Trabalho Sujo - Home

Do disco ao ouvido: Comunicação e música

Nesta quarta e quinta-feira faço parte da programação do projeto VEM – Venha Experimentar Música, que o Sesc está desenvolvendo em várias de suas unidades, misturando shows, oficinais, cursos e atividades que visam trazer mais gente para a discussão sobre música. Este curso foi dado originalmente de forma online durante a pandemia e o adaptei para este momento que atravessamos. São duas aulas realizadas entre os dias 24 e 25 de julho, a partir das 19h, em que abordo as transformações do ecossistema da música impulsionadas pelo surgimento da internet (na primeira aula) e a influência da pandemia nessas mesmas transformações (na segunda). O curso é gratuito e acontece no auditório do Sesc Vila Mariana. Não é preciso fazer inscrições previamente, bastando comparecer meia hora antes da aula para retirar a senha para garantir sua participação.

Cada vez mais à vontade

Dá gosto ver um projeto musical tomando forma. Não faz nem um ano que Manu Julian assumiu seu projeto solo ao topar um convite que fiz para que se apresentasse no Centro da Terra e ela vem desenvolvendo uma ótima sincronia com seu dupla musical, o guitarrista Thales Castanheira. A apresentação deste sábado aconteceu no Mamãe, ali na Barra Funda, e mesmo com a plateia cheia de convidados ilustres, a vocalista não perdeu a pose, cada vez mais à vontade com o repertório que, embora ainda tenha composições de suas outras bandas (Pelados e Fernê) e versões que faz desde aquele primeiro show em outubro do ano passado (como “Você Não Vai Passar” eternizada por Ava Rocha e “Novedades” do grupo argentino El Príncipe Idiota), está cada vez mais autoral, embora algumas músicas, como de praxe, ainda não tenham título definido. Mas já estão aí. Vai Manu!

Assista abaixo:  

Entre a sinfonia e a sonoplastia

Sábado teve a primeira das duas apresentações que o duo O Grivo realizou no Sesc Vila Mariana, fazendo trilha sonora para filmes com um século de idade. O projeto experimental fundado pelos músicos e luthiers mineiros Nelson Soares e Marcos Moreira mistura instrumentos eruditos, populares e criados por eles mesmos para superpor camadas sonoras que se complementam de forma ímpar, transformando suas apresentações em instalações sonoras que conversam também com as artes visuais – como teatro e dança. O fim de semana da dupla em São Paulo foi dedicado à sétima arte e se a apresentação do domingo ficou por conta da trilha sonora do clássico do expressionismo alemão O Gabinete do Dr. Caligari, de 1920, a apresentação que vi no dia anterior teve múltiplas facetas, uma vez que os dois músicos optaram por musicar curtas surrealistas daquela década um século atrás, que incluíam obras de Marcel Duchamp (Anemic Cinema, 1926), Man Ray (Emak Bakia, 1926), René Clair (Entr’acte, de 1924), Hans Richter (Rhythmus 21 e Rhythmus 23, ambos de 1921) e Walter Ruttmann (Opus III, de 1924), além de um curta temporão desta geração feito por Orson Welles (The Hearts of Age) em 1934. O clima onírico surrealista das peças pairava sobre músicas tocadas por instrumentos pouco ortodoxos como gongos e outros instrumentos de percussão de orquestra, cordas e teclas superpostas a loops de computador, entre a sinfonia e a sonoplastia e ao casamento reto e direto – mas nem por isso menos vago – quando os dois assumiam guitarra e bateria. Para viajar sem sair do lugar.

Assista a um trecho aqui.

#ogrivo #sescvilamariana #trabalhosujo2024shows 150

E a versão que a Mitski fez pra “Bella Ciao”?

“Tentei fazer uma versão em inglês para essa canção italiana tão importante chamada ‘Bella Ciao'”, escreveu a cantora norte-americana Mitski em sua conta no Instagram. “Claro que não falo nada de italiano então usei o tradutor do Google sem constrangimento e também me inspirei na versão em inglês que Tom Waits e Marc Ribot fizeram para essa música. Mas aí que está: mesmo que você fale italiano, diferente de mim, eu tenho certeza que pode escrever uma tradução melhor que a minha. E se você for um destes, faça isso! Ou ao menos tente! E grave, filme, compartilhe. Eu quero ver”. Veja a versão dela abaixo:  

Toumani Diabaté (1965-2024)

Mestre de um instrumento único, o músico Toumani Diabaté nos deixou nesta sexta após uma breve doença. Representante da 71ª geração de griots, casta de músicos do Mali, ele tocava a korá – instrumento que mistura harpa e alaúde – desde os cinco anos de idade e foi autodidata, apesar da criação em uma tradição tão ancestral. Diabaté foi um dos grandes bastiões desta cultura secular ao lado de nomes como Ali Farka Touré (1939-2006, com quem gravou o álbum In the Heart of the Moon, em 2005) e Salif Keïta (que saudou a passagem do amigo em post no Twitter), e era conhecido como “príncipe do korá” pois seu pai, Sidiki Diabaté (1922-1996) era reverenciado como o rei do instrumento. Começou acompanhando a diva Kandia Kouyaté, mas também foi influenciado pela música pop de seu tempo, ao absorver influências de Jimi Hendrix, Jimmy Smith, Miles Davis e Led Zeppelin. Enveredou pelo jazz nos anos 90 quando gravou o celebrado disco Djelika ao lado de Bassekou Kouyaté (ngoni) e Keletigui Diabaté (balafon) e também flertou com o pop contemporâneo, gravando com Damon Albarn (no projeto Mali Music) e Björk (no disco Volta). Também estabeleceu conexões com músicos brasileiros, ao gravar o disco A Curva da Cintura ao lado de Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra.

Bate-papo no Picles neste domingo

O que você vai fazer neste domingo? Participo da série de bate-papos que o Picles está fazendo para falar sobre música e mídia ao lado do grande Luiz Thunderbird, a partir das 18h30. O papo com o Thunder é apenas uma das atrações do dia, que ainda conta com uma conversa sobre gestão de selos e casas de show com o Rafael Farah (que toca o selo Balaclava e é um dos sócios do Bar Alto) e Roberta Youssef (que traalhou no Studio SP e no Z Carniceria) a partir das 17h e uma conversa sobre os desafios da carreira artística com Tiê e Maurício Pereira a partir das 20h. Todos os papos terão mediação do grande Juka Tavares e tanto antes quanto depois das conversas o som fica por conta do DJ Gabo. O Picles fica no número 1838 da Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, e abre desde as quatro da tarde. A entrada é gratuita, mas é preciso se inscrever neste link. Vamos?

Blues na sua cara

Corri dali pro Porta Maldita, mas não consegui assistir ao show das catarinenses Dirty Grills, mas pelo menos cheguei a tempo de ver o Orange Disaster, a banda do Carlão Freitas – que também toca comigo no Como Assim? – mais difícil de fazer shows pois seu baterista, Davi Rodriguez, não está morando no Brasil. Foi o primeiro show do grupo que vi, com Carlão fazendo as vezes de guitarra e baixo mesmo tocando só guitarra, enquanto o outro guitarrista, Vini F., se joga no noise, mas sem nunca perder a base musical do quarteto, enfiando um blues elétrico na sua cara a poucos centímetros de cair no caos sonoro dos Stooges, matendo a tensão necessária pra manter a paisagem sonora ideal para o vocalista J.C. Magalhães agir como um pregador apocalíptico, de chapéu, óculos e dedo em riste, hipnotizando o pequeno público que encheu o Porta Maldita.

Assista abaixo:  

Com grandes poderes…

O cearense Mateus Fazeno Rock sentiu o peso da responsabilidade na apresentação que fez nesta quinta-feira na Casa Natura Musical. Reunindo um time de peso para mostrar seu Jesus Ñ Voltará, um dos grandes discos do ano passado, em grande estilo, ele quase escorregou na saída e bambeou quando um problema técnico o fez parar a apresentação para recomeçar do zero. Podia ter atropelado o erro e seguido em frente, mas sabendo da importância da apresentação, preferiu fechar as cortinas e voltar com tudo – invertendo inclusive o repertório para não simplesmente repetir a abertura original. E nestes momentos que você percebe a grandeza de um artista. Visivelmente nervoso na abertura que deu errado, ele voltou com sangue nos olhos e crescia a cada nova música – e a cada novo convidado. E que time: Fernando Catatau, Don L, Jup do Bairro, Brisa Flow e Mumutante, todos eles entrando no universo dramático do autor da noite, mesmo quando cantavam músicas próprias. A vocalista Mumutante era mais que participação especial e esteve durante todo o show com o grupo de Mateus (que ainda conta com os excelentes dançarinos Larissa Ribeiro e Raffa Tomaz e o DJ Viúva Negra), funcionando como segunda voz e calçando perfeitamente com o domínio que Mateus ia tendo do palco, seja só rimando ou tocando guitarra ou violão. E ele segue vindo…

Assista abaixo: