O novo disco do Cidadão Instigado como novo ponto de partida para a cena independente brasileira

Em mais uma colaboração para o Toca UOL, escrevi sobre como a nova fase do Cidadão Instigado conversa com a recuperação da cena independente brasileira depois que a pandemia dizimou uma parcela considerável desta.
Cidadão Instigado reorganiza a cena independente brasileira com novo disco
O novo disco do Cidadão Instigado, projeto musical do guitar hero cearense Fernando Catatau, vem encerrar seu próprio retorno de Saturno, fechando outros ciclos ligados à carreira do artista, ao mesmo tempo em que abre uma nova fase – e não apenas para ele. Batizado apenas com o nome da banda, o novo e ousado álbum – o quinto da discografia do grupo – volta às origens, quando ele ainda era um projeto solitário de um guitarrista nordestino que havia acabado de se mudar para São Paulo e penava na grande cidade.
Quando mudou-se para São Paulo em 1994, com a expectativa de viver de música depois de frustrar-se com essa vida em Fortaleza, encontrou uma cidade mais hostil que é hoje, fechada para forasteiros, o que o fez compor sozinho músicas sobre aquela sensação.
Esse conceito tornou-se o Cidadão Instigado que, quando voltou para o Ceará, dois anos depois, começou a se transformar em uma banda, que teve diferentes formações, mas sempre em órbita de suas inquietações, sua guitarra marcante e sua voz característica. Isso ate firmar-se num elenco que convencionou-se chamar de “Cidadão clássico”, com Fernando à frente, acompanhado do guitarrista Regis Damasceno, do tecladista e guitarrista Dustan Gallas, do baixista Rian Baptista e do baterista Clayton Martin, este último o único paulistano da banda.
Antes de assumir essa formação, consolidada no terceiro disco do grupo (“Uhuuu”, de 2009), todos os outros músicos cearenses na banda já haviam passados por outras fases do grupo de Catatau, tocando diferentes instrumentos. Mas a partir desta etapa, o grupo se consolida como uma das principais bandas do rock independente brasileiro, fazendo aos poucos seu líder se acostumar com a estabilidade e fazer as pazes com sua cidade-natal.
Com um disco batizado de “Fortaleza” (lançado em 2015), Fernando praticamente viu os motivos que o levaram a ideia da banda se dissipar. Comemorando os 20 anos de sua banda no ano seguinte – com direito a show conduzido pelo diretor teatral Felipe Hirsch -, o grupo entrou num período de hibernação que, para Fernando, era o fim da banda, embora ele não quisesse transformar isso num evento. A banda seguiu fazendo shows esporádicos no fim dos anos 10, enquanto o guitarrista havia começado a pensar em um disco solo, que o tirasse da linguagem rock que o acompanhava há décadas.
Este processo coincide com a volta para Fortaleza, quando ele passa a acompanhar a nova cena cultural da capital cearense ao mesmo tempo em que consegue ampliar suas áreas de atuação para além da música. E embora tenha sido gravado antes da pandemia, o primeiro solo de Catatau foi mais um dos inúmeros trabalhos esmagados pela tragédia sanitária do início da década.
Último disco registrado no hoje defunto estúdio da Red Bull em São Paulo, o disco foi finalizado em fevereiro de 2020, logo após Catatau ter acertado sua volta para a cidade. No mês seguinte a epidemia de covid-19 subiu de nível e tornou-se global, obrigando todos a uma quarentena sem previsão de retorno.
Como todos na música, Fernando viu-se subitamente sem poder fazer shows ao mesmo tempo que não tinha previsão para lançar seu novo disco, que seria lançado só em 2022. Enclausurado artística e comercialmente, encontrou na música uma válvula de escape para aquele momento, quando começou a aprender como funcionava um modelo de sampler e usá-lo para fazer música, sem saber o que iria fazer com aquelas primeiras canções.
O novo disco, 11 anos depois
O gatilho inicial aconteceu quando a cantora Juçara Marçal o convidou para fazer uma letra para uma música para seu segundo disco solo, “Delta Estácio Blues”, que ela preparava com Kiko Dinucci durante o período pandêmico. Entre idas e vindas da canção, Fernando mexeu na música usando seu novo brinquedo eletrônico e compôs a bela “Lembranças Que Guardei”, única parceria do disco que Juçara lançou em 2021 em que o compositor participa da canção.
A parceria o fez querer exercitar outras quando assumiu a temporada de segundas-feiras no teatro Centro da Terra, em São Paulo. Batizou-a de “Frita” e, em outubro de 2022, realizou uma série de encontros com artistas que viu surgindo no tempo em que consolidou sua banda original. Além de Kiko Dinucci e Juçara Marçal, também passaram pelo palco da temporada outros nomes como Jadsa, Yma, Mateus Fazeno Rock, Anna Vis e Edson Van Gogh, que o ajudaram a transformar aqueles rascunhos em novas canções.
À medida em que pensava no que fazer com aquele novo repertório, foi mostrando para outros amigos, inclusive os integrantes do velho Cidadão, quando um deles, Dustan Gallas, o convenceu a lançá-lo com o nome de seu grupo original, não como um disco solo. Essa sacada fez sentido para Fernando, que inclusive convidou os integrantes da banda original para gravar uma das faixas do novo disco, a ótima “Tudo Vai Ser Diferente”.
E ao batizar o disco com o nome da banda, Fernando reforça a ideia que tinha originalmente que Cidadão Instigado era com quem ele pudesse fazer música junto, não apenas determinadas pessoas. Assim ele comemora os 30 anos do Cidadão ao mesmo tempo em que o reinventa, convidando artistas que o inspiram para colaborar e fazer parte.
Além de todos da temporada e dos integrantes do Cidadão original, o disco ainda conta com parceria com Ava Rocha e está sendo lançado por dois selos simultaneamente, o paulistano Risco (que revelou O Terno e Tim Bernardes e conta com Luiza Lian, Maria Beraldo, Sophia Chablau e Ana Frango Elétrico no elenco) e o nova-iorquino Nublu, do turco-sueco Ilhan Ersahin, que também já lançou discos de outros artistas brasileiros como Otto, 3 na Massa, Cometa e Praia Futuro.
E mais do que buscar novas paranoias para instigar-se (algo fácil em 2026, convenhamos) ou experimentar parcerias e novas linguagens, o novo disco de Fernando Catatau busca, sem perceber, reestruturar parte da cena independente brasileira, que quase foi fatalmente atingida pela pandemia, e que, só agora, começa a se reerguer sem precisar fazer concessões a marcas, festivais novatos, plataformas de streaming ou redes sociais.
Ao reunir diferentes nomes desta cena no mesmo disco, Catatau ajuda seus antigos ouvintes a entender que o rock é só uma das formas de se expressar musicalmente e que a cena atual é muito mais plural e diversa do que quando o grupo surgiu, há trinta anos. Mais que apenas uma evolução, o novo momento do Cidadão pode ser resumido no título de uma das músicas do recém-lançado álbum: consciência. O show de lançamento do disco deve acontecer em Fortaleza, no mês de abril, quando a capital cearense completa 300 anos.
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