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Na corte do rei Belew

Experiência surreal poder ver dois integrantes originais do King Crimson recriar três obras-primas que fizeram parte nessa sexta-feira, no Espaço Unimed, quando o projeto Beat reviveu a trilogia Three of a Perfect Pair que o grupo liderado por Robert Fripp fez no início dos anos 80, quando circulava com o Brian Eno e os Talking Heads. Ainda mais quando um de seus integrantes é o guitarrista Adrian Belew, um dos maiores monstros sagrados do seu instrumento e a prova de que o conceito guitar hero pós-punk é possível, por mais que possa ser contraditório. Mago supremo da guitarra, também era o mestre de cerimônias e anfitrião da corte do dia, deixando o público à vontade com seu carisma. Fazendo as vezes de Fripp estava ninguém menos que Steve Vai, comedido na autoindulgência que lhe é característica e soltando a mão nos grooves mais funk do grupo. No baixo, toda destreza e detalhismo do senhor Tony Levin, que ainda aproveitou o final da apresentação (como fez quando veio ao Brasil em 2019 com o próprio Fripp e seu King Crimson, naquela mesma casa de shows, que ainda se chamava Espaço das Américas), para tirar fotos do público com sua câmera analógica, que em breve aparecerão em seu site. E no lugar de Bill Brufford, o caçula da banda, Danny Carey, mais conhecido como baterista do Tool, que foi surpreendido com um parabéns no palco, assim que o relógio virou a meia-noite. Todos completamente entregues a um momento improvável da banda de rock progressivo mais séria de todos os tempos, três discos que fazem o público dançar e cantar juntos – mas à moda King Crimson. Escrevi sobre o show de sexta no primeiro texto que escrevi para o Toca do UOL.  

E o Bad Bunny veio aí!

Esqueci de falar aqui (mas todos já sabem), que Bad Bunny caminha a largos passos para se tornar um dos maiores artistas do planeta – inclusive aqui no Brasil. Não bastasse anunciar a turnê mundial para divulgar seu festejado Debí Tirar Más Fotos que começa a partir da América Latina, antes de ir para Ásia e Europa, ele esgotou os ingressos para seu único show no Brasil, que acontecerá dia 20 de fevereiro do ano que vem no estádio do Palmeiras (como ele havia atiçado no fim de semana), em questão de minutos, a ponto da produtora já anunciar a segunda data do astro portorriquenho para o dia 21. Os ingressos (disponíveis neste link) começam a ser vendidos na próxima segunda, dia 12, para quem for cliente do banco patrocinador do show e a partir da terça, dia 13, para o resto de todos. Nada mal hein, Benito

 

E esses horários do C6fest 2025, hein?

Tá certo que os shows que acontecerão no Auditório Ibirapuera não serão simultâneos, então não tem muito como dar errado. Mas não tem nada a ver os organizadores fazerem o público passarem por esse aperto de ir de um palco correndo para o outro ou de ter que sacrificar o final de um show para ver o início de outro (ou, o que é mais comum, simplesmente abandonar um dos shows para não perder nada daquele que você realmente quer ver). Alguém precisa fazer alguma coisa, senão o festival que estava melhor posicionado entre os novos eventos de música que surgiram após a pandemia corre o risco de ter a concorrência mais ingrata possível – consigo mesmo. Olha esse vacilo aí…

Veja os horários abaixo – e veja se eu estou viajando…  

Lorde fazendo bonito

Lorde acaba de anunciar a turnê que fará de seu próximo disco, Virgin, chamada Ultrasound World Tour (aquela turnê mundial que só inclui Estados Unidos e Europa) e ela caprichou nas atrações que a acompanharão por esses shows, chamando nomes que adoro como Blood Orange, Nilüfer Yanya, Oklou e Chanel Beads – pra melhorar só faltava ser Japanese Breakfast no lugar do Japanese House e… claro, anunciar os shows na América Latina. A turnê começa só em setembro e tem datas marcadas até dezembro, mas vamos esperar que ela passe por aqui em algum momento dessa excursão (seria sua quarta vez por aqui). Confira as datas abaixo:  

Cornucopia vazia

Quando Björk anunciou que lançaria uma apresentação ao vivo nas salas de cinema do mundo, esperava-se que ela desse passos além dos filmes que partiram de shows de artistas gigantes como Beyoncé e Taylor Swift, ampliando o alcance de turnê imensas primeiro para telonas e depois para serviços de streaming. Lógico que, por não ser uma artista comercial de tal porte, não havia expectativa sobre ela suplantar os números e a escala de Renaissance: A Film by Beyoncé e Taylor Swift: The Eras Tour, ambos de 2023, fazendo justamente algo que os filmes das duas musas do pop deste século até tentaram, mas sem tanto sucesso: se tornar uma obra de arte. Cornucopia, que estreia essa semana em cinemas de todo o mundo, foi anunciado como a versão filmada de um show único que ela fez em Lisboa, em 2023, reunindo um grupo de artistas que aumentava ainda mais suas ambições artísticas, como a diretora argentina Lucrecia Martel (que dirigiu o show), a diretora islandesa Ísold Uggadóttir (que dirigiu o filme), o diretor musical islandês Bergur Þórisson, o percussionista austríaco Manu Delago, a harpista norte-americana Katie Buckley e o grupo de sopro irlandês Viibra, além de instrumentos improváveis como uma flauta circular e uma harpa magnética, uma câmara de reverberação instalada no palco, cortinas móveis e telas de LED e figurino e maquiagem excêntrica, como é de se esperar da cantora islandesa. Quase todo o show gira em torno de seu disco de 2017, Utopia, embora conte com músicas dos álbuns Vunicultura (2015) e Fossora (2022), além de um único hit solitário, “Isobel”, de seu clássico segundo disco Post (que completa 30 anos este ano). O show é deslumbrante e é tudo que os fãs da artista podem esperar, mas… como filme deixa a desejar. Esperava que ela pudesse explorar mais ainda os limites do cinema, fazendo uma ponte entre show e audiovisual de uma forma mais interessante do que o que se vê, mas o mais perto que ela chega disso é quando, a partir do primeiro terço do filme, começa a ocupar a tela com imagens que estão projetadas nos telões do show. Mas o que parecia ser um início de conversa entre o show do passado e o filme de 2025 termina aí e o filme é só mais um show filmado. Até o show em Pompeia que o Pink Floyd acabou de relançar nos cinemas (lançado originalmente em 1972) ousa mais como cinema do que este Cornucopia. Que é bonito e ousado, misturando reinos animal e vegetal em uma evolução possível da vida no futuro do planeta, trazendo uma bela mensagem de esperança em relação ao futuro (além de três clipes escondidos após os créditos), mas isso é mérito do show, não do filme. O filme só registra isso. Bem, mas é só – nada distante do que em outros tempos seria só um DVD ao vivo. Pô, Björk…

Assista ao trailer abaixo:  

Mais Cecília Viva, desta vez com Violeta de Outono, Bike e Ema Stoned

Reveladas as atrações de mais uma edição do festival Cecília Viva, que visa arrecadar fundos para fazer a boa e velha Associação Cecília voltar a existir. E embora não tenha o escopo da primeira edição, realizada no Cine Joia no início do ano com Boogarins, Kiko Dinucci, Rakta, Crizin da Z.O., Test e DJ Nuts, não deixa a peteca cair mesmo acontecendo num lugar bem menor, a Porta, entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena. O evento acontece no dia 15 de maio e reúne três pesos pesados da psicodelia brasileira de épocas diferentes, todos de São Paulo: Ema Stoned, Bike e Violeta de Outono. Os ingressos já estão à venda neste link.

Fiona Apple não deixa barato

Eis a primeira música inédita de Fiona Apple desde que ela lançou seu soberbo Fetch the Bolt Cutters, na primeira temporada da pandemia, primeiro semestre de 2020 (descontada “New York Doesn’t Like Your Face”, que ela compôs para um desenho animado da Apple TV ainda em 2020). Mas uma série de colaborações recentes mostraram que vinha aos poucos querendo soltar a voz, que veio à superfície finalmente esta semana, quando mostrou “Pretrial (Let Her Go Home)”, um libelo contra a prisão dita “preventiva” de mulheres – em sua maioria negras – que eram apreendidas antes mesmo de começar seu julgamento, quase sempre deixando suas famílias desamparadas, uma vez que a maior parte delas é mãe solo e sustenta não apenas os filhos mas outros parentes próximos. A letra da música é justamente sobre isso e a voz poderosa de Fiona, que ateve-se ao tema porque ela mesma começou a acompanhar pessoalmente casos jurídicos do tipo, levanta-se contra essas prisões de forma ao mesmo tempo austera e cativante. O clipe que acompanha o novo single foi produzido pela ONG Zealous, que assiste juridicamente às vítimas desassistidas do sistema judicial dos EUA e que Fiona entrou em contato quando começou a acompanhar esses casos. E como Fiona não deixa barato, não duvido nada que em breve ela lança mais outra faixa tratando de outro tema crítico em seu país… Vamos aguardar… na torcida!

Assista abaixo:  

Grandaddy tocando o Sophtware Slump na íntegra… 25 anos depois!

O Grandaddy anunciou que irá passear pelos Estados Unidos no segundo semestre revisitando sua obra-prima do ano 2000, The Sophtware Slump, tocando seu segundo álbum na íntegra por cidades dos EUA entre setembro e outubro deste ano. Lembro quando o grupo norte-americano lançou esse clássico distópico folk há 25 anos, uma espécie de pós-OK Computer sem paranoia nem guitarras distorcidas, amplamente influenciado tanto pela transição que grupos noise como Mercury Rev e Flaming Lips fizeram para um som mais clássico no final dos anos 90 quanto pelo rock progressivo dos anos 70. Não custa acender uma vale (e deixar o bom e velho “please come to Brasil” no Instagram da banda) pra que o grupo liderado por Jason Lytle venha mais uma vez pra cá, já que, há um quarto de século, eles abriam uma noite no saudoso festival Free Jazz que ainda reunia as primeiras vezes que os Sigur Rós e os Belle & Sebastian vieram pra cá (ambas bandas voltaram, o Grandaddy – ainda – não). Veja as datas da turnê abaixo: