar canções – tocando bateria – de artistas com quem já acompanhou no palco, indo de Maurício Pereira a Porcas Borboletas, passando por Crianceiras, Malu Maria e Fernanda Takai, na noite que chamou de As Canções Que Toquei Por Aí, quando toca com Carlos Gadelha (guitarra) e Eristhal (contrabaixo). Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

A história do fundador dos Rolling Stones: Brian Jones

Apesar de ter entrado para a história como a banda da dupla Mick Jagger e Keith Richards, a verdade é que os dois que mais tarde encarnariam os Rolling Stones, entraram na banda depois que ela foi fundada – e seu fundador chama-se Brian Jones. Foi o guitarrista loiro demoníaco quem vislumbrou a possibilidade de montar uma banda de rhythm’n’blues elétrico em Londres e até Ian Stewart, eterno tecladista da banda que foi limado da formação original porque o primeiro empresário da banda, Andrew Loog Oldham, o considerava grandalhão demais para um grupo juvenil, tocava com os Rolling Stones antes da entrada de Keith e Mick. A aliança entre o vocalista e o outro guitarrista, que fez o grupo começar a compor suas próprias músicas, foi firmada para contrapor o peso da liderança de Brian, sujeito do novo documentário de Nick Broomfield, que dirigiu Kurt & Courtney (1998), Biggie & Tupac (2002), Whitney: Can I Be Me (2017) e Marianne & Leonard: Words of Love (2019). The Stones and Brian Jones contará a história do ponto de vista do Stone mais elétrico, mais endiabrado e mais ousado dos cinco integrantes originais – e como o peso do sucesso foi lhe tirando a importância dentro de sua própria banda. O filme estreará nos EUA em novembro, não tem previsão de lançamento no Brasil (alô In Edit!) e o primeiro trailer traz imagens inacreditáveis de Jones, veja abaixo: