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Impressão digital #0008: O novo clipe da M.I.A.

Holocausto vermelho
M.I.A., Romain Gavras e o videoclipe

Um batalhão de choque entra em um prédio com truculência. Armas em riste, os soldados todos de preto atravessam corredores e abrem portas de supetão, em busca de suspeitos. Arrastam-nos para um ônibus cheios de pessoas da mesma etnia e seguem para um terreno baldio. Crianças atacam o veículo com garrafas. Ao chegar em seu destino, o pelotão tira todos os passageiros do ônibus à força e os põe para correr. Muitos percebem que serão alvejados e hesitam em fugir, até que um dos soldados atira à queima-roupa na cabeça de uma criança. A cena grotesca faz que todos saiam correndo – e, um a um. vão sendo mortos, culminando com uma imagem de uma pessoa sendo despedaçada em frente às câmeras.

Sim, câmeras. O novo clipe da cantora cingalesa Mathangi “Maya” Arulpragasam – ou simplesmente M.I.A – é uma bordoada nos sentidos. Chocante ao extremo, o vídeo de Born Free, divulgado online na segunda-feira da semana passada, não impressiona só por suas imagens fortes. Há uma série de símbolos e valores que permitem alguns níveis de leitura. Os soldados remetem tanto à SS nazista quanto a batalhões de choque do terceiro mundo ao mesmo tempo em que ostentam a bandeira dos Estados Unidos no braço. Os perseguidos pelos quase dez minutos do clipe são todos ruivos.

Mas o assunto aqui não é a mensagem por trás do clipe dirigido pelo filho do cineasta grego Constantin Costa-Gavras, Romain Gavras – mas o fato dos dois artistas (a cantora e o diretor) terem escolhido disponibilizar o clipe (um formato velho) na internet (um suporte novo) para divulgar suas obras.

Porque Born Free não é apenas o primeiro single do próximo disco de M.I.A., ainda sem título, como também é um teaser do próximo filme de Gavras, batizado de Redheads, que deverá ser lançado ainda neste ano. Numa só tacada, os dois chamaram atenção para uma questão política em aberto – a eterna disputa entre os mocinhos oprimidos indefesos e vilões truculentos militarizados – e viraram o centro dos holofotes online e, consequentemente, da mídia.

No que diz respeito ao digital, o principal ponto neste episódio, pelo menos no que diz respeito à cultura e ao entretenimento, é o fato de seus protagonistas terem usado um formato típico dos anos 80 (o videoclipe) como único veículo para essa autopromoção.

O motivo? YouTube, claro – que, ironicamente, tirou o clipe do ar por considerá-lo “violento e pornográfico”. Mas a onipresença do site de vídeos online do Google no dia a dia fez que fosse respondida uma pergunta que ecoava há dez anos: com a ascensão do MP3 o single tornou-se maior que o álbum? Não. Como Lady Gaga havia dito em fevereiro com seu curta Telephone, o clipe é mais importante do que a música em si.

DJ
500 Essential Mix

Criado em 1993, o programa Essential Mix da rádio londrina BBC 1 é um dos mais tradicionais palcos para DJs e produtores de música eletrônica do mundo todo e revelou nomes como Daft Punk, Tiga, DJ Hell e brasileiros como DJ Marky, Twelves e Gui Boratto. Nesta semana o programa chegou às quinhentas edições e a rádio fez um especial para comemorar a data em seu site, disponibilizando versões enxutas dos principais sets para download além de uma linha do tempo com as atrações. Confira em www.bbc.co.uk/radio1/essentialmix/essentialmix500.

Link – 3 de maio de 2010

Eu, robôLink sai do papel na Livraria CulturaBrasil questiona mapa do Google de remoção de conteúdo“Born Free” e a censura do YouTubeO que é e como funciona o TumblrO iPhone do Gizmodo e o sensacionalismo tecnológicoO novo destino dos Papéis do PentágonoO roteiro do último episódio de ‘Lost’ vazou ou foi vazado?TV 3D já tem. Só falta o que verApple x AdobeNo Brasil, Ballmer mostra novo MSN e reclama do governoUma convenção de memes e viraisO dia das mães móveisVida Digital: Marcos Souza, coordenador-geral de direitos autorais do Ministério da Cultura

Jonathan Richman em São Paulo


Jonathan Richman – “Cosi Veloce!” / “Let Her Go Into The Darkness”

Aproveito a deixa do Coachella do Bruno para falar de dois shows que vi nas últimas semanas. O primeiro foi o de Jonathan Richman, pai dos Modern Lovers, um dos sujeitos responsáveis por manter acesa a tocha do foda-se entre o Velvet Underground e os Ramones no início dos anos 70. Desde os Modern Lovers – e isso faz teeeempo -, que o sujeito não volta ao rock de verdade, preferindo ficar na posição de trovador ao violão, cantando músicas próprias e alheias ao violão como um velho bardo da Idade Média enquanto se dirige ao público batendo papo o mesmo tanto que toca música. Além do inglês nativo, Richman já gravou em francês, italiano, espanhol e hebreu, e ele curte a conversa com sua platéia enquanto se apresenta ao lado do baterista Tommy Larkins. Eu já tinha visto o sujeito se apresentando nesse formato em Paris, cidade em que ele tem um culto forte, e o clima de reencontro pairava mais sobre o show do que qualquer outro – eram fãs revendo o velho ídolo de sempre, as músicas completadas pela audiência como um diálogo (veja versão que filmei de “I Was Dancing in a Lesbian Bar“, com um clima quase um karaokê de turma), quase todo em francês. Por isso fiquei curioso – e um tanto quanto cético – quando soube que Richman viria ao Brasil e estava sendo vendido como um velho ídolo punk. Além de ser o oposto do tipo de apresentação que ele faz hoje, some-se a isso o fato de que ele não sabia falar a nossa língua e pronto, tínhamos uma receita para uma falha de comunicação – e não para um diálogo.


Jonathan Richman – “Blowing in the Wind” / “I Was Dancing in a Lesbian Bar” / “Pablo Picasso”

Não que o show não tenha sofrido com isso, mas o atrito foi bem menor do que o possível – e em grande parte devido à benevolência do público, disposto a cooperar. E foi preciso que Richman enrolasse a letra de “Blowing in the Wind” para que os presentes entendessem a lógica do show. Desculpando-se por não falar português com frequência, Richman compensava a falta de entrosamento racional com dancinhas e cocalhos, numa tentativa ridícula – mas felizmente eficaz – de conectar-se com o público. Em vinte minutos todos já tinham entendido qual era – e depois de mais uma hora Richman fechou o show como se estivesse se despedindo de um público que já conhecia faz tempo.


Jonathan Richman – “Arrivederci”

Coachella 2010, por Bruno Natal


LCD Soundsystem…


…Xx…


…Flying Lotus…


…Yo La Tengo…


…Mayer Hawthorne…


…Phoenix…


… Atoms For Peace e muito mais na resenha que o Bruno fez do Coachella desse ano. Confere lá!

LCD Soundsystem – This is Happening

Estou há um tempinho para falar um pouco mais sobre This is Happening, o terceiro disco do LCD Soundsystem. Já havia comentado sobre o ar de tristeza e desilusão que paira sobre o álbum na minha coluna no Caderno 2, mas vale tentar se aprofundar um pouco na aparente exaustão de um dos grupos mais importantes da década passada.

Ouvido de forma superficial, This is Happening parece monótono e repetitivo, mas isso não é a base de toda a lógica por trás do LCD Soundsystem? Tanto hits de pista “Yeah”, “Tribulations”, “Time to Get Away”, “Daft Punk is Playing in My House”, “Movement” e “Losing My Edge” quanto os instrumentais insistentes de “Big Ideas”, “All My Friends” ou da versão para “No Love Lost” do Joy Division têm a repetição exaustiva como elemento-chave em sua construção sonora – sensação que se repete em outras faces do grupo, seja nos remixes, nas discotecagens de Murphy ao lado de Pat Mahoney ou na faixa de 45 minutos que compôs para a Nike. Mas essa repetição não é um conceito próprio. Ela reza num cânone que reflete uma tradição que já ultrapassa décadas e conta a história da reinvenção de Nova York no final do século 20.

Nos anos pós-Watergate, os Estados Unidos aos poucos foram perdendo o brilho reluzente do sonho americano que era vendido para o resto do mundo, desbotando e decompondo em público. E Nova York acompanhava esta decadência, mas enquanto o sorriso de Sinatra cantando “New York New York” e a imponência dos arranha-céus ia murchando (culminando, literalmente, no 11 de setembro), uma nova Nova York começou a se reinventar à partir do pouco que tinha.

É a Nova York multirracial filmada por Scorsese nos anos 70, do hip hop, do CBGB, das festas frequentadas por Andy Warhol, Pelé e Mick Jagger, do grafitti, dos subúrbios decadentes, da cocaína e do crack, dos yuppies e dos portorriquenhos. Toda a materialização vertical da utopia capitalista do meio do século sucumbia ao movimento de outsiders pelas calçadas, nas ruas, no metrô, empurrando carrinhos de supermercado e bebendo algum tipo de álcool em uma garrafa envolta por saco de papelão ou saindo de uma noite inacreditável às seis horas da manhã com uma modelo em cada braço.

Esta nova Nova York tem um período especificamente crucial no início dos anos 80, quando o punk dos Ramones, os resquícios da disco music e o início do hip hop encontram-se entre beats eletrônicos, guitarras fazendo base e muita, muita percussão. Se o pós-punk americano consegue ser radicalmente diferente do britânico (sendo, muitas vezes, resumido como new wave), em Nova York ele ganha características bem específicas, calcadas principalmente no ritmo. Artistas como Liquid Liquid, Bush Tetras, ESG, Newcleus, Y Pants e Arthur Baker são os que melhor sintetizem esta mudança, mas ela ecoa nos descendentes diretos do CBGB (especialmente quando o Blondie chama Grandmaster Flash para tocar em “Rapture” e principalmente nos Talking Heads), nos filmes de Spike Lee e vai descambar na Manchester dos anos 80, quando esta Nova York decadente, mesmo que imaginária, vira uma espécie de luz no fim do túnel da banda que sobrou após a morte do Joy Division (não dá para separar a ascensão do New Order e a criação da acid house inglesa sem a influência da grande maçã).

Eis todo evangelho do LCD Soundsystem, a Paixão perseguida por James Murphy. Esse imaginário reverbera tanto na estética de seus próprios álbuns – o globo espelhado no fundo branco da capa do primeiro disco, o “som de prata” que batiza o segundo – quanto ao compor um novo e desiludido hino para sua cidade (“New York I Love You But You’re Bringing Me Down”), mas principalmente propulsiona o grupo como força-motriz. O ritmo portanto é robótico e emborrachado ao mesmo tempo, repetitivo e percussivo, estéril e oco como estética. Lembre-se que esta Nova York é a mesma do Velvet Underground, da no wave e que Yoko Ono viu John Lennon ser assassinado – não espere que ela seja agradável e receptiva.

Gravado em uma mansão em Los Angeles, This is Happening é, mais que os discos anteriores, uma tentativa de recriar esta Nova York à distância para que Murphy siga lamentando que a cidade que chama de lar já não é o que ela foi um dia, com músicas que vão muito além dos quatro ou cinco minutos habituais da canção pop. “Ninguém mais é perigoso”, resmunga em “One Touch”, enquanto pede para ir para casa em “All I Want” (que soa como se “Hey Mr. Rain” soaria se tivesse sido composta pelo New Order) – e isso num disco que encerra com uma música chamada “Home”. “You Wanted a Hit” – com nove – acaba funcionando como miolo do disco, mesmo anticlimática e reclamona. Ele não está só negando o hit, mas também a necessidade de ser legal – “We won’t be your babies anymore”, despreza, acrescentando uma única condição, “til you take us home”, sobre riffs de rock, solo com microfonia, grooves cíclicos sintéticos e teclados ambient.

This is Happening, portanto, é repetitivo por definição, como se cada beat anunciasse a chegada do agora, sem se preocupar com passado ou futuro. Carrega a mesma tensão já associada ao LCD Soundsystem desde os primeiros singles, mas também uma melancolia quase infantil, como se James Murphy quisesse recobrar a periculosidade que sua própria cidade lhe transmitia quando começou a gostar de música. E este sentimento não é exclusivo dele.

Como assim, Krautrock?

Krautrock foi o nome que a imprensa inglesa – rótulo martelado com insistência por John Peel – deu às bandas alemãs que começaram a aparecer a partir do fim dos anos 60, mas em vez de republicar mais uma vez o texto que fiz sobre o gênero, vou apenas linká-lo enquanto também os redireciono para o torrent do documentário Kraftwerk and the Electronic Revolution me sugerido pelo João no post original.

Em tempo: “Kraut” pode ser visto como uma forma pejorativa de se referir aos alemães (“Sauerkraut” é o nome original do chucrute) como também é uma piadinha de duplo sentido com a onda viajandona daquela geração, pois, traduzido do alemão, “Kraut” quer dizer “mato” – e era como os contemporâneos do krautrock se referiam à maconha.

Neu!?


Trecho do documentário Krautrock: The Rebirth of Germany, da BBC

Se você nunca ouviu falar no Neu!, talvez esta seja a melhor época para conhecer o grupo (além da época em que a banda estava na ativa, mas aí você tinha que estar na Alemanha no início dos anos 70). Afinal, ele reencarna com esta formação chamada Hallogallo para uma turnê nos EUA (será que algum produtor brasileiro se anima? Psicodelia minimal barulhenta!) como uma forma de divulgar a caixa definitiva com todos os trabalhos do grupo, incluindo um monte de coisas inéditas.

Michael Rother e Klaus Dinger entraram no Kraftwerk quando o grupo havia acabado de sair da sua fase rock progressivo e começava a se dedicar ao ritmo eletrônico e robótico. Resumido à dupla Ralf Hutter e Florian Schneider, o antigo Organisation adotava um nome essencialmente alemão (“usina de força”) e chamaram primeiro um baterista, Klaus, que depois chamou seu amigo Florian para consolidar o novo grupo. Juntos, gravaram dois discos – mais tardes conhecidos apenas como Kraftwerk 1 e 2, que contam com cones de trânsito, um vermelho e outro verde, em cada capa dos discos – antes das duas duplas se separarem. Ralf e Florian lançaram mais um disco (batizado apenas com o prenome dos dois, tipo dupla sertaneja) antes de chamarem outros dois músicos para oficializar sua carreira robótica, iniciada em Autobahn.

Thomas e Klaus seguiram para um caminho mais perigoso e radical. O Kraftwerk havia encontrado rumo no ritmo repetitivo e mecânico que seria o percurso de todos seus discos até hoje e passeia por paragens conhecidas (auto-estradas, ferrovias, o meio digital, a bicicleta, a tecnologia biônica, a energia nuclear) observando-as à distância, quase alien, melancólico, frio, paranóico e distante, mas apreciando a poesia dos ciclos de repetição criados pelos seres humanos. Já o Neu! preferia conduzir este mesmo ritmo – preciso e interminável – para os limites explorados pelo krautrock, O rock alemão dos anos 70 ganhou fama por experimentar fronteiras sônicas que expandiam o conceito da psicodelia para dentro dos conservatórios e para a selva, duas influências explícitas deste gênero. O Neu! ia para os limites de ambas e o barulho – elétrico, eletrônico, humano – era só a textura em que se sentia mais à vontade. A banda durou três discos e fechou as portas nos próprios anos 70, cada uma de suas metades seguindo rumos paralelos: Thomas seguiu carreira solo e Klaus juntou-se ao La Düsseldorf. Quando esta banda terminou em 83, os dois voltaram a se falar e voltaram a gravar juntos, produzindo um disco (Neu! 86) que só foi ver a luz do dia na forma de piratas nos anos 90.

Durante esta década, a influência da banda passou a ser assimilada principalmente entre bandas de rock alternativo nos Estados Unidos e indies ingleses e os discos da banda, que não eram relançados desde 1983, tornaram-se raridade, objetos de culto e, inevitavelmente, reedições piratas. As tentativas de relançar oficialmente o catálogo do Neu! sempre foi motivo de briga entre Klaus e Thomas, que só conseguiram chegar a um acordo sobre os relançamentos em 2001. A partir daí, os dois voltaram a tentar colaborar juntos, sem sucesso. Até que Klaus morreu em 2008, aos 61, de ataque do coração.

A nova caixa, que será lançada este mês, conta com os três discos originais (Neu!, Neu! 2 e Neu! 75), e dois discos que não foram oficialmente lançados (um maxi-single de 72 e Neu! 86), todos em vinil, um livro de 36 páginas e um estêncil para quem sempore quis grafitar o logotipo da banda por aí sair pintando Neu! pelas paredes da vizinhança. Maiores detalhes sobre a caixa no site do grupo.