Lost por Chiquinha
* A Chiquinha é demais.
* A Chiquinha é demais.
Desde que o primeiro personagem abriu o olho e em seguida um urso polar numa ilha tropical comeu umas pessoas que milagrosamente conseguiram sobreviver sem nenhuma fratura a uma queda de avião que se partiu em dois a milhões de metros de altura por causa de uma carga magnética absurda e que ainda bateu como um tijolo no mar, a história dos seriados de TV foi mudada para sempre.
Nenhuma série tinha alcançado o “range” de “Lost”, que ia de assunto para conversa de bebedouro e botequim até curso de universidade. Até dinheiro me deu, porque já tive a oportunidade de editar um especial da série para uma grande editora.
Se você, como eu, aceitou toda a premissa “cascata” da série, arriscou sua própria teoria (furada), não sossegava enquanto não baixava o seriado duas horas depois que ele tinha passado nos EUA (Costa Leste, que passa primeiro que a Oeste), viu a história se mover em flashback, depois em flashfoward, DEPOIS EM FLASHSIDEWAYS, e a porra da nuvem negra assassina, e a porra toda, tenho uma coisa pra dizer.
A partir de domingo, quando “Lost” acabar, e na semana seguinte e em quaisquer semanas seguintes formos privados de ouvir a frase “Previously on Lost”, vai dar a impressão que morremos e estamos num purgatório.
* O Lucio você conhece.
A primeira coisa que eu falei pro Matias quando ele me chamou pra escrever sobre Lost foi um simples “não”. Afinal de contas, diferente da maior parte das pessoas que estão lendo as séries de posts de Lost no Trabalho Sujo, eu não estou acompanhando o seriado. Pra ser mais exato, eu abandonei Lost mais ou menos em S03E05 ou S03E06, quando percebi que não ia conseguir acompanhar as temporadas num ritmo adequado. Preferi, então, dizer não e me mantar à parte do tumulto da final.
Mas, veja como eu aprendi logo nas primeiras temporadas, não é tão fácil abandonar a ilha. Ou, melhor dizendo, não é tão fácil a ilha abandonar você. O Matias insistiu e eu me dei conta: mesmo sem continuar assistindo Lost de fato, eu acompanhei a maior parte da trama por fragmentos que chegaram até mim através de conversas próximas, posts rápidos em blogs ou comentários em redes sociais. Não vou saber descrever com detalhes o destino dos personagens, mas, mesmo sem querer, chegaram até mim notícias de que a coisa ficou realmente feia e incluiu viagens no tempo e realidades paralelas, uma grande sacanagem com os personagens de qualquer trama pop.
O ponto é o seguinte: em vez de eu acompanhar Lost, Lost é que me acompanhou. Pedaços da trama, entrevistas com os produtores e reações de fãs volta e meia orbitavam a minha vida mesmo que eu não quisesse ter nada a ver com o assunto. Obviamente isso não acontecia por acaso (acaso? Em Lost?). O seriado é um dos produtos ícone de uma nova leva de entretenimento meticulosamente desenhado para se espalhar, não apenas no que diz respeito aos formatos de mídia mas inclusive no conteúdo. Não é qualquer trama que suporta tamanha amplitude.
Como tudo hoje já nasce com teoria e explicação, compartilho com vocês a pirâmide invertida que fotografei num workshop da 42 Entertainment, empresa responsável por ARGs célebres como Why So Serious pro Cavaleiro das Trevas e Year One do Nine Inch Nails. Ela oferece uma visão bastante interessante que explica de forma clara o fenômeno Lost.
Em 2008, depois de participar desse workshop no Festival de Publicidade de Cannes, escrevi: “Essa pirâmide aí em cima mostra os níveis de envolvimento que o público pode ter com um ARG (clica na imagem que ela aumenta). Na ponta lá embaixo estão os louquinhos que rastreiam todas as pistas, formam comunidades pra resolver, atravessam a cidade até um telefone público para receber uma informação gravada, largam a namorada pra se dedicar ao ARG. Logo acima, no nível dois, estão os que acompanham as comunidades e participam do ARG de um jeito um pouco mais light, meio que sentado na cadeira em frente ao computador. O nível três diz respeito a quem sabe que um ARG está rolando, dá uma olhada de vez em quando e, se descobrir uma pista, passa para um amigo. O nível zero é o mainstream, que não sabe muito bem que negócio é esse, mas olha que legal a reportagem na TV sobre o ARG.”
Pois então.
O ensaísta Douglas Rushkoff chama de “moeda social” tudo aquilo que é usado pra gerar conexões entre pessoas. É uma espécie de medida de riqueza que determinados conteúdos ou produtos podem agregar a relações pessoais. O grande sucesso de Lost residiu na distribuição inteligente de moeda social para todos os níveis dessa pirâmide. Até mesmo os pobre maltrapilhos da base invertida como eu, que não tinham muito contato com o seriado, saíram com umas moedinhas no bolso. Se não muito pra dizer que fez parte da comunidade de um novo tipo de produto de entretenimento, ao menos o suficiente pra escrever um post no blog de um parceiro.
* Mini é dOEsquema.
Lost é apenas o começo.
Acredito que muito do impacto de Lost reside no fato de ser a primeira grande série que estreou com a internet mais consolidada entre as pessoas. Esse detalhe potencializou todo o ecossistema criado em torno da série.
O interessante é que a série ajudou a quebrar e a provar certas premissas.
Primeiro, provou que o consumo de vídeos de longa duração na web era viável. Meio óbvio falar isso hoje em dia, mas até pouco tempo atrás existia um mito de que as pessoas somente teriam paciência para assistir a vídeos de até 3 minutos na web. Hoje é comum conhecer pessoas que assistiram a toda série sem nunca terem se sentado diante de uma televisão. Consumiram tudo em frente a tela de um computador.
Mais: Lost também provou que um modelo menos restritivo de distribuição é possível.Um dia após a exibição na TV, os episódios eram disponibilizados no site da ABC, inclusive via streaming, tecnologia cada vez mais endossada pela indústria de música e filmes.
Aliás, Lost foi uma das primeiras séries a estar disponível na loja online iTunes, chegando a servir de carro-chefe para a inauguração da versão alemã da loja da Apple.
Depois de Lost será difícil assistir a uma série como antes. Sem ter a alguns cliques de distância os episódios para assistir quando e onde quiser, as teorias das conspirações, as comunidades online para discutir cada detalhe da série, os remixes publicados no YouTube, os ARGs, enfim todo o rico ecossistema criado em torno da série.
No caso de Lost, assistir a um capítulo era apenas o início da experiência. Reflexo de que, hoje em dia, o consumo de um conteúdo (seja uma notícia, música, filme) deixou de ser apenas o ponto de chegada. É o início da experiência.
* Tiago Doria é um dos poucos caras que escreve sobre mídia e tecnologia no Brasil que precisa ser lido sempre
A grande sacada de Lost foi ensinar ao homem comum a se portar feito um mané. Depois de anos sendo motivos de chacota entre a sociedade civil, fãs de Arquivo X, Star Trek e Star Wars tiveram enfim o gostinho da vingança.
Uma não-trama de eternos seis anos conseguiu segurar na frente do computador uma infinidade de pessoas como eu e você, que nunca foram fãs de metal, dão um rolé no shopping com a namorada, eventualmente vão a praia e, vai saber, talvez nem tenham um perfil no Twitter.
Isso porque, principalmente no início, Lost soube disfarçar muito bem. Enquanto ficava apenas sugerindo o que havia de cretino em sua história, a ilha passava muito bem por um entretenimento decente para o cidadão de bem. Tínhamos dramas pessoais plausíveis, ainda que entre sussurros e defuntos na floresta, com personagens até interessantes.
Enquanto tudo era apenas sugerido, como em um soft porn do Multishow, havia beleza e bom entretenimento. Os últimos anos do programa foram como se tivessemos closes ginecológicos em um soft porn do Multishow, destrinchando coisas que não estavam necessariamente acontecendo.
E quando passamos a descobrir o que realmente estavam nos contando, foi um tapa na cara da sociedade – e ficou uma marca estilo “vida longa e próspera” do trekker devidamente vingado.
* Chico Barney é um dos ícones da internet brasileira.
Bom dia, aqui quem fala é o seu capitão Alexandre Matias e este é o último vôo da Oceanic Airlines rumo ao desconhecido. Nossa viagem durará 36 horas a partir das 8 desta manhã de sábado e tem hora para terminar, às 8 da noite de domingo. O destino: The End, episódio que encerra esta longa e bizarra lista de espera para saber as respostas para um monte de perguntas que, há seis anos, não incomodava a vida de ninguém. Para que nossa viagem não se torne cansativa, chamei alguns compadres e comadres para dividir com vocês todas as teorias, especulações, achismos, sensações, tensões e delírios sobre a série. Daqui a pouco muito mais gente que fez cara feia para Lost vai rever tudo – nem que seja pra falar mal -, fora gente que ainda nem nasceu que vai voltar à série como quem volta a um clássico. Mas só quem está nesta viagem, no dia 22 de maio de 2010, saberá o que foi viver a experiência da série. Espero que gostem. Apertem os cintos, boa viagem e é um prazer ter você a bordo de uma viagem do Trabalho Sujo.
* E se você quiser mandar sua contribuição (seja texto, foto, cartum, mixtape ou vídeo), me mande por email.
E não se esqueçam que a partir de amanhã, às 8 da manhã, eu e um monte de malucos lhe faremos companhia até a hora do último episódio.