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Loki

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Base eletro-teutônica sob vocais indie com tempero oriental – descrita, “Genesis” lembra muito “Oblivion“, a outra grande faixa de Grimes em 2012. Mas a placidez dos teclados se sobrepõe aos beats quebrados a colocam num ponto equidistante entre a eletrônica mais tímida e o indie dance, a arte conceitual e o synthpop. Uma das melhores surpresas do ano, em “Genesis” Grimes se firma como a mais forte candidata ao posto de herdeira da Björk – trono que andava vago desde que a islandesa abriu mão do pop para ficar só com a arte, no início do século.

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A grande música do Tame Impala em 2012 talvez seja a que menos caiba no rótulo “psicodélico”, que sempre é atrelado à banda australiana. “Feels Like We Only Go Backwards” é uma canção de reencontro e reaproximação, tanto numa relação quanto individualmente, guiada pelo doce vocal de Kevin Parker (até o nome desse rapaz é clássico), que paira sobre uma estranha combinação de teclados etéreos e bateria rock’n’roll. Um primor.

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Que música é essa? Como assim, que espécie de dance music estamos ouvindo? Afrika Bambaataa ergueu a primeira ponte entre a música eletrônica quando sampleou o Kraftwerk em “Planet Rock”, mas essa conexão seguiu firme e forte e desde o início do século ganhou bases sólidas e amplo financiamento da indústrias – o casamento do Daft Punk com Kanye West ou as inúmeras participações especiais nos hits de David Guetta mostram o vulto que esta conexão atingiu nos últimos anos. Aí vem Nicki Minaj, sobrevoa esta ponte sobre uma espaçonave (“mais chapada que uma feladaputa”), abduz todos os formatos que podem ser utilizados nesta conexão – eurodance, trance, hip hop, italo house, electropop – e os empilha numa canção caricata e exagerada, que canta sobre como se acabar numa pista de dança. Se fosse necessário inventar um gênero para “Starships” poderia ser algo próximo a WTF music (isso sem precisar ver o clipe, que é ainda mais retardado). Feizmente não é preciso, resta apenas deixar o cérebro derreter sobre os quadris.

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Peça central no disco Pacific Standard Time, a versão que a dupla californiana fez para o clássico de Neil Young transfere a oração de amor dos campos do meio dos EUA para uma praia ensolarada no verão – e mesmo que a lua da colheita pareça sumir no céu azul, ela segue mandando suas vibrações suavemente, ainda que com um beat.

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Principais protagonistas na conexão África-São Paulo que vem se concretizando nos últimos anos (da Bahia Fantástica de Rodrigo Campos ao Bixiga 70, sem esquecer o disco do Criolo), o trio Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França começou como uma espécie de projeto paralelo mas aos poucos ganhou força e voz própria, a ponto de pegar a todos de surpresa com um segundo álbum. E Metal Metal, o novo disco do Metá Metá, tornou-se público a partir da força de “Oya”, que começa quieta e sorrateira e aos poucos vai esquentando, esquentando, esquentando até entrar em ponto de ebulição e derreter tudo ao redor com um amálgama de ritmo e harmonia que não parece vir nem da África nem de São Paulo, mas do fundo da Terra. Sísmica, arrebatadora e implacável ela ultrapassa a estratosfera e segue em direção ao espaço de Sun Ra, em seus últimos minutos. É outro nível de discussão.

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Hip hop progressivo, épico R&B, soul de fases: “Pyramids” foi o cartão de apresentação do irrepreensível Channel Orange, o grande disco de 2012, e quando ela apareceu por inteiro – groove sintetizado pesado num começo ancestral, cantando o Egito antigo sobre timbres dos anos 70, mudando para uma R&B lento e digital que se passa nas pirâmides de Las Vegas; duas canções superpostas em dez minutos de lascívia em duas demãos, sob a vigília da Árvore da Vida e um longo e contemplativo solo de guitarra (tocado por John Mayer!) – o ano já não era o mesmo. E pertencia a Frank Ocean.

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E logo no início de seu grandioso O Deus Que Devasta Mas Também Cura, Lucas Santtana deixou uma armadilha em forma de canção, pois ao ser ouvida na ordem do disco – é a terceira faixa -, “Jogos Madrugais” parece pedestre e mundana. Mas quando na medida em que entramos no loop de consciência por ela proposto – uma ode à perdição noturna, onde enfiar o pé na jaca é apenas o início da jornada -, percebemos todas as sutilezas e a ambição completa do disco inteiro, que casa os experimentos eletrônicos e dançantes dos dois primeiros discos de Lucas com a exploração das texturas e instrumentos dos dois discos posteriores. E sublinha que Lucas, finalmente, atingiu o equilíbrio entre pop e erudito, intelectual e rasteiro, épico e íntimo que tanto buscava.

Kendrick Lamar

Enquanto Frank Ocean ganhou 2012 por expandir seu universo sonoro para além do hip hop, abraçando diferentes camadas da black music num disco ao mesmo tempo sensível e maduro, Kendrick Lamar aproveitou sua primeira incursão na primeira divisão da indústria fonográfica para transformar seu Good Kid, m.A.A.d. City no grande disco de rap do ano. Ao mesmo tempo em que resolve contar seus dramas da juventude (o título do álbum se refere à sua chegada em Compton, berço do gangsta rap no sul de Los Angeles, além de conter uma sigla para “my angry adolescence divided”), resolve assumir sua maturidade, tanto nos beats mais sossegados quanto no flow manhoso, quase falado. E o grande momento do disco é sem dúvida a irresistível “Bitch Don’t Kill My Vibe”, tão californiana quanto Dr. Dre e 2Pac Shakur, mas transformando a arrogância em desprezo, atitude resumida numa frase inusitada em uma música de hip hop: “Às vezes preciso ficar só”.

2012-75-poolside

O verão do século 20 era festeiro e libertador, já o do século 21 está mais para um alívio, um longo fim de semana em que a única coisa que importa é deitar-se ao sol – e, eventualmente, apaixonar-se. Sem festas, sem agito, sem pressa – deite-se e mova-se na velocidade do calor, a câmera lenta. Eis o paraíso ao ar livre proposto pela dupla de Los Angeles Poolside, uma das melhores surpresas de 2012, e seu conceito de disco music diurna está concentrado principalmente na preguiçosa “Just Fall in Love”, que cogita a paixão de verão como se pede um drink ou para que se passe o protetor solar… Relax…

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“Todo mundo tem um segredo” – e o de 2012 foi a ascensão dos Chromatics e da obra de Johnny Jewel, que ganhou proeminência à medida em que o ano foi passando. Primeiro veio a trilha sonora do filme Drive, seguida de perto por um misterioso segundo disco da banda, uma série de mixtapes, remixes e versões, a trilha do desfile da Chanel e o anúncio do volume 2 da coletânea que deu origem à cena, After Dark. Inevitavelmente, a obra central deste movimento é o álbum Kill for Love, que, apesar do tom soturno que apresenta logo de cara (uma versão shoegaze para “Into the Black”, de Neil Young), mostra suas garras na faixa-título: hipnótica, etérea, barulhenta, doce – um encontro às cegas entre o Cocteau Twins e o Jesus & Mary Chain dando estranhamente certo.