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“Let Go”

Só falta o Comentando Lost entrar no ar para fecharmos de vez a tampa do Lost. Mas como eu avisei, o ritmo do Trabalho Sujo segue devagar porque daqui a pouco – antes da Copa? Espero – temos grandes novidades aqui nOEsquema. Essa semana também sigo no ritmo lento, sem pressa pra nada, Twitter desligado a não ser bata a saudade e Vida Fodona reposicionado às terças-feiras.

Certo? Já já eu volto…

O fim de Lost por Gabriel Ritter – II

Citando Fellini:

Você fez a coisa certa. Esse é um grande dia pra você. Foi uma decisão difícil, eu sei. Mas nós, os intelectuais – porque eu te considero um -, temos o dever de permanecer racionais até o mais amargo fim. O mundo já está lotado de coisas supérfluas – não há sentido em adicionar mais uma na multidão.

Afinal, perder dinheiro faz parte do trabalho de um produtor… parabéns, não havia alternativa. Ele teve o que mereceu por embarcar tão levianamente em tão frívola aventura. Não tenha receio ou arrependimento. É melhor destruir do que criar, quando se falha em criar aquilo que é mais essencial.
Além disso, há realmente algo que seja tão claro e justo a ponto de ter o direito de existir? Um filme ruim é simplesmente um problema financeiro para ele. Mas para você poderia ter sido o fim. É melhor deixar as coisas irem embora e jogar sal sobre elas como os antigos faziam para purificar os campos de batalha… afinal, tudo o que precisamos é um pouco de higiene, limpeza, desinfetante… porque estamos sufocados por palavras, imagens e sons que não têm razão de ser… que vêm de lugar nenhum e vão para lugar nenhum. Um artista que seja realmente digno do nome deveria ter de realizar um único ato de lealdade: restringir-se ao silêncio. Lembra-se da eulogia de Mallarmé à página branca…?…

– Nós estamos prontos para começar!… Todas as minhas felicitações!

– … se não se pode ter tudo, nada é a verdadeira perfeição. Perdoe-me essas citações, mas nós críticos fazemos o que podemos. Nossa verdadeira missão é limpar os inúmeros abortos que obscenamente tentam invadir o mundo. E você gostaria de deixar atrás de si nada menos que um filme inteiro, como um homem coxo deixaria impressas suas pegadas deformadas? Que presunção monstruosa crer que os outros se beneficiariam de alguma forma do esquálido catálogo dos seus erros. Por que você deveria se importar em costurar os retalhos da sua vida, as vagas memórias e os rostos das pessoas que você nunca foi capaz de amar?

– “O que é esse clarão de alegria que está me dando nova vida? Por favor me perdoem, doces criaturas. Eu não me dei conta, eu não sabia… Como é certo aceitá-los, amá-los. E como é simples! Luisa, eu sinto como se tivessem me libertado. Tudo parece lindo, tudo tem um sentido, tudo é verdade. Ah, como eu queria poder explicar…! Mas eu não posso… e tudo está voltando ao que era. Tudo está confuso novamente… mas essa confusão sou eu. Como eu sou, não como eu gostaria de ser. E, agora, não tenho medo de contar a verdade, o que eu não sei, o que eu procuro. Só assim posso me sentir vivo e olhar nos seus olhos fiéis sem sentir vergonha. É uma festa, a vida. Vivamo-la juntos. Não posso dizer mais nada, para você ou para outros. Aceite-me como eu sou, se puder. É só assim que nos podemos tentar encontrar um ao outro”.

– Não sei se você está certo. Mas posso tentar, se você me ajudar.

Sim, é uma comparação hiperbólica e aparentemente absurda. Mas não, não é paródica. Eu realmente acredito na semelhança entre os dois. Não me parece uma associação infundada. Porque ambos realmente me atingem de maneira parecida, as duas cenas me causam reação similar (sim, sim – as lágrimas).

Claro, o final de Fellini é perfeito, genial, obra-prima. E o de Lost tem algo de brega, de over, de desajeitado, de confuso. “Mas” – foi o próprio Fellini quem o disse, e eu não poderia pôr de outra maneira – “essa confusão sou eu”.

* Gabriel citou este trecho em seu blog.

O fim de Lost por Alexandre Matias

Foi certo Lost terminar como uma grande novela das oito. Afinal, a série foi isso durante estes seis anos, é por isso que ela conseguiu o alcance que teve. Se não tivesse o elemento Janeth Clair (mais do que Manoel Carlos ou Gloria Perez, como alguns citaram, meros amadores na arte cada vez mais, er, perdida de escrever uma telenovela), Lost seria uma série que falaria com um público específico, uma tribo. Seria cult, alternativo, cool, nerd – seria uma realidade paralela. Como toda a obra de J.J. Abrams, Lost pegou uma fração específica de um nicho e deu-lhe uma noção épica, monumental. “Dar tratamento A à cultura B”, como ele mesmo diz, com freqüência. E quando pensamos que Lost é uma mistura de Além da Imaginação com um reality show numa ilha deserta, tendemos a nos animar com o lado do seriado de Rod Serling, esquecendo que é a novelinha e os personagens que tornam a série tão importante.

Essa história foi encerrada em The End, seu último episódio, que junto também trouxe uma pontada de frustração por não responder as tais inúmeras perguntas abertas pelo seriado semanalmente. Mas como Across the Sea, o antepenúltimo episódio, que já havia causado cisão entre os fãs, The End não estava preocupado com as respostas. E, como em quase toda duração da série, ambos episódios não esclareceram nada, funcionaram apenas como uma amostra do poder narrativo de Lost, enfileirando questionamentos vagos à medida em que traduzia os sentimentos dos protagonistas – que poderiam ser resumidos no título da série, a sensação de estar perdido, e não apenas geograficamente.

Este sentimento não era exclusivo dos personagens – era também nosso. Passamos seis anos perdidos numa ilha maluca que muito de vez em quando dava alguma amostra de racionalismo. Seis anos perseguindo números, constantes, equações, cronologias, efeitos especiais, coincidências e linhas do tempo que nos fizeram crer que a ilha fosse o paraíso perdido, uma nave espacial, o oco do planeta, uma dimensão alternativa, um estado de espírito, uma anomalia eletromagnética, um lugar místico. Ilha que já colheu gente de todas as épocas e lugares – de adoradores das divindades do Egito antigo a cientistas e militares norte-americanos – e que por seis anos (três, na contagem cronológica da série, entre 2004 e 2007) foi palco para o drama dos passageiros do vôo 815 da Oceanic Airlines. E para o nosso drama também, como telespectador.

Eis o trunfo de Lost: nos colocar como participante da viagem. O tempo todo sabíamos que o que acontecia na ilha era ficção, não havia como confundir ator com personagem e havia um próprio subtexto na produção da série – o blog de Hurley, a transformação de Damon e Carlton em ícones pop, as entrevistas de Michael Emerson – que fazia questão de nos lembrar que estávamos apenas acompanhando uma novela e que o ator que fazia o vilão não era, de verdade, um vilão. Por mais ridícula que esta afirmação possa parecer, lembre-se que estamos na era dos reality shows e torcidas são organizadas em torno do caráter – ou a falta de – de qualquer participante deste tipo de programa, esteja cantando, dançando, cozinhando ou simplesmente discutindo o nada com outros tipos sem graça.

Lost esfregava ficção em nossa cara ao mesmo tempo que nos deixava tão atônitos quanto o estado de seus personagens. E enquanto os personagens só começaram a experimentar as viagens no tempo a partir da quinta temporada, nós estamos sendo submetidos, desde a primeira, a flashbacks e flashforwards na vida de cada personagem, que nos deixaram tão desorientados a ponto de sermos lindamente driblados no final da terceira temporada.

The End nos ajudou a nos reencontramos com a essência de cada personagem – explicando, assim, a função dos flashsideways. Mais do que o “purgatório” visto com esgar pela parte dos fãs do seriado que se sentiram traídos, a realidade paralela criada nesta temporada serviu para que voltássemos a nos encontrar com os personagens da primeira temporada, aqueles que foram importantes no período em que Jack esteve na ilha (que, não custa lembrar, existiu, existe e continua existindo – a ilha em si não é um purgatório, como interpretações ainda mais apressadas tentaram provar). Os personagens que deram origem à história que assistimos.

Aos que reclamaram do final, exigindo respostas, não custa lembrar que a ficção científica também aborda a questão do pós-vida e que a metáfora de uma realidade exatemente idêntica à que vivemos é tema recorrente até neste meio. É uma ficção científica, no entanto, espiritualizada e epitomizada em um autor que, de tão específico, não pertence a nenhuma escola: Philip K. Dick. PKD usava ficção científica para discorrer sobre filosofia e, mais tarde em sua bibliografia, espiritualidade. Viciado em drogas para manter-se acordado e escrevendo, K. Dick teve a própria sanidade posta em xeque quando, no meio dos anos 70, viveu um delírio em que acreditava viver duas épocas ao mesmo tempo (história que o R. Crumb conta com maiores detalhes na tradução que fiz para A Experiência Religiosa de Philip K. Dick). Profundamente abalado por estas visões, K. Dick passou a buscar o sentido da vida em livros quase cifrados – como Ubik e Valis -, em que discorre sobre o que acontece depois da morte indo para além das metáforas religiosas, mas sem se distanciar das referências terrenas. Daí a igreja com seu vitral ecumênico na última cena.

Mas Lost não terminou de maneira espiritualizada e mística, pura e simplesmente. Retire todos os flashsideways e a rendenção final de Jack Shephard e eis a história dos passageiros do Oceanic 815 na ilha, contada desde sua queda até a fuga. Do confronto final entre Jack e Locke (na mesma chuva negra do último duelo entre Neo e Smith em Matrix Revolutions, a série se autoironizou até os últimos minutos) ao sacrifício feito por Jack (Donnie Darko feelings) para restaurar a luz do coração da ilha (puro Disney) até o último fechar de olhos na última cena, toda a história do Jacob e de seus candidatos foi contada. Alguns morreram, outros fugiram, mais outros ficaram. Sem o flashsideways, no entanto, não teríamos a citação de Ben e Hurley à série O Prisioneiro, ao se referirem como “número 1” e “número 2” e saudarem-se com um parente do “be seeing you” – e fico imaginando a reação de quem não gostou do fim de Lost com o fim do Prisioneiro (não o remake americano, tou falando do original inglês)…

(Lost ainda termina com a troca de cargo, deixando o pacato Hurley para tomar conta da ilha que equilibra a bondade do mundo. Há um subtexto maior aí, de que o mundo em que vivemos era regido por um personagem em plena vingança contra seu irmão – e que agora está nas mãos de um gordo gente boa.)

Assim, Lost não foi só uma história que ouvimos, mas que vivemos. Uma experiência coletiva que gerações seguintes apenas poderão imaginar – e comemorar quando, décadas no futuro, alguém explicar os números ou a segunda canoa ou quem é aquele povo dizimado pela mãe dos gêmeos ou contar a história dos DeGroot, entrando assim, para um cânone que começou quando ele nem havia nascido. Quando resumirem Lost em uma frase no futuro (“todos morrem no final” – mas esse não é o spoiler da vida?), a ironia por vir não dará conta das teorias imaginadas e da busca por referências, numa capa de livro, num recado por escrito, num gesto, que vivemos nos últimos seis anos. Lost foi como se pudessem medir a audiência de um seriado que era ao mesmo tinha a densidade dramática de um seriado novelesco (pense em A Sete Palmos) e tensão paranóica e pseudocientífica de uma série geeek (por exemplo, o novo Battlestar Galactica) segundo a segundo, mesmo após a exibição dos episódios. Mesmo após a exibição do último episódio.

Foi bom enquanto durou. Agora, como nos avisaram, é hora de deixar ir – e seguir em frente.

Vambora.

O fim de Lost por Chico Barney

Lost seguia a lógica de entretenimento de uma montanha-russa. Quanto mais loopings tivesse um episódio, mais querido pela audiência ele seria. E o último episódio teve tanto disso que muita gente tá vomitando até agora.

O programa foi fiel ao seu preceito mais básico, o de não explicar coisa nenhuma. Desse jeito, as discussões sobre o final da série vão muito além do “gostei / não gostei”, o que condiz bem com o que foi Lost durante essa formidável jornada.

Outro detalhe incrível foi que Lost evidenciou a fraqueza do ensino básico brasileiro, levando em consideração a dificuldade de compreensão a respeito do momento em que os personagens estavam vivos ou mortos.

Para ajudar no brainstorm do Matias, incluo aqui uma canção do grupo Pixote que, no final dos anos 90, já anunciava como seria o final de Lost. Prestem atenção na letra.

* Chico Barney escreveu este texto pra cá.

Mad boy

Com atraso, comecei a ver Mad Men. Depois eu conto. A imagem vem daqui.

O fim de Lost por André Toso

Transmitido no último domingo, o capítulo final de Lost foi um dos maiores acontecimentos da história da televisão. Primeiro, pelos motivos óbvios: foi o primeiro programa de televisão que não foi só um programa de televisão. Ao utilizar ferramentas da Internet e ser maciçamente assistido pela web, a série marca o início da transição natural de uma mídia ultrapassada para outra mais moderna. O segundo motivo é pelo frisson causado, que criou uma ansiedade que eu confesso nunca havia sentido antes. O terceiro motivo, ligado intimamente ao anterior, diz respeito ao roteiro monstruoso criado pelos roteiristas. Para quem gosta de uma boa ficção, Lost entra para a história ao lado das melhores produções de todos os tempos. Um enredo único e impossível de ser repetido. Os recursos narrativos, recortando presente, passado, futuro e até um tempo inexistente e atemporal, dificilmente poderão ser utilizados tão cedo por outra série, filme ou livro. Por isso, Lost é um marco da narrativa audiovisual. Quem assistiu a série inteira foi testemunha de uma revolução de contar histórias que só deve ser sentida daqui alguns anos.

Mesmo com todas essas qualidades, o final de Lost foi brutalmente criticado por boa parte do público. A principal reclamação: as questões não foram respondidas. E é verdade: muitas das perguntas e dos mistérios arquitetados pelos roteiristas ficaram no ar. O que as pessoas não entenderam, porém, foi que era exatamente esse o objetivo da série: fazer as pessoas pensarem, deduzirem coisas, imaginarem, viajarem na maionese mesmo. Enfim, deixar o telespectador perdido. O final de Lost teve por objetivo incitar as pessoas a pensarem além da realidade plana, chata, linear e reta. Isso, mais do que tudo, é entretenimento de qualidade. O telespectador assistia um episódio, ficava com 100 perguntas na cabeça. No próximo episódio, 80 dessas questões eram brilhantemente respondidas, mas outras 150 questões eram levantadas. E isso seguiu até a última cena da série. Lost não foi uma história de respostas. Foi uma série de perguntas que levam a boas respostas que levam a outras ótimas perguntas. Exatamente como as nossas vidas.

O sucesso da série se explica exatamente pela ânsia do ser humano por respostas. Lost utilizou todos os recursos que nos deixam perdidos em relação à própria existência: a força da natureza, os mistérios das religiões, das tradições, da física, da filosofia, da psicologia e, acima de tudo, as incríveis contradições do comportamento humano. A série, no fundo, é centrada nos personagens e em seus conflitos. A ilha só serve como metáfora da absurda condição humana e dos mistérios existenciais a que estamos submetidos. Uma metáfora, aliás, muito bem executada.

O mais interessante em Lost, sem dúvida, foi a descoberta gradual das características de cada personagem. Um avião cai em uma ilha, algumas pessoas sobrevivem e não sabemos nada sobre elas. Enquanto isso, os roteiristas voltam no tempo e contam como era a vida de cada uma daquelas pessoas antes do acidente. Aos poucos, as máscaras vão caindo e conhecemos o temperamento de cada um. Depois, os roteiristas nos mostram o futuro após alguns terem saído da ilha. Em seguida, voltam para um passado remoto para logo criarem uma realidade paralela àquela da ilha (em uma explicação rasa da total falta de temporalidade para quem não assistiu). Ou seja, uma narrativa totalmente retardada e de difícil execução e assimilação. Mas, mesmo assim, os roteiristas amarraram tudo de forma magistral. As pontas soltas foram inevitáveis para sustentar toda essa loucura hipnotizante.

O fim escolhido pelos produtores da série foi totalmente compatível com as seis temporadas e passou a perna em todo mundo. Se fizessem um bolão ninguém acertaria exatamente o que aconteceu no fim. Quem assistiu a todos os episódios da série provavelmente percebeu, após muito pensar, que não havia melhor forma de encerrar a história. Com esse final – que não conto para não estragar a graça daqueles que não assistiram ainda – um dos pontos mais interessantes da série foi denotado: Lost sempre oscilou na medida certa entre um drama humano e uma ficção cientifica com pitadas de misticismo. No início, pensamos que o que ocorre na ilha é real e não têm ligações espirituais ou de naturezas estranhas. Com o passar do tempo, alguns absurdos aparecem e começamos a pensar em coisas anormais naquela ilha. Os roteiristas a todo o momento jogam com a razão e a emoção do telespectador. Explica-se algo de forma racional, mas essa mesma explicação levanta uma possibilidade fantasiosa. O contrário também ocorre: algo fantástico parece que vai acontecer e aí trombamos com a frieza das coisas exatas. Realidade e fantasia se confundem. Exatamente como em nossas vidas.

E o mais legal é que vamos descobrindo tudo isso junto com os personagens, que também estão perdidos. Ou seja, eles estão perdidos, nós estamos perdidos, às vezes até os produtores parecem meio perdidos. Aquela realidade absurda deixa a todos desorientados e sedentos por explicações racionais que não existem. Os simbolismos, as citações e todo o universo da série colaboram para construir essa narrativa que nos tira do eixo. A série prova que apenas as explicações racionais não são suficientes para a sede humana por respostas. Precisamos criar e fantasiar para viver de forma suportável. Realidade e fantasia têm a mesma importância e o mesmo efeito sobre o homem ao longo dos anos. Na verdade, como hoje sabemos, a fantasia é ainda mais constituinte de nossa realidade do que a razão. Na maior parte das vezes, a razão é apenas uma máscara superficial que esconde uma loucura preocupante. A vida de um homem, por mais que ele disfarce, é toda orientada por suas emoções.

E, no final, para que respostas exatas? Existem essas respostas? Leia um livro de Stephen Hawking e você descobrirá que as respostas são absurdas e sempre nos levam a outras perguntas ainda mais absurdas. Como explicar, por exemplo, o motivo de uma onda do mar estourar nas areias da praia? Sei lá, o cara faz uma teoria sobre as fases da lua, sobre a gravidade e me responde com exatidão. Tudo bem. Mas porque ocorrem as fases da lua? E como funciona a gravidade? Depois de respondidos, esses questionamentos se desdobram infinitamente. Isso é Lost. Isso somos nós aos quatro anos de idade fazendo perguntas sobre tudo. E, convenhamos, não deveríamos mais ser crianças e admitir logo que nunca teremos todas as respostas. Um mistério respondido sem deixar questionamentos não é um mistério, é uma ficção das mais inverossímeis.

Resta refletir sobre os motivos de exercemos a fantasia de procurar respostas mastigadas e lineares, frias como uma realidade utópica que não existe. Será que é exatamente por ainda sermos aquela mesma criança de quatro anos de idade? Correr atrás de repostas é realmente o que nos leva para frente, nos faz querer criar e viver apaixonadamente. Mas precisamos entender que não podemos esperar nada dessas respostas. Quanto mais sabemos, mais ignorantes ficamos. Quanto mais respostas, mais perguntas. Essa é a graça da vida, essa foi toda a graça de Lost: correr atrás de perguntas sem respostas. É como a história do rapaz que encontra um papel em que está escrito: “Não acredite no que está escrito do outro lado, é falso”. Vira o papel e lê: “Não acredite no que está escrito do outro lado, é falso”. O que devemos levar em consideração? O real ou o fantasioso? Puxa, olha aí mais uma pergunta. Alguém tem uma boa resposta?

* André Toso publicou este texto em seu blog.

O fim de Lost por Bruno Knott

Lost sempre foi um dos meus seriados preferidos. Minhas expectativas para o episódio final eram enormes.

Boa notícia: fui correspondido de maneira exemplar. Eu esperava algo excelente, algo digno de todo o seriado e sua reputação. Foi isso o que tive e muito mais.

Não consigo entender a ânsia de boa parte do público em ter todos os mistérios resolvidos. Dêem um tempo, por favor. Que graça teria se tudo fosse explicado por A + B? É tão bom poder bolar teorias próprias e discutir com os outros a respeito delas.

O importante é que os criadores conseguiram juntar as pontas mais relevantes neste season finale. Tenho a convicção de que o plano era esse desde o começo.

SPOILERS à frente.

Então, os flashsideways nada mais eram que o próprio purgatório, o próprio limbo! Por essa eu não esperava, mas devia. Mais uma vez, Damon Lindelof e Carlton Cuse criam algo de impacto e que faz todo o sentido. Como não pensei nisso antes?

O que é Lost se não um seriado que mostra diversos personagens convivendo, brigando, amando, criando amizades profundas e evoluindo (ou não) como seres-humanos? Além disso, há uma ILHA, que na verdade é um personagem, cheia de seus mistérios e com uma mitologia particular.

Por 6 anos acompanhamos essa história brilhante, que nunca deixou de empolgar, seja pela complexidade dos personagens, pelos mistérios intrigantes e pelas mudanças estruturais pela qual a narrativa passou. Que outro seriado nos ofereceu flashbacks, flashforwards e flashsideways?

Flashsideways? Não.

Este final veio nos mostrar a inexorabilidade do tempo. Não importa como, onde ou quando. Todos estamos fadados ao mesmo destino. A morte. E infelizmente, nossos queridos Losties não fogem a esta implacável regra.

Foi extramamente emocionante acompanhar Desmond ajudando os outros a se lembrarem de suas vidas antes da morte. Cada uma destas cenas é carregada de muito sentimento, nos fazendo pensar durante alguns segundos sobre tudo o que vimos durante esses 6 anos.

O diálogo entre Jack e o pai se revela como um dos melhores momentos de todo o Lost.

Assim como a cena final.

Caramba.

Havia melhor maneira de fechar o arco?

Jack, cambaleando, deita-se na floresta para morrer. Vincent aparece e permance ao seu lado. Seus olhos se fecham.

Uma rima absurdamente inteligente e comovente. Impossível não sentir alguns calafrios com isso tudo.

Alguém esperava mais?

Nota 10.

* Bruno publicou este texto em seu blog.

O fim de Lost por Diego Souza

de todas as teorias mais sinistras, mais engenhosamente brilhantes concebidas por fãs apaixonados por lost, nenhum final poderia ser melhor do que o final feito por cuse e lindelof. dificilmente alguma outra coisa poderia significar uma reviravolta tão drástica do que aquela ocorrida no “flashsideways”, e tão surpreendente também.

novamente vejo um series finale intenso que lida tão bem com o assunto mais delicado para o ser humano: a morte. digo isso porque assisti six feet under e o abalo que senti nos minutos finais de lost quase se compara ao estado de choque em que fiquei ao final da série da hbo. lembro que quando assisti “everyone’s waiting”, o final de sfu, não consegui me mexer. ou melhor, eu não queria me mexer, não queria me levantar. tive que esperar alguns minutos para recobrar a coragem e seguir com a vida (além de tudo, ainda tinha uma vida pra viver!). tive que me recompor. tive que chorar tudo antes. e então a gente percebe a importância de tanta dor: nos tornamos mais fortes. vale a pena estar vivo. aliás, é um momento extremamente tocante quando richard confessa ao ver um cabelo branco: “só agora me dei conta de que eu quero viver”.

nesse último episódio de lost nem sei quantas vezes eu chorei. chorei primeiro quando hurley encontrou charlie no “flashsideways”, a felicidade contida dele, dava para ver nos olhos o quanto hurley queria abraçar o velho amigo, e depois voltei a me emocionar no final quando descobrimos o real e inestimável valor daquele encontro. aliás, a cada encontro que devolvia as lembranças dos personagens era difícil conter as lágrimas, e finalmente o desfecho de jack naquela realidade foi arrasador.

foi realmente gratificante que o final tenha sido “humano”, antes de objetivo ou científico. se a primeira temporada eu detestei justamente porque eu achava perda de tempo as histórias pessoais em vez do foco nos mistérios da ilha, esse episódio só veio para constatar minha estupidez daquela época. nada em lost é tão importante quanto as pessoas individualmente. não fosse a humanidade com que os criadores desenvolveram seus personagens no início (e durante toda a série também, é claro, mas com especial cuidado no início), jamais seria satisfatório o desfecho da história.

por causa disso, somos parte da história. somos parte da redenção dos personagens, somos parte da felicidade dos personagens, somos parte da tragédia dos…

tsc… “personagens”. dessas pessoas, eu quero dizer. pessoas.

de repente me sinto como o rodrigo de clarice lispector. só agora lembrei que as pessoas morrem.

enfim…

não encontro modo de expressar minha enorme gratidão a todos os responsáveis pela série. é realmente gratificante poder ser levado dessa forma por uma história.

e ser mudado por ela.

* Diego publicou este texto em seu blog.

O fim de Lost por Camila Saccomori

Eu me lembro quando a série começou, em 2004, e as primeiras teorias sobre Lost começaram a pipocar nas publicações gringas. Assim que começou a fazer sucesso e merecer teorias mirabolantes, uma das primeiras hipóteses era a do “purgatório” (junto a outras que diziam que a humanidade foi extinta ou que era tudo uma alucinação ou que era um projeto científico). Venceu a primeira alternativa, o “purgatório adaptado” ou uma espécie de limbo necessário antes de se atingir a redenção. No eterno dilema entre fé x razão, a primeira levou a melhor.

A quem pensava (como eu) que a ciência explicaria tudo resta um grande “só lamento”. Mas não é difícil compreender esta explicação do final e fazê-la encaixar com todas as seis temporadas anteriores. Pensando bem, quem acreditou nessa hipótese durante toda a duração da série deve estar com um grande sorriso no rosto até agora. E, ah, como eu queria nunca ter desistido desta ideia! Ok, os produtores sempre negavam a teoria (e caso eles admitissem, vamos combinar que seria chatíssimo ter um “spoiler oficial”).

Também não é difícil aprovar esta escolha para solucionar a série. É claro que uma solução narrativa considerada “fácil” – tão fácil quanto dizer “era tudo um sonho”, justamente o final proposto por Stephen King quando questionado sobre como ele terminaria Lost se fosse o autor. No entanto, o “fácil” mesmo é criticar sem dar uma segunda chance para a compreensão total da série. Lost não seria Lost se não precisasse de textos intermináveis para ser explicada. Tampouco há certo ou errado em se tratando de Lost, pois o fã faz o seu próprio sentido (gostando ou não da série).

Nada nunca foi mastigado na série. Não seria no momento final que isso mudaria.

***

Desde o primeiro episódio da primeiríssima temporada, quando fomos apresentados à estrutura narrativa principal de LOST – os tais “flashbacks” – estávamos conhecendo o passado de cada um dos personagens. Seus erros e seus fantasmas que os perseguiam no momento da queda do avião da Oceanic, voo 815, tudo estava lá. Na ilha, de um jeito ou de outro, cada um dos personagens conseguiu “expurgar” os esqueletos no armário ou trabalhar seus problemas. Essa seria uma das interpretações.

A quem já chegou neste parágrafo pensando “que bobagem”, tomo como exemplo o próprio Sayid, uma recente “redenção” que ficou marcada na memória dos lostmaníacos. Mesmo após ter morrido, voltado à vida de forma misteriosa no templo e ficado meio zumbi, o iraquiano conseguiu salvar muitas pessoas. No passado, havia tirado muitas vidas. Seria, pela lógica do purgatório/limbo, uma maneira de “compensação”.

A cada minuto que penso na solução do purgatório as coisas começam a fazer sentido. O avião caiu, os personagens ficaram vagando pela ilha (como alguns até hoje estão lá sem conseguirem “se libertar”, conforme as explicações do que são os “sussurros”) e cumpriram sua pena para terem direito á passagem para outro lugar/outro mundo/outra dimensão. Os flashsideways representariam isso, então: um limbo antes da redenção final. Não gosto de classificar como “céu ou inferno”, ainda que estas serão expressões muito citadas nos próximos dias. Quando os losties estão reunidos naquela espécie de igreja, fica claro que a cruz que cada um carregava já não importa – e eles estão prontos para o próximo passo.

Nesta simbologia identificamos ainda a presença de certos personagens como “seres especiais” que ajudaram os losties a cumprirem essa jornada. Citaria Desmond como o principal – coube a ele resgatar um a um os “passageiros” e guiá-los para a tomada de consciência (com cenas emocionantes de cada um lembrando de sua história na ilha). Também outros como Charlotte, Faraday e Miles (que não tiveram essas “visões” no flashsideways e que foram parar na ilha para ajudar os losties) se encaixariam nessa teoria de ajudantes. Perdoem-me se parece que eu vejo Supernatural em excesso, mas neste caso caberia chamá-los de “anjos”, na minha opinião. E que dizer, então, de Hurley, que ficou de guardião da ilha e que teve papel central nos últimos episódios, demonstrando o poder de se comunicar “com o lado de lá”?

Enquanto tentávamos explicar os flashsideways pelo mundo da física, os produtores estavam escrevendo uma história inteiramente baseada na fé.

No entanto mesmo a “parte da ciência” pode ser explicada com a premissa do purgatório. Um exemplo corriqueiro entre os chamados “mistérios da ilha”: por que as mulheres que engravidavam na ilha morriam? Uma resposta é que elas já estariam mortas, portanto não poderia gerar novas vidas. Sendo assim, como que Claire e Sun tiveram seus filhos? É que elas já estavam grávidas quando caíram e morreram na ilha. Pensando sob a ótica do “eles estavam todos mortos”, faz sentido. A filha de Sun e Jin, portanto, nunca existiu.

* Camila publicou este texto em seu blog.

O fim de Lost por Vanessa Medeiros

Quem passou boa parte da última semana roendo as unhas de ansiedade pelo último episódio de Lost se enganou. A série das grandes perguntas nunca foi a série das grandes respostas. E, por isto, boa parte dos fãs da atração, que encerrou sua jornada no último domingo, dia 23, se decepcionou com o capítulo final, exibido no Brasil dois dias depois pelo canal pago AXN.

Isto porque, se Lost passou seis anos fazendo perguntas, nunca prometeu respondê-las. Foram seis anos exatamente explorando este tipo de ficção mais interessante do que o simples, o linear, o texto com começo, meio e fim. Mas, ao sofisticar sua narrativa na medida em que as temporadas saíam do forno, Lost incorreu em outro erro: o da massificação de uma proposta que não atende o interesse das massas.

Quando deu seu pontapé inicial, lá em setembro de 2004, a premissa era a seguinte: um grupo de 48 passageiros de um avião cai em uma ilha em um ponto qualquer do Oceano Pacífico. E estes sobreviventes precisam lidar com as necessidades óbvias de um acidente nestas proporções – encontrar água, comida e um abrigo no meio da floresta. O problema é que esta floresta não é muito amigável. Já nos primeiros episódios, descobre-se um urso polar no meio da selva tropical e um monstro de fumaça que intrigou a todos por muitas temporadas.

A tal premissa atraiu todo e qualquer telespectador com uma queda por histórias de suspense, o que não é pouca coisa. A movimentação em torno da série veio daí: do desejo que o consumidor mediano de ficção tem de, já que uma pergunta foi feita, que ela seja respondida. Mas, como diz o brilhante detetive Hercule Poirot em praticamente todos os livros de Agatha Christie, você está lendo muitos romances baratos, meu caro.

Lost, se ainda não ficou claro, não é um romance barato de detetives. O que os criadores da série querem aqui não é construir uma narrativa que subestime o telespectador. O objetivo é exatamente instigar seu poder dedutivo e, mais do que isso, celebrar alguns dos temas mais explorados pela ficção universal. Daí o embate entre o bem e o mal, a criação do mundo, a essência do humano, o misticismo em torno dos objetos e dos seres, todos elementos que marcaram a série desde o começo, mas que foram se intensificando ao longo das temporadas.

Aquele fã de Lost que se interessou apenas pela premissa, pelo suspense, pela vontade de observar como um grupo de sobreviventes deixaria uma ilha depois de um acidente de avião, não cabe na frente desse tipo de TV. No dia seguinte à exibição, escutei de pelo menos quatro pessoas diferentes, no trabalho, na rua, entre os amigos, a pergunta: “Então, me conta, afinal o que era a ilha?”

E comecei, a partir daí, a pensar se é um problema meu ou se o mundo está mesmo sofrendo de uma falta crônica de imaginação. A ilha era um lugar sobrenatural, mágico, com poderes curativos e alta densidade de energia magnética. Se você não aceitou essa resposta, você está sofrendo da tal falta crônica de imaginação. Ficção, fantasia, não precisa ter correspondente na realidade, trazer tudo para um mundo verossímel e simplista. A boa ficção, na verdade, tem o dever de fugir desse caminho com a alma. De fazer você se esforçar para sair da mesmice do reconhecível, do perfeitamente possível, e se aventurar no mundo do absurdo, do intangível.

Mas uma ficção nesse nível não foi feita para a massa. Não é blockbuster, não é para ser consumida com rapidez, mastigada e cuspida fora com o mesmo desprendimento. Assistir a Lost é abrir mão de pegar o controle remoto logo em seguida e passar para o próximo canal. É parar na frente da tela por mais dois minutos, e pensar no que ficou ali. É entender, principalmente, que o mundo não é linear e bonitinho e cheio de pontas ligadas e conectadas no final. Existe um modelo de ficção que circula por aí que diz que o certo é contar uma história com começo, meio e fim. Por séculos, qualquer coisa que fugisse desse modelo estava errado, era atirado na fogueira. Livrar-se dessa amarra é, no entanto, uma das principais vantagens que um escritor tem naquilo que a gente chama de modernidade. Conhecer o modelo e superá-lo é tarefa para poucos, e não pode ser gratuita.

Lost contou a história da experiência humana, como todo mundo por aí tem tentado fazer. Imaginação é fazer isso através de um conjunto de histórias fabulosas, fantásticas, literárias, ao invés de me apresentar uma minissérie HBO sobre a Idade da Pedra. É fazer um tratado sobre a circularidade do tempo enquanto joga elementos quase despretenciosos aqui e ali durante seis temporadas. É deixar pontas soltas porque a vida não amarrou todas elas. Boa parte da literatura moderna surge a partir de um grupo de pensadores que descobriu que não há coerência em ser coerente. Aviso novamente àqueles que não prestaram atenção: a vida não amarra pontas.

Se você não gostou de Lost, é um direito seu. E é um direito meu ficar preocupada com as críticas que andei lendo por aí. De fãs de todos os cantos revoltados porque as perguntas não se fecharam, porque a história não foi simples e fácil de engolir. Porque foi sobre personagens, sobre pessoas. Leia de novo: telespectadores criticando Lost porque foi uma história sobre pessoas, rumo que, era só prestar um pouquinho mais de atenção, estava anunciado desde o começo, seja na direção de J.J. Abrams da primeira temporada seja na sensível trilha sonora de Michael Giacchino.

Uma antiga professora minha dos tempos de faculdade costumava brincar que, daqui a pouco, os pais não iriam mais ler Chapeuzinho Vermelho para seus filhos porque lobo não fala. É uma anedota, um exagero, que explica bem o motivo da minha preocupação. Um mundo que não consegue dar valor à ficção e não consegue admirar o prazer de se contar uma história só por ser contada é um mundo que não precisa de escritores. Daí meu manifesto. Viver Lost foi a minha maneira de reconhecer o poder transformador das coisas que não existem.

* Vanessa publicou este texto em seu blog.