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Mais Carne de Caju

E o tributo que o Mombojó fez ao mestre Alceu Valença no início do ano segue em movimento, quando o grupo pernambucano acrescenta não só uma mas duas novas músicas ao disco original – e uma delas lançada em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. O hit “Coração Bobo” entra no repertório celebrado pelo grupo num clipe que marca a estreia do vocalista Felipe S na direção. Ele explica como essas novas músicas surgiram depois que o disco já estava pronto: “Queríamos estender um pouco a turnê para conseguir chegar a algumas cidades onde ainda não tocamos — já passamos por mais de vinte cidades, mas ainda faltam algumas pelas quais temos muito carinho, como Fortaleza e Salvador, e essas duas músicas já estavam no nosso setlist ao vivo, e achamos que seria uma forma de fortalecer essa circulação.” Além de “Coração Bobo”, a nova versão do disco Carne de Caju ainda conta com a regravação que o grupo fez para “Solidão”, fechando uma dezena de canções de Alceu celebradas pelo Mombojó. Sobre a possibilidade de um show conjunto com o mestre, o grupo não tem nada em perspectiva, mas cogita novas versões para o próximo Carnaval. “Seria uma felicidade imensa, mas estamos aproveitando este ano para trabalhar com calma em um novo álbum autoral, que deve sair apenas no segundo semestre de 2025.” As duas novas músicas entram nas plataformas digitais neste sábado dia 12, mas “Coração Bobo” pode ser ouvida anteriormente abaixo:  

Um fenômeno chamado Brat

Lost completou 20 anos há pouco tempo e de vez em quando alguém me pergunta se vale a pena rever a série. Eu digo que vale, ela segue boa, mas se você nao viu a série em 2004 em diante, você nunca terá noção de como ela foi boa. Lost encapsula um contexto que trabalha com várias camadas daquela nova contemporaneidade, que desconectava a TV da grade de programação fixa, abria margem para especulações sobre diferentes futuros para os personagens e transformava o público em analistas de narrativa. Elementos transmídia, pontos de vista contraditórios, erosão de gêneros, personagens aprofundados e enigmas que misturavam toda sorte de mitologia, politica, teorias da conspiração e questões espirituais levados ao mercado de massas. Se você nao viveu o tempo de Lost, uma boa comparação é o disco-fenômeno que Chali XCX lançou no meio desse ano (a versão de remixes que é a terceira encarnação de uma mesma obra) e se firma como o grande produto cultural de 2024. Brat tem tantas camadas que reúnem conceitos que são a cara do nosso tempo: discussões sobre relacionamentos, sobre o peso que a fama exerce na arte, a onipresença online, a manipulação da própria imagem, a separação entre vida e trabalho. Tudo isso envelopado numa dance music cabeçuda e pós-moderna, eletrônica séria equilibrada com refrães pop e ganchos grudentos que pouco vem desfilando um elenco de convidados que praticamente mapeia quem é quem na música pop deste ano. A nova versão do disco ousa ainda mais e estica a temporada Brat para além do verão no hemisfério norte. Ouvir esse disco daqui a 20 anos não vai dar a sensação de agora que sentimos hoje, enquanto ele pulsa cada vez mais. Um golpe e uma joia ao mesmo tempo.

Ouça abaixo:  

Lianne La Havas no Brasil de novo!

E quando você acha que o próximo mês de novembro não consegue melhorar em termos de show, eis que Lianne La Havas marca mais uma passagem pelo Brasil. A diva soul faz mais dois shows por aqui, tocando no dia 21 no Rio de Janeiro (no Circo Voador, ingressos à venda aqui) e no dia 24 em São Paulo (no Cine Joia, ingressos aqui). E quem foi no show que ela fez no início do ano passado no mesmo Cine Joia (tocando sozinha com sua guitarra e dois únicos convidados, Mestrinho e Pretinho da Serrinha) sabe do estrago emocional que essa mulher causa. Mas se você não foi, confira abaixo:  

Mais uma música do disco novo do Cure

E aos poucos o que era lenda vai ganhando forma: o Cure de Robert Smith lança mais uma música de seu novo álbum, Songs of a Lost World, e também apresenta o título e a ordem das músicas do disco que sairá no início de novembro. “A Fragile Thing” segue o tom denso e melancólico da primeira faixa do disco e faz aumentar a expectativa que talvez o novo álbum faça par com as obras-primas mais épicas do grupo, como Pornography, Disintegration e Bloodflowers. Ouça a música e veja o nome das novas faixas abaixo:  

Pretenders no Brasil!

Mais uma bola dentro do C6, que além do Air, também trará os Pretenders de Chrissie Hynde para sua programação do ano que vem, em maio. Quem anunciou foi a Monica Bergamo. Assisti à banda em 2018, quando eles abriram para o Phil Collins no estádio do Palmeiras e o show foi ótimo; Chrissie Hynde segue mandando bem, como de praxe.

Veja abaixo:  

Partiu Paraty!

Lá vou eu de novo rumo à minha nona Flip – cuido das mídias sociais da Festa Literária Internacional de Paraty desde 2014 e só não fiz as duas versões não-presenciais, que ocorreram durante a pandemia. E depois deste período de trevas, ela ainda não voltou para sua época clássica, no meio do ano, mas ao acontecer em outubro já foge do final do ano, época em que as duas últimas edições foram realizadas. A versão 2024 da Festa está ótima, tem a curadoria literária da fantástica Ana Lima Cecilio e traz João do Rio como seu Autor Homenageado do ano. Quem também vai pra Paraty esse ano?

#Flip2024

60 anos de Beatlemania não poderiam passar incólumes

Há 60 anos, os Beatles chegaram aos Estados Unidos e a febre adolescente que até então só tomava conta da Inglaterra espalhou-se imediatamente pelo resto do planeta. E embora afeito a efemérides para seguir sua dominação cultural, o grupo só fez um anúncio até então, avisando que iria finalmente relançar a versão estadunidense de sua discografia em uma caixa de LPs que não estavam disponíveis para o público desde o século passado. Mas mesmo que agradasse a uma fatia fiel de seu público (os completistas) pouco acrescentava para os fãs em geral, que não comprarão novas versões em vinil de músicas que provavelmente já estão em sua coleção e neste mesmo formato (embora dispostos na versão considerada oficial da discografia da banda, lançada na Inglaterra). Até que no início deste mês a banda anunciou quase discretamente uma nova versão para o disco A Hard Day’s Night, o primeiro que o grupo lançou no ano de 1964 e que funcionava como trilha sonora para seu primeiro filme, batizado com o mesmo título. A nova versão também não trazia nenhuma novidade: era apenas uma edição em vinil branco de 180 gramas lançada para o National Album Day, evento inglês equivalente ao Record Store Day dos EUA, que seria lançada apenas no Reino Unido no próximo dia 19 e não traria nenhuma novidade em relação à versão que já conhecemos do álbum, o primeiro que traz apenas composições da dupla John Lennon e Paul McCartney. E o jornal inglês The Sun descobriu que o canal de streaming da Apple (não da gravadora dos Beatles) está preparando um documentário sobre a chegada do grupo aos EUA chamado apenas de 1964, que trata do impacto do grupo no mundo pop depois que dominou o público dos Estados Unidos, trazendo cenas nunca vistas – embora a Apple oficialmente não tenha se pronunciado sobre o filme. E custava pedir que eles relançassem o A Hard Day’s Night no cinema?

Entre fronteiras


(Foto: Julia Milward/Divulgação)

“Esse disco é a impossibilidade de dar uma resposta em palavras”, me explica a produtora e multiartista Sue, falando sobre seu segundo álbum, que chega às plataformas digitais nesta quinta-feira, mas que ela antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo. O disco sucede seu disco de estreia, Soundtracks for Photographs, lançado em 2019, pouco antes da pandemia, em que ela usava a desculpa de compor, como o título entrega, trilhas sonoras para fotografias, como uma forma de mostrar como vinha sendo sua adaptação ao Brasil, uma vez que nasceu na França e mora aqui desde 2013. O período pandêmico acelerou o fim de sua banda anterior, o grupo de trip hop Ozu, e logo ela viu-se imersa em novas produções instrumentais que começavam a ditar o rumo de seu novo trabalho solo, que finalmente vem à tona. O disco é batizado de Quando Vc Volta?, pergunta que ela cansou de ouvir de seus conterrâneos sobre sua estada em nosso país. O resultado é um hipnótico conjunto de transes instrumentais que passeia tanto pelo trip hop quanto pelo hip hop instrumental quanto por variações ambient, num disco ao mesmo tempo experimental e reconfortante, que conta com participações de Desirée Marantes, com quem dividiu a instigante temporada Mil Fitas, no Centro da Terra em junho do ano passado, e Dharma Jhaz em faixas com títulos em diversos idiomas: de sua língua-pátria (“Je Fais Ce Que Je Peux”) a títulos em inglês (“Morning Tears”, “Pulse” e “First Steps”), português (“Colo”, “Araucária”, “Vida Morte Vide”, “Gigantesca”, “Complemento”) e palavras no meio do caminho (como “Anton” e “Alias”). Quando perguntei para ela sobre o porquê de um disco que discorre sobre essa impermanência territorial não ter texto, ela responde sucinta: “Diante da falha das palavras, seja em francês ou em português, quem fala é o som.”

Ouça abaixo:  

Delicado batismo

Carox e Flávio Particelli estavam animados mas nervosos com o primeiro show do A Ride for Two, projeto que criaram durante a pandemia para compor canções introspectivas e bucólicas distantes das músicas que fazem em seus projetos até então, quando a velocidade e o ruído do hardcore encobre letras e melodias para valorizar a energia da performance. Mostrando pela primeira vez ao vivo o novo duo, eles sentiram o peso de ouvir as próprias vozes e instrumentos sem distorção ou volume, o que a princípio os deixou tensos no começo da apresentação desta terça-feira, no Centro da Terra. Mas à medida em que iam desbravando as canções e se acostumando ao ouvir as respectivas vozes num contexto longe do caseiro iam ganhando confiança e fazendo o show crescer. Amparados por uma banda afiadíssima, formada por Marcelo Crispim (guitarra), David Margelli (baixo), Thales Stipp (bateria) e Luiz Viola (piano), que nunca transbordava o som de forma a sobrepor-se à dupla vocal, os dois entrelaçavam violão e guitarra (era a primeira vez que Carox tocava o instrumento em público) e os dois belos timbres de vocais nas canções que formam o repertório de seu único EP e algumas inéditas, além de contar com duas participações especiais, cada uma delas trazendo uma referência musical diferente: ao lado de Cyz Mendes, do grupo Plutão Já Foi Planeta, os dois cantaram “Wildflower”, do disco novo da Billie Eilish, e ao lado de Cyro Sampaio tocaram “Miopia”, da banda do convidado, Menores Atos. Um show bonito e delicado, que logo livrou-se do clima de batismo de fogo que tensionava a dupla no início para entrar num portal de sutilezas e melodias que, apesar de estranho às carreiras anteriores dos dois, fez muito sentido para ambos – e para o público, que embarcou na carona proposta pelos dois.

Assista abaixo:  

A Ride for Two: Hey Life

Com muita satisfação recebemos nesta terça-feira no Centro da Terra a primeira apresentação ao vivo de uma dupla que nasceu no hardcore, mas se encontrou no folk. Carox (das bandas Carox e Miami Tiger) e Flávio Particelli (das bandas Fullheart, Falante e Anônimos Anônimos) se começaram a fazer música no período de isolamento social da pandemia e criaram a dupla acústica A Ride for Two, que já lançou seu primeiro EP, batizado com o próprio nome da banda, mas nunca apresentou-se ao vivo – até hoje. Sua estreia acontece no espetáculo Hey Life, quando tocam tanto sozinhos quanto acompanhados por uma banda formada por Marcelo Crispim na guitarra, David Margelli no baixo, Thales Stipp na bateria e Luiz Viola no piano e sintetizadores, além de receberem duas participações especiais, Cyro Sampaio, do grupo Menores Atos, e Cyz Mendes, do grupo Plutão Já Foi Planeta, todos entrando no clima de introspecção e delicadeza proposto pala dupla. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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