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Um vácuo de descrenças

Inacreditável o encontro entre Test e Deaf Kids que aconteceu nesta quinta no Sesc Av. Paulista. Duas das principais forças do ruído extremo paulista há tempos jogam essa dobradinha, mas desde o ano passado se aproximaram ainda mais e, além de shows e turnês em conjunto, começaram a compor juntos um álbum que finalmente foi lançado esse mês – e que por enquanto está disponível apenas no Bandcamp. E por mais que Sem Esperanças seja um salto considerável na discografia dos dois grupos (além de um dos melhores discos brasileiros do ano), o encontro ao vivo dos dois abre outras dimensões de barulho e mostra que tentar rotulá-los como grindcore, thrash, noise ou vanguarda é limitar as fronteiras do ruído que eles apenas escancaram. Ao lançar o disco num Sesc, o grupo ainda pode trabalhar com condições de temperatura e pressão ideais e além de um equipamento de som e de luz de primeira, puderam contar com dois ases controlando as respectivas mesas – o implacável Berna reprocessando o som enquanto Mau Schramm improvisava camadas de cores a cada célula de som proposta pelos grupos. No palco, João Kombi do Test dividia a regência da avalanche de som com com Douglas Leal, usando sua guitarra e voz como quem doma uma tempestade invisível, enquanto o comparsa dos Deaf Kids trazia seus efeitos eletrônicos, vocais remixados e guitarra demolidora. No centro do palco, de frente um para o outro, os dois bateristas Sarine (do DK) e Barata (do Test) desviavam aquela nuvem de som para debaixo da terra, como se abrissem placas tectônicas marteladas à velocidade da luz. Ver o impacto sonoro niilista causado por aqueles quatro indivíduos no palco era como se assistíssemos a abertura de um portal interdimensional que nos levava a um vácuo de descrenças em que o som parece ser a única forma de contato com a própria existência, sempre a partir de seus extremos. Um atordoo de sentidos propício ao dia histórico que foi essa quinta-feira. “E amanhã é Bolsonaro na cadeia, caralho!”, desabafou Douglas no final de mais de uma hora de som. E nessa sexta-feira tem mais.

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Ana Frango Elétrico ♥ Marcos Valle (e Crystal Waters!)

Às vésperas de despedir-se de seu terceiro disco em uma série de shows pelo Brasil, Ana Frango Elétrico lança o segundo single posterior ao lançamento do disco, que acaba funcionando como complemento ao álbum de 2023. Depois da deliciosa “A Sua Diversão” é a vez de ela registrar numa mesma música, as duas versões alheias que toca no show para além do repertório do álbum, quando visita a parceria de Eumir Deodato e João Donato via Marcos Valle, que convidou para participar de sua gravação para “Nâo Tem Nada Não”, que ela emenda com o hit grudento “Gipsy Woman” da hipnotizante Crystal Waters. Coisa fina, saca só:  

Uma outra Melody’s Echo Chamber

Sensação psicodélica da década passada, a francesa Melody Prochet revive seu Melody’s Echo Chamber com um sabor mais adocicado que as canções que compunha até há pouco tempo. Em parceria com o norte-americano Leon Michaels – que assina como El Michels Affair -, ela ressurge com a hipnótica “Daisy”, que ao mesmo tempo que ecoa de leve as vibes lisérgicas de seus trabalhos anteriores, prefere focar na tradição da chanson française e nos presenteia com uma pérola doce e solar.

Ouça abaixo:  

Dua Lipa ♥ Aerosmith

Dua Lipa segue sua turnê pelos Estados Unidos e, como tem feito em todos os shows, sempre homenageia um artista local quando chega a uma nova cidade. E no primeiro show que fez em Boston, nesta terça, resolveu celebrar uma das maiores (e mais malas) bandas de rock daquele país ao escolher cantar a balada “I Don’t Want to Miss a Thing”, do Aerosmith. Como ela tem mais um show para fazer na cidade, resta saber que outro artista local ela pode celebrar – escolher pérolas dos Pixies, do New Edition, dos Lemonheads, do New Kids on the Block ou dos Cars? Minhas apostas: “I Feel Love” da Donna Summer, alguma do James Taylor ou “More than a Feeling” da banda que leva o nome da cidade.

Assista abaixo:  

Leveza abstrata

Theo Ceccato criou o Pah! quase que instantaneamente. Nome que inventou para os dias que juntava-se com outros amigos para tocar o que desse na telha, transformou-se numa performance sonora em sua primeira apresentação que aconteceu na curadoria que o Mamãe Bar fez no Teatro de Arena no ano passado, quando reuniu todos os amigos que pode para uma longa jam noise de improviso que crescia ao redor do ataque batiza o experimento. Em sua segunda apresentação, nesta terça-feira no Centro da Terra, ele optou pelo extremo oposto e ao reunir-se apenas com seu compadre de Enorme Perda de Tempo Teo Serson, preferiu trabalhar no modo ambient estendido mostrando dois momentos de improviso em câmera lenta, com cada um dos dois pinçando notas em instrumentos diferentes, com bases de ruído pré-gravadas (a primeira com o repetitivo gongo que os relógios japoneses marcam a hora cheia, que o autor da noite sampleou de um filme do Ozu). Theo tocava uma guitarra distorcida aberta em dois acordes diferentes, um para cada momento da noite, trabalhando-a mais como um elemento de textura do que de melodia, esta ficava toda com o piano do outro Teo, tateando notas aleatórios que por vezes soavam como o arpeggio de um acorde e noutras uma melodia com notas fantasmas. Medindo a duração das duas apresentações, um filme que o próprio Theo fez no quintal de casa com um celular e uma lanterna, deixava o fluir da noite fechado e hermético, o que era reforçado na forma como os dois apareciam no palco: o guitarrista sempre na penumbra, o pianista sob um holofote seco. Mesmo sem parecer ou soar claustrofóbico, os dois nos conduziram rumo a uma leveza abstrata tão sem rumo quanto um sonho – ou um pesadelo.

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Pah!: Competição de Cuspe à Distância

Nessa terça-feira, o Centro da Terra recebe a Competição de Cuspe à Distância proposta pelo projeto Pah! Idealizado por Theo Cecato, baterista das bandas Sophia Chablau & Uma Enorme Perda de Tempo, Pelados e Fernê, o Pah! é um projeto instantâneo que só teve uma única apresentação até agora, quando reuniu mais de uma dezena de músicos numa mesma performance de improviso livre. Nesta segunda apresentação, Theo convida seu companheiro de banda, o baixista e poeta Téo Serson, para visitar o outro extremo de seu projeto, buscando o efeito do silêncio entre as músicas enquanto um toca guitarra e o outro piano. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

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Sessa 2025: “Viver vale a pena, minha galera”

Mês passado Sessa deu um gostinho de seu próximo disco em sua apresentação no Centro da Terra, quando aproveitou para mostrar algumas inéditas, tocar com os músicos que participaram da gravação (Biel, Cabral e Ina), além de apresentar um novo instrumento na formação (o piano) e revelar o nome de seu próximo disco em primeira mão. Pois hoje ele não só mostra a bela capa do novo trabalho, Pequena Vertigem de Amor, que será lançado no dia 7 de novembro e já está em pré-venda, como mostra seu primeiro single, a singela “Vale a Pena”, cujo verso do refrão – “viver vale a pena, minha galera” – sintetiza a onda do disco, gravado logo após ele ter se tornado pai e aberto seu próprio estúdio ao lado do baterista Biel Basile. Ele ainda traz um clipe para comemorar o novo lançamento, que você assiste abaixo:  

Barisbe nas cordas

Mais uma segunda-feira teleguiada por João Barisbe, que nos convidou a mais um capítulo de seu Turismo Inventado, em que nos convida a conhecer lugares imaginários através de suas próprias composições, a cada semana com novos arranjos. Desta vez foi o momento em que ele exercitou o naipe de cordas, convidando o sublime Quarteto Ibá (formado pelas violinistas Leticia Andrade e Mica Marcondes, pela violista Elisa Monteiro e pelo violoncelista Thiago Faria) para voltar às músicas que apresentou na semana passada, mas sem sequer subir no palco para regê-las, juntando-se ao grupo apenas para tocar seu saxofone, deixando claro seu papel de arranjador mais do que de regente . Além do quarteto, Barisbe também convidou dois músicos reincidentes da semana passada para mostrar suas próprias canções – primeiro a maravilhosa Thais Ribeiro, que trouxe seu acordeão para mostrar sua “Meu Velho” e Gabriel Milliet, que primeiro visitou “Jardim da Fantasia”, de Paulinho Pedra Azul, que ele conheceu na versão definitiva que Renato Teixeira gravou com Pena Branca e Xavantinho no disco ao vivo que gravaram em 1992 em Tatuí, e depois a inédita “Prefiro Infinito”, parceria com o próprio Barisbe, quando apresentou-a ao lado do quarteto tocando violão. A noite terminou como a anterior, quando Barisbe voltou ao palco com o sax para cantar – sem texto, só com a voz de seu instrumento – a épica “Cometa Javali”, a mesma com a qual encerrou a primeira apresentação e cujo verso central parece não apenas resumir a temática de sua temporada quanto o que pode ser feito a partir do trabalho com a arte em seu verso central, “imaginação e possibilidade”. Bravo!

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